Na campanha para a reeleição de Dilma, ação nas redes foi também muito exitosa. Renovador e criativo, Franklin Martins não contou com apoio do PT. Ao final, desfez-se a estrutura. Manter o trabalho de Janones, agora, é essencial para que Lula possa de fato governar
Por Maurício Ayer*, em Outras Palavras
Desde a divulgação do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, correu a profecia de que “nunca antes na história deste país” quem chega atrás no primeiro turno vence o segundo. Isso é uma meia verdade. Esquecemos como foi a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014: embora tenha chegado à frente no primeiro turno, havia então dois outros candidatos fortes, Aécio Neves e Marina Silva, de maneira que todas as primeiras pesquisas do segundo turno colocavam Aécio à frente (Datafolha e Ibope davam 51% para Aécio e 49% para Dilma nas intenções de voto). Dilma virou esse jogo.
Esquecemos o que foi a eleição de 2014? Seria melhor que não. Dilma virou o jogo com ampla mobilização popular. Foi uma virada realmente histórica, cuja parte mais evidente foi a ocupação das ruas, as grandes manifestações populares, e a movimentação de estudantes e do meio cultural. Mas também houve um forte enfrentamento na internet e redes sociais, algo que ainda não era tão visível como veio a se tornar, e que aconteceu por meio de um “destacamento” (pra usar o jargão militar janoniano) da campanha de Dilma chamado Muda Mais. O pelotão era comandado politicamente por Franklin Martins (ex-ministro das Comunicações no segundo mandato de Lula) e coordenado por jovens como Brunna Rosa e Edson Luís, que traziam a experiência de campanhas digitais em países como a Venezuela.
O Muda Mais ficou conhecido pelos vídeos e outros materiais de campanha que arejaram as redes, com uma linguagem criativa e nova. Mas seu trabalho era muito maior: fazia monitoramente de redes, criava estratégia, identificava e combatia robôs da campanha adversária, entre tantas outras ações. O Muda Mais foi uma experiência extremamente exitosa de ação política nas redes, muito antes que deixássemos solidificar a impressão de que “a direita é quem sabe usar as redes” e “a esquerda envelheceu nas comunicações”.
Ocorre que, vencida a eleição, no final de outubro de de 2014, o Muda Mais foi totalmente desmobilizado. É como se, numa guerra, o exército vencedor, terminada a última batalha, abandonasse totalmente o território, deixando campo aberto para o exército derrotado fazer a festa. E desde então a direita – sob orientação de profissionais estrangeiros – dominou completamente as redes, sem qualquer esboço de reação efetiva da esquerda.
É verdade que houve uma tentativa de dar continuidade à experiência do Muda Mais por uma articulação de frentes políticas e centrais sindicais, mas aí a burocracia enferrujada dos sindicatos assumiu o comando e não havia como dar protagonismo ao grupo.
Por que isso aconteceu? Por que, depois de vencer, deixamos o adversário levar? Por que deixamos a direita dominar o rebote da eleição, que culminou no golpe de 2016 e abriu caminho para a vitória fascista em 2018? A resposta é complexa, claro, mas no âmbito da discussão que trago aqui, minha hipótese é de que isso tem a ver com a estrutura de poder dentro do PT: Franklin Martins conseguiu montar uma equipe marginal na campanha, que tomou protagonismo pela própria condição da luta naquele momento, mas ele próprio não contava com apoio suficiente para prolongar a mobilização; passada a eleição, reconhecer ao grupo o seu mérito significaria abrir espaços de poder para gente jovem, caras novas. Não aconteceu.
Se tivéssemos disputado as redes com o profissionalismo e consistência que demonstramos em 2014, teríamos respondido diferentemente à Lava-Jato, o processo contra o Lula, a ascensão do fascismo, etc.? Águas passadas.
Há diferenças importantes de 2014 para o momento que vivemos hoje. Dessa vez, a massiva ação nas redes, puxada pelo “general” André Janones com o Exército do Lula, não aconteceu por uma equipe paga, mas sim por uma mobilização orgânica de todos nós, que nos alistamos e engajamos. É inegável que toda a mobilização de massas nas ruas – gigante, sem precedentes, e muito capilarizada – poderia ter dado com os burros n’água se não tivesse sido criada, praticamente do nada, uma estrutura de difusão, repercussão e combate nas redes sociais.
Hoje, há consenso de que será preciso manter a mobilização permanente. Janones afirma que o Exército do Lula será “eterno”. Muita gente comenta sobre essa necessidade, inclusive por perceber que, tivesse a ficha caído antes – ou a estrutura partidária tivesse dado espaço para um tipo de ação cuja urgência era mais que evidente, conforme tanta gente alertou –, o Congresso hoje certamente seria outro. Isso passou, foi preciso tomar uma peia no primeiro turno e ameaçar sucumbir a um Estado Miliciano para produzirmos a vitória colossal desse segundo turno.
E a julgar pelo que disse Lula em seu discurso de vitória, vamos mudar mais… sobretudo, no jeito de governar, com uma convocação permanente do povo a participar da correlação de forças. Os “acordos por cima” já foram muito insuficientes no mandato que está terminando, e serão muito menos eficazes no mandato que começará em janeiro de 2027.
Com a virada de Lula em 2026, reatamos a corda que levou à virada de Dilma em 2014, e que se partiu com o golpe de 2016. Dessa década perdida, temos que tirar um farto aprendizado, e avançarmos em uma retomada muito mais ampla do Brasil para um projeto de desenvolvimento popular, soberano e ecológico.
*Professor de Literaturas de língua francesa na Universidade de Brasília (UnB). É membro do Grupo de Pesquisa LEDrac – Literatura, Educação e Dramaturgias Contemporâneas.




