Lula: a história encarnada. Por Carlos Eduardo Araújo

No A Terra é Redonda

A trajetória de Lula simboliza a ascensão política das camadas populares, a valorização das políticas sociais e a possibilidade de um Brasil em que cidadãos historicamente marginalizados se reconheçam como protagonistas da própria história

1.

No dia 21 de outubro, eu vi a história passar diante dos meus olhos. Não, não foi apenas isso. Eu vi a história desfilar à minha frente, ganhar corpo, rosto, voz e presença. A poucos metros de mim, estava Luiz Inácio Lula da Silva. E, naquele instante, uma emoção quase histérica, dessas que transbordam os limites da razão e fazem o coração esquecer a prudência, tomou conta de mim e de todos os que estavam à minha volta.

Não era apenas um homem que estava ali. Era um símbolo. Era a história encarnada em um corpo marcado pelo tempo, pelas lutas, pelas adversidades e pelas cicatrizes de uma vida extraordinária. Lula é, talvez, a mais eloquente metonímia do povo brasileiro, a parte que contém o todo, o todo que contém a parte, o indivíduo em cuja trajetória se reconhece a trajetória coletiva de milhões de brasileiros. Nele, o singular e o plural se encontram, o destino de um homem se entrelaça ao destino de uma nação, e a biografia individual se transforma em capítulo da história de um povo.

Ao meu lado, estavam pessoas simples. Conversei brevemente com algumas delas. Gente cuja vida não foi necessariamente favorecida pelo dinheiro, pela educação formal ou pelas oportunidades que costumam abrir as portas do mundo. Pessoas que talvez jamais tenham lido um tratado de ciência política, uma obra de sociologia ou um livro de história.

Mas que, naquela ocasião, revelavam uma compreensão admirável da grandeza daquele homem. Havia nelas uma espécie de clarividência política, uma inteligência que não precisa exibir títulos nem ostentar diplomas para reconhecer o significado de uma existência.

E pensei, não sem uma ponta de amargura, em tantos intelectuais empedernidos, em tantos donos da verdade acadêmica que, durante décadas, olharam Lula de cima para baixo. Para eles, era apenas um operário sem instrução suficiente, um homem que não dominava os códigos da cultura das elites, alguém supostamente desprovido das credenciais intelectuais necessárias para governar um país.

Como se a capacidade de compreender o mundo pudesse ser medida exclusivamente pelos diplomas pendurados nas paredes. Como se a inteligência política, a sensibilidade social e a experiência humana fossem atributos que se adquirem apenas nos bancos das universidades.

Cobrou-se de Lula até mesmo o fato de não falar inglês ou francês. Recordo-me de professores de direito, alguns reconhecidos em seus círculos acadêmicos, exibindo vídeos de Fernando Henrique Cardoso a falar francês, com o intuito de depreciar Lula, em uma comparação infame, como se a fluência em um idioma estrangeiro constituísse, por si só, um atestado de superioridade política e moral. A comparação, apresentada como argumento, escondia um preconceito mais profundo: o de que o homem vindo do povo precisaria justificar permanentemente sua presença nos lugares reservados às elites.

2.

Fernando Henrique Cardoso tinha seus títulos, seus livros, seus prêmios, sua formação intelectual respeitável. Nada disso lhe faltava. Mas a história não se escreve apenas com diplomas, nem se mede pelo número de livros publicados. Também se escreve com escolhas, com políticas públicas, com os destinos que se alteram e com as vidas que se tornam possíveis. E é nesse terreno, o da experiência concreta de um país e de seu povo, que os governantes precisam ser julgados.

Nos oito anos de seu governo, Fernando Henrique Cardoso conduziu um programa de privatizações que deixou marcas profundas na economia brasileira, enquanto o salário mínimo permanecia em patamares aviltantes. Lula, por sua vez, colocou a questão social no centro do debate nacional, ampliou políticas de inclusão e fez da redução da pobreza e da desigualdade compromissos fundamentais de seu projeto político.

Não se trata de transformar um homem em santo ou de negar os limites de seus governos. Trata-se de reconhecer a dimensão histórica de uma mudança de prioridades, de uma maneira diferente de olhar para o Brasil e, sobretudo, para os brasileiros que durante tanto tempo permaneceram à margem.

Lula não fez tudo o que poderia ter feito. Talvez nenhum presidente, submetido às contradições de nossa democracia, às resistências do poder econômico, aos interesses financeiros, às disputas parlamentares e à hostilidade de setores da imprensa, pudesse realizar tudo aquilo que desejava. Enfrentou maiorias adversas, obstáculos institucionais e forças que jamais aceitaram de bom grado a ascensão política dos mais pobres.

Ainda assim, fez muito. Fez o que foi possível, avançou onde tantos antes dele sequer tentaram avançar e demonstrou que o Brasil não estava condenado a ser governado exclusivamente por aqueles que sempre o governaram.

É isso que me emociona em Lula. Não a ideia de um homem infalível, pois a infalibilidade pertence aos mitos, não à política. Não a imagem de um herói imune às críticas, porque a democracia exige o direito de questionar até mesmo aqueles que admiramos. O que me comove é a extraordinária distância percorrida entre o menino pobre do Nordeste, o retirante que conheceu as privações de uma família migrante, o operário que experimentou a dureza do trabalho e o homem que chegou à Presidência da República sem jamais renegar suas origens nem esquecer o povo do qual emergiu.

Uma trajetória que, por si só, já seria digna de atenção, mas que adquire outra dimensão quando se considera o que ela representa para milhões de brasileiros que jamais se viram verdadeiramente refletidos nos espaços do poder.

3.

Há, nessa trajetória, algo que ultrapassa a biografia de um indivíduo. Há uma ruptura simbólica. Pela primeira vez, muitos brasileiros puderam olhar para a Presidência da República e reconhecer nela alguém que falava com a linguagem de suas casas, conhecia a aspereza de suas dificuldades e compreendia, não apenas por estatísticas ou relatórios técnicos, mas pela própria experiência, o que significa viver sem as garantias elementares de uma existência digna.

É por isso que Lula é história. E nós, cidadãos deste presente, temos o privilégio de assistir à história enquanto ela ainda acontece. Talvez não tenhamos plena consciência do significado do tempo em que vivemos. As gerações futuras, daqui a algumas décadas, talvez daqui a um século, examinarão seus governos, suas contradições, suas conquistas e seus fracassos.

Estudarão os documentos, confrontarão os números, avaliarão as decisões e procurarão compreender como um operário chegou à Presidência de uma das maiores nações do planeta e o que sua presença significou para a democracia brasileira.

Nós, porém, temos algo que os historiadores do futuro não terão: a possibilidade de testemunhar. Podemos vê-lo, ouvi-lo, acompanhar seus passos, perceber a reação das pessoas à sua passagem. Podemos sentir, na carne, a emoção de estar diante de alguém cuja existência já ultrapassou os limites da vida privada para ingressar no território mais amplo da memória coletiva e da história de nosso país.

E foi exatamente isso que me aconteceu ontem. Eu gritei. Gritei com uma intensidade que talvez beirasse o desvario. Por alguns instantes, perdi a medida habitual das coisas. Quis lançar-me do lugar em que estava, atravessar a distância que me separava dele, abraçá-lo, beijá-lo, dizer-lhe, de perto, aquilo que as palavras escritas tantas vezes não conseguem transmitir: obrigado.

Obrigado por representar, com todas as imperfeições inerentes à condição humana, a possibilidade de um Brasil menos indiferente à dor dos seus filhos. Obrigado por ter demonstrado que a origem social não precisa determinar o horizonte de uma existência. Obrigado por ter feito milhões de brasileiros compreenderem que também lhes pertence o direito de sonhar, de participar, de ocupar os espaços públicos e de reivindicar um lugar na história.

4.

Talvez alguém considere excessiva essa emoção. Talvez haja quem a interprete como ingenuidade, fanatismo ou simples manifestação de paixão política. Não me surpreenderia. Há sempre quem se sinta mais confortável diante da frieza dos conceitos do que diante da intensidade dos sentimentos. Mas a história não é feita apenas de estruturas econômicas, instituições, estatísticas e relações de poder. Ela também é feita de esperanças, de afetos, de símbolos e da necessidade humana de reconhecer, em alguém, a possibilidade de um mundo diferente.

O que me entristece, em contrapartida, é assistir à persistência de uma parcela da imprensa brasileira que parece empenhada em diminuir Lula, desqualificá-lo, reduzir suas realizações ou negar-lhe a estatura que o tempo talvez venha a confirmar. Não reivindico para ele imunidade à crítica, nem considero que o jornalismo deva abdicar de sua função fiscalizadora.

Ao contrário: uma democracia saudável depende de uma imprensa livre, rigorosa e independente. Mas a crítica se torna outra coisa quando abandona a medida, quando o preconceito se disfarça de análise e quando a rejeição política se converte em incapacidade de reconhecer os fatos.

O olhar internacional, por sua vez, oferece uma perspectiva que merece ser considerada. Lula tornou-se uma figura de projeção mundial, interlocutor de chefes de Estado, presença recorrente nos grandes debates sobre desigualdade, democracia, desenvolvimento e meio ambiente. Sua trajetória desperta reconhecimento e controvérsia, admiração e resistência, como costuma acontecer com as figuras que ocupam posições relevantes na política mundial. Não é necessário idolatrá-lo para reconhecer que sua presença ultrapassa as fronteiras brasileiras e que seu nome já pertence à história política contemporânea.

Mas nada disso explica inteiramente o que senti ontem. Nenhuma análise acadêmica, nenhuma estatística, nenhum argumento político seria suficiente para traduzir aquela experiência. Porque, por alguns instantes, a história deixou de ser uma abstração encontrada nas páginas dos livros. Deixou de ser matéria de sala de aula, objeto de pesquisa ou tema de discussão entre intelectuais. A história estava ali, a poucos metros de mim, cercada por gente que sorria, gritava, acenava e tentava, de alguma maneira, tocar o instante.

E eu estava entre essas pessoas. Foi então que compreendi, mais uma vez, que há momentos em que o presente adquire uma densidade incomum. Momentos em que a vida parece suspender seu curso ordinário e nos permite perceber que estamos participando de algo que talvez sobreviva a nós. Temos convicção que o futuro julgará Lula com a justiça que ele merece. Ainda que a história, quando amadurece, seja sempre mais complexa do que as paixões de seu tempo. Mas sabemos que sua trajetória já modificou a maneira como milhões de brasileiros pensam a si mesmos, o país em que vivem e as possibilidades que lhes são oferecidas.

Eu vi tudo isso passar diante dos meus olhos. Vi o homem, mas enxerguei o símbolo. Vi o presidente, mas reconheci o personagem histórico. Vi Luiz Inácio Lula da Silva, mas, naquele instante, também vi o Brasil dos retirantes, dos operários, das mulheres e dos homens anônimos que sustentam o país com o trabalho de cada dia e que, tantas vezes, foram condenados a assistir à história da calçada, sem jamais imaginar que um dia poderiam ocupar o centro da cena.

A poucos metros de mim, estava Lula. E, por um instante, tive a impressão de que o passado, o presente e o futuro se encontravam naquele mesmo lugar. Talvez seja isso que chamamos de emoção histórica: a consciência súbita, quase física, de que estamos diante de algo maior do que nós, de que a vida nos concedeu o privilégio de testemunhar um acontecimento que não cabe inteiramente no instante em que ocorre.

Eu vi a história desfilar diante de mim. E, enquanto minha voz se misturava à voz de tantas outras pessoas, enquanto meu coração parecia não caber no peito, uma certeza me atravessou: há momentos que não precisam esperar pelos livros para se tornarem inesquecíveis. A história passou a poucos metros de mim. Seu nome era Luiz Inácio Lula da Silva. E eu estava lá.

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*Carlos Eduardo Araújo é mestre em Teoria do direito pela PUC-MG.

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