Indígena Anacé é morto após ser agredido por agentes da Guarda Municipal em hospital de Caucaia, no Ceará

Lideranças afirmam que jovem sofreu golpes na cabeça, teve morte cerebral e foi a óbito na tarde desta terça (22). Povo Anacé pede que Funai, Sesai e MPF para tomem providências

Cimi Regional Nordeste

Um jovem indígena do povo Anacé morreu na tarde desta terça-feira (22) após ter sofrido agressões de agentes da Guarda Municipal no Hospital Municipal Abelardo Gadelha, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (CE). Conforme lideranças Anacé ouvidas pela reportagem, exames apontaram diversas lesões na cabeça e no cérebro indicando que o jovem teria sido duramente agredido durante a ocorrência – veículos de imprensa locais afirmam ainda a utilização de armas de choque.

O episódio aconteceu na madrugada de segunda-feira (21), quando Antônio Wanderson Vieira Ferreira, conhecido na Aldeia do Cipó como Dam, se dirigiu ao hospital passando por uma crise de saúde mental. Conforme três indígenas ouvidos, Dam Anacé vivenciava um histórico depressivo e outros sofrimentos psíquicos. Quando se via em situações extremas, sobretudo quando não conseguia comprar os remédios, tinha por hábito se dirigir ao hospital. Neste contexto, ele buscou ajuda médica durante a madrugada de segunda.

“Ele fazia uso de medicamento. Quando não conseguia obtê-lo, principalmente por causa do custo, poderia apresentar episódios dessa natureza”, conta uma indígena Anacé que não identificamos por motivos de segurança. “Ele estava buscando ajuda, estava em surto, sofre com isso e há alguns dias ele vinha dizendo que não estava bem. Quando ele se sentia assim, ia pra unidade receber atendimento. Acontece que o hospital que ele buscou ajuda não conseguiu perceber que estava em surto”, explica.

“Ele foi violentado, agredido, até chegar nesse estágio de morte. Estamos muito tristes com tudo isso que está acontecendo. Um indígena procurou ajuda e o que ele conseguiu foi uma morte violenta”, diz liderança Anacé

Segundo o relato, o jovem teria inicialmente melhorado e decidido procurar o hospital por conta própria. Já na unidade, porém, voltou a manifestar o episódio anterior de descontrole. Foi nesse momento, conforme a indígena, que ele acabou submetido a uma contenção violenta. De acordo com relatos, o jovem foi espancado, recebeu choques na região da cabeça, imobilizado e perdeu a consciência.

Desacordado, a equipe médica do hospital constatou a gravidade dos ferimentos em Dam gerados pela contenção violenta. Como seria necessário realizar um exame, que não estava disponível em Caucaia, ele chegou a ser transferido de ambulância para Fortaleza.

No Hospital Geral de Fortaleza (HGF), exames identificaram múltiplas lesões na cabeça e no cérebro. “Tudo indica que ele foi muito espancado”, relata a indígena. Após o atendimento na capital, o jovem foi encaminhado novamente para Caucaia, onde permaneceu internado com morte encefálica constatada e indo a óbito por volta das 16 horas desta terça (22).

“Ele foi violentado, agredido, até chegar nesse estágio de morte. Estamos muito tristes com tudo isso que está acontecendo. Um indígena procurou ajuda e o que ele conseguiu foi uma morte violenta, ao invés de acolhimento, ser recuperado, ser estabilizado. Foi agredido até a morte”, lamenta a indígena.

Família busca apoio jurídico

Diante da gravidade da situação, familiares e pessoas que acompanham o caso passaram a buscar apoio jurídico e institucional. Conforme o escritório local do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os Anacé procuraram a Funai. Também foram estabelecidos contatos com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

O caso foi levado ao Ministério Público Federal (MPF). Conforme o Cimi, um advogado de um escritório de Fortaleza passou a acompanhar a família. Segundo ela, estava prevista uma conversa por videochamada para reunir informações e avaliar as medidas jurídicas que poderiam ser adotadas.

Conforme lideranças Anacé ouvidas, o episódio ocorrido dentro do hospital não pode ser analisado isoladamente. Os indígenas relatam que este seria o segundo caso de violência policial contra indígenas ocorrido neste ano. As fontes citam como primeiro episódio a retomada do Bambuzal, onde indígenas teriam sido submetidos a agressões. O segundo seria o caso do jovem atualmente internado em Caucaia. “Às vezes a gente fica até sem saber o que faz”, afirma Anacé ouvido.

O que diz a Prefeitura de Caucaia

Segundo comunicado da Prefeitura de Caucaia à imprensa local, o jovem apresentou comportamento agressivo contra pacientes, acompanhantes e funcionários. A Secretaria Municipal da Saúde informou que ele entrou pela ala infantil, por volta das 5h30, tentou retirar uma criança dos braços da mãe e puxou a mulher pelos cabelos. Uma auxiliar de serviços gerais também teria sido agredida ao tentar intervir.

Ainda segundo a versão divulgada pela Prefeitura, o homem entrou posteriormente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e tentou retirar um paciente do leito, puxando-o pelas pernas. A Guarda Municipal foi acionada para contê-lo. Após a imobilização, ele teria ficado desacordado e foi levado para a emergência, onde sofreu uma parada cardiorrespiratória. A Prefeitura informou que o caso estava sendo apurado e que os profissionais envolvidos seriam ouvidos.

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