Falta de perspectiva em relação ao futuro e divisão ideológica marcam as eleições deste domingo, diz o cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Por: Patricia Fachin, em IHU
O “centro da disputa política” eleitoral deste ano é o Supremo Tribunal Federal (STF), diz Benedito Tadeu César na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por WhatsApp. Segundo ele, a escolha dos próximos quatro ministros da Suprema Corte até 2030 pelo presidente eleito poderá ditar os rumos do país. Outro ponto estratégico deste pleito, menciona, é a eleição dos senadores. “A extrema-direita sabe que precisa conquistar uma maioria no Senado para, no caso de uma eventual vitória ao governo federal, garantir a concessão de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A grande preocupação dessas lideranças, portanto, é conceder anistia a Jair Bolsonaro. Uma eventual decisão desse tipo precisa ser contestada também no STF e, então, é preciso que se tenha também maioria no STF”, explica.
A seguir, o cientista político comenta o cenário eleitoral gaúcho e as perspectivas de futuro num eventual governo Lula 4 ou Flávio Bolsonaro. “Temos uma disputa que está, se quisermos ir a fundo, entre civilização e barbárie”, avalia.
A reeleição do presidente Lula, destaca o entrevistado, “tem mais do mesmo e isso já não está bom. Essa é a análise que muitos fazem e, por isso, a candidatura não deslancha”. Entre os jovens e trabalhadores que recebem de dois a cinco salários mínimos, mas vivem sem perspectiva de futuro, observa, “o governo Lula tem maior dificuldade de aprovação”. Flávio Bolsonaro, por sua vez, representa “uma tradição golpista”. “O pai do candidato está preso porque tentou dar um golpe de Estado. Não podemos esquecer que o outro filho, irmão do atual candidato, dizia que bastava um cabo e um soldado para intervir no STF”, recorda.
Benedito Tadeu César é graduado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Ciências Sociais pela mesma universidade. Lecionou na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), atuou como jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). É professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da Rede Estação Democracia (RED).
Confira a entrevista.
IHU – Como o senhor está lendo o atual momento político e social do país às vésperas das eleições?
Benedito Tadeu César – O quadro é complicado. Estamos num país que está retomando o processo de crescimento, desenvolvimento e inclusão social. Cresceu o emprego e a renda das pessoas e diminuiu a violência. Todos os indicadores caminham nesse sentido, mas o sentimento da população é exatamente o contrário. Isso gera um clima de incerteza muito grande.
Por que tem esse sentimento contrário? Porque tem uma divisão ideológica instalada no país. E mais do que isso: a divisão ideológica faz com que aqueles que são contrários ao atual governo sejam contrários sempre e em qualquer situação. Além dos bolsonaristas raiz, que são 15 a 17%, há um empresariado anti-Lula por uma questão de classe – eles sempre estiveram contra, por mais que tenham sido beneficiados – e chega-se aí a 30% da população, porque também tem uma classe média temerosa.
Como houve uma interrupção no processo de desenvolvimento brasileiro dos primeiros governos Lula no segundo governo Dilma, gerou-se um período de queda constante e uma frustração. Essa situação se aprofundou durante a pandemia no governo Jair Bolsonaro. Mesmo que tenha havido uma retomada mais recentemente, não há uma perspectiva de futuro muito grande. Então, estamos num quadro em que grande parte da população está frustrada e isso é um criadouro de radicalismo – e um radicalismo de direita e de extrema-direita. Estamos numa situação tensa e isso ocorre no mundo inteiro.
IHU – Com que sentimento os brasileiros vão às urnas neste domingo?
Benedito Tadeu César – O sentimento que domina o brasileiro é a frustração. Isso ficou claro já em 2013 nos rolezinhos do pessoal da periferia que ia para o shopping. Naquela época, tinha o funk ostentação e era o auge da ascensão social dos segmentos sociais mais baixos. Esse segmento avançou, mas teve seu processo de ascensão social estancado.
Onde o governo Lula tem maior dificuldade de aprovação e de intenção de voto é entre os jovens e aqueles que recebem de dois a cinco salários mínimos. Ou seja, aqueles que estão além da faixa de pobreza, mas que não veem perspectiva de futuro. Isso é perigoso. Muito perigoso porque abre as portas para aqueles que se colocam como antissistema no sentido de dizer: “vamos quebrar tudo que está aí e fazer outras coisas”. Eles se travestem de antissistema porque vivem do sistema. Não querem fazer tudo diferente; querem se aproveitar do que está aí.
IHU – Como a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), parlamentares e elites econômicas reflete nas eleições deste ano? O resultado é um eleitorado mais desanimado, uma disputa mais polarizada ou os escândalos não influenciam o eleitor?
Benedito Tadeu César – Influenciam, sim. Os escândalos fortalecem a visão de que nada presta, de que todas as instituições estão corrompidas, todas as autoridades são corruptas e a política, em todas as suas dimensões, é uma coisa suja. Isso, somado à frustração, é um criadouro de crise e de fascistas. O que é a política democrática? É a resolução de conflitos numa sociedade plural por meios pacíficos. Quando não se acredita em mais nada, quando não se acredita na política democrática, o que resta? A violência. Aí o fascismo floresce.
IHU – De que forma a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro impacta o cenário eleitoral gaúcho?
Benedito Tadeu César – Criamos, na Rede Estação Democracia (RED), um agregador de pesquisas para tentar retirar os desvios das pesquisas porque temos uma profusão de pesquisas com metodologias diferentes – algumas com metodologias muito duvidosas e institutos com origem duvidosa. Mas o que estamos vendo nas pesquisas é o seguinte: a mesma divisão que está colocada em nível nacional está colocada no Rio Grande do Sul (RS), mas não com uma divisão tão nítida e acirrada.
Uniões e divisões
No RS existe uma força da extrema-direita porque ela está alinhada com uma direita que era mais civilizada. Mas quando a direita se alinha à extrema-direita não dá mais para dizer que ela é civilizada. Nesse contexto, no estado a alternativa de centro não decola. Por que a candidatura do vice-governador [Gabriel Souza] não decola? Porque o MDB está dividido; uma parcela já aderiu à candidatura da extrema-direita. Da mesma forma não decola a candidatura do ex-governador Rigotto para o Senado.
Por outro lado, um bloco de centro-esquerda, pela primeira vez, reúne todos os partidos de centro-esquerda. É um bloco democrático-popular que se torna competitivo e, provavelmente, irá para o segundo turno. Não se pode afirmar isso com certeza porque no cenário eleitoral gaúcho ocorrem viradas na última semana. Não me parece que seja o quadro dessa eleição, mas não podemos descartar essa possibilidade porque pode acontecer de a direita e a extrema-direita se unirem no último momento. Mas parece que essa união já foi feita desde o início, então, na reta final fica pouco para se mover.
O fato de se ter uma frente que não seja de candidaturas petistas ou de esquerda permite um cenário mais amplo e chama alguns eleitores de centro. Então, dificilmente terá uma virada, mas não dá para mergulhar nessa aposta. Provavelmente vai haver um segundo turno entre a candidatura da extrema-direita e a candidatura do centro-esquerda. Para o Senado, o cenário está completamente aberto. Podem ser eleitos dois candidatos de extrema-direita, dois de centro-esquerda ou mesclar.
IHU – Em artigo recente, o senhor destacou o voto estratégico como um dos pontos centrais das eleições deste ano. O que esse tipo de voto sugere sobre a mentalidade política dos gaúchos?
Benedito Tadeu César – Sugere essa divisão histórica entre esquerda e direita no RS. Isso vem desde o fim do Império, com o estabelecimento da República, desde o final do século XIX, com a chamada Guerra da Degola. Havia forças progressistas e reacionárias colocadas naquele momento. Isso atravessa a história do estado.
O pessoal de esquerda e centro-esquerda costuma dizer que o RS tem um eleitorado progressista. Não é bem assim. Temos forças conservadoras e progressistas fortes, de esquerda, de direita e de centro-esquerda. O trabalhismo gaúcho é centro-esquerda e é histórico. Nos últimos momentos da eleição, essas forças, principalmente o centro e a extrema-direita – como o sentimento contrário ao trabalhismo é muito forte –, acabam se juntando na reta final. Nesse ano, diferentemente, eles saíram juntos. Então, não se trata de uma questão de mentalidade individual dos gaúchos, mas de uma característica da política gaúcha e de uma avaliação estratégica das lideranças políticas que acabam direcionando o voto na última semana. Vamos lembrar a eleição de Rigotto contra Tarso Genro, a derrota de Rigotto para Yeda Crusius, a reeleição do atual governador – a centro-esquerda se juntou a ele para evitar a vitória da extrema-direita –, e a derrota do ex-governador Olívio Dutra para o general Mourão na última eleição para o Senado.
IHU – O apoio a candidatos de direita cresceu no Rio Grande do Sul?
Benedito Tadeu César – Não é que ele cresceu. Temos uma direita historicamente organizada no RS. Às vezes, ela está mais desmobilizada e, às vezes, mais mobilizada, como neste momento mundial. O RS não está fora do país e do mundo. Com essa característica histórica da política do RS, a direita está num momento muito forte no estado.
IHU – Qual é o significado da união entre brizolistas e petistas na eleição gaúcha? O ideário brizolista ainda diz algo aos gaúchos do século XXI?
Benedito Tadeu César – Diz, sim. O ideal brizolista tem suas raízes em Júlio de Castilhos. A sequência do castilhismo é que cria o trabalhismo. Getúlio é filho dessa tradição; leva esse ideário para o conjunto do país. No Rio Grande do Sul, Brizola é a expressão máxima disso. Nesse sentido, a união entre brizolistas e petistas é fundamental para se recompor o campo trabalhista amplo. Tenho escrito sobre isso desde 2012 e tenho insistido que, se esse campo quisesse novamente se tornar competitivo eleitoralmente, precisaria se recompor.
Havia ressentimentos muito fortes – e acho que ainda há –, mas houve a sensatez de eles se unirem nessa eleição. Isso tornou a candidatura de Juliana Brizola competitiva. A lembrança do Brizola ainda é forte entre os mais velhos e, talvez, por isso, não se reflete no voto dos jovens. Mas o fato de que haja uma mudança no perfil demográfico da população, um crescimento muito grande dos segmentos mais idosos e uma diminuição dos segmentos menos idosos, pode pesar favoravelmente no resultado das urnas.
IHU – Como esse ideário se renova na candidatura de Juliana Brizola?
Benedito Tadeu César – Renova-se nessa junção de forças. A campanha da Juliana está muito fraquinha e não está explorando muito essa questão, mas recupera a tradição política do RS, que já foi majoritária no país e hoje está tentando se recompor.
No plano nacional, Lula, não por acaso, recuperou o ideário varguista e a importância histórica de Vargas nessa eleição. Lula não tinha essa percepção nos primórdios do PT e isso tinha a ver com uma tradição analítica uspiana. Os teóricos da Sociologia e da Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) refletiram, de certa maneira, um antivarguismo que está muito enraizado em São Paulo. A USP é a expressão do pensamento de uma elite intelectual paulista. Isso influenciou também as análises feitas pela esquerda, que criticavam o populismo varguista como sendo uma coisa que eliminava as diferenças de classe ou enfraquecia as lutas de classe. Isso contaminou a percepção do Lula e dos petistas durante muito tempo.
Essa reunião [entre brizolistas e petistas] no Rio Grande do Sul também contribuiu para a mudança dessa percepção ou, talvez, essa nova percepção do Lula tenha influenciado muito fortemente o RS. As duas coisas funcionaram ao mesmo tempo para fazer com que essa aliança se concretizasse na campanha deste ano no estado. Não vamos esquecer que foi preciso uma pressão política muito forte da cúpula do PT e do PDT nacional para que essa aliança se firmasse na campanha.
IHU – O que as candidaturas e possíveis eleições de Manuela d’Ávila e Paulo Pimenta (à esquerda) e de Sanderson e Marcel van Hattem (à direita) representam para o futuro político estadual e nacional? Que visões de mundo essas candidaturas expressam e como o eleitorado gaúcho reage a elas?
Benedito Tadeu César – Os campos estão bem delimitados. Os campos eleitorais também estão delimitados. Não vamos esquecer que na eleição passada só havia uma vaga para o Senado, então, a eleição era mais difícil e mais fácil de ser manipulada. Grande parte do eleitorado não sabe que tem que votar em dois candidatos separadamente. Isso leva sempre a uma grande anulação de votos para o Senado, principalmente para a segunda vaga.
Vou começar avaliando o cenário nacional. A disputa do Senado sempre foi importante, mas a importância estratégica cresceu nessa eleição por causa da disputa entre esses dois campos e pelo fato de que a extrema-direita sabe que precisa conquistar uma maioria no Senado para, no caso de uma eventual vitória ao governo federal, garantir a concessão de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A grande preocupação dessas lideranças, portanto, é conceder anistia a Jair Bolsonaro. Uma eventual decisão desse tipo precisa ser contestada também no STF e, então, é preciso que se tenha também maioria no STF.
Mesmo que esse campo não vença as eleições, conquistar uma maioria no Senado possibilita um impeachment e aí se altera o quadro político porque o STF tem se colocado como uma barreira aos exageros do Legislativo. Veja a questão das emendas parlamentares. É o STF quem está conseguindo colocar um pouco ordem na casa. E quem são os maiores beneficiários das emendas parlamentares? Todos os políticos de todos os campos se lambuzaram nessa história. Não vamos passar a mão na cabeça, não. Agora, a questão maior é que os grandes beneficiários das emendas parlamentares e dos desvios estão no campo da direita e da extrema-direita. A esse campo interessa barrar qualquer tipo de ação do STF.
Indicações para o STF: centro da disputa política
O próximo presidente vai nomear quatro integrantes do STF, com possibilidade de indicar cinco. Qualquer um dos campos que ganhar as eleições vai ter indicado a maioria dos integrantes do Supremo. Isso se tornou o centro da disputa política hoje.
O campo representado por Flávio Bolsonaro tem como ponto de honra indicar a maioria no Senado para fazer o impeachment dos seus desafetos no STF. Flávio pode – sem que se morra de amores por nenhum dos ministros – pegar o Alexandre de Moraes, que foi o bastião da defesa da democracia e que comandou o inquérito contra Jair Bolsonaro. Também estão na lista [do Flávio Bolsonaro] o ministro Toffoli, Gilmar Mendes, Dino e Zanin. Todos eles podem entrar numa lista de cassação.
Com relação ao RS, os gaúchos precisam ter uma preocupação muito grande com o Senado e não cometerem o mesmo erro que cometeram na eleição passada. Não estou comparando Sanderson e van Hattem a Mourão, mas a obsessão de votar na direita levou a eleger um candidato que nem sequer morava no RS, não passou a morar no estado, não tinha nenhuma ligação atual com o estado e, politicamente, não fez nada para os interesses do estado. Então, fica este alerta: o voto ideológico é legítimo até certo ponto. Quando a ideologia obscurece a avaliação do que isso vai implicar na vida social e econômica do estado nos próximos oito anos, é preciso pensar bem.
IHU – O presidente Lula anunciou algumas medidas na reta final do período eleitoral: lançamento do Desenrola 3.0, proibição das bets, reajuste de 15% no Bolsa Família e a compra de dívidas das instituições financeiras via leilões com descontos de 90%. Como o senhor interpreta essas propostas no atual momento político? Qual o impacto potencial dessas medidas no processo eleitoral?
Benedito Tadeu César – O impacto temos que ver nas pesquisas. Até agora as pesquisas não mostraram nenhum impacto. Talvez porque ainda não tenha dado tempo, mas a eleição é no próximo fim de semana. O impacto eleitoral tem que acontecer ou não vai acontecer. É óbvio que essas medidas, sendo tomadas nesse momento, visaram, sim, um impacto eleitoral. As medidas anteriores, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos, tiveram um impacto momentâneo, mas não se sustentaram em termos de intenção de voto. Se tiver um impacto momentâneo, tudo bem, estará dentro do timing eleitoral.
Agora, devia ter feito isso? O incumbente tem o poder da caneta, como se costuma dizer, ou seja, de decisão e de implementação de medidas. É por isso que a taxa internacional de reeleição do incumbente é superior a 70%. Esse quadro mudou na América Latina recentemente e isso tem muito a ver com a intervenção externa nas eleições e com o quadro político internacional. Essa é uma questão que está presente nesta eleição. Vamos ver qual será o desdobramento.
IHU – Que futuro vislumbra para o país num possível governo Lula 4 ou Flávio Bolsonaro?
Benedito Tadeu César – Precisamos pensar na possibilidade de Flávio Bolsonaro 1, 2, 3, 4 ou Bolsonaro 2, 3… Vai saber. O projeto da família Bolsonaro e da extrema-direita é esse. Não tenho bola de cristal, mas as evidências são as seguintes: temos uma disputa que está, se quisermos ir a fundo, entre civilização e barbárie. Já tivemos a experiência do que foi o governo Jair Bolsonaro: o desprezo pela vida, a violência, a misoginia, o armamento da população, o desrespeito à diversidade, a depredação da natureza, o extermínio das populações indígenas, o preconceito racial, a xenofobia e a estagnação econômica. Não se pode atribuir toda a crise econômica e os baixos salários daquele período à pandemia. A pandemia agravou, mas isso tem a ver com o tipo de política econômica adotada. Isso tende a se repetir.
O pai do candidato está preso porque tentou dar um golpe de Estado. Não podemos esquecer que o outro filho, irmão do atual candidato, dizia que bastava um cabo e um soldado para intervir no STF. Então, é uma tradição golpista. Além disso, há a relação de Flávio Bolsonaro com as milícias. Ele deu medalhas e homenagens a mais de 80 pessoas que hoje estão envolvidas com ações violentas. Vários desses policiais estavam envolvidos com milícias, sem falar na relação com Vorcaro e a corrupção histórica que envolve a família Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Ele não foi inocentado no caso das rachadinhas. Aquilo foi arquivado por pressão do pai, que era presidente da República. Ou seja, é uma intervenção que eles costumam exercer sobre as instituições que têm que ter autonomia. Tudo isso gera uma preocupação muito grande.
Do lado do Lula, tem mais do mesmo e isso já não está bom. Essa é a análise que muitos fazem e, por isso, a candidatura não deslancha. Se for mais do mesmo, é ruim. Mas é muito menos ruim do que pode acontecer se for dado esse salto – que não é nem um salto no escuro; sabe-se que se está saltando num caldeirão fervente com a candidatura do Flávio.
Arriscaria numa coisa: Lula sabe que esse será seu último mandato, inapelavelmente. Ele já tem 80 anos, por mais que viva 120 anos. A expectativa de vida aumentou e a velhice de hoje não é mais a mesma de 10, 20 anos atrás. Isso, para frente, só tende a melhorar. Os indicadores mundiais e nacionais melhoraram. Não podemos esquecer que o IDH brasileiro é superior, e isso é algo inédito. São conquistas importantes que aconteceram. São frutos desses governos e que foram interrompidos num interregno Temer/Bolsonaro. Sem falar no papel internacional. Se formos comparar Flávio e Lula e o papel que o Brasil vai representar no mundo e a questão da autonomia nacional, não tem comparação.
Lula sabe que esse é o seu último mandato. Ele tem consciência da necessidade de deixar um legado histórico. Tenho a convicção de que Lula, nesse último mandato, vai fazer todo o esforço possível para deixar uma marca na sua trajetória histórica. Não é por acaso que ele está recuperando a referência a Vargas. Acho que ele vai para um governo de impulsionamento e retomada do desenvolvimento brasileiro com autonomia. Isso me parece ser fundamental. Esse é o grande projeto do Lula hoje.
IHU – Como superar a polarização ideológica e avançar na construção de um projeto de país que reafirme a política e caminhe para a construção do bem comum?
Benedito Tadeu César – É difícil superar a polarização ideológica hoje; esses campos estão muito arraigados. A única forma de avançar na construção de um projeto de país que reafirme a política e caminhe na construção do bem comum é trabalhar com todas as nossas forças para o aprofundamento da democracia, tanto em termos de valores democráticos e de consciência da importância da democracia quanto na construção e no empenho de cada um de nós para a recomposição das instituições republicanas. Isso passa pelo voto. Óbvio que é muito importante a participação política e social de cada um de nós.
Não temos uma tradição associativa no país. Os sindicatos foram desmantelados. São formas organizativas do século XIX. Estamos no século XXI. Muita coisa mudou. É preciso encontrar novas formas de mobilização social que ainda não estão definidas, mas não podemos nos omitir. Isto, nesse momento, passa pelo voto.
Se posso terminar fazendo uma conclamação é que todo mundo vá às urnas, de todas as faixas etárias e segmentos sociais. Também os mais velhos que não têm obrigação de voto, mas que são uma parcela muito importante da população, não podem se omitir. Pensem que mesmo que tenha diminuído muito a geração dos nossos netos, eles ainda estão aí e nós temos uma obrigação com o legado a ser deixado às próximas gerações.




