Vorcaro ofereceu ‘escravas’ sexuais de sua ‘creche’ para ‘Kassio’? Por Leonardo Sakamoto

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A barbárie tem CEP, jatinho particular e transita com asqueroso conforto pelos corredores do poder brasileiro. A apuração de Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, no UOL, escancarou como o ex-banqueiro Daniel Vorcaro estruturou uma agência de prostituição para lubrificar suas relações financeiras e políticas. Não estamos falando de um desvio moral de ricaços entediados, mas de um esquema criminoso que usava mulheres como moeda de troca para comprar favores de políticos e juízes.

É fundamental ter estômago para ler a reportagem. O uso reiterado do termo “escravas” por Vorcaro e seus intermediários não é força de expressão, mas a confissão cristalina de como eles objetificavam, desumanizavam e enxergavam aquelas mulheres. Pior ainda é o uso da palavra “creche” para se referir ao grupo de garotas. O termo carrega um sadismo perturbador, indicando que se tratavam de mulheres jovens. Isso acende um alerta vermelho e torna absolutamente necessário investigar se alguma delas atiradas nesse moedor de carne era menor de idade.

O requinte de crueldade do ex-dono do Banco Master atingiu o ápice ao explorar refugiadas ucranianas. Diante de jovens fugindo de cidades bombardeadas, o banqueiro chegou a babar no teclado: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”. É preciso desenhar para as autoridades: não é necessária coação física, correntes ou cárcere privado para configurar o crime de tráfico de seres humanos. Basta a exploração da vulnerabilidade extrema. Usar o pânico de uma garota de ter que ser devolvida para uma zona de guerra sangrenta é a forma mais perversa e covarde de coerção para garantir serviços sexuais.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que existam hoje 50 milhões de pessoas em situação de escravidão contemporânea no mundo e, desse total, assustadores 23% são destinados à exploração sexual. Vorcaro não inventou a roda, ele apenas surfou em um mercado onde homens no poder já determinaram que corpos femininos são commodities de luxo.

Em 28 de fevereiro, uma mulher identificada como Rayanna aciona Vorcaro para organizar uma entrega de mulheres: “Qual o endereço Dani? As meninas estão prontas”. Dias depois, em março de 2025, a cobrança chega de forma direta: “Boa tarde Dani tudo bem? A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né? Ela disse que ficou com o Kassio. Ela tá me cobrando aqui”.

O banqueiro, operando seu balcão de carne humana, responde rápido: “Me manda aqui” e pede “dados e valor”. A agenciadora decreta: “10 né!” e reforça: “Ela ficou com ele”, enviando na sequência um contato de email para viabilizar o Pix de R$ 10 mil. A informação havia sido divulgada aqui no UOL por Thais Bilenky e Daniela Lima.

E, hoje, Daniela Lima trouxe mais detalhes da festinha bunga-bunga. De acordo com sua apuração, mensagens apreendidas no celular de Vorcaro mostram que um funcionário relatou ter cedido um quarto para um “ministro com 5 meninas” durante essa festinha particular realizada no triplex do empresário, em São Paulo. Conversas detalham a organização do evento, incluindo contratação de um chef de cozinha, a convocação de mulheres e instruções para recolher os celulares das convidadas.

A Polícia Federal tem a obrigação de apontar se o “Kassio”, com K, exposto nessas mensagens é o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral. O magistrado pode negar o encontro, mas as mensagens, a cobrança e o Pix estão documentados. A seletividade investigativa não pode prevalecer quando a lama atinge os aliados do bolsonarismo e do centrão.

Enquanto tratarmos esses crimes como meros “pecados privados” ou “folclore de bastidores”, homens engravatados continuarão naturalizando a compra do Estado com o corpo de mulheres em situação de vulnerabilidade. Prostituição não é crime e profissionais do sexo precisam ser respeitadas, mas o que temos aqui é a exploração violenta de mulheres.

Resta saber se as instituições brasileiras vão passar pano para “creche” de “escravas” de Vorcaro ou se, finalmente, a lei vai valer para quem sempre usou o dinheiro para se colocar acima dela. O que passa por investigar todos os políticos, magistrados e empresários que se valeram de refugiadas como moeda de troca.

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