Reflexões sobre o corpo-a-corpo nas ruas: pertencimento, empatia, disposição para cuidar e tolerância. O que as comunidades dos fandoms ensinam. E como Clarice Lispector uniu duas experiências e sentimentos que parecem, ao primeiro olhar, incompatíveis
Por Estéfany Rocha Monteiro*, em Outras Palavras
Em maio de 1962, José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, estava entre os homens mais procurados pela polícia do Rio de Janeiro. Acumulava assaltos, confrontos com policiais e fugas da prisão e do Manicômio Judiciário, onde cumpriria uma pena superior a cem anos. Mais de trezentos homens participaram da operação que terminou na madrugada de 1º de maio, quando seu corpo foi encontrado com treze marcas de tiros. No mês seguinte, a revista Senhor publicou a crônica que havia encomendado a Clarice Lispector sobre o caso.
Clarice acompanha os treze disparos um a um. Os dois primeiros ainda lhe produzem aquilo que chama de “alívio de segurança”; a partir do terceiro, sua reação começa a mudar, passa pelo desassossego, pela vergonha e pelo horror, até chegar ao décimo terceiro. Anos depois, ao falar sobre a crônica, resumiu a razão dessa mudança: “qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava. O resto era vontade de matar. Era prepotência.”
Desde a noite de domingo, depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou 1,87 ponto percentual à frente de Lula, começou outro tipo de contagem. Mais de 33 milhões de brasileiros não haviam comparecido às urnas. Nas redes sociais, multiplicaram-se apelos para procurar quem se absteve, conversar com indecisos e tentar “virar” um voto antes de 25 de outubro. Fanbases de Taylor Swift, Beyoncé, BTS, Anitta, Lady Gaga e dezenas de outros artistas abriram perfis que normalmente se ocupam de música e cultura pop para a campanha de Lula, algumas delas com centenas de milhares de seguidores. A mobilização começou ainda na noite de 4 de outubro e se espalhou nos dois dias seguintes sob hashtags como #FandomsComLula.
Quando o “vira-voto” deixa de ser uma mobilização nas redes e vira conversa, o eleitor abstrato ganha rosto, história e relações que muitas vezes complicam a imagem formada a partir do voto. Uma conversa pode revelar misoginia, racismo ou hostilidade aberta; pode também colocar diante de nós alguém que passou anos ensinando, cuidando de familiares, trabalhando no serviço público, protegendo animais ou atendendo pessoas vulneráveis e que, na política, defende punições muito duras ou concede a certas autoridades poderes que lhe pareceriam excessivos nas mãos de outras. Nesses casos, a falta de empatia explica pouco: na vida dessas pessoas, o cuidado já faz parte de suas relações e de sua vida cotidiana. O que precisa ser compreendido é por que ele se estende tão facilmente a alguns e se retrai diante de outros, sobretudo quando medo, pertencimento e identidade política passam a definir quem inspira confiança, quem parece ameaçador e quem continua merecendo proteção.
A psicologia estuda essa diferença há décadas, embora a palavra “empatia” tenha frequentemente chegado ao debate público simplificada demais. Em 2014, os psicólogos Jean Decety e Jason Cowell reuniram pesquisas de psicologia do desenvolvimento, comportamento e neurociência social para mostrar que vários processos diferentes costumavam ser tratados como se fossem uma única capacidade. Compartilhar emocionalmente o sofrimento de alguém, preocupar-se com seu bem-estar e conseguir assumir sua perspectiva são operações relacionadas, mas distintas. A presença de uma delas tampouco produz uma consequência moral uniforme: o contexto, a relação com a outra pessoa e o grupo ao qual ela pertence participam da resposta.
Três anos depois, Emile Bruneau, Mina Cikara e Rebecca Saxe testaram uma parte desse problema em americanos diante de árabes, húngaros diante de refugiados e gregos diante de alemães. Os pesquisadores mediram tanto a disposição geral dos participantes para se preocupar com outras pessoas quanto a preocupação dirigida especificamente ao próprio grupo e ao grupo externo. O que chamaram de parochial empathy apareceu na distância entre essas duas últimas medidas. Essa distância previa disposição para ajudar o outro grupo e aceitação de danos contra ele melhor do que a empatia geral do participante. Uma pessoa podia, portanto, apresentar forte preocupação empática e distribuí-la de maneira profundamente desigual conforme quem estivesse diante dela.
A própria crônica de Clarice se move à medida que muda a distância entre quem observa e quem está sendo atingido. Nos primeiros disparos, Mineirinho aparece ainda através do perigo que representava e da segurança que sua captura poderia oferecer. No décimo terceiro, Clarice escreve: “porque eu sou o outro”. A contagem preserva o medo que aparecia no início, mas aproxima da narradora o homem que até então podia ser visto sobretudo como ameaça. A psicologia social passou a investigar, em contextos muito diferentes, como essas distinções entre quem reconhecemos como próximo e quem percebemos como pertencente a outro grupo alteram a empatia, a disposição para ajudar e a tolerância ao dano.
Bruneau, Cikara e Saxe estudaram conflitos específicos e populações muito diferentes do eleitorado brasileiro. O mecanismo que encontraram, porém, ajuda a compreender por que alguém pode passar boa parte da vida cuidando de outras pessoas e continuar estabelecendo fronteiras bastante rígidas para esse cuidado. Filhos, alunos, vizinhos, animais ou integrantes de uma comunidade podem mobilizar atenção e proteção intensas; quando o conflito político altera quem é percebido como próximo, ameaçador, responsável por um problema ou merecedor de confiança, altera também as condições em que aquela preocupação é mobilizada.
Algumas semanas atrás, o Datafolha encontrou outro resultado que dificulta explicações simples para o momento brasileiro. Entre 29 de setembro e 1º de outubro, perguntou a 2.506 eleitores qual forma de governo preferiam. A democracia foi escolhida por 73%. Entre os que declaravam voto em Lula, eram 76%; entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 74%. Para 7% do conjunto dos entrevistados, uma ditadura poderia ser preferível em determinadas circunstâncias.
Quase três quartos dos eleitores de Flávio Bolsonaro, portanto, chegaram ao primeiro turno dizendo preferir a democracia. Esse dado sugere que a divergência política brasileira passa também pelo conteúdo atribuído à democracia quando a escolha deixa de ser entre duas palavras — democracia ou ditadura — e passa a envolver situações específicas: quanto poder deve ter um presidente, até onde pode ir uma política de segurança, quais controles sobre o governo são legítimos, o que fazer quando um tribunal decide contra o próprio campo, quais direitos continuam protegidos quando seu titular provoca rejeição.
Michael Albertus, da Universidade de Chicago, e Guy Grossman, da Universidade da Pensilvânia, publicaram em 2021 uma série de experimentos realizados com eleitores da Argentina, Brasil, México e Estados Unidos. Os participantes eram confrontados com medidas pelas quais governantes enfraqueciam normas ou controles democráticos. As maiorias identificavam as violações. Entre 10% e 35%, dependendo do país e da situação apresentada, ainda assim apoiavam determinadas medidas, e esse apoio aumentava quando o governante responsável havia recebido o voto do entrevistado. Albertus e Grossman chamaram esses participantes de conditional democrats: a preferência pela democracia continuava existindo, enquanto a disposição de impor seus limites variava com a identidade de quem estava no poder.
Nos experimentos de Albertus e Grossman, reconhecer que uma medida feria princípios democráticos e decidir rejeitá-la eram coisas distintas. A identidade de quem exercia o poder alterava a tolerância a essa violação. Um eleitor podia valorizar eleições, considerar-se democrata e, diante de uma medida concreta, admitir para o candidato que escolheu uma margem de poder que consideraria perigosa nas mãos do adversário. Segurança, corrupção, religião, economia e experiências de violência entram nessa avaliação junto com lealdades políticas e afetivas.
Em junho de 2026, Anna Petherick, Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael Goldszmidt e Eduardo Andrade acrescentaram um dado brasileiro importante a essa discussão. Em artigo publicado na Nature Communications, acompanharam amostras de aproximadamente 2.000 a 3.000 participantes em cinco ondas realizadas antes, durante e depois da eleição de 2022. Os pesquisadores encontraram forte polarização afetiva entre lulistas e bolsonaristas, mas também testaram o que ocorria quando participantes recebiam informações que corrigiam percepções erradas sobre as posições do outro grupo em temas controversos. Algumas dessas intervenções reduziram a distância afetiva; em uma delas, a queda chegou a 6,66 pontos percentuais na escala empregada pelo estudo.
Nos experimentos, corrigir uma percepção equivocada sobre o outro grupo bastou, em algumas condições, para reduzir a hostilidade medida. O estudo testa intervenções controladas e seu resultado deve ser lido nessa escala. Ainda assim, mostra que parte do julgamento sobre adversários políticos depende das posições que lhes atribuímos, do perigo que associamos a essas posições e das informações que circulam nos grupos em que confiamos. Quando uma dessas percepções muda, a avaliação do outro pode mudar com ela.
Talvez seja esse o aspecto mais interessante da mobilização que começou depois do primeiro turno. Fandoms são, eles próprios, comunidades construídas por afinidade, linguagem compartilhada, confiança e pertencimento. Algumas já transformavam essas redes em ação social muito antes da eleição: o Army Help the Planet, criado por fãs brasileiros do BTS em 2019, desenvolveu projetos socioambientais e parcerias com organizações como Unicef, Fiocruz e Greenpeace. Depois de domingo, estruturas formadas em torno de vínculos culturais passaram a circular informação política e a procurar pessoas fora de um eleitorado já convencido.
Nesse contexto, há uma diferença considerável entre mobilizar quem já concorda e conversar com alguém cuja decisão provoca perplexidade. A segunda situação exige descobrir o que aquela pessoa acredita estar protegendo quando escolhe determinada política ou candidato. Para alguns será segurança; para outros, religião, renda, família, rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT), indignação com o Supremo, memória de corrupção ou identificação com uma ideia de ordem. Nenhuma dessas razões determina sozinha um voto, e nenhuma precisa ser imaginária para produzir escolhas cujas consequências institucionais outra pessoa considere graves.
Em “Mineirinho”, Clarice mantém juntas duas experiências que poderiam parecer incompatíveis: o “alívio de segurança” dos primeiros disparos e o horror que cresce enquanto eles continuam. O medo registrado no início permanece compreensível; o que muda, tiro após tiro, é quanto esse medo passa a permitir.
Quando alguém diz que busca segurança, ordem ou proteção da família, ainda resta entender o que cada uma dessas palavras autoriza concretamente. Do que essa pessoa tem medo? O que acredita estar protegendo? Quem aparece como ameaça? Que poderes considera necessários para enfrentá-la? Aceitaria os mesmos poderes nas mãos do candidato adversário? E quem suportará as consequências caso esse limite seja ultrapassado? As respostas dizem mais sobre a relação entre cuidado e política do que presumir, desde o início, que uma escolha eleitoral revelou toda a vida moral de quem a fez.
Os estudos sobre empatia e polarização mostram que pertencimento, percepção do adversário e distribuição da empatia respondem ao contexto e, em algumas condições, à informação. Essas fronteiras não permanecem necessariamente no mesmo lugar. Clarice chega ao décimo terceiro tiro escrevendo “porque eu sou o outro”, reconhecendo-se no homem de quem, nos primeiros disparos, ainda se sentia protegida. A política raramente produz uma mudança dessa ordem de uma vez, e nenhuma conversa pode garanti-la. Em muitas das pessoas encontradas nessas conversas, porém, o cuidado já existe na prática cotidiana. A pergunta passa a ser onde ele se interrompe, quem ficou além dessa interrupção e o que pode fazer com que alguém percebido apenas como ameaça volte a aparecer também como uma pessoa cuja vida, liberdade e direitos têm peso.
Referências de apoio
1. Instituto Moreira Salles (IMS). “Quem foi Mineirinho: bastidores de uma crônica.” 31 maio 2013. https://site.claricelispector.ims.com.br/2013/05/31/quem-foi-mineirinho-bastidores-de-uma-cronica/
2. Tribunal Superior Eleitoral. “Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão disputar o 2º turno para a Presidência da República.” 5 out. 2026. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/flavio-bolsonaro-e-lula-vao-disputar-o-2o-turno-para-a-presidencia-da-republica
3. Folha de S.Paulo. “Entenda a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro pelo Brasil em 16 gráficos.” 7 out. 2026. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/entenda-a-disputa-entre-lula-e-flavio-bolsonaro-pelo-brasil-em-16-graficos.shtml
4. TVT News. “Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga, Anitta e BTS: fandoms se mobilizam por Lula no 2º turno.” 6 out. 2026. https://tvtnews.com.br/fandoms-beyonce-taylor-gaga-anitta-bts-por-lula/
5. Decety, Jean; Cowell, Jason M. “The complex relation between morality and empathy.” Trends in Cognitive Sciences, v. 18, n. 7, p. 337–339, 2014. DOI: 10.1016/j.tics.2014.04.008. https://doi.org/10.1016/j.tics.2014.04.008
6. Bruneau, Emile G.; Cikara, Mina; Saxe, Rebecca. “Parochial Empathy Predicts Reduced Altruism and the Endorsement of Passive Harm.” Social Psychological and Personality Science, v. 8, n. 8, p. 934–942, 2017. DOI: 10.1177/1948550617693064. https://doi.org/10.1177/1948550617693064
7. Datafolha. “Sobe a 73% os que dizem preferir democracia; índice era de 69% em 2024.” Folha de S.Paulo, 2 out. 2026. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/datafolha-sobe-a-73-os-que-dizem-preferir-democracia-indice-era-de-69-em-2024.shtml
8. Albertus, Michael; Grossman, Guy. “The Americas: When Do Voters Support Power Grabs?” Journal of Democracy, v. 32, n. 2, p. 116–131, 2021. DOI: 10.1353/jod.2021.0023. https://doi.org/10.1353/jod.2021.0023
9. Petherick, Anna; Ramos, Guilherme A.; Furst, Rodrigo; Goldszmidt, Rafael; Andrade, Eduardo B. “Dynamics of sociopolitical polarization and effects of misperception-correcting information around the 2022 Brazilian elections.” Nature Communications, v. 17, art. 4862, 2026. DOI: 10.1038/s41467-026-72990-9. https://doi.org/10.1038/s41467-026-72990-9
10. Balducci, Gustavo. “Do pop à política: a força dos fandoms brasileiros.” ELLE Brasil, 3 out. 2026. https://elle.com.br/view/do-pop-a-politica-fandoms
11. Greenpeace Brasil. “Conheça os fãs de K-Pop e a sua luta pelo meio ambiente.” 18 jun. 2021. https://www.greenpeace.org/brasil/blog/conheca-os-fas-de-k-pop-e-a-sua-luta-pelo-meio-ambiente/
*Doutora Honoris Causa em Direitos Humanos. Advogada com OAB-SP 491.193 formada em Direito na Fundação Getulio Vargas de São Paulo.




