A área deve assentar mais de 100 famílias camponesas do estado
Por Everton Antunes, em CPT
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) aprovou, por meio da Portaria Nº 2.205, de 16 de Setembro de 2026 – publicada no Diário Oficial da União, no último dia 25 – a criação do Projeto de Assentamento (P.A.) Recanto do Lontra, situado no município de Araguaína, no estado do Tocantins. O imóvel rural, destinado à comunidade camponesa de mesmo nome, compreende pouco mais de 592 hectares, que devem assentar 126 famílias.
À CPT, o INCRA do Tocantins declarou que “a criação desse Projeto de Assentamento visa resolver um conflito agrário sobre terras públicas federais improdutivas, onde os posseiros sofriam ameaças constantes”. Em julho deste ano, a CPT denunciou a derrubada e queima de moradias camponesas situadas na Gleba Boa Esperança/Itaparica, também no município de Araguaína, mas as ameaças e intimidações à comunidade remontam episódios anteriores a este.
Histórico
Uma camponesa, do agora P.A. Recanto do Lontra e que prefere não se identificar, contou à Pastoral que cerca de 18 famílias foram expulsas desta terra da União há oito anos e que, logo depois, criaram o acampamento João Batista, às margens do asfalto, no município de Araguaína.
Já em fevereiro de 2026, os acampados e acampados decidiram ocupar definitivamente o imovel rural. A partir daí, um indivíduo alegou ser dono da propriedade e passou a adentrar a comunidade com frequência, acompanhado de advogados, patrulhas rurais e, segundo afirma a camponesa, “policiais da reserva”.
“Na manhã do dia 19 de março de 2026, por volta das sete da manhã, chegaram no barraco da Dona Gercina*, acompanhados de 30 homens armados e encapuzados, em cerca de 12 camionetes. Destruíram uma cerca de arame, um galinheiro e mataram 30 galinhas. Também destruíram fios de internet e fiação de energia e os barracos das 18 famílias. Tivemos companheiros que foram ameaçados e agredidos”, relata.
Desse dia em diante, ocorreram, pelo menos, outras três tentativas de expulsão da comunidade, além de tentativas de homicídio, depredação e queima das moradias e a privação do direito de ir e vir das famílias. “Temos informações de que esse grupo de homens já tem costume de invadir terras da União. E que eles têm pistoleiros à disposição deles, na hora que eles precisarem”, acrescenta.
Encaminhamentos
Para a trabalhadora rural do assentamento Recanto do Lontra, essa vitória representa o reconhecimento da comunidade camponesa. Por outro lado, alerta: “mesmo com a criação do P.A., a perseguição continua. Os grileiros cercam toda a área”.
Questionado, o INCRA afirmou que as denúncias foram “encaminhadas à polícia, para investigação” e que, “ao mesmo tempo, há ações administrativas e judiciais em andamento”. O Instituto também afirmou que segue com a criação de mais assentamentos no estado e que busca ampliar políticas públicas como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), o Programa Luz para Todos e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
*A fim de resguardar os trabalhadores e trabalhadoras rurais da comunidade Recanto do Lontra, esta notícia se vale de nomes fictícios e oculta a identidade das fontes.




