“O alimento é sagrado”, reza a sabedoria popular. Assim como é sagrado o cuidado com as sementes. Nesse Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, exaltamos as sementes que guardam a vida, bem como as mulheres que guardam as sementes
Por Júlia Barbosa, em CPT
É sabido das comunidades tradicionais e camponesas que não há soberania alimentar sem a soberania das sementes, e por isso se dedica tanto zelo e tanta resistência à tradição das guardiãs e guardiões das sementes crioulas. “A semente crioula traz a garantia de um amanhã, de um futuro com alimento sadio”, assim ensina a agricultora e guardiã Miguelina de Oliveira, da Comunidade São Manoel do Pari, no Mato Grosso. E é esse o amanhã que o agronegócio pretende usurpar com suas sementes transgênicas e seus frutos estéreis.
Na lógica capitalista do consumo, as sementes transgênicas produzem frutos incapazes de se reproduzir, gerando a constante dependência da compra de novos grãos para o plantio, que por sua vez dependem do uso de agrotóxicos para garantia de uma colheita rentável. “A gente precisa seguir firmes com nossas sementes crioulas e incentivar as pessoas a plantarem, dar e trocar sementes, para que não precisem comprar, que é algo que nos preocupa”, alerta a agricultora e também guardiã das sementes Josefa Aparecida Francisco, do Projeto de Assentamento Nossa Senhora da Esperança (MT).
Para a camponesa, a importância das sementes crioulas está na alimentação diversificada, saudável e sem veneno para a garantia da soberania alimentar. “A minha alimentação é rica porque eu colho diversidade dentro de um pequeno espaço. Ali, eu tenho mandioca, pepino, vagem, tenho um canteiro de horta, abóboras, batata, maxixe, pimenta…”, comenta, com orgulho, a agricultora. Josefa Aparecida, a dona Cida, reflete também sobre longevidade e como as sementes transgênicas têm adoecido a população. Ela avalia que as pessoas estão morrendo mais cedo e que a velhice hoje está acometida por diversas doenças por estarem “comendo veneno”.
No Cerrado, as mulheres camponesas são linha de frente na defesa dos territórios e das águas, a maior riqueza do bioma, que alimenta as principais bacias hidrográficas do país. Para garantir a soberania alimentar, é necessária a soberania e a segurança hídrica, pois sem água, não há alimento. É como alerta a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado: Sem Cerrado, sem água, sem vida. É esse o cuidado integral exercido pelas mulheres cerradeiras guardiãs das sementes crioulas, que no zelo com os grãos, cuidam de toda a sociobiodiversidade.
Entre risos de surpresa, Cida revela que a mulher camponesa “até trabalhando se diverte”, ao se deparar na colheita com um cará roxo que brotou em sua horta. “Eu tenho muito orgulho de ser mulher camponesa, porque a gente tem muita responsabilidade e muito cuidado com a terra. Miguelina também compartilha do mesmo orgulho e destaca a importância das políticas públicas para a autonomia e valorização da mulher do campo, mas alerta que, em tempo de eleições, há o grave risco de que essas políticas sejam encerradas, como ocorreu durante o governo Bolsonaro: “Nós perdemos isso quando foi o outro presidente, que ficou quatro anos e desmantelou tudo. Com o Lula, nós não só soubemos o que é política pública, nós participamos!”, ressaltou.
“Nós, zeladoras das sementes, mulheres do Cerrado, não estamos lutando só pela semente, mas pela conservação do Cerrado como um todo. Quem vive no Cerrado sabe a importância que tem esse nosso chão. A gente respira o Cerrado, vive do Cerrado, porque enquanto a gente cultiva, o Cerrado agradece e nos retribui com abundância” – Miguelina.
Defender o Cerrado requer o enfrentamento diário à violência no campo e às violações de direitos pelo hidro-agro-minero-negócio. De acordo com os dados parciais de conflitos no campo, divulgados pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc/CPT), só no primeiro semestre de 2026 foram registrados 261 conflitos por terra no Cerrado. Desses, a maioria se refere às violências contra os povos (243 casos), sendo a contaminação por agrotóxicos a principal violência identificada, com 133 registros. O mesmo se repete nos conflitos por água nos territórios do Cerrado, contínuo e de transição, em que a contaminação por agrotóxicos também se apresenta como a principal violência registrada.
Guardar as sementes crioulas é resistir ao envenenamento da terra, das águas e de todos os seres viventes. É lutar contra o monocultivo que perpetua a fome, contra o latifúndio que produz guerra. “A gente tem o cuidado com as nossas sementes, mas também com a terra, com as plantas, com os animais, com o Cerrado, com a água, com quem mora do nosso lado, com toda a nossa comunidade”, reflete Cida. O cuidado é uma prática coletiva, desde a seleção das sementes, o armazenamento e o modo de guardar para o futuro. É como ressalta Miguelina: “Todos nós, um dia, a gente passa. Mas a semente continua”.




