Carta da Aliança Kayapó, Yanomami e Mundruku à sociedade brasileira

“Na manhã do dia 5 de outubro de 2026, nossos povos acordaram com barulhos perturbadores. O ruído não era o ronco dos bugios nem o lamento dos inambus. Era o falatório dos garimpeiros nas redes sociais, atiçados pelos resultados das eleições. Seja em Roraima, no Pará ou em Mato Grosso, as ameaças às nossas comunidades chegaram por todos os lados.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o garimpo avançou sobre nossos territórios de maneira avassaladora, impulsionado pelas declarações do presidente e pelo enfraquecimento da proteção ambiental no país. Segundo dados do MapBiomas, só nas Terras Indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami, a exploração mineral ilegal cresceu mais de 128% entre 2018 e 2022.

A consequência dessa corrida pelo ouro foi brutal. O garimpo rasgou milhares de hectares de floresta, envenenou rios e destruiu o sustento de milhares de famílias indígenas. Fez explodir os casos de malária e abriu caminho para novas doenças, como a COVID-19. Matou centenas de crianças por causas evitáveis, empurrou nossos jovens para conflitos violentos e cometeu graves violências contra nossas mulheres. Não queremos viver todo esse sofrimento de novo!

A emergência na Terra Yanomami revelou ao mundo a verdadeira face do garimpo na Amazônia. Grande parte da sociedade, no Brasil e no exterior, ficou horrorizada ao ver as imagens das crianças vítimas dessa barbárie. No entanto, parece que, para muitos não indígenas, as tragédias humanas são facilmente esquecidas ou ignoradas.

Sabemos que parte da sociedade brasileira está insensível e que nenhum sofrimento alheio parece capaz de tocar seu coração ou abrir seus olhos e ouvidos. Mas sabemos também que muita gente ainda se indigna com a destruição da floresta e dos povos que a protegem. É para você, que faz parte desse grupo, que escrevemos esta mensagem.

Entre as pessoas que ainda sentem empatia e solidariedade, muitas escolheram não ir às urnas no primeiro turno. Cada uma teve seus motivos: algumas não tinham como se deslocar, outras simplesmente desanimaram da política. Seja qual for a sua razão, pedimos que, neste segundo turno, você pense de novo. Porque para nós, povos Kayapó, Yanomami e Munduruku, abrir mão do direito de viver bem não é uma opção.

Alguns dos novos governadores, senadores e deputados já se declararam a favor da mineração e contra os direitos indígenas garantidos pela Constituição de 1988 e pela Convenção 169 da OIT. Eles estão ansiosos para colocar em prática seu projeto de destruição dos nossos territórios. Ter na liderança do país alguém abertamente contra as nossas vidas vai, sem dúvida, intensificar ataques que nunca deixamos de enfrentar.

Nós vamos resistir, seja qual for o cenário a partir de 2027. Nossos conhecimentos e tradições nos ajudaram, por séculos, a sobreviver a sucessivas tentativas de extermínio. Mas temos total clareza de que o resultado das eleições presidenciais define a gravidade das batalhas que teremos pela frente.

Parafraseando o grande Ailton Krenak em seu discurso na constituinte, confiamos que vocês não vão se calar nem assistir passivamente a mais uma agressão movida pela ganância e pelo desconhecimento do que significa ser um povo indígena. Afinal, se o céu desabar sobre as nossas cabeças, ninguém estará a salvo.”

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Encaminhada para Combate Racismo Ambiental por Diogo Ferreira Rocha.

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