Memória e justiça: quatro décadas após os massacres no campo gaúcho, sobreviventes rompem o silêncio

Seminário em Viamão resgatam histórico emblemáticos da luta pela terra nos anos 1980 e expõe a omissão do Estado diante de crimes ainda impunes

Por Cláudia Pereira, em CPT

Correr de um avião quando se é criança não deveria ser um gesto de sobrevivência, mas para Marta Aparecida Serpa foi. Ela recordou  quando correu com medo das asas de metal que sobrevoaram o acampamento de Salto do Jacuí, no interior do Rio Grande do Sul, espalhando uma nuvem invisível e asfixiante de veneno sobre a terra, as lonas e as pessoas. Quase quatro décadas depois, nas dependências do Instituto de Educação Josué de Castro, no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, Marta, hoje professora e assentada, faz memória. Olhou para trás e percebeu que nunca havia conseguido sentar com os próprios filhos, hoje com mais de 30 anos, para narrar os detalhes daquele terror.

“Sinto uma espécie de recompensa ao ver que alguém finalmente está olhando para esse assunto.”

A memória que ela guardou por quarenta anos agora encontra eco institucional. Na quarta-feira (14) em Viamão foi realizado o seminário “Massacres e Impunidade no Campo Brasileiro”, desenvolvido em parceria entre a Secretaria Nacional de Acesso à Justiça, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Universidade de Brasília (UnB) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Longe de ser apenas um exercício acadêmico de estatísticas, o seminário teve como horizonte central confrontar a inércia do Estado e cobrar políticas públicas efetivas para assegurar proteção, terra e dignidade às comunidades tradicionais e camponesas.

No centro do debate no Rio Grande do Sul estiveram dois episódios emblemáticos cravados na história da luta agrária do Estado: o massacre no Trevo de Sarandi e Passo Fundo, em 1987, e o envenenamento e violências no acampamento de Salto do Jacuí, em 1989.

O contexto dessas lutas remonta a momentos fortes  da mobilização camponesa. O mês de março de 1986, por exemplo, foi marcado por manifestações de aproximadamente 300 mil pequenos agricultores gaúchos contra as altas taxas de juros e a indefinição da política agrícola pelo governo. Foi nesse cenário de mobilização que, no dia 31 de março de 1986, durante o bloqueio da BR-386 no Trevo de Sarandi, ocorreu o episódio em que um caminhão teria perdido o freio, ferindo com gravidade vários agricultores e matando três: Lírio Grosseli, Vitalino More e Roseli Salete Nunes da Silva. Posteriormente, uma CPI da violência concluiu que o motorista, Valdir José da Silva, foi culpado pelo atropelamento, considerado intencional.

Três anos mais tarde, em 11 de março de 1989, foi o caso violento, o massacre da Fazenda Santa Elmira, em Salto do Jacuí. A mando do então governador Pedro Simon, que descumpriu o acordo firmado horas antes, mediado pelo bispo Dom Jacó Hilgert, foi ordenado o despejo violento de 500 famílias acampadas. A ação policial resultou em mais de 400 trabalhadores gravemente feridos, além do ataque aéreo que pulverizou agrotóxicos sobre o acampamento.

O silêncio dos arquivos e a via judicial

Para além do resgate histórico, a dor que atravessa gerações esbarra no “esquecimento” burocrático. De acordo com o pesquisador da UnB, Luiz Ribas, um dos nós mais dramáticos da apuração histórica continua sendo a opacidade dos órgãos oficiais.

Ao investigar o caso da pulverização aérea com agrotóxicos em Salto do Jacuí, a equipe de pesquisa se depara com um vácuo documental: nos arquivos digitalizados do Poder Judiciário, simplesmente não constava nada sobre o episódio. 

“A dificuldade de acesso aos documentos históricos e públicos continua sendo uma forma de negação por parte de quem tem a guarda dessas informações. Mas esse esforço vale a pena. O seminário reuniu sobreviventes, familiares de vítimas e agentes pastorais da época em relatos, carregados de emoção e de uma imensa coragem de revelar o que o Brasil insiste em calar.”

Para o caso do Trevo de Sarandi, marcado pela morte da militante Roseli Nunes e de outros dois agricultores  assassinados em 1987, o seminário encaminhou propostas concretas para instituir espaços de memória. A intenção é erguer marcos e monumentos simbólicos na região, possivelmente na própria encruzilhada onde Roseli foi sepultada.

A mística, a cruz e a terra

A preservação simbólica também foi a tônica da fala do padre Arnildo Afonso Fritzen, agente histórico da Comissão Pastoral da Terra (CPT-RS) que acompanhou as primeiras ocupações camponesas no final dos anos 1970. Com a vivência de quem esteve na icônica Encruzilhada Natalino e em sucessivos enfrentamentos, o sacerdote não poupou críticas à omissão do sistema judiciário civil frente à violência rural orquestrada pelo latifúndio.

“Sob todos os aspectos, o escamoteamento da verdade foi total. Sempre se fugiu da justiça, achando desculpas, enquanto os mandantes ficavam escondidos e impunes. A memória tem que estar presente simbolicamente em monumentos, em imagens dos mártires. As crianças e os jovens precisam saber que nós só chegamos até aqui porque houve luta.”

O padre relembrou a mística bíblica que fundamentou o nascimento da pastoral da terra na virada da década de 1980, inspirada nas leituras populares do livro do Êxodo e na dedicação de nomes como o Irmão Antonio Cechin e o Frei Sérgio Görgen. Para ele, é urgente buscar reparações e ter a coragem de não parar apenas na denúncia, mas concretizar ações no âmbito civil e pastoral.

A luta pela soberania e o horizonte da esperança

Entre a recordação dos aviões que despejavam veneno e a sala de onde leciona hoje em Águas Claras, a professora Marta Serpa resumiu o papel que a Comissão da Pastoral da Terra desempenhou como sustentáculo prático e formativo das famílias sem-terra: “A CPT assume a vida e a luta do povo”, disse.

Ao mesmo tempo em que rememorava o passado, Marta alertou para os riscos do presente e do futuro. Diante do avanço do conservadorismo e dos ataques à produção de conhecimento crítico, ela chamou a atenção para a urgência de garantir a autonomia e o financiamento das universidades públicas, peças-chave para que pesquisas sobre direitos humanos e violência no campo não sejam interrompidas.

Ao final do encontro, o coordenador da CPT-RS, Luiz Antônio Pazinato, sintetizou a atmosfera que pairava entre os barracões do assentamento: a de que a ausência de investigações públicas e punições ao longo de quatro décadas não conseguiu apagar o direito à memória. Em cada relato compartilhado em Viamão, a dor converteu-se em documento e a esperança de justiça permaneceu de pé. 

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