O ponto mais baixo do espírito obsessor foi quando ele imitou, arremedou, debochou dos problemas de saúde vocal adquiridos por Lula em 50 anos de trabalho e esforço pelo povo brasileiro
em Come Ananás
Na noite de 25 de outubro de 2002, Lula estava no Hotel Glória recebendo de Duda Mendonça as últimas orientações para o debate do segundo turno da Globo, contra José Serra. Na TV de tubo, no JN, Fátima Bernardes chamava para dali a pouco: “os dois homens que disputam os votos de mais de 115 milhões de eleitores têm um encontro esta noite”. A última, derradeira, a orientação final dada por Duda Mendonça a Lula naquela noite, momentos antes do debate, foi essa aqui:
“Não tem que tentar esnobar o outro, que isso as pessoas em casa percebem”.
Isso foi há 24 anos, há quase um quarto de século. O Brasil tem hoje mais de 158 milhões de eleitores. O Hotel Glória não existe mais, virou condomínio de luxo com rooftop gourmet, ponto de pouso para drones e academia Bodytech. Duda Mendonça morreu em 2021. José Serra, com doença de Parkinson, está afastado da política.
Lula da Silva está aí e tem o apoio de Fátima Bernardes contra o bolsonarismo, pela democracia. Lula da Silva está aí e na noite deste domingo, 18, naquilo que a Band chamou de “debate”, Lula foi durante duas horas acossado, como disse o jornalista Alceu Castilho, mal assombrado por um espírito obsessor, como estão dizendo nas redes sociais. Ectoplasma, aparição captada pelas câmeras ao fundo, ao vivo, atazanando com gestos e risinhos de encosto quem as ruas, as pesquisas e o general André Janones mostram que está bem vivo para o dia 25, domingo que vem.
O formato do debate da Band é tipo os algoritmos da Meta: favorece a impostora, a truculência, o açulamento oportunista dos piores preconceitos, a catarse sem eira nem beira, o vale tudo, o ódio, a zombaria. Favorece, portanto, a extrema direita. Está menos para debate e mais para telecacth e seus golpes de “cavalariça”, quando um lutador subia nas costas do outro, para humilhar o oponente, fazendo ouvidos moucos às broncas do juiz também de mentirinha, lá nos tempos de Ted Boy Marino.
Aliás, há um “aclamado” filme de terror tailandês lançado em 2004 no qual um homem sofre com dores inexplicáveis nas costas e na nuca. No final, uma foto de Polaroid revela, como as câmeras da Band, a causa da cervicalgia do protagonista: um espírito vingativo montado o tempo todo em seus ombros.
No “debate” da Band, o ponto mais baixo da molecagem do filho de peixe, que peixinho é, foi quando poltergeist, em suas considerações finais, imitou, arremedou, debochou dos problemas de saúde vocal adquiridos por Lula em 50 anos de comícios, discursos, campanhas, 50 anos de trabalho e esforço pelo povo brasileiro.
A essa altura do campeonato, não se sabe ao certo o que se passa na cabeça dos indecisos, o que querem exatamente ver e ouvir os agora chamados também de “não polarizados”. Espera-se que Duda Mendonça siga com razão, que as pessoas em casa percebam que o encosto que neste domingo só fez zombar, esnobar, quer passar quatro anos, no mínimo quatro anos, montado nos ombros não de Lula, mas do país, atormentando o país.
Naquela noite de 25 de outubro de 2002, no Hotel Glória, após dar a Lula a recomendação final para o debate da Globo, naquela noite, a menos de 48 horas do segundo turno e da primeira eleição de Lula para a presidência da República, Duda Mendonça vira para José Dirceu e diz:
“Tá acabando, Zé Dirceu!”
Dirceu discorda:
“Tá acabando, não. Tá começando”.
E aqui estamos, quase um quarto de século depois. E vamos vencer outra vez.




