O rio que ainda precisamos atravessar. Por Iara Vidal

O que a Longa Marcha chinesa pode ensinar à reta final da campanha de Lula

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Neste ano de 2026, a China celebra os 105 anos de fundação do Partido Comunista da China (PCCh) e os 90 anos da vitória da Longa Marcha. Ao longo das minhas leituras sobre esse episódio decisivo da história chinesa, tenho pensado cada vez mais no que ele representa para mim, uma militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que hoje vive na China e acompanha, com enorme preocupação, os rumos do Brasil.

Há momentos em que uma caminhada política parece chegar ao seu trecho mais difícil justamente quando o destino está mais próximo. É quando o cansaço pesa, a ansiedade aumenta e cada obstáculo parece maior do que realmente é. Nesses momentos, gosto de voltar a uma das passagens mais extraordinárias da Longa Marcha: as quatro travessias do rio Chishui.

Em 1935, cercado por forças numericamente superiores, o Exército Vermelho atravessou e reatravessou o Chishui, mudando de direção, confundindo seus perseguidores e recuperando a iniciativa. O episódio se tornou um dos grandes símbolos da Longa Marcha justamente porque combinou firmeza de propósito com enorme capacidade de adaptação.

Mais do que uma manobra militar, as quatro travessias carregam, para mim, lições políticas que atravessam o tempo. E quatro delas ajudam a pensar também o momento que vivemos hoje no Brasil.

1. Convicção

No Chishui, a dificuldade do percurso não levou ao abandono do objetivo. A direção podia mudar, mas o horizonte permanecia.

É dessa convicção que precisamos agora. Depois de um primeiro turno difícil, diante de pesquisas adversas e de toda a ansiedade que cerca a reta final, não podemos confundir obstáculo com derrota.

Convicção não significa acreditar que tudo dará certo automaticamente nem fechar os olhos para a realidade. Significa saber por que continuamos caminhando mesmo quando o caminho se torna mais duro.

2. Pragmatismo

As quatro travessias também mostram que insistir sempre na mesma rota não é sinal de firmeza. Diante do cerco, foi preciso mudar de direção, recuar, avançar por outro ponto e surpreender quem acreditava conhecer todos os movimentos do Exército Vermelho.

Essa lição me parece especialmente atual.

Depois do primeiro turno, a campanha de Lula começou a mudar sua forma de atuação, especialmente nas redes sociais. A comunicação se tornou mais direta, espontânea e descentralizada. A militância passou a ocupar mais espaço, influenciadores e parlamentares ganharam protagonismo e apoiadores começaram a deixar de ser apenas audiência para participar ativamente da disputa.

Não se trata de mudar aquilo que se defende para o Brasil. Trata-se de mudar a maneira de disputar o Brasil.

Talvez essa seja uma das melhores lições do Chishui: não confundir fidelidade ao objetivo com fidelidade ao caminho. Quando uma estratégia deixa de funcionar, mudar de rota não é fraqueza. Pode ser justamente aquilo que permite continuar avançando.

3. Autonomia

Outro elemento decisivo daquele episódio foi a capacidade de agir a partir das condições concretas encontradas no terreno, sem esperar que uma solução viesse pronta de fora.

Essa lição também vale para uma campanha eleitoral.

Nenhuma coordenação nacional consegue alcançar sozinha cada bairro, cada família, cada grupo de amigos ou cada ambiente de trabalho. Há caminhos que só quem conhece o próprio território consegue enxergar.

Autonomia, neste momento, significa compreender o objetivo comum e descobrir como cada um pode contribuir a partir da sua própria realidade. Conversar, ouvir, produzir conteúdo, dialogar com quem está em dúvida, ocupar as redes e encontrar a linguagem capaz de alcançar quem está próximo.

Uma campanha só se torna verdadeiramente popular quando deixa de depender exclusivamente de um centro e passa a ser construída também por quem está na ponta.

4. União

Mas autonomia não significa isolamento.

Nada do que aconteceu no Chishui teria sido possível sem coesão coletiva. A Longa Marcha foi também uma experiência extrema de sobrevivência, confiança e capacidade de seguir em frente apesar do desgaste, das perdas e das divergências.

Nesta reta final, união significa compreender a dimensão do que está em jogo e colocar diferenças secundárias em seu devido lugar.

Nem todos precisam pensar exatamente da mesma maneira. Nem todos precisam agir da mesma forma. Mas é preciso reconhecer quando existe um destino comum.

Há momentos em que alguns estão mais fortes e outros estão cansados. Há quem consiga dialogar com setores que outros não alcançam. Há iniciativas pequenas, surgidas longe dos centros de decisão, que podem abrir caminhos inesperados.

É justamente por isso que uma caminhada coletiva depende de confiança.

Convicção para não abandonar o objetivo. Pragmatismo para mudar de rota. Autonomia para encontrar caminhos. União para atravessá-los juntos.

Porque, infelizmente, esta eleição também assumiu contornos de guerra — uma guerra política, de narrativas, de projetos de país e de visões de futuro. E, como em toda travessia decisiva, não basta preservar o horizonte: é preciso saber ler o terreno, mudar de rota quando necessário e encontrar novos caminhos para chegar ao destino.

Nesta reta final da campanha de Lula, penso muito no Chishui.

Ainda há um rio diante de nós.

E ele precisa ser atravessado.

Dia 25 de outubro eu voto Lula presidente. Eu voto 13.

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