As planilhas funcionam, mas os votos não vêm

Em contrapeso à melhora nos indicadores econômicos, precarização da vida cotidiana, exaustão nos deslocamentos urbanos e comida cara permanecem latentes. Batalha moral nos noticiários distrai a esquerda. Combustível eleitoral requer responder ao sofrimento diário

Por Marcelo Phintener, em Outras Palavras

O cenário político recente no Brasil expõe um paradoxo que desafia a lógica tradicional da ciência política: indicadores macroeconômicos em recuperação, taxa de desemprego em patamares próximos ao pleno emprego e a recomposição de programas sociais de transferência de renda não têm se traduzido automaticamente em conversão de votos para a reeleição do governo. A extrema-direita, ancorada na força do bolsonarismo, mantém-se altamente competitiva na disputa pela Presidência em 2026. Para compreender por que a sensação de avanço econômico não se converte em dividendo eleitoral, é preciso olhar para a brecha entre as estatísticas oficiais e a experiência concreta da classe trabalhadora.

Os números que deveriam garantir a reeleição

Os dados do IBGE são inequívocos. A taxa de desemprego no Brasil encerrou o trimestre de outubro a dezembro de 2025 em 5,1% — o menor nível de toda a série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012. A taxa média anual de desocupação passou de 6,6% em 2024 para 5,6% em 2025, com o país atingindo o recorde de 103 milhões de pessoas ocupadas. O número de empregados com carteira assinada no setor privado chegou a 38,9 milhões, com crescimento de 2,8% em relação a 2024, o que equivale a cerca de 1 milhão de novos postos formais. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desocupação para o período foi de 6,1%, a menor já registrada para essa faixa do ano, com mais de 1 milhão de pessoas a menos na fila do desemprego na comparação com o mesmo trimestre de 2025.

O rendimento médio mensal do trabalhador brasileiro alcançou R$ 3.722 no primeiro trimestre de 2026 — recorde da série histórica — com crescimento real de 5,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O rendimento médio de todas as fontes da população residente atingiu R$ 3.367 em 2025, consolidando o quarto ano consecutivo de expansão, com avanço de 5,4% sobre 2024 e 8,6% acima do patamar pré-pandemia de 2019. A massa de rendimento real dos trabalhadores somou R$ 374,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026.

No campo da assistência social, o Bolsa Família atende cerca de 18,9 milhões de famílias em 2026, com valor base de R$ 600 e benefício médio na faixa de R$ 678 a R$ 697, a depender do mês. O Orçamento da União destinou R$ 159,5 bilhões ao programa. O salário mínimo foi reajustado para R$ 1.621 em janeiro de 2026.

A persistência do arrocho e a erosão da percepção

Contudo, o peso do custo de vida atua como um contrapeso constante a esses dados. A inflação oficial (IPCA) fechou 2025 em 4,26%, dentro da meta, mas a inflação de alimentos e bebidas voltou a acelerar em 2026: nos primeiros cinco meses do ano, o grupo acumulou alta de 4,81%, com os três últimos meses revelando variação mensal acima de 1,3%, sinalizando uma pressão persistente. A alimentação no domicílio acumulou 5,67% no mesmo período. Considerando que o grupo Alimentação e Bebidas responde por cerca de 21,5% do peso total do IPCA, a corrosão do rendimento real no orçamento doméstico é sentida de forma desproporcional pelas famílias de menor renda — justamente aquelas que os programas sociais pretendem proteger. A garantia de um posto de trabalho formal não assegura, por si só, um salto na qualidade de vida quando o carrinho do supermercado segue mais caro.

Somada a essa realidade, há a dimensão da “expropriação do tempo”: o cotidiano da classe trabalhadora nas grandes metrópoles é marcado por jornadas extensas somadas a horas perdidas em deslocamentos precários no transporte público. Desde a Reforma Trabalhista de 2017, o tempo de deslocamento casa-trabalho-casa sequer é contabilizado na jornada de trabalho, conforme a nova redação do artigo 58 da CLT. O trabalhador retido na infraestrutura urbana deficitária não percebe a narrativa de prosperidade oficial; percebe exaustão. O PL 236/2025, que propõe reincluir parte do tempo de deslocamento na jornada, tramita na Câmara, mas sem aprovação à vista.

A nova subjetividade do trabalho precarizado

As transformações no mundo do trabalho alteraram a própria identidade da classe trabalhadora. Segundo dados do IBGE, cerca de 1,96 milhão de pessoas trabalharam por meio de aplicativos em 2025, representando 1,9% dos ocupados no país. Um estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) indicou que, até 2024, o total de trabalhadores de plataformas chegou a 2,2 milhões, com 1,72 milhão de motoristas (alta de 35% desde 2022) e 455 mil entregadores (aumento de 18%). As jornadas médias dos motoristas e entregadores de aplicativo — 47,9 e 47,6 horas semanais, respectivamente — excedem a média nacional de 40,9 horas. Desse contingente, 70,1% estão na informalidade, sem direitos trabalhistas garantidos.

Em termos mais amplos, 37,5% da população ocupada trabalhava no setor informal no trimestre encerrado em janeiro de 2026, segundo a PNAD Contínua — o menor patamar desde julho de 2020. O percentual caiu em relação ao mesmo trimestre de 2024 (38,4%), mas permanece elevado e equivale a cerca de 38,5 milhões de trabalhadores sem carteira ou proteção social plena. Para esse contingente, o discurso da “recuperação do emprego formal” soa distante. O apelo ideológico da extrema-direita em torno do empreendedorismo individual, do mérito pessoal e da aversão ao Estado regulador encontra terreno fértil nessa nova conformação do proletariado precarizado. O trabalhador por conta própria — categoria que cresceu 9,1% em 2025 — tende a se identificar menos com a promessa de proteção trabalhista e mais com a retórica da liberdade econômica.

A assimetria da corrupção e a disputa moral

Outro vetor decisivo é a assimetria na pauta da corrupção. Historicamente, os escândalos de integridade pública geram desgaste desproporcionalmente maior sobre a esquerda governista do que sobre a extrema-direita. Isso ocorre porque a esquerda construiu sua identidade sobre a premissa da justiça social e da superioridade ética; quando atingida por denúncias, a reação do eleitorado é amplificada pela sensação de traição ideológica. A memória coletiva da Lava Jato permanece como um reservatório de ancoragem: qualquer nova denúncia envolvendo o PT aciona automaticamente esse repertório simbólico.

Essa ancoragem, contudo, foi ela própria construída sobre bases juridicamente ilegítimas — o que não diminui seu poder político, mas agrava a assimetria. A Vaza Jato (Intercept Brasil, junho de 2019) revelou a coordenação sistemática e clandestina entre o então juiz Sergio Moro e a força-tarefa de Curitiba, em violação frontal ao princípio constitucional da imparcialidade do juiz [1]. O STF reconheceu formalmente essa parcialidade e anulou todas as condenações de Lula [2]. Mas o dano político já havia sido consumado: na madrugada de 5 de abril de 2018, a ministra Cármen Lúcia — então presidente do STF e indicada ao tribunal pelo próprio Lula em 2006 — deu o voto de minerva que rejeitou o habeas corpus do ex-presidente por 6 a 5, abrindo caminho para uma prisão que durou 580 dias e o impediu de disputar a eleição que liderava em todas as pesquisas [3].

A trajetória subsequente de Moro — que deixou a magistratura para o Ministério da Justiça de Bolsonaro em 2019 e hoje ocupa uma cadeira no Senado pelo PL — cristalizou no imaginário público a fusão entre o combate seletivo à corrupção e o projeto político da direita. Para o eleitorado antipetista, a Lava Jato permanece como símbolo de moralidade, independentemente das irregularidades reconhecidas pelo próprio STF. Para a esquerda e para o eleitorado moderado, a operação se tornou sinônimo de lawfare. O resultado é que o tema da corrupção, no Brasil de 2026, não opera como debate público racional sobre integridade institucional: opera como arma de guerra simbólica cujos efeitos são estruturalmente desiguais.

Em contrapartida, a extrema-direita desloca o debate da moralidade financeira para a moral de costumes — a defesa da família tradicional, a religiosidade e o combate ao “inimigo comum”. Desvios financeiros de lideranças conservadoras são amortecidos pela base como males menores diante da “guerra cultural”.

O escândalo do Banco Master, que eclodiu com a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro em novembro de 2025 e se desdobra ao longo de todo o ano eleitoral de 2026, é a ilustração mais acabada dessa assimetria. O caso, investigado pela Operação Compliance Zero da Polícia Federal, envolve suspeitas de fraudes da ordem de R$ 12 bilhões e atingiu simultaneamente o Judiciário, o Executivo e o Legislativo, sem distinção de campo ideológico — configurando o que o jurista José Eduardo Faria, em artigo no JOTA, chamou de “coronelismo revivido no século 21” (JOTA, 13/jan/2026).

Relatórios da PF apontam que o ministro Dias Toffoli é possível beneficiário final de um fundo que teria recebido ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro, com 167 ligações telefônicas e 12 encontros presenciais registrados entre os dois entre 2023 e 2025 (Folha de S.Paulo, jan/2026; PF/Operação Compliance Zero). O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou com o Banco Master um contrato de R$ 129 milhões, pago em parcelas de R$ 3,6 milhões por mês, interrompido com a liquidação do banco. A PF identificou que a última versão do contrato fora editada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro, cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça em 1.º de setembro de 2026, revelaram 52 mensagens e ao menos seis encontros com Moraes em 2024 e 2025 (Metrópoles; Agência Pública, jan/2026). Parte dessas informações sigilosas, contudo, já havia chegado à imprensa por uma via que replica com precisão o modus operandi dos vazamentos seletivos da Lava Jato. Segundo depoimento da delegada Janaina Palazzo, responsável pela Operação Compliance Zero, o perito criminal federal João Cláudio Nabas compilou dados sigilosos das investigações em “arquivos apócrifos” e os vazou à jornalista Malu Gaspar, colunista d’O Globo. Em 9 de dezembro de 2025, Palazzo identificou que uma reportagem de Gaspar reproduzia exatamente os dados compilados por Nabas e comunicou o fato à chefia da Superintendência da PF no Distrito Federal; o perito foi afastado das investigações (Diário do Centro do Mundo, set/2026; Jornal GGN, jul/2026). O episódio não anula o conteúdo jornalístico — o sigilo da fonte é um direito constitucional do jornalista, e as informações reveladas são de interesse público — mas expõe um padrão recorrente: assim como na Lava Jato, quando procuradores e o juiz Moro alimentavam seletivamente veículos de imprensa alinhados à narrativa de combate ao PT, o vazamento direcionado no caso Master concentrou a exposição inicial nos ministros do STF indicados por governos petistas, enquanto os elos do escândalo com a extrema-direita — o filme Dark Horse, a “Emenda Master”, os vínculos familiares de Fux e Nunes Marques — só ganharam centralidade semanas depois, por iniciativa de veículos independentes como o Intercept Brasil e a Agência Pública. O resultado prático é que, no ciclo informativo que molda a percepção pública, o enquadramento inicial — “escândalo do STF e do governo” — já havia se cristalizado antes que a dimensão transversal do caso viesse à tona.

A contaminação do STF não se limita aos ministros diretamente investigados. Reportagens da Folha de S.Paulo e do Metrópoles revelaram que Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária, empresa que, no mesmo período, recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master, segundo dados do Coaf. A Consult e o instituto de Kevin chegaram a compartilhar o mesmo endereço fiscal em Alphaville (piauí; BPMoney, set/2026). Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, esteve em ao menos dois eventos organizados por Vorcaro, incluindo um convite para camarote na Marquês de Sapucaí em 2025 (Folha de S.Paulo; Metrópoles, set/2026). Os dois ministros — Fux e Nunes Marques — foram justamente dois dos três que votaram, em setembro de 2026, pelo afastamento do diretor-geral da PF Andrei Rodrigues, delegado responsável pelas investigações do caso Master. A confluência entre relações familiares com o entorno do banco e o voto pela remoção do investigador-chefe é, no mínimo, uma coincidência que reforça a percepção pública de captura institucional sistêmica entre o Judiciário e os interesses investigados.

Do lado da esquerda governista, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi contratado como consultor do banco por indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, com remuneração de R$ 1 milhão por mês; os pagamentos podem ter somado ao menos R$ 14 milhões através da empresa Pollaris, sediada em Barueri (Metrópoles, coluna Andreza Matais, 24/jan/2026; Folha de S.Paulo, ago/2026). O ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski teria recebido R$ 6 milhões ao escritório de sua família (Metrópoles, jan/2026; CPI do Crime Organizado). A CPI confirmou pagamentos a políticos de diversos partidos, incluindo Michel Temer e ACM Neto.

Mas a faceta mais reveladora da assimetria é o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, com recursos originados no esquema. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, negociou diretamente com Vorcaro o valor total de R$ 134 milhões para a produção, dos quais ao menos R$ 63,7 milhões já haviam sido pagos (Intercept Brasil, 13/mai/2026; Fundação Perseu Abramo, mai/2026). Áudios divulgados pelo Intercept mostram o senador cobrando pessoalmente o banqueiro pela conclusão dos repasses. A investigação também revelou que uma emenda à PEC da autonomia do Banco Central — conhecida como “Emenda Master” — teria sido redigida por assessores do próprio banco e apresentada pelo senador Ciro Nogueira como se fosse de sua autoria (Gazeta do Povo, jun/2026).

O caso é, portanto, transversal: atinge igualmente ministros do STF indicados por governos petistas, políticos do centrão e lideranças da extrema-direita. No entanto, a lógica da assimetria opera em tempo real. Para o eleitorado governista e para o eleitor moderado, as revelações envolvendo ministros do Supremo e ex-ministros de Lula reforçam a narrativa de captura institucional entre poder e dinheiro que já estava ancorada na memória da Lava Jato. Para a base bolsonarista, o financiamento do filme Dark Horse é enquadrado como “perseguição do sistema” contra o candidato de direita — e o fato de que o próprio Judiciário está implicado no mesmo escândalo serve paradoxalmente para alimentar o discurso antiinstitucional que é a marca registrada do bolsonarismo. O escândalo que deveria ser bipartidário no desgaste acaba sendo unilateral no dano eleitoral: corrói a legitimidade do governo e das instituições que o sustentam, enquanto a extrema-direita converte a crise em combustível para sua narrativa de “limpeza do sistema”.

Para o eleitor moderado sem alinhamento ideológico estrito, a pauta da corrupção opera como um filtro moral que neutraliza as entregas econômicas do governo. Quando a suspeição sobre a integridade do governo se consolida — e o caso Master a consolidou com uma intensidade inédita desde a Lava Jato — esse eleitor tende a migrar para a abstenção, o voto nulo ou o apoio a candidaturas de contestação sistêmica, e não necessariamente para o campo governista, mesmo reconhecendo avanços materiais.

O folheto que não fala com quem precisa ouvir

Um caso concreto ilustra a dimensão comunicacional do problema. Material de campanha da coligação governista distribuído nas ruas de São Paulo em setembro de 2026 condensa, em uma única folha A4, a totalidade do programa: realizações do governo (Bolsa Família, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, zeragem do imposto de renda até R$ 5 mil), promessas legislativas (fim da escala 6×1, reforma tributária, renda básica universal), pautas identitárias (enfrentamento ao bolsonarismo, luta contra privatizações, mulheres contra a violência, orçamento participativo) e candidatos locais vinculados ao presidente e ao governador. O material é bem-intencionado e programaticamente coerente. O problema é que ele não fala com quem precisa ser convencido.

A densidade textual do folheto — múltiplos blocos de informação em corpo pequeno, competindo pela atenção em uma superfície limitada — pressupõe um leitor disposto a parar, ler e processar. Esse leitor é o militante que já está convencido, não o trabalhador precarizado que pega o papel na saída do ônibus lotado depois de uma hora e meia de deslocamento, com o celular na mão e o feed de vídeos curtos aberto. A comunicação fala para dentro, não para fora.

A linguagem reforça o descompasso. Termos como “soberania”, “reforma tributária”, “patrimônio público”, “orçamento participativo” e “renda básica universal” são abstrações programáticas que funcionam em assembleias e plenárias partidárias, mas não traduzem a dor concreta do cotidiano. O motorista de aplicativo que trabalha 48 horas semanais sem férias, FGTS ou décimo terceiro quer saber uma coisa objetiva: o que muda na minha vida amanhã? O folheto não responde essa pergunta em nenhum momento com uma frase direta e tangível. Nenhuma linha menciona o preço da comida — justamente o item que mais corrói a renda real da base, como mostram os 5,67% de alta da alimentação no domicílio nos primeiros cinco meses de 2026.

A lógica comunicacional dominante é a de prestação de contas institucional — “Lula fez”, seguido de uma lista de entregas — quando o que mobiliza o voto na base não é a gratidão pelo que foi feito, mas a expectativa pelo que falta e a indignação pelo que dói. A pauta do “enfrentamento ao bolsonarismo”, que ocupa espaço central no material, funciona como reafirmação identitária para quem já rejeita a extrema-direita, mas soa como polarização ideológica para o eleitor flutuante — aquele que hoje se encontra entre os 27% que consideram o governo “regular” nas pesquisas.

Enquanto isso, a comunicação bolsonarista opera por mensagens únicas, emocionais e repetidas: “você trabalha e o governo tira o seu dinheiro”, “político é tudo ladrão, menos o nosso”, “a família está sob ataque”. Essas frases cabem em um sticker de WhatsApp. O folheto governista, não. A assimetria comunicacional entre os campos não é acidental: reflete duas concepções distintas do que é persuadir. A esquerda governista informa; a extrema-direita identifica. E na disputa pelo voto da base, quem identifica vence quem informa.

O retrato nas pesquisas: quando o candidato da direita ultrapassa o presidente

Os dados eleitorais de setembro de 2026 traduzem com precisão esse paradoxo. Segundo a pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro (encomendada pela Globo e pelo jornal O Globo, 2.004 entrevistas presenciais entre 10 e 13 de setembro, registro TSE BR-03607/2026), 50% dos eleitores desaprovam a gestão Lula, contra 43% que a aprovam — uma inversão em relação ao início de 2024, quando a aprovação chegou a superar a desaprovação. Na avaliação qualitativa, 38% consideram o governo ruim ou péssimo, contra 32% que o avaliam como bom ou ótimo.

No primeiro turno, a pesquisa Datafolha de 3 de setembro mostrou Lula com 38% e Flávio Bolsonaro (PL) com 32%. No segundo turno simulado, o cenário se estreita: Lula marca 46% contra 44% de Flávio, empate técnico dentro da margem de erro. A pesquisa AtlasIntel de 10 de setembro registrou Flávio com 46,4% contra 46,2% de Lula.

Mas o dado mais significativo é o da Quaest de 14 de setembro: pela primeira vez desde abril, Flávio Bolsonaro ultrapassou numericamente Lula no segundo turno, marcando 42% contra 40% do presidente — empate técnico dentro da margem de dois pontos, mas com o candidato da extrema-direita à frente. A inversão é especialmente expressiva nos recortes regionais e demográficos: no Sudeste, onde se concentra o maior colégio eleitoral do país, Flávio abriu 16 pontos de vantagem (47% a 31%); entre os homens, lidera por 47% a 38%; entre os mais jovens, por 43% a 37%. Lula só mantém dianteira folgada no Nordeste (60% a 28%). Entre as mulheres, onde o presidente historicamente tinha vantagem, o cenário agora é de empate técnico (41% a 38%). Entre os eleitores autodeclarados independentes — segmento decisivo para definir eleições — Flávio marca 36% contra 26% de Lula, com 29% de votos brancos e nulos, sinal de que a rejeição a ambos também é significativa nessa faixa.

Os números revelam que um presidente com a menor taxa de desemprego da série histórica, rendimento real recorde e quase 19 milhões de famílias assistidas pelo Bolsa Família luta pela sobrevivência eleitoral contra um candidato que herda o capital político de um ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe de Estado — e que ele próprio está implicado no financiamento de um filme com dinheiro de um banco liquidado por fraude bilionária.

O clima global: quando a transgressão vira modelo

O fenômeno brasileiro não se explica apenas por variáveis domésticas. A ascensão da extrema-direita no Brasil é a expressão local de uma transformação sistêmica na ordem internacional. Em ensaio publicado na Foreign Policy em setembro de 2026, o cientista político Hal Brands — professor da Johns Hopkins e pesquisador do American Enterprise Institute — argumenta que o mundo está transitando de uma ordem baseada em regras para o que ele chama de “paraíso dos gangsters”: um ambiente em que o poder bruto importa mais do que normas, instituições ou direito internacional. A agressão territorial, a coerção econômica e o desprezo pelas organizações multilaterais tornaram-se práticas correntes entre grandes potências. Os Estados Unidos, sob a presidência de Trump, não apenas deixaram de defender a ordem liberal que ajudaram a construir, como passaram a operar ativamente segundo a lógica da força — declarando que o mundo é governado pelo poder, transformando bens públicos globais em esquemas de extorsão e usando pressão econômica e ameaças militares para extrair concessões de Estados mais fracos.

Esse enquadramento ilumina diretamente a dinâmica eleitoral brasileira por três vias. Em primeiro lugar, a desintegração das normas globais funciona como licença simbólica para a política doméstica de transgressão. Quando o presidente da maior potência do planeta declara que apenas a sua própria moralidade o limita — e não a Constituição ou o direito internacional — o efeito cascata é imediato: líderes autoritários e aspirantes a autoritários em todo o mundo encontram validação para o mesmo discurso. O bolsonarismo se alimenta desse clima civilizacional tanto quanto se alimenta do preço do arroz ou da memória da Lava Jato. A transgressão das regras institucionais deixa de ser defeito e passa a ser apresentada como virtude — como sinal de força e autenticidade política, em oposição à suposta fraqueza dos que defendem procedimentos democráticos.

Em segundo lugar, Brands descreve a emergência de um regime global de “autoajuda” (self-help) no qual os países não podem mais confiar em alianças, instituições ou garantias coletivas. A dissolução das redes de proteção coletiva — tanto entre nações quanto dentro delas — é o substrato material sobre o qual a ideologia da direita radical se enraíza, como veremos adiante no caso brasileiro.

Em terceiro lugar, a assimetria moral que Brands identifica no plano internacional replica com precisão a assimetria que descrevemos no plano eleitoral brasileiro. Trump simultaneamente quebra regras e invoca a moralidade; sua base não o cobra pela integridade financeira, mas pela firmeza na “guerra cultural”. É o mesmo mecanismo pelo qual o eleitorado bolsonarista absorve escândalos de corrupção do próprio campo como males menores diante do “inimigo maior”. A blindagem funciona porque o voto não é transacional — é identitário. E esse padrão não é uma jabuticaba brasileira; é o modo de operação da nova direita global, da Turquia de Erdogan à Índia de Modi, dos Estados Unidos de Trump à Hungria de Orbán.

O Brasil, portanto, não disputa a eleição de 2026 num vácuo. Disputa-a inserido num ciclo global de erosão democrática em que a transgressão virou modelo de liderança, a força bruta virou sinônimo de competência, e a defesa das instituições — que deveria ser o patrimônio natural da esquerda governista — tornou-se um argumento politicamente defensivo.

Essa erosão tem uma base material que vai além da geopolítica. O sociólogo Wolfgang Streeck, em ensaio publicado na New Left Review em setembro de 2026, identifica a raiz comum das crises que atravessam as democracias capitalistas: uma crise fiscal latente do Estado, na qual os custos crescentes de reprodução do capitalismo — infraestrutura, educação, seguridade, habitação — colidem com a incapacidade política de tributar a riqueza privada para financiá-los. A globalização e a financeirização expandiram a capacidade do capital de escapar à tributação, enquanto as demandas sobre o Estado só aumentam. O resultado é o que Streeck chama de “austeridade latente”: os governos adiam o colapso dos serviços públicos por meio do endividamento e da falta de manutenção da infraestrutura, escondendo o custo real do sistema até que a deterioração se torne impossível de ocultar.

O diagnóstico de Streeck ilumina por que indicadores macroeconômicos positivos não se traduzem em legitimidade eleitoral — e não apenas no Brasil. Na Alemanha, na França, no Reino Unido, governos que ostentam dados de emprego e crescimento enfrentam a mesma desconexão com a experiência cotidiana dos cidadãos: trens que não funcionam, moradias que encarecem, escolas que deterioram, municípios endividados. Os partidos do centro tradicional, incapazes de entregar progresso real, formam cartéis políticos e deslocam o debate para o que Streeck denomina “teatro secundário de crise” — a luta retórica contra o “populismo” substitui o enfrentamento das causas materiais do descontentamento. A consequência é previsível: as oposições antissistema crescem justamente porque os problemas reais que alimentam sua ascensão permanecem intocados.

O capitalismo não está desmoronando, mas operando precisamente através da gestão e intensificação de suas pressões internas. A crise fiscal do Estado social e a corrosão dos serviços públicos não são sinais de “falha de sistema”, mas mecanismos de ajuste que empurram o custo da acumulação para o orçamento das famílias e para o tempo de vida do trabalhador. O surgimento do novo proletariado precarizado — uberização, trabalho por conta própria, informalidade — não representa o fim do capitalismo, mas uma de suas formas mais refinadas de extração de mais-valia. A ausência de direitos ou de seguridade não é percebida pelo sistema como um problema a ser resolvido, mas como uma nova fronteira de flexibilização da força de trabalho.

É nessa crise no capitalismo que a extrema-direita opera com eficácia. Em vez de prometer a superação das regras de mercado, o bolsonarismo — à semelhança da AfD alemã ou do Rassemblement National francês — oferece uma racionalização para a sobrevivência dentro dele. Traduz a agressividade da concorrência e a ausência do Estado em ideologia: o trabalhador deixa de demandar mediação institucional e passa a se ver como um “empreendedor de si mesmo”, adotando a lógica da autoajuda diária diante de um ambiente hostil. O voto que se consolida na ponta não resulta de uma avaliação abstrata sobre valores éticos, mas de uma identificação cultural direta e da resposta imediata à dor material do cotidiano.

A esquerda brasileira enfrenta, portanto, não apenas um adversário político interno, mas um zeitgeist internacional que legitima a lógica da transgressão, articulado a uma reconfiguração permanente das dinâmicas de acumulação que intensifica a precarização. Administrar o Estado social democrático dentro dos limites do rigor fiscal e da austeridade cria um descompasso estrutural: a esquerda tenta ofertar estabilidade institucional e consumo continuado, mas esbarra nos limites de um modelo de acumulação que exige constante desregulamentação e precarização. A esquerda governista, porém, nunca esteve empenhada em alterar a estrutura da exploração — opera dentro dos marcos do capitalismo, administra seus efeitos e apresenta indicadores formais como prova de gestão competente. É precisamente esse descompasso entre a gestão macroeconômica e a experiência diária da precarização que a extrema-direita captura e converte em combustível eleitoral.

O voto como juízo simbólico, não como cálculo utilitário

O voto na política contemporânea é fortemente guiado por identificação afetiva, pertencimento cultural e pela experiência concreta do cotidiano, não por um cálculo frio de planilhas macroeconômicas. A guerra cultural e a disputa de narrativas operam na dimensão da identificação religiosa, moral e comunitária — territórios em que a extrema-direita detém vantagem comunicacional e logística. Quando a suspeição sobre a integridade do governo captura a esfera pública, o eleitor do centro e o trabalhador precarizado desqualificam os avanços materiais como meras obrigações ou conveniências eleitorais.

A disputa política de 2026 se trava no campo da propaganda de dados macroeconômicos, enquanto a precarização da vida cotidiana, a experiência concreta da inflação de alimentos, a exaustão dos deslocamentos urbanos e a batalha subjetiva dos valores permanecem sem resposta institucional. Nesse vácuo, a extrema-direita encontra canal aberto para mobilizar o ressentimento e disputar a hegemonia do país. O eleitor que decide a eleição não é um agente racional que processa planilhas: é um sujeito que sofre, que desconfia, que se identifica — e que vota com a sua dor.


Notas

[1] A Vaza Jato revelou que Moro e o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, mantinham comunicação pelo Telegram na qual o juiz sugeria a troca da ordem de fases da operação, cobrava a deflagração de novas etapas, antecipava decisões judiciais e orientava a construção de denúncias. Diálogos entre procuradores mostraram a articulação para impedir a entrevista de Lula antes das eleições de 2018, o uso estratégico de vazamentos seletivos à imprensa e a preocupação explícita com o objetivo de evitar o retorno do PT à Presidência (Intercept Brasil, Vaza Jato, jun/2019).

[2] Em 2021, a Segunda Turma do STF declarou a parcialidade de Moro por 3 votos a 2; o plenário confirmou, por 8 a 3, a incompetência da 13.ª Vara Federal de Curitiba para julgar Lula, anulando todas as condenações. Em outubro de 2024, o ministro Gilmar Mendes elencou sete indícios de parcialidade — entre eles a intervenção de Moro, mesmo em férias e sem jurisdição, para retardar o cumprimento de um alvará de soltura de Lula em julho de 2018 — e estendeu a anulação a processos contra José Dirceu, concluindo que os diálogos revelaram “ação coordenada” entre juiz e força-tarefa que serviu de “ensaio para a denúncia contra o presidente Lula” (STF, PET 12229, out/2024; CartaCapital, out/2024; Conjur).

[3] Cármen Lúcia havia se recusado, semanas antes, a pautar as Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs 43 e 44) que questionavam a execução da pena antes do trânsito em julgado. Quando finalmente julgadas em novembro de 2019, essas ações foram acolhidas pelo plenário por 6 a 5, revertendo a tese que sustentara a prisão de Lula (STF, HC 152.752, abr/2018).

Dados e fontes: IBGE/PNAD Contínua (2025–2026); IPCA/IBGE; Cebrap (2025); MDS/Governo Federal; Datafolha (set/2026); Quaest (set/2026); AtlasIntel (set/2026); Poder360. Escândalo do Banco Master: PF/Operação Compliance Zero; Folha de S.Paulo; Metrópoles (coluna Andreza Matais); Agência Pública; piauí; BPMoney; Intercept Brasil; Gazeta do Povo; JOTA; Diário do Centro do Mundo; Jornal GGN; CPI do Crime Organizado. Lava Jato: STF (PET 12229, out/2024; HC 152.752, abr/2018); CartaCapital; Conjur; Intercept Brasil (Vaza Jato, jun/2019). Enquadramento geopolítico: Hal Brands, “How to Survive in a World Without Rules”, Foreign Policy, 9/set/2026; Wolfgang Streeck, “Quem vai pagar?”, NLR/Sidecar, 12/set/2026.

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