O governador e candidato Roberto Cidade (União Brasil) demorou a tomar providências diante da alta nas queimadas e a estiagem crescente no estado. O decreto que proibiu o uso do fogo só foi assinado em 9 de setembro, quando a qualidade do ar de Manaus já era classificada como péssima. A poluição na capital atingiu o nível pico de 324,1 µg/m³, tornando o ar da capital o pior do mundo devido à fumaça. Diante do agravamento da crise, Cidade pediu ajuda ao governo do presidente Lula para enviar equipes de bombeiros de outros estados. A gestão estadual também não concluiu o Plano de Adaptação às Mudanças Climáticas dentro dos prazos estabelecidos
Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real
Manaus (AM) – As queimadas e os incêndios florestais que atingem municípios amazonenses e os péssimos índices da qualidade do ar em Manaus, provocaram o governador tampão e candidato ao governo do Amazonas nas próximas eleições, Roberto Cidade Filho (União Brasil), a pedir socorro ao governo do presidente Lula. O pedido é para reforçar o combate ao fogo, com envio de equipes de bombeiros de outros estados para os muncípios amazonense que não têm brigadas. Conforme confirmou a Amazônia Real junto ao Ministério do Meio Ambiente, o pedido de Cidade ao governo federal foi enviado na quarta-feira (23) ao Planalto.
“É uma questão de Estado, não é o governador Roberto Cidade ou vice Serafim [Corrêa]. A gente tem que estar fazendo o nosso papel”, declarou nesta quinta-feira (24) o governador ao jornal A Crítica ao ser questionado do pedido de ajuda ao governo federal.
Deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (período de 2019 a 2026), Roberto Cidade Filho assumiu o governo do Amazonas no dia 5 de abril, interinamente, no lugar do bolsonarista Wilson Lima (União), que renunciou para concorrer ao Senado nas eleições de 4 de outubro, junto com o vice-governador Tadeu de Souza. Cidade foi empossado como governador definitivo em 4 de maio, após vencer a eleição indireta realizada pela Assembleia para o mandato-tampão até janeiro de 2027. Em nível nacional, no primeiro turno, o partido União optou pela neutralidade nas eleições presidenciais.
Após acompanhar uma ação de rescaldo do Corpo de Bombeiros as chamas de uma “queimada criminosa” em Iranduba, a 38 quilômetros em linha reta de Manaus, Roberto Cidade disse ao jornal A Crítica que “o Estado precisa de apoio federal tanto para enfrentar os incêndios quanto para lidar com a estiagem que atinge municípios do interior.”
Na entrevista, Cidade afirmou que “o Amazonas já registrou mais de 3 mil focos de incêndio neste ano”. Segundo ele, “o Estado ampliou a estrutura do Corpo de Bombeiros de 11 para 25 bases [em municípios] e conta atualmente com mais de mil homens e mulheres preparados para atuar no combate ao fogo”. O Amazonas tem 62 municípios, contando com a capital, então faltam brigadas em 37.
Os dados dos focos de queimadas e de incêndio no Amazonas informados pelo governador são imprecisos. Como publicou a Amazônia Real, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no acumulado do ano de 2026, o Amazonas soma 5,7 mil focos de queimadas, número 80% superior aos 3.113 registrados durante todo o ano de 2025.
Dados atualizados do INPE apontam que são 3.365 focos de calor no Amazonas entre o dia 1º a 24 de setembro deste ano. Se comparado ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 942 focos, o aumento é de 256,58% – um recorde.
O pedido de Roberto Cidade ao governo Lula acontece após a destinação de recursos do Fundo Amazônia para o fortalecimento das estruturas de combate ao fogo na Amazônia Legal, como equipes de bombeiros, aprovada em 2024. O fundo bilionário é financiado por países doadores, como a Noruega e a Alemanha, e gerenciado pelo BNDES no no Brasil
Em maio, o Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo informou que acompanhava, junto aos estados, a aplicação dos R$ 521 milhões destinados aos corpos de bombeiros militares em toda a região da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal.
Cada um dos nove estados da Amazônia Legal, incluindo o Amazonas, recebeu R$ 45 milhões em recursos não reembolsáveis, voltados ao reaparelhamento e à prevenção e combate às queimadas durante a temporada de 2026.
Em nota enviada à Amazônia Real nesta quinta-feira (24), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) confirmou que o governador Roberto Cidade formalizou na quarta-feira (23) o pedido de apoio federal para reforçar a resposta aos incêndios nos municípios de Novo Aripuanã, Careiro da Várzea, Autazes, Manaquiri, Urucurituba, Apuí, Manicoré, Manacapuru e Caapiranga.
O pedido ao governo Lula foi realizado por meio do Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Segundo o MMA, a demanda do governo do Amazonas foi encaminhada à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que avalia o envio de equipes pelo Projeto Respad. “Seguiu também para o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MIDR), que avalia a disponibilização de aeronaves pelo Projeto Pegasus para áreas de difícil acesso. O Ciman orientou ainda o estado sobre as medidas para o reconhecimento de situação de emergência, que agiliza o acesso aos mecanismos federais de resposta”, diz um trecho da nota.
No Amazonas, a pasta informou que o Ibama atua com 162 brigadistas em Terras Indígenas e Projetos de Assentamento prioritários, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) conta com outros 46 nas Unidades de Conservação federais.
O MMA também confirmou a descentralização de R$ 521 milhões por meio do Fundo Amazônia para o fortalecimento dos Corpos de Bombeiros dos estados da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal, incluindo o Amazonas, que recebeu R$ 45 milhões. “Outros quase R$ 30 milhões foram destinados a municípios da Amazônia e do Pantanal, entre eles Apuí, Manicoré e Lábrea.”
Agindo por decreto
Com a intensificação das queimadas, incêndios florestais e os índices de péssima qualidade nas cidades da região Metropolitana de Manaus, Roberto Cidade assinou um decreto no dia 9 de setembro. Nesta data, a plataforma Selva já tinha registrado índice péssimo na qualidade do ar da capital. A concentração média de partículas finas (MP2,5) alcançou 118 µg/m³; (microgramas por metro cúbico) devido à fumaça das queimadas e incêndios florestais.
O decreto estadual n.º 55.339 proíbe o uso do fogo no Estado do Amazonas e define medidas de controle da qualidade do ar e proteção à saúde pública. O decreto é válido pelo prazo de 120 dias, podendo ser prorrogado ou alterado mediante novo decreto motivado.
As atividades proibidas são: “o uso do fogo para limpeza, renovação e manejo de áreas, eliminação de resíduos vegetais e qualquer finalidade agrossilvipastoril em todo o território estadual”.
A medida suspendeu as autorizações para execução de queimas controladas mesmo que autorizadas anteriormente. “O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) suspenderá a emissão de novas licenças para essa finalidade”.
Sobre a qualidade do ar, o decreto afirma que quando ela atingir o índice “N5 – PÉSSIMA: ou 125 µg/m³; (microgramas por metro cúbico) a “recomendação é a suspensão de atividades físicas ao ar livre para toda a população”.
Manaus atingiu o pico extremo na qualidade de 324,1 µg/m³, segundo o Selva. Esse nível deixou o ar da capital o pior do mundo, ou seja, mais de 20 vezes acima do limite de segurança recomendado pela OMS para 24 horas, que é de 15 µg/m³.
Questionado pela reportagem da Amazônia Real sobre a fiscalização e o cumprimento do decreto, além das sanções previstas em caso de descumprimento, o Governo do Amazonas não informou se o decreto está sendo cumprido nem apresentou dados sobre eventuais autuações ou sanções relacionadas à medida.
Estado sem adaptação
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimou em 95% a probabilidade do El Niño, fenômeno climático severo, atingir intensidade “muito forte” até dezembro de 2026. O fenômeno pode provocar alterações no regime de chuvas e aumentar o risco de estiagem e incêndios em diferentes regiões da Amazônia.
Diante das informações preocupantes da NOAA sobre o impacto do Super El Niño no mundo entre os meses de setembro, outubro e novembro deste ano, o governo Lula lançou, no mês de março, o Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima 2024–2035), principal instrumento para orientar as ações brasileiras voltadas ao enfrentamento da mudança do clima.
O Plano Clima é um dos instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) e estabelece diretrizes para orientar ações de adaptação aos impactos da mudança do clima e de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, em consonância com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. No entanto, o plano não está em prática no Amazonas.
Em agosto, comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, reunidos em Audiência Popular, exigiram ações permanentes das autoridades do Amazonas ações de adaptação climática para enfrentar os evento extremos como as altas temperaturas, as secas dos rios, a falta de água potável e de alimentos, como peixes, além da poluição do ar por causa dos incêndios florestais e queimadas.
O Amazonas não concluiu o Plano de Adaptação às Mudanças Climáticas – uma das metas da COP30. Conforme o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), a previsão era de que o documento fosse entregue neste mês. Uma nova previsão ainda não foi anunciada pelo governo estadual. Mesmo sem uma cartilha a seguir, as populações que vivem nos territórios já apontam o que consideram necessário para atravessar eventos extremos sem depender exclusivamente de respostas emergenciais.
Chuva abaixo da média
De acordo com o INPE, os municípios que registram os maiores índices florestais e queimadas no Amazonas neste período são e Manaus, Iranduba, Careiro da Várzea, Autazes e Manacapuru (região metropolitana da capital), Anori (no oeste), Apuí, Lábrea, Manicoré e Novo Aripuanã – situados no sul amazonense.
Segundo o Ibama, o incêndio florestal é caracterizado pela fogo sem controle que avança sobre qualquer forma de vegetação, podendo ser iniciado pelo homem (intencional ou acidental) ou por fonte natural (raio).
Já a queimada é o uso do fogo, seja para manejo de áreas de agricultura e pecuária ou com objetivos de conservação ambiental, como redução do combustível florestal (prevenção de incêndios), manejo da paisagem e preservação dos ecossistemas dependentes do fogo.
Em nota à reportagem, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que há oito dias não chove em Manaus. A última precipitação foi de 1,2 mm, em 16 de setembro. Entre 1º e 24 de setembro, o acumulado foi de apenas 1,2 mm, enquanto a normal climatológica para o mês é de 79 mm. Isso representa um déficit de 77,8 mm até o momento.
O mês de agosto também terminou com chuva muito abaixo da média. Foram registrados pelo Inmet apenas 2,4 mm de precipitação, diante de uma média climatológica de 56 mm para o mês.
Para os próximos dias, o Inmet prevê pancadas de chuva em áreas isoladas de Manaus nesta quinta-feira (24), sexta-feira (25) e sábado (26).
Segundo o instituto, apesar de setembro ser um dos meses de menor precipitação na região, as chuvas estão abaixo da média no Amazonas por conta do El Niño. A previsão climática indica redução de 50 a 100 mm nas precipitações em parte do estado.
“Em geral, em anos de El Niño, a precipitação na região do Amazonas fica abaixo da média. A previsão mais recente do INMET para o Amazonas indica chuvas abaixo da média em toda a faixa centro-leste do estado, com reduções entre 50 e 100 mm”, disse o Inmet.
A combinação de falta de chuvas, aumento das queimadas e baixa qualidade do ar interfere na saúde da população amazonense. Em entrevista à agência, o pneumologista Mário Sérgio Fonseca, do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), disse que a exposição à fumaça pode intensificar os sintomas de pacientes com asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e levar à necessidade de atendimento de urgência.
“Nessa situação pode ocorrer intensificação dos sintomas e exacerbação, caracterizado por piora da falta de ar, tosse e desconforto respiratório. Se esses sintomas não melhoram com as condutas medicamentosas já habituais dos pacientes, devem procurar o serviço de urgência para avaliação”, explicou
Por conta própria
Na área florestal do bairro indígena Parque das Tribos, na região do Tarumã-Açu, zona oeste da cidade, os moradores tentam controlar o fogo por conta própria. O incêndio florestal começou no sábado (19).
O bairro Parque das Tribos foi fundado em 2014. No local vivem cerca de 5 mil pessoas ou 860 famílias; muitas são crianças e idosos. Os moradores são de diversos povos, entre Apurinã, Baré, Mura, Kokama, Tikuna, Wanano, Witoto, Sateré-Mawé e Tukano.
A agente fiscal e liderança do bairro, Eliza Sateré-Mawé diz que o fogo chegou a ser amenizado na quarta-feira (23) com ajuda de brigadistas, mas “o Corpo de Bombeiros não retornou ao local para conter novos focos”. Segundo ela, animais silvestres morreram durante o fogo, entre eles preguiças, cobras e jacurarus.
Os moradores indígenas reclamaram que não receberam mais o apoio do poder público para combater as chamas. Nas redes sociais, eles organizaram uma vaquinha para arrecadar dinheiro e pagar um caminhão-pipa e usaram camburões e caixas d’água para levar água até os focos, trabalhando em coletivo. Ainda não se sabe quantos hectares foram tomados pelo incêndio.
Eliza disse que, mesmo com a situação controlada em algumas áreas, havia focos de fogo nesta quinta-feira (24). Ela criticou a inércia das autoridades diante da grave situação.
“É revoltante porque a gente liga para os órgãos que deveriam solucionar os problemas, e o que acontece? Eles nos informaram que não tem carro suficiente, que não tem água suficiente, que não tem brigadista, que não tem pessoas preparadas para isso”, disse à Amazônia Real.
Sobre a origem do incêndio florestal no Parque das Tribos, a agente fiscal avalia que há fortes indícios de que tenha sido provocado intencionalmente, o que aumenta a preocupação com uma possível ocupação irregular da área.
“Sou uma pessoa voluntária que fiscaliza e preserva a minha comunidade, mas infelizmente a gente não pode estar lá o tempo todo. E aí aparece esse tipo de pessoa ruim, mal intencionada, que fica tacando fogo propositalmente”, denunciou Eliza Saterê Mawê.
Até o fechamento desta reportagem, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) não respondeu aos questionamentos sobre a atuação no incêndio do Parque das Tribos, incluindo o número de equipes e viaturas enviadas, os equipamentos utilizados no combate e a situação dos focos na bairro indígena.




