A democracia revelou sua força mais profunda: a capacidade de um povo se organizar, ocupar os espaços e enfrentar o medo
Por Henrique Menezes, Brasil de Fato
No dia 25 de outubro, não houve apenas uma eleição no Brasil. Houve um levante popular democrático, uma onda de indignação, esperança e resistência que já reverbera para além de nossas fronteiras.
Não houve um comitê central de campanha, tampouco uma direção de cúpula partidária capaz de comandar o movimento. E se tentasse, talvez o resultado não tivesse sido a reversão, em todo o território, de uma derrota iminente.
O que houve foi algo maior, mais espontâneo e, por isso mesmo, mais difícil de conter: uma onda que começou a ganhar as ruas com os estudantes, imediatamente após o resultado desanimador do primeiro turno. A fúria dos jovens incendiou o país. Em poucos dias, o Brasil testemunhou as mais amplas e dispersas mobilizações populares de sua história recente. Dos imensos aglomerados nas grandes capitais aos atos realizados nas menores cidades do interior, as pessoas se organizaram e tomaram as ruas.
Ao mesmo tempo, pequenos grupos foram se organizando por toda parte. Banquinhas vira-voto com bolo e café, conversas nas calçadas, reuniões de bairro, militantes anônimos percorrendo ruas e casas. Até mesmo nos redutos bolsonaristas mais violentos, houve quem resistisse, revertendo votos em regiões marcadas pelo bolsonarismo mais vil. A democracia, tantas vezes reduzida aos rituais das instituições, revelou sua força mais profunda: a capacidade de um povo se organizar, ocupar os espaços e enfrentar o medo coletivamente.
As imagens que circularam pelo país contavam uma história muito maior do que a disputa eleitoral. Povos originários em longas caminhadas para votar. Milhares de pessoas embarcando em ônibus fretados para retornar às suas cidades. Barcos e canoas atravessando rios para que cada voto chegasse às urnas. No Nordeste, mais uma vez, a luta pelo voto enfrentava obstáculos, com restrições ao transporte público. Em cada estrada, em cada rio, em cada corpo que se deslocava, havia uma mistura de cansaço, medo, coragem e esperança. O Brasil profundo, tantas vezes invisibilizado, mostrava que também é protagonista de sua própria história.
Mas talvez as cenas mais comoventes tenham sido as dos idosos saindo de casa para votar. Em sua maioria, homens e mulheres de origem pobre, espalhados pelo interior do país, exaustos, alguns acamados, que encontraram forças para votar. Corpos marcados pelo tempo, passos lentos, mãos trêmulas. Ainda assim, havia neles uma determinação quase sagrada!
Todas essas imagens conectam o presente com o passado e o futuro.
A ameaça iminente de destruição das florestas, de novos ataques aos povos indígenas, do retorno da fome, da violência e da desesperança mobilizava a luta pelo agora!
O voto dos idosos foi a expressão mais eloquente daqueles que viram só recentemente suas vidas transformadas por políticas públicas que lhes permitiram envelhecer com dignidade, mas que ainda veem com otimismo o futuro. Eles são testemunhas vivas, em suas casas e famílias, das mudanças que vivemos e continuaremos vivendo, com o encerramento de ciclos históricos de perpetuação da pobreza, ao verem, orgulhosos, seus filhos e netos, muitos deles pretos e pobres, ingressarem pela primeira vez em uma universidade e se formarem “doutores”.
Essa eleição marcou também uma inflexão simbólica na história política brasileira. Depois de mais de quatro décadas dedicadas à luta pelos trabalhadores e pelos mais pobres, dessa vez, Lula foi quem precisou ser resgatado pelo povo, pela força da mobilização popular, de uma armadilha construída pela extrema direita global, por big techs predatórias, pela corrupção de juízes e pela cumplicidade de tantos brasileiros que escolheram permanecer presos à violência e ao ressentimento, ao egoísmo e à ingratidão.
Dessa vez, foi o povo brasileiro que saiu em defesa de Lula, para corrigir uma injustiça cujas consequências poderiam ter sido irreparáveis não apenas para o Brasil, mas também para o mundo.
Novos tempos estão por vir. A mão em riste, sinalizando a letra L, que durante tanto tempo simbolizou a luta em torno de um brasileiro, ultrapassa agora nossas fronteiras. O que nasceu como expressão de uma luta nacional ganha novos significados e se transforma em símbolo internacional de resistência à extrema direita e de defesa da democracia.
Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, já convocou seus apoiadores a se inspirarem no que aconteceu no Brasil. A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, literalmente às portas do imperialismo trumpista, celebrou a vitória brasileira como um novo momento de esperança para toda a região. E diversas imagens começam a circular, vindas da França, do Líbano e até mesmo dos Estados Unidos, mostrando jovens e ativistas se inspirando e saudando a vitória de Lula, que se torna um novo símbolo internacional de resistência. O Brasil volta a falar ao mundo, e o mundo começa a responder.
Talvez seja cedo para compreender toda a dimensão histórica desse movimento. Mas já podemos reconhecer nele um sinal de que a história não está encerrada, de que a extrema direita não tem o monopólio do futuro e de que a esperança pode voltar a se organizar, a caminhar e a vencer.
*Henrique Menezes é professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Editado por: Carolina Ferreira




