A virada de Lula no segundo turno é a mais importante eleição desde a Nova República. Entrevista especial com Michelangelo Torres

Após reeleição do presidente Lula, o grande desafio é transformar a capacidade de mobilização em força política duradoura, avalia o sociólogo

Por: Luana de Oliveira e Patricia Fachin, em IHU

A vitória do presidente Lula na eleição deste ano entrará para a história como um dos “maiores atos políticos” desde a Campanha das Diretas Já, nos anos 1980. Trata-se de “a eleição mais importante da Nova República”, diz Michelangelo Torres, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por email. A defesa da democracia, avalia o entrevistado, impulsionou a virada histórica no segundo turno. “A maioria do eleitorado compreendeu o perigo representado pela candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O nome de Flávio está associado a relações com integrantes de milícias criminosas, a vínculos políticos com pessoas envolvidas em atividades criminosas e a um projeto golpista que não conseguiu se consolidar no país”, sublinha.

A reeleição de Lula com 51,79% contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, contudo, adverte o sociólogo, não pode ignorar um dado que o resultado da eleição revela: o país continua “socialmente fraturado e politicamente polarizado”. Entre os principais desafios do próximo governo, Torres destaca a necessidade de “transformar a vitória nas urnas em melhorias concretas nas condições de vida da classe trabalhadora, com geração de empregos de qualidade, valorização dos salários, ampliação dos direitos sociais, fortalecimento dos serviços públicos e redução das desigualdades de classe, raça e gênero”. Politicamente, acrescenta, “será fundamental ampliar a participação popular, fortalecer as organizações da classe trabalhadora e reconstruir vínculos entre a esquerda e os setores populares. A questão talvez seja: o governo de ampla aliança encabeçado por Lula estará disposto a isso?”

A seguir, Michelangelo Torres analisa os desafios políticos, econômicos e sociais do quarto mandato Lula, o futuro do bolsonarismo, e os impactos do resultado eleitoral nos rumos políticos da América Latina.

Michelangelo Marques Torres é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Sociologia e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação da Faculdade de Educação da USP.

Eis a entrevista.

IHU – O que explica a virada do presidente Lula no segundo turno?

Michelangelo Torres – O que vimos nas eleições de 2026 foi um cenário de intensa disputa, incertezas e enfrentamentos. O resultado do primeiro turno foi desfavorável a Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente da República, que agora conquistou a reeleição. Contrariando a maioria das pesquisas de opinião pública, o candidato petista alcançou 45,16% dos votos válidos, enquanto o candidato de extrema-direita, Flávio Bolsonaro, obteve 47,03%. Uma diferença de 1,87 ponto percentual, equivalente a 2.224.965 votos. Assim, Lula chegou ao segundo turno em desvantagem em relação ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No primeiro turno, é preciso considerar também que 21,08% do eleitorado não compareceu às urnas, o equivalente a cerca de 33 milhões de pessoas. Além disso, os votos brancos e nulos somaram quase 5% do total.

Lula tinha, portanto, o desafio não apenas de conquistar votos de eleitores que haviam optado por outras candidaturas, mas também de disputar o apoio daqueles que não compareceram às urnas ou anularam seus votos no primeiro turno. Soma-se a isso o universo dos chamados votos flutuantes, estimado em 7,8% do eleitorado e composto, em particular, por pessoas que haviam votado em candidaturas derrotadas no primeiro turno, especialmente Cury, Renan e Caiado. A disputa por esses votos, assim como o esforço de convencimento de quem se absteve ou anulou o voto, foi decisiva para definir o desfecho eleitoral.

Contudo, o que vivemos nas três semanas seguintes foi um momento histórico da política brasileira. Desenrolou-se uma intensa campanha eleitoral, que foi muito além do petismo e de seus bastidores de articulação. Se é verdade que a campanha de Lula mudou de rumo no segundo turno, passando de uma campanha mais fria para uma disputa política mais acirrada, com diálogo mais direto com a população e enfrentamento mais contundente de seu adversário, também — e isso é essencial — vimos uma mobilização extraordinária nas ruas e nas redes.

Grandes atos de massa foram mobilizados em diversas cidades e estados brasileiros para reeleger Lula ou, mais precisamente, para barrar a possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro e tudo o que seu projeto político neofascista representa. Os atos pela virada de Lula tomaram as ruas do país. Só nas duas últimas semanas, tivemos, possivelmente, os maiores atos políticos da história brasileira desde, pelo menos, a campanha das Diretas Já, na década de 1980. Para se ter uma ideia da dimensão dessa mobilização, apenas na Avenida Paulista reuniram-se cerca de 1 milhão de pessoas, e, no sábado que antecedeu as eleições, o público também ultrapassou a marca de 1 milhão.

Somados aos atos de massa, o ativismo digital e a intensa disputa nas redes sociais também assumiram papel central na campanha. Travou-se uma verdadeira batalha permanente contra a desinformação e as fake news bolsonaristas, em meio a denúncias de assimetrias no alcance dos conteúdos, restrições à circulação de publicações favoráveis à candidatura de Lula e intervenções judiciais que afetaram a dinâmica da disputa eleitoral.

Disputa pela opinião pública

Nesse cenário, ganhou projeção o chamado “exército do Lula”, impulsionado, entre outros, pela atuação do deputado federal André Janones, que convocou militantes e apoiadores a romper a bolha da esquerda e disputar diretamente a opinião pública nas plataformas digitais. A dimensão alcançada por essa mobilização, com milhões de seguidores em seus canais, evidenciou a importância estratégica da comunicação digital na disputa política brasileira. O canal atingiu a marca de 10 milhões de seguidores, apesar das intervenções da Justiça Eleitoral que afetaram a mobilização digital pró-Lula.

Outra modalidade de militância, em parte relegada a segundo plano por setores da esquerda brasileira nos últimos anos, voltou a ganhar força: o trabalho de base. O contato olho no olho, o diálogo direto dos ativistas — para além dos militantes petistas — com a população, a escuta atenta e a conversa franca com os trabalhadores nas ruas, nas panfletagens e nas atividades de mobilização imprimiram um novo tom militante à campanha de Lula.

Mais do que a disputa nas redes sociais e nos espaços institucionais, procurou-se recuperar a presença cotidiana junto à classe trabalhadora, compreender suas inquietações, dialogar com suas experiências concretas e reconstruir laços de confiança e solidariedade. Essa disposição para a mobilização demonstrou que existe energia social para enfrentar uma conjuntura adversa e disputar os rumos políticos do país em defesa da democracia.

Em outras palavras, o que impulsionou a virada no segundo turno não foi apenas o programa político ou o legado de Lula, mas, sobretudo, a unidade em defesa da democracia. A maioria do eleitorado compreendeu o perigo representado pela candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O nome de Flávio está associado a relações com integrantes de milícias criminosas, a vínculos políticos com pessoas envolvidas em atividades criminosas e a um projeto golpista que não conseguiu se consolidar no país.

Flávio Bolsonaro se apresentou como o principal representante do bolsonarismo, uma corrente de extrema-direita marcada pelo autoritarismo e pela oposição aos direitos humanos, aos direitos trabalhistas e às liberdades democráticas. Trata-se de um campo político que ameaça conquistas históricas da sociedade brasileira, cuja agenda coloca em questão direitos fundamentais, garantias democráticas e a própria convivência política plural.

IHU – Que retrato de Brasil se revela a partir do resultado das urnas?

Michelangelo Torres – Esta talvez tenha sido a eleição mais importante da Nova República. A chapa Lula-Alckmin, da coligação Brasil Pronto para Mais, formada pela Federação Brasil da Esperança (Fé Brasil), composta por PT, PCdoB e PV, além de PSB, PDT e Federação PSOL-Rede, obteve 51,77% dos votos válidos no segundo turno, reelegendo Lula à Presidência da República. A chapa de Flávio Bolsonaro (PL), com Alfredo Gaspar (PL) como candidato a vice-presidente, recebeu 48,23% dos votos válidos. Foi um resultado eleitoral extremamente acirrado, com uma diferença de apenas 3,54 pontos percentuais. Foi com emoção!

Brasil socialmente fraturado e politicamente polarizado

Apesar da importante vitória de Lula, o resultado revela um Brasil socialmente fraturado e politicamente polarizado. Engana-se a imprensa comercial ao vislumbrar qualquer possibilidade de “pacificação” entre forças políticas antagônicas no cenário brasileiro. O bolsonarismo foi derrotado na disputa presidencial, mas poderá sair politicamente fortalecido para 2027.

O primeiro turno já havia evidenciado o avanço das forças de direita e extrema-direita e a configuração de um Parlamento ainda mais conservador e reacionário. O desempenho eleitoral do PL e de seus aliados aponta para um cenário particularmente adverso a partir de 2027. A esquerda acumula derrotas políticas importantes, terá sua capacidade de atuação institucional ainda mais limitada e precisará enfrentar uma correlação de forças desfavorável. Portanto, apesar da expressiva vitória eleitoral de Lula na disputa presidencial, o horizonte será de intensa disputa política e de persistente polarização.

Bolsonarismo

Vale lembrar o cenário posterior às eleições de 2014. Embora Dilma Rousseff tenha sido reeleita, a margem de votos foi estreita, e seu governo passou a enfrentar um Congresso Nacional cada vez mais hostil, além de uma oposição de direita fortemente mobilizada. Foi nesse contexto que a nova direita reacionária ganhou amplitude, deslocando o PSDB, representante da direita liberal tradicional, da posição de principal força de oposição ao lulopetismo. O desfecho foi o golpe parlamentar que impôs o impeachment da presidenta. Esse perigo volta a se colocar como uma possibilidade que não pode ser subestimada.

O bolsonarismo representa hoje um bloco político cujo núcleo duro constitui uma ameaça às liberdades democráticas, aos direitos sociais consagrados pela Constituição Federal de 1988 e ao conjunto das conquistas históricas da sociedade brasileira. Não nos enganemos quanto aos seus objetivos: o que está em jogo é um projeto de subversão da ordem democrática construída ao longo da Nova República. A derrota eleitoral na disputa presidencial não significa, portanto, o fim do bolsonarismo, tampouco o esvaziamento de sua capacidade de mobilização política e social.

IHU – Considerando a perspectiva histórica e a conjuntura nacional e internacional, qual é o significado político, econômico e social do quarto mandato do presidente Lula?

Michelangelo Torres – Para o Brasil, a vitória eleitoral de Lula tem um significado imenso, sobretudo para a esquerda brasileira. Entretanto, os desafios também serão enormes. O resultado eleitoral brasileiro deverá influenciar os rumos políticos da América Latina e, em particular, a correlação de forças na disputa entre projetos de soberania nacional — ainda que submetidos aos constrangimentos impostos pelo capital financeiro — e a ofensiva imperialista norte-americana e ultraconservadora na região nos próximos anos.

Esse cenário ganha ainda mais relevância diante da crescente ofensiva do governo de Donald Trump sobre a América Latina. É nesse contexto que a eleição brasileira adquire uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais, em razão da posição estratégica do Brasil, de seu peso econômico e demográfico e de sua capacidade de projeção política no continente e no mercado mundial. Afinal, a América Latina está no centro de disputas geopolíticas contemporâneas que envolvem interesses econômicos, estratégicos e políticos de grandes potências.

O quarto mandato de Lula representa, assim, uma oportunidade importante para a defesa da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional, além de abrir possibilidades para a reconstrução de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades. Contudo, a vitória eleitoral, por si só, não garante avanços nessa direção. Será necessário enfrentar os interesses do capital financeiro, as pressões do mercado, as limitações impostas pela correlação de forças no Congresso Nacional e a atuação de uma direita que continuará mobilizada. E neste ponto, certamente teremos uma monumental oposição, somada às pressões do capital e da grande mídia corporativa.

Melhorias concretas

Do ponto de vista econômico e social, o desafio será transformar a vitória nas urnas em melhorias concretas nas condições de vida da classe trabalhadora, com geração de empregos de qualidade, valorização dos salários, ampliação dos direitos sociais, fortalecimento dos serviços públicos e redução das desigualdades de classe, raça e gênero. Do ponto de vista político, será fundamental ampliar a participação popular, fortalecer as organizações da classe trabalhadora e reconstruir vínculos entre a esquerda e os setores populares. A questão talvez seja: o governo de ampla aliança encabeçado por Lula estará disposto a isso?

Em perspectiva histórica, portanto, o quarto mandato de Lula não deve ser compreendido apenas como a continuidade de um governo, mas como parte de uma disputa mais ampla pelos rumos do Brasil e da América Latina. A vitória abre uma possibilidade concreta de resistência à ofensiva da extrema-direita e ao imperialismo norte-americano, mas o desfecho dessa disputa dependerá da capacidade de mobilização social, da organização política e da disposição para enfrentar os interesses que se opõem à ampliação da democracia e dos direitos sociais.

Assim, respondendo diretamente à questão sobre o significado desta eleição, estamos diante de uma vitória eleitoral que pode representar uma conquista política de grande importância em uma conjuntura profundamente adversa. Trata-se de uma vitória capaz de conter, ao menos temporariamente, o avanço das forças reacionárias no plano federal. Uma conquista expressiva em meio a tantas derrotas, um suspiro necessário em um ambiente político sufocante.

Riscos de desestabilização e crise do STF

Mas não nos enganemos: as tentativas de bloquear, desestabilizar e até mesmo inviabilizar o governo Lula serão intensas. Esse cenário se torna ainda mais preocupante diante da crise institucional envolvendo o STF, da composição conservadora do próximo Congresso Nacional, especialmente do Senado, e do expressivo número de governadores alinhados à direita e à extrema-direita. Embora tenham perdido a Presidência da República, os bolsonaristas continuarão existindo e preservando considerável força política, institucional e social, inclusive sua capacidade de mobilização de massas.

Não há motivos para acreditar que aceitarão passivamente a derrota. Ainda são incertos os próximos passos de Flávio Bolsonaro e de seu grupo político, mas uma coisa é certa: a oposição de extrema-direita continuará atuante, buscando ampliar sua influência e recompor suas forças. Não se podem descartar novas tentativas de ruptura institucional, assim como articulações com setores do Centrão para bloquear iniciativas, desestabilizar e inviabilizar o governo Lula.

Desafios

Contudo, os principais desafios da esquerda brasileira não se limitam a resistir à ofensiva da direita. Será necessário enfrentar também as contradições e os limites da própria política econômica do governo. Um dos pontos centrais dessa disputa será o aprofundamento do ajuste fiscal, com possíveis consequências para os investimentos públicos, os direitos sociais e as condições de vida da classe trabalhadora. Nesse horizonte, ganham particular relevância as propostas de reforma administrativa e previdenciária, defendidas por setores que integram a própria base governista ou gravitam em torno dela.

O desafio da esquerda, portanto, será duplo: barrar a ofensiva reacionária e, ao mesmo tempo, disputar os rumos do governo, enfrentando as políticas que subordinam os direitos sociais e as necessidades da população aos imperativos da austeridade fiscal e dos interesses do capital. A vitória eleitoral abre uma possibilidade importante, mas sua transformação em conquistas efetivas dependerá da capacidade de organização, mobilização e pressão independente da classe trabalhadora e dos movimentos populares.

IHU – As mobilizações sociais que ocorreram no Brasil antes do segundo turno tendem a ganhar um novo impulso a partir do resultado das eleições ou foram manifestações pontuais, restritas ao contexto eleitoral?

Michelangelo Torres – Conforme mencionei, as manifestações foram extraordinárias. Vivemos uma verdadeira jornada de mobilização e ativismo em defesa da democracia. Estiveram ombro a ombro a base social do lulopetismo, praticamente todo o campo político da esquerda partidária, os movimentos populares, a juventude, as mulheres, setores independentes e uma ampla aliança de setores sociais e políticos comprometidos com a tarefa de barrar o bolsonarismo nas urnas.

Trata-se, sem dúvida, de uma das expressões mais significativas da vanguarda política brasileira na conjuntura atual. Mas seria um equívoco restringir essas mobilizações à vanguarda militante: elas tiveram, de fato, um caráter de massas, revelando uma expressiva capacidade de mobilização social em um momento decisivo da vida política nacional.

Há um aprendizado importante nessa experiência. Poucas vezes, na história recente da esquerda brasileira, diferentes tradições políticas, correntes de pensamento e organizações estiveram tão próximas, ombro a ombro, colocando momentaneamente suas divergências em segundo plano para levantar uma bandeira comum: a defesa da democracia. Essa unidade não eliminou as diferenças, tampouco as contradições existentes entre esses setores, mas demonstrou que é possível construir convergências políticas amplas diante de ameaças históricas aos direitos e às liberdades democráticas.

Energia social

A questão central, agora, é saber se essa energia social conseguirá ultrapassar os limites da conjuntura eleitoral. O grande desafio será preservar e ampliar a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora, dos movimentos populares e da juventude, transformando a unidade construída em torno da defesa da democracia em uma força política duradoura. Lula governará sob cerco. Mais do que nunca estará na hora de colocarmos nosso bloco nas ruas e pressionar a conjuntura em torno de nossas pautas – com independência de classe.

Essas mobilizações poderão constituir um importante ponto de apoio para resistir à ofensiva da extrema-direita, reorganizar as forças progressistas e reconstruir alternativas políticas capazes de enfrentar os problemas concretos vividos pelos trabalhadores. Mais do que isso, poderão contribuir para recolocar no horizonte a possibilidade de transformações sociais profundas.

Entretanto, nada disso acontecerá espontaneamente. Será necessário investir no trabalho de base, fortalecer as organizações populares e sindicais, ampliar o diálogo com os setores da classe trabalhadora que permanecem distantes da esquerda e construir espaços permanentes de participação e mobilização. A unidade eleitoral foi fundamental para derrotar a extrema-direita na disputa presidencial, mas a construção de uma alternativa política consequente exige organização, enraizamento social e capacidade de enfrentar também os limites das políticas econômicas e sociais do próprio governo.

Portanto, não considero que essas manifestações tenham sido meramente pontuais. Elas revelaram uma potencialidade política real. A questão decisiva é saber se teremos capacidade de transformar essa experiência extraordinária de mobilização em organização permanente, consciência política e força social para disputar os rumos do país. É nesse terreno que se decidirá se a energia das ruas será apenas uma lembrança de uma campanha eleitoral vitoriosa ou o ponto de partida para novas conquistas democráticas e sociais.

IHU – Que perspectivas se desenham para o Brasil nos próximos anos a partir do quarto mandato do presidente Lula e a nova composição do Congresso Nacional?

Michelangelo Torres – A perspectiva é de um governo Lula submetido a fortes contradições e pressões políticas. De um lado, deverá continuar sinalizando ao mercado financeiro seu compromisso com o ajuste fiscal e poderá avançar em pautas de orientação neoliberal. De outro, será pressionado por sua própria base social, que o elegeu e que tem demandas concretas por melhores condições de vida, valorização dos salários, ampliação dos direitos sociais, fortalecimento dos serviços públicos e políticas voltadas aos interesses da classe trabalhadora.

Será, como mencionei, um governo sob cerco político. A composição conservadora do Congresso Nacional, as barganhas com setores do Centrão, a amplitude das alianças que sustentam o governo e a pressão de uma oposição de extrema-direita fortalecida eleitoralmente, mobilizada e disposta a radicalizar o enfrentamento, tendem a limitar sua margem de ação. Há o risco de que o governo seja progressivamente condicionado pelos interesses desses setores, comprometendo a implementação de medidas que correspondam às expectativas de sua base social.

O cenário, portanto, será de intensa disputa. A questão fundamental é saber até que ponto o governo estará disposto a enfrentar os interesses econômicos e políticos que se opõem à ampliação dos direitos sociais e à redução das desigualdades. Ao mesmo tempo, caberá à esquerda, aos sindicatos e aos movimentos populares preservar sua autonomia política, manter a capacidade de mobilização e pressionar por mudanças efetivas.

Ampliação dos direitos sociais

A vitória eleitoral de Lula abre possibilidades importantes, mas não resolve, por si só, os impasses estruturais do país. Muito longe disso… O rumo dos próximos anos dependerá não apenas das decisões do governo e da correlação de forças no Congresso, mas também da capacidade de organização da classe trabalhadora e dos setores populares para intervir nos rumos da política nacional. Sem pressão social organizada, há o risco de que a defesa da governabilidade se sobreponha às transformações sociais que justificaram a mobilização de amplos setores da sociedade para barrar a extrema-direita nas urnas.

Neste momento, estamos todos embriagados pela felicidade da reeleição de Lula — ou, mais precisamente, pela derrota eleitoral do bolsonarismo no segundo turno. É compreensível. Trata-se de uma vitória política de enorme importância, sobretudo diante da ameaça que a extrema-direita representa para a democracia e os direitos sociais. Mas não tenhamos ilusões: a euforia da vitória não pode obscurecer os desafios que temos pela frente.

Um governo reformista, com margens estreitas para implementar reformas progressistas, de orientação social-liberal e estruturado em torno da conciliação de classes, terá enormes dificuldades para se sustentar e avançar no próximo período, que será ainda mais adverso. As contradições entre os compromissos assumidos com o mercado financeiro, as pressões da direita e do Centrão e as demandas concretas da classe trabalhadora tendem a se aprofundar. A derrota eleitoral do bolsonarismo não elimina essas contradições, tampouco garante, por si só, avanços sociais. Será preciso transformar a vitória nas urnas em força política organizada, capaz de disputar os rumos do governo e enfrentar os interesses que se opõem à ampliação dos direitos sociais.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Michelangelo Torres – É fundamental reconhecer a dimensão e o significado histórico desta vitória eleitoral. Nestas eleições, não estava em jogo apenas a reeleição de Lula, mas também a derrota de um projeto de extrema-direita autoritário, antidemocrático e hostil aos direitos sociais. Barrar o bolsonarismo nas urnas foi uma conquista de enorme importância para a democracia brasileira e para a classe trabalhadora. Temos, portanto, razões de sobra para celebrar.

Mas celebrar a vitória não significa alimentar ilusões. Precisamos ter clareza tanto da conjuntura adversa que se desenha quanto dos limites do próprio governo Lula, assentado na conciliação de classes e em alianças com setores cujos interesses são, muitas vezes, antagônicos aos dos trabalhadores. A extrema-direita continuará atuante, com força social e institucional, enquanto as pressões do mercado financeiro e os compromissos com a governabilidade poderão restringir o alcance das mudanças prometidas.

O desafio da esquerda, portanto, é saber reconhecer a importância dessa vitória sem renunciar à sua independência política. Precisamos defender a democracia, combater a extrema-direita e, simultaneamente, fortalecer a organização da classe trabalhadora, os sindicatos e os movimentos populares, mantendo a capacidade de mobilização e de pressão sobre o governo. Afinal, a vitória eleitoral abriu uma possibilidade; transformá-la em conquistas sociais efetivas dependerá da luta política que seremos capazes de travar a partir de agora.

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