Era véspera do segundo turno. Por Mauro Iasi

No Blog da Boitempo

Não tento prever o futuro
Tudo que eu quero é evitá-lo.
Ray Bradbury

Era véspera do segundo turno e nós poderíamos evitar tudo aquilo. Mas, não evitamos.

O miliciano subiu a rampa e recebeu a faixa do golpista. A primeira dama traduzia para a linguagem dos surdos que não ouviam o aviso dos trovões anunciando a tempestade. Hordas fascistas sentiram-se a vontade para odiar. Crianças apedrajadas na saída do templo de umbanda, escolas invadidas, pessoas hostilizadas por deputadas armadas pelas ruas. A ignorância se vestiu de júbilo e desacreditou a ciência. O filósofo mais citado passou a ser um astrólogo autor de uma obra medíocre sobre a mediocridade. O juíz injusto nomeado ministro da justiça, a fundamentalista ordenando que meninos usassem azul e meninas cor de rosa enquanto subia na goiabeira para assediar Jesus. Uma ressentida ex-atriz, agora latifundiária, substituiu um nazista e faria discurso sobre puns de palhaços na secretaria da Cultura, o ministro das relações exteriores, segurando o planisfério da terra plana e um chapéu de papel alumínio jogava o Brasil no escárnio internacional, o ministro da educação falsificou seu currículo, outro louvava à Deus em barras de bezerros de ouro, até o mão de tesouras assumir para tentar destruir a universidade.  Em uma reunião de ministros ouvia-se o presidente miliciano bravejando contra a perseguição aos filhos e pedindo a intervenção na polícia federal, um marreco passeava pela sala sem nada dizer e desviando o olhar. O ministro da economia destilava palavrões enquanto se vangloriava de ter vendido o Brasil e ter colocado uma granada no bolso dos servidores, ao mesmo tempo em que mandava se foder quem se endividou nas bets. Um vírus mortal se abateu sobre o mundo, pessoas sufocavam até a morte afogando-se em seus próprios fluídos, enquanto o presidente ria, imitava os moribundos e afirmava não ser coveiro. Mas de setecentas mil mortes, pelo menos trezentas mil poderiam ter sido evitadas, o oxigênio acabava nos hospitais, o miliciano alimentava as emas com remédio para piolhos e atrasava a compra de vacinas. Um general especialista em logística, sem nenhuma qualificação médica, assumiu o ministério da saúde e milhares de covas foram abertas. As florestas ardiam em chamas enquanto o ministro do meio ambiente passava a boiada e o miliciano presidente falava impropérios no cercadinho para porcos, comendo frango e derrubando farofa ao mesmo tempo que caminhões de lagosta, picanha, próteses penianas e viagra eram levados aos quartéis. O parlamaento aplaudia e o Supremo Tribunal Federal prevaricava. Um acordo abaixo da linha de visibilidade da República mantinha Lord Voldemort no poder, apesar dos crimes e das claras manifestações golpistas. Quando os quatro anos de terror passaram e o país respirava aliviado com a derrota do aspirante a fascista nas eleições, as maltas de zumbis acamparam na frente dos quartéis, atentados, bombas, celulares nas cabeças ocos clamando por extra-terrestres, crentes orando para pneus; até que o chorume brotou do esgoto e invadiu Brasília, quebrando vidraças, despedaçando o relógio de D. Pedro, cagando no Congresso, onde antes só deputados cagavam, furaram obras de arte inestimáveis e queimaram o STF sob o olhar de uma senhora cega carregando uma balança quebrada e uma espada sem fio. O chefe dos golpistas fugiu para os EUA para comandar o golpe, plano de assassinato do presidente eleito, do vice e do ministro, além de uma lista daqueles que deveriam ser eliminados na sequência.

Os mortos, Moas, Marielles, Mariguellas, Herzogs, Lamarcas acordaram os ossos escondidos nas covas rasas de 1964 e gritaram em sinal de alerta. Uma chance, uma pálida esperança e um canalha soluçando na Papuda e nós nos distraímos. Agora é véspera do segundo turno, de novo, e nós podemos evitar tudo isso.

Nós ainda podemos evitar tudo isso. Nós podemos… não podemos?

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