Precisamos ser mais do que os fiadores da agonia. Por Isadora Szklo

No blog da boitempo

Recentemente, precisei passar por uma pequena cirurgia odontológica não coberta pelo plano e me choquei com os orçamentos recebidos. A cirurgia é rotineira, mas os valores ultrapassavam completamente minhas possibilidades de gasto. Descobri uma clínica-escola com valor acessível e optei por fazer lá, mesmo não me sentindo segura no ambiente. O dia da cirurgia foi marcado por uma série de pequenas violências médicas e eu, aos 34 anos, boquiaberta e deitada na cadeira do dentista, me senti fracassada por não poder pagar por uma experiência melhor para algo tão simples.

Bastante diferente do que era projetado quando comecei a imaginar minha vida adulta, vivo há alguns anos em um mar de incertezas e muita insegurança com relação ao futuro. Sem herança, mas com capital social, um diploma da USP, um apartamento alugado no centro de SP e bastante experiência laboral, sei que sigo ocupando, de alguma forma, o topo da pirâmide social e econômica no Brasil. Ainda assim, me vejo todo mês diante de uma conta bancária sem sobras, mesmo tendo um trabalho formal e vários freelas frequentes. Acordo e vou dormir todos os dias pensando em como fazer meu dinheiro render e tenho encontrado poucas saídas.

Essa espécie de ressentimento silencioso, meio inescapável e constante na minha e na vida de muitos à minha volta, entra em conflito direto com uma linha presente na campanha do Lula apegada aos índices, aos números e aos dados econômicos. De fato, nos últimos 4 anos tivemos menor aumento de preços, menor taxa de inflação geral e desemprego, uma pequena diferença de maior poder de compra do salário, aumento de salário mínimo, e uma série de conquistas notáveis. Esse conjunto de dados não é irrelevante em uma campanha à presidência, mas tampouco resolve a realidade: está difícil viver.


Podemos e devemos utilizar nossa capacidade de abstração para saber e dizer que, com certeza, tudo estaria pior caso Lula não tivesse sido eleito, e que os planos de Flávio Bolsonaro para a economia brasileira não envolvem tornar a vida mais fácil pra nenhuma pessoa comum que vende sua força de trabalho. No entanto, isso não resolve a percepção diária de que a vida não está boa e que algo precisa mudar, porque precisa mesmo. Ainda assim, o tom da campanha deste ano passa uma ideia de que o melhor possível hoje é manter tudo como está, o que claramente não tem sido suficiente para convencer uma parte da população brasileira.

Não é pra menos. Manter tudo como está significa manter o trabalho plataformizado extremamente precário, com alta flexibilidade de direitos trabalhistas e sociais e enormes jornadas compostas por pequenos salários arrochados. Os sindicatos seguirão desmoralizados, incapazes de ou desinteressados em batalhar por aumentos acima da inflação, e até mesmo parte da base social mais progressista de Lula ainda não topará se sindicalizar. Estamos trabalhando muito, ganhando pouco e vislumbrando menos ainda para o futuro. As grandes cidades estão lotadas, o trabalho remoto foi alento passageiro, muitas horas são passadas no trânsito, os serviços públicos estão sendo rapidamente degradados e o preço de tudo está nas alturas. Nos tornamos dependentes de celulares e redes sociais, sob controle de big techs posicionadas politicamente com muitas informações sobre nós e contra todos os nossos interesses. Este conjunto de fatores tem fragilizado nosso tecido social e nos combalido em velocidade recorde, e a síndrome de burnout deixou de ser chocante para se tornar vocabulário comum de uma classe adoecida que somos todos nós. Com exceção da pauta da escala 6×1, o que se oferece como futuro hoje do nosso lado são, no máximo, pequenas doses de alívio, mas nenhuma ruptura com um contexto absolutamente terrível.

Vivemos num mundo em crise, tomado por um projeto global mórbido, que propõe a generalização da miséria, morte, fome, dominação, violência e poucos direitos sociais, afrouxando os laços sociais e promovendo as saídas individuais. Este projeto chega com força no sul do mundo, a exemplo da América Latina, em uma rota forçada de caminho único da qual lutamos para livrar o Brasil. Diante dessa conjuntura, o terceiro mandato de Lula sem dúvida operou pequenos milagres como barreira de contenção desse projeto. As vitórias econômicas desse período, como a segunda vez tirando o Brasil do mapa da fome, não são pequenas e nem devem passar batido como feitos fáceis ou abstratos. Ainda assim, a deterioração da nossa vida não é resultado somente de ações políticas organizadas em território brasileiro, mas sim de um plano de larga escala. É preciso muito mais do que um presidente para deter uma onda mundial.

Mas quem está considerando tudo isso, ou melhor, quem está denunciando isso? Em campanha, parecemos estar muito preocupados em convencer a população brasileira que “vejam os índices” e se convençam de que está tudo bem, quando não está. O máximo que denunciamos é que existe um projeto de barbárie em curso que planeja o nosso futuro como muito pior do que hoje, e, no Brasil, seus representantes elegeram maioria no Senado e saíram na frente na disputa presidencial. Mas não conseguimos oferecer mais do que o que temos hoje, que é bastante ruim. Nesse limite, parecemos normalizadores do menos pior, vendedores de um futuro medíocre, defensores do “é o que tem pra hoje”, e não conseguimos oferecer mais. Perdemos o posto de radicais e, numa inversão insana, quem aparenta ser radical é justamente quem está mais alinhado com o projeto hegemônico e global, porque é esse que oferece, de fato, rupturas. O problema é que a ruptura proposta não é com o que nos adoece, mas sim com o que nos protegia da barbárie absoluta.


Pensando nisso, é impossível pensar numa disputa de futuros e conceitos sem pensar a Palestina. O genocídio em Gaza acelerou consideravelmente o projeto mórbido que insiste em nos rodear. Se um país pode passar três anos transformando paisagens em detritos e árvores genealógicas inteiras em corpos soterrados por escombros, cometendo todo tipo de crime de guerra e nada acontecer, o que é proibido? Quais os limites toleráveis da barbárie? Que convenções nos protegem de sermos espoliados, eliminados, dominados e soterrados desse lado do mundo? O que a experiência pós-Segunda Guerra considerou inaceitável, o Estado de Israel e os EUA normalizaram novamente, e essa é a ruptura que os torna radicais.

Estamos diante de uma superação da ordem mundial em que crescemos, em que é possível, entre muitas coisas, sequestrar o presidente de outro país e não sofrer nenhum tipo de consequência. Todos esses acontecimentos ainda são considerados toleráveis pelas instituições que imaginávamos que nos protegeriam — as mesmas que defendemos com unhas e dentes, como se ainda representassem algum tipo de, ou pior, saída. Entender que não estamos mais vivendo no mundo em que crescemos pode ser um convite para entender que o velho está morrendo e elaborar qual é o novo que queremos ver nascer. Mas, por algum motivo, nossa escolha parece ser agarrar o insuficiente velho com unhas e dentes. Não à toa estamos perdidos e perdendo. Nós precisamos ser mais do que os fiadores da agonia.

Nessa agonia vamos nos deprimindo. Ninguém permanece neutro à angústia de um tempo terrível. Quanto mais nos afastamos da possibilidade de construção de uma saída radical, menos nos resta além de uma reação deprimida, fraca, desmobilizada. Seguimos nos arrastando, cada um no seu quadrado, trabalhando sem parar, batalhando pelo mínimo, com pouco tempo pra criar e imaginar outros futuros radicalmente melhores. Nos últimos 4 anos fomos raras vezes convidados às disputas políticas públicas, como atos de rua, e, quando convidados, muitos de nós rejeitamos. Diante dos horrores do mundo disfarçados de “o melhor possível”, aceitamos passivamente a ideia de que muito pouco cabe a nós. Não à toa, parte dos eleitores do Lula, mais uma vez, esperou receber as piores notícias para começar a elaborar algum tipo de reação ao cenário em que estamos. Somos uma massa deprimida, assombrada pelos limites que nós mesmos defendemos, mas também desencorajada a estar em coletivo e pensar em outras formas de viver. É urgente para nós poder novamente enxergar uma luz no fim do túnel.


A resposta imediata para isso é eleger o Lula no segundo turno. O caminho para essa conquista parece extremamente desafiador, e exigiria da própria direção da campanha um nível de convocação coletiva que não vimos este ano, mas ainda pode acontecer. No entanto, após o dia 25 de outubro, independentemente do resultado, vamos precisar reagir, construir e reconstruir a esperança a partir de projetos coletivos que vão de dividir a vida com amigos a associações de bairro e sindicatos. Ainda que sobreviver no Brasil hoje nos demande muita energia só para fazer o básico, precisamos fazer caber as benesses e as durezas da vida coletiva, da solidariedade e da luta incansável pela dignidade humana. Num momento de plena incerteza e insegurança, mesmo sabendo muito pouco, sabemos que não vamos melhorar de vida aceitando migalhas cada vez mais minúsculas. Precisamos sonhar com mais, elaborar em conjunto. Não se trata de oferecer saída aos outros, mas a nós mesmos.


*** Isadora Szklo é responsável por eventos na Boitempo. É professora, comunicadora e mestranda no programa de História Econômica da USP. Cofundadora do Vozes Judaicas por Libertação, desenvolve pesquisa sobre Israel/Palestina e Teoria da Reprodução Social.

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