Como derrotar a “contrarrevolução na ordem” – e ir além

Frente às ameaças à tímida democracia brasileira, segundo turno exigirá intensa mobilização. Mas é hora de pensar além das urnas: reorganizar a luta social, disputar as periferias, produzir novos afetos e direcionar o ressentimento contra quem produz as desigualdades

Por Luís Fernando Novoa Garzón, em Outras Palavras

Mídias corporativas, financistas e bilionários comemoram o que seria a “maior vitória da direita desde a redemocratização”. A frase dissimula aquilo que consideram a maior vitória pela des-democratização do país. É a isso que chamam o fim da “Era PT”. O fim de uma democracia restringida e sabotada, mas que abriu margens democráticas conquistadas por décadas de mobilizações populares, greves gerais, protestos, assembleias, plenárias e marchas.

Comemoram a possibilidade de eliminar essas margens institucionalizadas em obrigações constitucionais que garantem condições mínimas para a existência de sistemas públicos de saúde, educação, de políticas ativas de geração de emprego, renda e alimentação digna, de instrumentos redistributivos de terra urbana e rural e de reconhecimento e proteção de biomas e povos e comunidades tradicionais. Ainda que tais políticas tenham sido fortemente mutiladas e sucateadas, basta que existam para gerarem indefinições sobre taxas de retorno líquidas e certas.

O contentamento é a possibilidade imediata de poderem ultrapassar e ignorar solenemente qualquer piso civilizatório vinculado à Constituição de 1988. No caso do orçamento público, não basta ao rentismo um piso inamovível para baixo; o objetivo é o deslocamento sempre para cima. Neste momento, desvinculando e desindexando os gastos sociais.

Jogar ao mar a seguridade social não representa apenas novas oportunidades de negócios, com redução dos custos e privatizações setoriais. Mais que isso, significa erguer, sobre a pilha de destroços de conquistas sociais e direitos coletivos, a almejada “ponte para o futuro” para a atuação incondicionada dos grandes capitais. Equacionaria-se assim, em uma só tacada, a intermitência entre dissoluções cada vez mais vastas e integrações cada vez mais residuais. É um caminho que se abre em meio a gritos de dor de milhões — o que se ouve com som de fundo é uma ordem autoexplicativa: “Aqui, tudo pode”. Um presente perfeito para Trump e para a plutocracia global que ele vocaliza.

A questão é o que poderá impedir, a partir do dia 25 de outubro de 2026 : (i) novos dispositivos de autorregulação financeira, trabalhista e ambiental, (ii) o engatilhamento de novas rodadas de contrarreformas privatistas, (iii) a retomada de agendas antiambientais e anti-indígenas, (iv) a fixação de grandes projetos de infraestrutura que reiteram a centralidade político-decisória do agronegócio e da mineração.

Seguimos imersos em um largo período de refluxo das lutas sociais e de derrotas não restringidas ao campo institucional, mas na estrutura econômico-social, com o avanço incondicionado dos oligopólios financeiros e processos de dessocialização correspondentes, fortemente entrelaçados a ideários punitivistas e a messianismos da riqueza.

Enquanto isso, Penélopes eleitorais dedicam-se a tecer o tecido institucional, ponto após ponto. E depois de novo. Em contraponto a esse tempo de espera e de conformidade, nos termos da disjuntiva apresentada por Daniel Bensaid1, há o tempo de Kairós, o tempo qualitativo que requer prontidão frente ao que bate à porta ou ao que a arromba simplesmente. Conflagrada a partir do golpe de 2016, oficializada entre 2018 e 2022 e estancada entre 2022 e 2026, põe-se em movimento novamente uma contrarrevolução “dentro da ordem”, uma contrarrevolução sem revolução. O que pode ser pior que isso?

Pior que a barbárie é o silêncio diante dela, é a negação e a edulcoração dos cenários, é proferir crenças abstratas em fórmulas como “Estado de Direito para sempre”. A desistência nessa situação-limiar equivale à desaparição política.

Sobra o último recurso da arte do contratempo, aquela que faz balançar automatismos verbais e mentais, sem medo de decifrar enigmas, sem pretensões clarividentes. Cadê a classe trabalhadora que estava aqui? Aquele povo brasileiro, para onde foi? O que pode ser o Estado? Como ser menos Estado, menos “sistema”, menos elite cultural descolada e passar a dialogar e compor maiorias?

É preciso produzir uma contra-onda socializante, que redirecione os sentimentos de vingança dos de baixo para os de cima dos de cima. Escrachos públicos e simultâneos para sinalizar os inimigos e vampiros de última instância. Momentos de irmanação nos territórios e periferias sob sacrifício que neutralizem efeitos anestésicos da teologia da prosperidade. Essa é a campanha a fazer.

Da parte de Lula, sob incessante demonização por tudo que representa, cabe se desprender, se distanciar do ídolo, aprender a ser mais Mujica e menos Petro, antecipar com quem e como vai governar, sem mais acordos obscuros com potentados do Legislativo e do Judiciário. Chegada e partida são lados da mesma viagem, diz a canção. Momento sucessório para se dimensionar o legado de revoltas, lutas e vidas compartilhadas que escoram garantias legais e constitucionais ainda vigentes. Momento de novos começos e novos encontros de povo e nação em reinvenção. Votar e seguir lutando. Rendições nunca mais.


Nota:

1 BENSAID, Daniel(2012). “‘Os saltos! Os saltos! Os saltos!’–sobre Lenin e a Política”. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/bensaid/2002/07/saltos.pdf

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