A dimensão geopolítica da eleição brasileira. Por Paulo Nogueira Batista Jr. 

A eleição de 2026 combina a candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro com uma nova fase agressiva da política externa dos EUA, colocando a soberania brasileira em risco inédito

No A Terra é Redonda

“Os Estados Unidos serão o primeiro país a passar da barbárie à decadência
sem conhecer a civilização” (Profecia atribuída a Georges Clemenceau).

A soberania brasileira corre um risco inédito na nossa história como nação. Estamos vivendo a eleição mais perigosa de todos os tempos por causa da conjunção de dois fatores: a candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro e a nova fase da política internacional dos Estados Unidos.

O primeiro fator é conhecido, não preciso me alongar a respeito. Digo apenas que, entre muitas outras deficiências e antecedentes problemáticos (ele não tem currículo, mas sim folha corrida), Flávio Bolsonaro faz questão de explicitar a sua subordinação a Donald Trump, seguindo nesse ponto o exemplo do pai.

Só que agora há um agravante: o império estado-unidense se mostra muito mais agressivo do que na época em que Jair Bolsonaro foi presidente. O Trump 2 é uma versão piorada e mais violenta de Trump 1. Como os Bolsonaros são imitadores vulgares e assumidos de Trump, não será de surpreender que um eventual Bolsonaro 2 venha a ser pior do que o Bolsonaro 1. Se cometermos o erro gigantesco de eleger esse estrupício, o país retrocederá décadas e a soberania brasileira será esmagada.

Um aviso prévio. Este artigo está sendo finalizado alguns dias antes do primeiro turno das eleições. Em caso de vitória de Lula já no primeiro turno, o Brasil estará, sem dúvida, mais preparado para enfrentar ameaças estrangeiras. Mesmo com a eleição de Lula, entretanto, no primeiro ou segundo turno, os graves problemas do entorno internacional e o desafio de lidar com uma superpotência agressiva, descritos no artigo, permanecerão conosco por muito tempo.

A lei da selva

Não estou exagerando, nem fazendo drama. É bem verdade que o imperialismo do Ocidente sempre foi brutal, sempre esteve disposto a se valer de todos os meios para submeter e até destruir outras nações e civilizações.

A diferença é que o Ocidente está agora em declínio. E não aceita esse declínio de forma nenhuma. Fará o diabo para tentar conter ou reverter a sua perda de relevância no mundo. Apesar de decadente, os EUA e o resto do Ocidente ainda têm muita força econômica, política e militar – e podem fazer grandes estragos, como estamos vendo.

Nada mais perigoso do que uma superpotência em declínio. Na segunda metade do século 20 e, mais ainda, no “momento unipolar” após o colapso da União Soviética em 1991, os Estados Unidos prevaleciam com naturalidade. Convencidos da sua superioridade, implementavam regras e tratados, criavam instituições multilaterais e propugnavam o livre-comércio urbi et orbi. Espalhavam mundo afora a ideologia dos mercados eficientes e da abertura das economias como receita para o sucesso de qualquer país.

Nas décadas iniciais do século XXI, com o surgimento de um mundo multipolar marcado principalmente pela ascensão da China e outros países do Leste da Ásia, os estado-unidenses e europeus viraram casaca. Abandonaram o neoliberalismo e defesa do livre-comércio; passaram a praticar, sem rodeios, as políticas de proteção e intervenção estatal que antes condenavam.

A mudança das políticas econômicas mostrou-se, porém, insuficiente para deter o enfraquecimento dos Estados Unidos e da Europa. Atrapalhou, mas não deteve o avanço da China, vista como a principal ameaça. Resultado: o Ocidente, sobretudo os EUA, resolveram dobrar a aposta. Entraram em modo desespero e passaram a romper regras, acordos e tratados, além de minar algumas das instituições criadas por eles após a Segunda Guerra Mundial, notadamente a ONU e a OMC. Virou um vale-tudo em termos institucionais.

Quando isso também não funcionou para preservar a hegemonia mundial, os EUA colocaram em campo o seu poderio militar. Com Trump 2, tornou-se rotina recorrer, ou ameaçar recorrer, à força militar para extrair concessões e abalar países considerados pouco cooperativos ou hostis. Estabeleceu-se a lei da selva.

Os EUA estão dando razão à profecia mordaz, atribuída a George Clemenceau, primeiro-ministro da França durante a Primeira Guerra Mundial, que usei como epígrafe deste artigo.

A vulnerabilidade do hemisfério ocidental

Outro elemento essencial do contexto internacional – o foco renovado dos EUA no Hemisfério Ocidental, que é considerado abertamente como parte da sua área de influência. Dois documentos oficiais do governo de Donald Trump deixaram esse ponto claro e cristalino – a “Estratégia de Segurança Nacional”, divulgada em novembro de 2025, e a “Estratégia de Defesa Nacional”, de janeiro de 2026, deram amplo destaque à retomada do controle sobre o hemisfério ocidental, da Groenlândia à Patagônia.

O primeiro documento afirma que os EUA “irão restaurar a proeminência americana sobre o hemisfério e negar a competidores não-hemisféricos a habilidade de posicionar forças (…) ou possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais”. O segundo declara que “os interesses americanos estão sob ameaça em todo o hemisfério ocidental” e que os EUA, seguindo o “corolário Trump à doutrina Monroe”, buscarão “a restauração do poder e das prerrogativas dos EUA no hemisfério”.

Diversas declarações do presidente Donald Trump e seus ministros, notadamente do ministro das relações exteriores, Marco Rubio, confirmaram enfaticamente essa abordagem. Foram muitas. A sua tônica pode ser resumida em uma frase: o hemisfério ocidental é nosso. Os EUA anunciam que usarão de todos os meios, inclusive militares, se preciso, para eliminar resistências nacionais e reduzir ou eliminar a presença econômica e política da China, cuja influência na América Latina e em outras partes do mundo cresceu muito nas décadas recentes.

Como se sabe, não foram só documentos e declarações. Já tivemos ações imperiais concretas no hemisfério ocidental, atingindo por exemplo Groenlândia e Cuba. O episódio mais impressionante foi a intervenção relâmpago na Venezuela, com o sequestro do presidente do país. Sem resistência, a Venezuela foi transformada em protetorado dos EUA, que passou a controlar as riquezas do país, notadamente as suas imensas reservas de petróleo.

Donald Trump não esconde, antes proclama, que esse controle foi a finalidade e o resultado da intervenção na Venezuela. Ressalte-se que esse descaro é novidade: antes, a tradição imperial era encobrir os seus objetivos com retórica hipócrita e discursos demagógicos, em especial sobre a sua suposta defesa da democracia e dos direitos humanos.

Uma outra vitória do governo de Donald Trump foi a ampliação e consolidação da presença militar dos EUA na Groenlândia. Com base em ameaças de intervenção militar, Donald Trump extraiu da Dinamarca e da Groenlândia, um acordo que reforça e torna mais permanentes os direitos militares dos EUA nesse território.

Sob Donald Trump, tivemos, também, a radicalização do embargo criminoso imposto a Cuba, causando grande sofrimento à população do país. É possível que o próximo passo dos EUA, depois das suas eleições parlamentares em novembro, seja alguma agressão militar e até mesmo a invasão de Cuba.

Note-se que essas ações têm um traço comum: a determinação de conter a influência da China e da Rússia. Os países agredidos ou ameaçados eram ou são próximos à China e a Rússia (Venezuela e Cuba) ou eram vistos como incapazes de deter a influência e ação dessas duas potências rivais no seu território (caso da Dinamarca e da Groenlândia).

Um Javier Milei brasileiro?

A influência dos EUA no hemisfério aumentou enormemente. Não só com as ações mencionadas acima, mas também porque as eleições em muitos países da região (com atuação estado-unidense nos bastidores) levaram a governos alinhados a Washington e também, sintomaticamente, a Telavive. O modelo Javier Milei fez escola. Esse modelo inclui subordinação explícita aos Estados Unidos e apoio incondicional ao regime criminoso de Israel.

Hoje, temos apenas três países grandes que mantêm uma linha independente – o Canadá de Mark Carney, o Brasil de Lula e o México de Claudia Sheinbaum. Além desses, temos apenas Cuba, Nicarágua – tradicionalmente anti-imperialistas – e, em menor medida, Suriname.

O que querem os EUA na eleição brasileira? Na medida do possível, ajudar a eleger um vassalo, um Javier Milei brasileiro, e submeter nosso país à sua área de influência sem disparar um tiro sequer.

O Brasil vai permitir isso? É nas horas difíceis que os povos demonstram o seu valor. Os nossos descendentes farão inevitavelmente a pergunta: o que você fez em 2026 para defender a soberania nacional?

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*Paulo Nogueira Batista Jr. é economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de Estilhaços (Contracorrente).

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