A disputa pelo segundo turno exige mais do que a defesa do legado governamental: requer um programa capaz de renovar expectativas, uma comunicação sensível às hesitações do eleitorado e a articulação entre juventude, sindicatos e movimentos sociais
“Mais vale ficar vermelho cinco minutos, que amarelo toda a vida”.
“Gosto de ti que me entendes” (Provérbios populares portugueses).
1.
Nesses últimos dias existia uma preocupação sobre os resultados das primeiras pesquisas, em função do choque da inversão das expectativas pela ultrapassagem de Lula por Flávio Bolsonaro. Foram 2%, uma diferença bem estreita, ainda que no contexto de um tsunami nas eleições para o Congresso e, também, muito adversa para governadores.
Mas as primeiras pesquisas sinalizam, felizmente, que é possível uma reviravolta. Por quê? Por cinco razões: (i) todas elas identificam empates técnicos ou vantagens estatísticas apertadas dentro da margem de erro, com variações, como o DataFolha, em que Lula tem 48% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro 52%, já na Vox Lula está na frente com 50,9% e 49,1% para Flávio Bolsonaro, na Poder/Data 53% a 47% para Flávio Bolsonaro, assim como Atlas/Intel 52,8% a 47,2% para Lula, ou seja, o desfecho está em disputa.
(ii) Lula herdou cerca de 1/3 dos votos (32%) dos outros candidatos, e Flávio Bolsonaro herdou um pouco menos da metade (46%), enquanto pouco mais de 15% declarou voto nulo, ou seja, o voto útil já tinha operado, em boa medida, no primeiro turno, mas ainda recolheram 7% dos votos válidos; (iii) Lula obteve 11% a mais entre os eleitores mais pobres (52% a 41%), um eleitorado em que pode crescer, porque em 2022 a diferença foi bem maior 17% (54% a 37%) e são metade da população.
(iv) Lula ainda pode diminuir a diferença junto aos trabalhadores que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos (de R$3.500,00 a R$7.500,00), porque a desaprovação do governo está em 49% e a aprovação em 48%; (v) o caminho da vitória depende dos, aproximadamente, 10% do eleitorado que é pendular, e oscilaram em 2018 para Jair Bolsonaro, em 2022 para Lula, e agora se inclinaram na direção de Flávio Bolsonaro, mas não rejeitam, absolutamente, nenhum dos dois, nem se alinham com nenhum dos dois.
2.
Desde a última segunda feira estamos assistindo a uma explosão de mobilizações de massas da juventude estudantil em escala nacional. É algo de imenso significado. Do extremo norte ao extremo sul do país, de Belém até Porto Alegre, passando pela Bahia, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba, aos milhares, os estudantes saíram de sala de aula e conquistaram as ruas.
Há muitos anos não se via nada nesta dimensão. Trata-se de ações diretamente políticas, de engajamento sobre a questão mais decisiva de todas: quem deve governar. Felizmente a União Nacional dos Estudantes (UNE) se posicionou, rapidamente, procurando sustentar, manter e estender a onda que começou de baixo para cima, espontaneamente. A juventude caminha mais leve que outros setores, porque não carrega o peso das desilusões do passado.
O desafio é que a faísca da juventude seja a centelha de grandes mobilizações de massas. Só uma campanha eleitoral a quente poderá reverter o resultado do primeiro turno. Nos últimos quatro anos o governo Lula buscou governabilidade a “frio”. A campanha eleitoral do primeiro turno fez uma aposta errada na linha de que a defesa do legado e biografia seriam suficientes para vencer em primeiro turno.
Tudo sugere que foi o giro das duas últimas semanas, muito tardio, que ainda assim nos permitiu impedir uma derrota no passado domingo. Agora surgiu uma possibilidade de campanha a quente. Oxalá o comando da campanha Lula ainda tenha reflexos e compreenda o gigantismo do que está acontecendo.
Todas as lideranças públicas da esquerda devem apoiar, impulsionar e se unir a estas concentrações e marchas, e procurar arrastar os sindicatos e movimentos sociais. Mas colocando as sandálias da “humildade”. Demonstrar força nas ruas impacta e muito. Gera um efeito “arrastão” que emociona e comove. As imagens devem ir para a TV e redes sociais, ininterruptamente.
Ninguém deveria duvidar da máxima gravidade do que seria uma vitória dos Bolsonaros no segundo turno. Mas, infelizmente, a grande mídia comercial burguesa insiste na tática de “dançar na beira do abismo”. A fração liberal da classe dominante já deu como um desenlace “inevitável” a eleição de Flávio Bolsonaro, e “precificou” o significado de uma possível derrota de Lula. Está em curso uma normalização do bolsonarismo como uma candidatura de “direita”.
Não, não é uma corrente eleitoral conservadora. Não é uma “ala” eleitoral mais reacionária do centrão. Trata-se de um projeto extremista, como um pé na legalidade, e outro pé na ação contrarrevolucionária, o fascismo do século XXI. Flávio Bolsonaro dissimula, mas sua estratégia significa uma regressão histórica. No poder, eles vão “tocar o terror”. Tudo está ameaçado: da soberania nacional ao regime democrático, dos direitos econômicos sociais à transição energética.
Trata-se de uma luta da civilização contra a barbárie. Não é preciso ser de esquerda, nem lulista para compreender este perigo devastador. As consequências serão, irremediavelmente, terríveis.
A reviravolta é difícil, mas possível, e vai depender de três movimentos: (a) anunciar, honestamente, reconhecendo os limites da gestão desde 2022, portanto, com sentido autocrítico, um programa audacioso de mudanças – mais reformas, mais futuro, mais esperança.
(b) Abraçar com coragem uma tática eleitoral de denúncia implacável da catástrofe apocalíptica para ampliar a rejeição do bolsonarismo entre os indecisos que não se interessam por política explicando tudo, pacientemente, na TV, nas redes e nas conversas, mas com empatia de quem entende suas hesitações.
(c) Uma linha de campanha de ousadia, incendiando a mobilização a “quente” colada no ascenso estudantil. Sem estas iniciativas será difícil reduzir a abstenção na base eleitoral do lulismo, a chave da disputa.
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*Valerio Arcary é professor de história aposentado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo).




