Quem ganhará os sentidos do Brasil nas redes?

Em ação puxada por André Janones, a camiseta verde-amarela se tornou manifestação de apoio a Lula. Interrompeu, assim, a leitura automática de símbolos nacionais sequestrados pelo bolsonarismo – e lembrou que a disputa pelo algoritmo não é batalha perdida

Por Geórgia Freitas, em Outras Palavras

Nove horas da manhã do dia 17 de outubro de 2026 e o feed dos brasileiros jorrava imagens de personalidades com a camisa da seleção brasileira nas redes sociais sob uma configuração discursiva que desafia um repertório monolítico da extrema direita. Fotografias de pessoas vestidas de verde e amarelo, com a mão formando o L começaram a circular em uma mobilização convocada pelo deputado André Janones, por meio do canal de Whatsapp denominado Exército de Lula.

A iniciativa acompanhou figuras públicas, além do próprio presidente, e não se limitou à demonstração de mais um apoio eleitoral. A ação objetivava deliberar o deslocamento de sentidos: fazer com que uma mesma imagem contemplasse dois discursos relacionados às posições políticas opostas e engessadas em interface ao campo da identificação eleitoral de quem postava.

A travessia algorítmica buscou vencer a monopolização associativa entre o uniforme da seleção brasileira e setores da direita. Esse processo produziu condições para que o mesmo objeto fosse interpretado de maneiras diferentes em um contexto de circulação.

Esse movimento evocou pontos importantes da análise do discurso: as palavras não são as únicas depositárias de sentidos, mas também os gestos, imagens e inclusive a ruptura com o acervo ideológico que aponta exclusivamente para um campo da significação.

Michel Pêcheux demonstrou a importância das formações discursivas na produção de sentido. Eni Orlandi, o desenvolver a análise do discurso no Brasil contribuiu para compreender como a linguagem articula sujeitos, histórias e ideologia. Uma camisa, portanto, não significa sozinha. Ela significa nas relações que estabelece com outros signos e com os acontecimentos uma renovação significativa e algoritimizada.

A fotografia de uma pessoa vestida de verde e amarelo poderia até evocar patriotismo, futebol, nacionalismo ou identificação partidária. Nesse sábado, ela venceu inclusive as cores do outubro rosa e, composta em cena com a letra L, introduziu um novo elemento que tensionou discursos, outrora, estabilizados.

O gesto do L reorganizou a leitura. A mobilizou funcionou como um marcador de posicionamento político e como operador de uma reinterpretação da imagem. A presença gestual relacionou corpo, vestimenta e enunciado. O efeito não depende exclusivamente de uma legenda verbal. O corpo emitiu a mensagem e combinou elementos visuais reconhecíveis por elementos antes opostos e agora bimembres.

Essa articulação pode ser compreendida pela multimodalidade, campo que examina a produção de significados por diferentes recursos semióticos. Na perspectiva de Gunther Kress, imagens, enquadramentos, posições e elementos visuais participam da organização da comunicação. Nesse episódio, o símbolo não é (re)inventado. Ele é disputado.

A operação discursiva consiste em aproximar elementos que parte de públicos opostos. O efeito pretendido é interromper uma leitura automática: se a camisa brasileira é vestida, não significa que o cidadão revela uma posição eleitoral. Apenas um gesto ou postura performática revelará o seu partidarismo. Para a Linguística, o episódio reafirma que a linguagem não é apenas instrumento de transmissão de informações. Ela participa da produção das identidades, das formas de pertencimentos e dos conflitos sociais.

A bandeira continua em disputa e o algoritmo também. Os símbolos nunca pertencerão eternamente a um mesmo discurso. E é isso que a ultradireita ainda não entendeu.


Referências

KRESS, Gunther; VAN LEEUWEN, Theo. Reading Images: The Grammar of Visual Design. 2. ed. London: Routledge, 2006.

ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.

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