Desafio do 4º mandato Lula: “Governar democraticamente para que as assimetrias não determinem quem tem o direito de falar e quem será ouvido”. Entrevista especial com Kátia Sento Sé Mello

“É preciso perguntar que segurança as pessoas desejam, quais experiências de injustiça viveram, como compreendem a autoridade e o que esperam de um governo. Essas perguntas precisam ser respondidas por pesquisas e conversas, não por atribuições antecipadas de consciência política”, adverte a antropóloga

Por: Patricia Fachin, em IHU

À luz da psicanalise e de pesquisas antropológicas nas favelas cariocas, com destaque para a comunidade da Maré, a antropóloga Kátia Sento Sé Mello analisa as eleições deste ano a partir de uma dimensão simbólica e afetiva da vida social. A enxurrada de votos na extrema-direita no primeiro turno e a virada de Lula no segundo, exemplifica a pesquisadora, apontam para a complexidade e os dilemas envolvidos na decisão eleitoral. “Uma pessoa pode valorizar políticas de redistribuição de renda e, simultaneamente, defender concepções conservadoras sobre família ou segurança pública. Pode desejar maior presença do Estado e, ao mesmo tempo, desconfiar profundamente de suas instituições. É justamente essa complexidade que precisamos levar a sério”, diz na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por videochamada.

Desde a juventude, enquanto pertencente às camadas populares do Rio de Janeiro, Kátia participou das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e do movimento da Teologia da Libertação. Com base nessas experiências, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aposta numa forma de governança baseada no diálogo e na formação de coletivos. Para ela, o quarto mandato do presidente Lula precisa “recuperar uma dimensão fundamental da política: sua capacidade de produzir experiências compartilhadas, nas quais as pessoas possam não apenas reivindicar direitos, mas também participar da construção dos sentidos atribuídos à vida coletiva”.

Nesta entrevista, Kátia Sento Sé Mello reflete sobre a vida social e política, nossa herança escravocrata e seus efeitos nas relações interpessoais e institucionais e os desafios em torno da construção da cidadania. A partir do próximo ano, acentua, “um dos maiores desafios será enfrentar a distância entre as promessas de cidadania e as experiências concretas de desigualdade vividas por parcelas expressivas da população brasileira”. Para muitos jovens, sublinha, “especialmente para aqueles que vivem em territórios populares, o futuro não se apresenta como um horizonte de possibilidades asseguradas”.

A formulação e implementação de políticas públicas para mulheres, o enfrentamento da violência armada e a criação de condições para que as novas gerações construam um futuro são alguns dos problemas centrais que aguardam respostas políticas. “A psicanálise nos ensina que não vamos conseguir controlar toda a nossa vida, mas vamos apostar, principalmente quando esses ideais buscam o bem comum e o bem-viver, que todas as pessoas tenham direito de existir. (…) Depois dessa virada, me enchi de esperança. Temos que apostar na vida e construir um ideal de bem comum que permita uma convivência digna para todas as pessoas existirem”, conclui.

Kátia Sento Sé Mello é antropóloga, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INEAC) e do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU), líder do Grupo de Pesquisa Sociabilidades Urbanas, Espaço Público e Mediação de Conflitos (GPSEM), psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro e membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (EPFCL).

Confira a entrevista.

IHU – O que aprendemos com a eleição deste ano?

Kátia Sento Sé Mello – A eleição de 2026 nos coloca diante de um paradoxo que precisamos compreender. Por um lado, a reeleição de Lula demonstra a persistência de uma identificação política importante com sua trajetória e um projeto de sociedade com justiça social. Por outro, a votação expressiva de Flávio Bolsonaro revela que uma parcela muito significativa da sociedade brasileira se reconhece em outras referências políticas, morais e culturais que não podemos desconsiderar.

O que me parece particularmente importante é reconhecer que não estamos diante de uma divisão simples e binária entre ricos e pobres, esclarecidos e desinformados, ou mesmo entre aqueles que conhecem e aqueles que desconhecem seus interesses. Não podemos sair dizendo por aí que o pobre não tem consciência do seu direito e não está sabendo que ao votar em Bolsonaro está votando contra os seus direitos. Isso é muito simplista. Tem muito mais coisa envolvida aí.

A antropologia nos ensina que as pessoas não organizam suas experiências exclusivamente a partir das categorias que nós, pesquisadores, intelectuais, universitários ou dirigentes políticos, consideramos relevantes. As escolhas das pessoas são atravessadas por relações de parentesco, experiências religiosas, concepções de autoridade, expectativas de mobilidade social, sentimentos de injustiça, que variam muito, e necessidades de reconhecimento.

Aprendizados

Aprendemos, ou deveríamos aprender, que a melhoria nas condições materiais de existência, embora indispensável, não produz automaticamente identificação política. Esse embate que tivemos nas eleições e as dificuldades para nós, do campo progressista, tentarmos entender por que pessoas que receberam todos os direitos sociais do Lula não votaram no Lula ou disseram que apesar disso não votariam nele. Venho trabalhando com uma dimensão moral, simbólica e afetiva da vida social que precisa ser considerada. Então, o voto não é uma expressão transparente de uma identidade política homogênea. Uma mesma escolha eleitoral pode reunir expectativas muito diferentes e até contraditórias.

Talvez o maior aprendizado seja este: precisamos abandonar a pretensão de que já sabemos o que as pessoas pensam e desejam. Nós não sabemos. Esse é um exercício muito duro que temos que fazer. Estou fazendo uma autoavaliação e uma avaliação do que poderíamos chamar de campo progressista, que inclui diferentes segmentos da esquerda. Temos que abandonar essa pretensão e compreender como os sujeitos, na nossa sociedade, constroem o que é sentido de justiça, dignidade, liberdade, segurança e futuro, porque nada disso é homogêneo. As pessoas podem estar usando o mesmo nome, o mesmo significante para se referirem a coisas distintas. É preciso compreender como elas constroem seus próprios sentidos de justiça, dignidade, liberdade, segurança e futuro.

IHU – Em artigo publicado recentemente, a senhora disse que o resultado do primeiro turno das eleições exigia uma reflexão que fosse além das explicações econômicas mais imediatas. No primeiro turno, a esquerda foi surpreendida com uma ampla votação na extrema-direita. A partir da virada que garantiu a reeleição do presidente Lula, que reflexão o resultado do segundo turno exige? O que precisamos compreender para avançar enquanto país e não cairmos na ilusão de que tudo está resolvido com a reeleição?

Kátia Sento Sé Mello – O segundo turno reforça algumas das inquietações que procurei desenvolver naquele artigo, mas também acrescenta novos elementos. A vitória de Lula não elimina as questões colocadas pelo primeiro turno. Ao contrário, exige que continuemos interrogando as transformações das formas de identificação política no Brasil contemporâneo. Gostaria de recuperar aqui algumas contribuições da antropologia brasileira, especialmente os trabalhos de Roberto Kant de Lima, Luís Roberto Cardoso de Oliveira e Michel Misse.

Em Os cruéis modelos jurídicos de controle social, Roberto Kant de Lima chama nossa atenção para as formas pelas quais a sociedade brasileira organiza o controle social e administra os conflitos – não só os conflitos das instituições do Estado com os cidadãos, mas também na forma de administrar conflitos extrainstitucionais. Nas formas comunitárias, como nas brigas entre vizinhos, vemos a repetição de um padrão que acontece na sociedade brasileira. A reflexão do Kant de Lima permite compreender uma contradição importante: embora a igualdade constitua um princípio fundamental da ordem republicana, nossas práticas institucionais frequentemente reproduzem hierarquias e tratamentos desiguais caros às sociedades estamentais do antigo regime. Há um desencontro entre a igualdade como princípio e a prática das instituições, mas, inclusive, do ponto de vista legal, temos princípios que desigualam. Um exemplo claro é a prisão especial para pessoas especiais que têm título universitário ou muito dinheiro.

Luís Roberto Cardoso de Oliveira, ao discutir a sujeição civil e a exclusão discursiva, oferece outra contribuição fundamental: o reconhecimento dos sujeitos como interlocutores legítimos constitui uma dimensão indispensável da cidadania. Não basta que os direitos estejam formalmente assegurados se determinadas pessoas continuam sendo tratadas como incapazes de formular demandas legítimas ou de participar das decisões que afetam suas vidas. Estou falando do trabalhador em emprego precarizado, moradores de territórios conflagrados de favelas etc.

Por sua vez, Michel Misse, ao desenvolver o conceito de sujeição criminal, demonstra como determinadas pessoas e grupos sociais passam a ser identificados não apenas por seus atos, mas por uma suposta disposição para o crime, que já é uma classificação antecipada. Produz-se uma identificação social que antecede o próprio comportamento e contribui para legitimar práticas de exclusão e violência.

Negação do passado e reprodução de tratamentos desiguais

Essas reflexões ajudam a compreender que o problema democrático brasileiro não se limita à distribuição de recursos econômicos. Ele envolve também as formas pelas quais os indivíduos são reconhecidos, classificados e tratados social e institucionalmente. O segundo turno nos convida a pensar não apenas em como uma maioria eleitoral foi constituída, mas em como construir condições de convivência democrática em uma sociedade profundamente desigual.

O que quero dizer com isso, também, é que nossa sociedade foi forjada na escravidão e nas instituições que a sustentaram. Negamos recorrentemente esse passado: negamos que somos constituídos também por pessoas escravizadas, trazidas de diversos territórios africanos, e que somos filhos de povos indígenas que já viviam aqui antes da chegada do colonizador europeu.

Esse passado deixou em nós uma ferida narcísica, diante da qual insistimos em negar aquilo que também nos constitui. No entanto, se pensamos com Freud e Lacan que aquilo que é recalcado retorna, podemos interrogar as formas pelas quais esse passado permanece presente em nossos laços sociais. Como esse passado da escravidão, da violência, da submissão de corpos negros que vieram do continente africano e dos indígenas que já estavam aqui, como esse recalcado retorna? Ele não retorna como uma elaboração simbólica, um reconhecimento de que somos constituídos por esses grupos humanos, e de que somos uma sociedade forjada em cima de um crime hediondo que foi o que aconteceu com os sujeitos antes de nós.

Nós mantemos a persistência da negação e das violências praticadas contra determinados segmentos sociais, particularmente pessoas negras e jovens que vivem em favelas e em territórios conflagrados por grupos armados. Hoje [28-10], por exemplo, faz exatamente um ano da Operação Contenção, que foi uma das maiores chacinas que vivenciamos no Rio de Janeiro. Nos Complexos da Penha e do Alemão, mais de cem corpos foram expostos. É nessa articulação da negação do passado e a reprodução de tratamentos desiguais que situo a continuidade estrutural das hierarquias que os autores mencionados nos ajudam a compreender.

Nesse ponto, considero indispensável reconhecer a importância de pensadoras e pensadores brasileiros como Lélia Gonzalez. Em seu ensaio Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984), ela compreende o racismo como sintoma da neurose cultural brasileira. Sua contribuição permite colocar a psicanálise em diálogo com a formação histórica e social do Brasil, sem tratar nossas desigualdades como fenômenos desligados dessa história. Aproximo essa formulação da reflexão sobre a negação do passado e a persistência de suas marcas nos laços sociais. Recuperar o pensamento de Lélia não é apenas acrescentar uma referência, é reconhecer uma contribuição fundamental, produzida no Brasil, por uma brasileira negra, para interrogar aquilo que nossa sociedade insiste em não elaborar.

IHU – Para além dessa dimensão histórica dos conflitos, olhando para o Brasil contemporâneo, quais são os conflitos sociais, visões de mundo e aspirações dos brasileiros que estão por trás dos votos do segundo turno, em que Lula foi reeleito com 51,79% dos votos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro?

Kátia Sento Sé Mello – A primeira questão é reconhecer que as demandas sociais não podem ser separadas umas das outras. A experiência de ter um emprego não se resume ao recebimento de um salário. O trabalho também pode oferecer reconhecimento, identidade, relações sociais e perspectivas de futuro. Da mesma maneira, a escola e a universidade não representam apenas oportunidades de qualificação profissional. Podem constituir espaços de pertencimento, circulação social e elaboração de novos projetos de vida. Mas precisamos considerar que esses espaços também podem produzir humilhação, discriminação e exclusão.

Penso aqui nas pesquisas que desenvolvi com mulheres encarceradas em condição de maternidade. Ao escutarmos suas trajetórias, encontramos experiências atravessadas pela precariedade econômica, mas também por relações familiares, desejos, expectativas e projetos de vida que frequentemente desaparecem quando essas mulheres são reduzidas à condição de criminalidade.

Não temos respostas prontas. Temos que olhar para todas as dimensões: o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o REUNI, o Pé-de-Meia, o Prouni, que são políticas públicas fundamentais e imprescindíveis que conseguimos implementar durante o governo Lula.

O que pode explicar uma expressividade na votação em Flávio Bolsonaro tem a ver com outras dimensões. Por que pessoas que estão ganhando, há alguns anos, o Bolsa Família, vão votar em Bolsonaro? É aí que entram outras dimensões, como a religião, por exemplo.

O problema não é apenas garantir formalmente direitos. É compreender como esses direitos podem ser efetivamente exercidos por sujeitos cujas palavras e experiências são sistematicamente desqualificadas. O mesmo ocorre nos territórios populares. A presença do Estado não pode se restringir à ação policial ou à oferta descontinuada de serviços. É necessário construir políticas públicas com continuidade, participação e capacidade de reconhecer os conhecimentos produzidos pelos próprios moradores.

Nesse sentido, considero fundamental valorizar experiências associativas, coletivos culturais, organizações comunitárias, escolas, universidades e outras formas de organização territorial. Não se trata de idealizar essas experiências, que também são atravessadas por conflitos e desigualdades. Trata-se de reconhecer que elas podem produzir formas de participação e pertencimento que dificilmente surgem de políticas concebidas exclusivamente de cima para baixo.

A realização desses anseios exige, portanto, combinar redistribuição material, reconhecimento social e participação efetiva. Uma política pública não se torna democrática apenas porque pretende beneficiar determinada população. É preciso perguntar como essa população participa da definição dos problemas e das soluções.

IHU – Uma parcela da população não se sente contemplada e participante da vida democrática e, por isso, votou em Flávio Bolsonaro? Por exemplo, programas sociais importantes favoreceram o ingresso de jovens na universidade, mas muitos profissionais não foram absorvidos pelo mercado de trabalho ou se deparam com empregos precários e mal remunerados. Seria essa uma das razões que explica o voto em Flávio Bolsonaro, mesmo entre aqueles que foram beneficiados pelos programas sociais do governo Lula?

Kátia Sento Sé Mello – Quando pensamos em direitos sociais ou políticas públicas, elas não podem ser individualizadas. Elas estão articuladas a outras necessidades. Na universidade onde leciono cresceu o número de estudantes negros, mulheres, moradores de periferias e da Baixada Fluminense. Entretanto, vou dar um exemplo que parece banal, mas não é banal.

Propus que a turma faça um exercício etnográfico para refletir sobre o trajeto de casa para a universidade e da universidade para a casa. A maioria dos estudantes trabalham e, no trajeto do percurso deles, pedi que incluíssem a ida para o trabalho. Alguns estudantes acordam às 5h30min da manhã para estarem no trabalho, no centro do Rio de Janeiro, às 9h. Depois de trabalhar o dia todo, eles saem às 17h e vão para a faculdade. A aula começa às 18h30min e, quando eles vão embora, demoram três horas para retornar para casa.

As mulheres jovens pegam, às vezes, dois ônibus e o metrô ou o trem e um ônibus. Nunca pegam um único transporte. Os estudantes andam em regiões ermas, desertas. Às vezes, eles têm a sorte de ter algum pai ou irmão que vão encontrá-los no ponto de ônibus para não caminharem o restante do trajeto sozinhos. No Rio de Janeiro, temos um metrô com duas linhas que correm paralelas. É uma cidade que tinha que ter uma malha viária de todos os tipos que alcançasse todas as regiões da periferia.

A partir desse exemplo, que aparentemente é banal, o que dizer dos outros? Isso não invalida de jeito nenhum as políticas da educação que foram implantadas pelo governo Lula. Os jovens na universidade desenvolvem um sentimento de pertencimento, conseguem pensar sua condição de vida e elaborar teoricamente com o que estão estudando. Isso já é um deslocamento imenso na constituição subjetiva desse sujeito.

IHU – Outro exemplo: uma trabalhadora da área de limpeza que atua em condomínios e recebe uma renda que é pouco mais do que um salário mínimo, mas está longe de chegar a dois salários, passa mais de uma hora no trânsito todos os dias, não recebe assistência da empresa e, quando adoece, passa o dia todo na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) aguardando uma consulta, mas não é atendida por conta da superlotação ou da falta de profissionais, e ainda se indispõe com o patrão porque faltou ao trabalho. Essa pessoa não se sente contemplada pelos serviços públicos, não se sente amparada pela empresa e vota em Flávio Bolsonaro. Como avançar para que essas pessoas reconheçam o valor da democracia e se sintam participantes da vida democrática?

Kátia Sento Sé Mello – Uma política social tem que ser transformada em outra coisa mais estrutural de continuidade porque as pessoas também veem isso como direito. As pessoas não ficam agradecidas só por um Bolsa Família. Elas têm que ter, estruturalmente, na sua condição de trabalho, a cobertura das políticas sociais. Por isso digo que essas políticas não são isoladas. Elas precisam ser articuladas. As pessoas querem outra coisa. A questão do perecimento e de outras lógicas de vida estão operando aí.

IHU – Que possibilidades o discurso de vitória do presidente Lula abre para avançar nessa perspectiva, especialmente a declaração de que é preciso mudar a forma de governar?

Kátia Sento Sé Mello – Considero que a declaração abre uma questão importante: o que significa, efetivamente, mudar a forma de governar? Se a mudança se limitar às estratégias de comunicação, provavelmente estaremos diante de uma resposta insuficiente aos problemas que a eleição tornou visíveis. A comunicação política importa, mas há uma diferença fundamental entre comunicar decisões tomadas e construir processos nos quais a população participe de sua elaboração. Quais formas coletivas podemos pensar? Precisamos de espaços locais de escuta e elaboração política com sistematização de demandas por políticas públicas, como, quem sabe, as próprias universidades, associações de moradores, associações locais e outros fóruns de coletivos sociais que já existem.

Essa distinção é particularmente relevante em uma sociedade como a brasileira, na qual o Estado frequentemente se apresenta às populações mais vulnerabilizadas por meio de práticas de tutela, controle e repressão. Gostaria de recuperar a contribuição de Luís Roberto Cardoso de Oliveira sobre a sujeição civil e a exclusão discursiva.

Quando determinados sujeitos não são reconhecidos como interlocutores legítimos, mesmo políticas orientadas pela ampliação de direitos podem reproduzir relações hierárquicas. Uma política pública pode ser concebida para beneficiar determinada população e, ainda assim, não reconhecer sua capacidade de definir problemas, formular demandas e participar das decisões.

Mudar a forma de governar exigiria transformar as relações entre o Estado e os cidadãos. As experiências de mediação de conflitos são particularmente interessantes. Não se trata de imaginar que todos os conflitos possam ser resolvidos pelo diálogo ou por consensos: as relações sociais são atravessadas por assimetrias de poder que precisam ser reconhecidas. Mas governar democraticamente implica criar condições para que essas assimetrias não determinem antecipadamente quem tem o direito de falar e quem será ouvido.

Reforço que não se deve insistir somente na questão econômica. Vários estratos sociais votaram diferentemente, seja em Flávio, seja em Lula. Tem pessoas que assumem discursos de Deus e da família, recebem Bolsa Família e votaram em Bolsonaro.

A trajetória política de Lula tem uma característica importante: sua linguagem pública frequentemente mobiliza experiências concretas de trabalho, pobreza, família, alimentação e mobilidade social. Isso contribui para aproximar a política de experiências reconhecíveis por amplos setores da população. Entretanto, há uma diferença importante entre produzir identificação por meio do discurso e construir formas duradouras de participação política. Essa é uma das minhas grandes preocupações atuais.

O desafio não consiste apenas em comunicar melhor as realizações governamentais, mas em criar condições para que diferentes grupos sociais possam participar concretamente da formulação das políticas que os afetam. A linguagem política precisa ser capaz de reconhecer a diversidade de experiências que constitui a sociedade brasileira. E isso inclui escutar pessoas que não se identificam com o governo ou que formulam demandas a partir de valores diferentes daqueles que orientam determinadas políticas públicas.

Redes de sociabilidade

É particularmente importante compreender o lugar ocupado pelas igrejas, pelas associações comunitárias e pelas redes de sociabilidade na vida cotidiana. Em meu artigo, procurei chamar a atenção para a capilaridade do pentecostalismo nos territórios populares. Não apenas por sua atuação eleitoral, mas porque muitas igrejas oferecem presença cotidiana, redes de apoio, referências morais e espaços nos quais as pessoas podem compartilhar suas experiências.

Nas unidades prisionais, a presença do pentecostalismo é assustadora. O neopentecostalismo, com certos valores e ideais, se colou no bolsonarismo. Mas, ao mesmo tempo, são os neopentecostais que estão cotidianamente acompanhando as pessoas privadas de liberdade e suas famílias.

No artigo, a comparação que fiz entre os grupos neopentecostais com as antigas CEBs não pretendia estabelecer uma equivalência entre projetos religiosos e políticos distintos. Essa comparação permite perguntar quem, hoje, está presente nos territórios, quem oferece espaços de convivência e quem ajuda as pessoas a encontrar palavras para nomear suas dificuldades e expectativas. A possibilidade aberta por uma nova gestão dependerá, em grande medida, de sua capacidade de transformar a proximidade discursiva em relações institucionais de escuta, participação e reconhecimento.

Tainá Alvarenga, coordenadora do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, coordena um trabalho chamado Maré por Justiça, em parceria com o projeto Construindo Ferramentas, apoiado pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR). Na rua, atos de violência são reconstruídos em 3D a partir da metodologia forense. Além disso, há cerca de 10 anos a Redes realiza o trabalho de monitoramento das ações de intervenção policial na Maré, durante o qual a coordenação esteve a cargo de Lidiane Malanquini, que também se doutorou na Escola de Serviço Social da UFRJ.

Estão fazendo uma oficina de coleta de evidências e documentação das operações policiais que envolvem violação de direitos humanos. Isso é genial. É uma iniciativa concreta e local. As pessoas envolvidas vivenciaram os horrores da violência e são elas que estão ali conversando entre si, mediadas pelas pessoas da Redes da Maré. É por aí que devemos ir quando falamos de uma nova forma de governar. Esse é um exemplo recente. As universidades podem ser esses locais de discussão e elaboração política, assim como as associações de moradores. Essas são formas coletivas de governar.

As pesquisas sobre movimentos de mães que perderam seus filhos em contextos de violência estatal são particularmente expressivas nesse sentido. O trabalho de Monique Cruz, voltado às experiências de memória das mães de Manguinhos, nos ajuda a compreender como o sofrimento, inicialmente vivido em sua dimensão mais íntima, pode adquirir expressão pública e coletiva. A memória não diz respeito apenas à preservação do passado. Ela pode constituir uma forma de disputar o reconhecimento das vidas perdidas e reivindicar respostas institucionais.

Há algo semelhante nas experiências de mobilização comunitária e incidência política desenvolvidas pela Redes da Maré. A organização coletiva pode transformar experiências individuais de violação de direitos em problemas públicos que demandam respostas do Estado.

IHU – No artigo, a senhora insiste que é preciso levar as pessoas a sério. Escutar o que dizem, sentem e esperam. Entre muitos militantes, observa-se uma tendência recorrente de taxar o outro ou tratá-lo a partir de inúmeros pressupostos. Por que paramos de ouvir uns aos outros? Que fatores estão por trás desse fenômeno no país? Suas pesquisas na área de psicanálise dão alguma pista que nos ajude na compreensão dessa situação?

Kátia Sento Sé Mello – Na esquerda, na defesa pela pluralidade de configurações familiares, deixamos de fora aqueles sujeitos que querem constituir família nos moldes considerados tradicionais. Ou seja, aquela família onde tem um homem, uma mulher e filhos, que querem se casar no cartório e no religioso. Essa configuração é tão legitima quanto outras, como o casamento de pessoas do mesmo sexo ou pessoas que são consideradas homoafetivas e desejam adotar crianças. Temos que lutar por isso, mas não podemos deixar de fora outras formas de configuração familiar. Nessas configurações tem pessoas que votaram no Lula. Mas tem outras que se sentiram excluídas do processo democrático porque o modelo tradicional foi muito criticado e rechaçado pelo campo progressista.

Talvez seja importante começar questionando a própria formulação: será que em algum momento efetivamente escutamos uns aos outros em condições de igualdade? A sociedade brasileira foi historicamente constituída por relações hierárquicas, nas quais determinadas pessoas são reconhecidas como portadoras de autoridade e outras têm suas palavras sistematicamente desqualificadas.

As contribuições de Roberto Kant de Lima e Luís Roberto Cardoso de Oliveira são particularmente importantes para compreender esse processo. Não se trata apenas de desigualdade econômica, mas de uma desigualdade nas condições de participação na vida pública. Há pessoas que precisam provar continuamente que merecem ser ouvidas, enquanto outras têm sua palavra previamente reconhecida como legítima.

A exclusão discursiva não significa simplesmente impedir alguém de falar. Pode significar permitir que fale, mas não reconhecer sua fala como portadora de conhecimento, razão ou legitimidade. Em minhas pesquisas sobre mulheres encarceradas, encontrei uma expressão particularmente contundente desse fenômeno. Ao buscarmos escutar as mulheres, muitas vezes nos deparamos com advertências institucionais que colocavam antecipadamente em dúvida a veracidade de seus relatos. Antes mesmo de falar, elas já estavam colocadas sob suspeita.

Esse processo dialoga com aquilo que Michel Misse identifica como sujeição criminal: a construção social de sujeitos cuja identidade passa a ser definida pela criminalidade que lhes é atribuída. Mas o problema ultrapassa o universo penal.

Debate político contemporâneo

No debate político contemporâneo, frequentemente deixamos de escutar o que alguém diz porque acreditamos já saber quem essa pessoa é a partir de sua identificação partidária, religiosa ou ideológica. As redes sociais e a circulação acelerada de mensagens podem intensificar esse processo, favorecendo respostas imediatas, classificações simplificadoras e a desqualificação dos interlocutores. Entretanto, seria equivocado atribuir esse fenômeno exclusivamente às tecnologias digitais. Elas operam em uma sociedade na qual a desigualdade de reconhecimento possui raízes históricas profundas.

Nesse contexto, considero particularmente importante refletir sobre o papel desempenhado por André Janones no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Sua atuação, a meu ver, merece atenção não apenas pelas estratégias de comunicação política que mobilizou, mas sobretudo por sua capacidade de causar identificação, pertencimento e mobilização do desejo em uma parcela expressiva da população.

A psicanalista Elisa Cunha, amiga e interlocutora no Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro, formulou uma observação que considero especialmente fecunda: André Janones teria encarnado, naquele contexto, o semblante do psicanalista. Essa formulação não significa, evidentemente, que ele tenha ocupado a posição de um psicanalista ou que sua intervenção política possa ser confundida com uma experiência analítica. Trata-se de uma aproximação que nos permite interrogar algo da relação entre a palavra, a escuta, a identificação e o desejo.

O que me parece interessante nessa observação é a possibilidade de compreender que a eficácia de uma intervenção política não depende exclusivamente da transmissão de argumentos ou informações. Ela também envolve a capacidade de tocar algo da experiência subjetiva das pessoas, de reconhecer suas inquietações e de produzir deslocamentos nas formas pelas quais se identificam com determinados discursos.

Nessa perspectiva, a atuação de Janones pode ser interpretada como uma intervenção que não se limitou a reforçar sentimentos de pertencimento a um campo político. Sua linguagem, suas formas de interpelação e sua presença nas redes sociais parecem ter contribuído para mobilizar, em determinados segmentos da população, o desejo de participar de um projeto coletivo, traduzido eleitoralmente no voto em um candidato associado a um ideal de sociedade orientado pela justiça social.

É importante distinguir, contudo, a identificação com um líder ou com um campo político da mobilização do desejo. A identificação pode oferecer referências compartilhadas, enquanto o desejo introduz uma dimensão que não se deixa reduzir inteiramente aos ideais coletivos. Essa distinção, tão importante para a psicanálise, nos ajuda a evitar interpretações simplificadoras dos processos eleitorais.

Além disso, a presença do discurso da psicanálise no espaço público consiste em introduzir questões que desestabilizam as certezas dos discursos dominantes, interrogando os ideais de unidade, as identificações totalizantes e as formas de segregação que deles decorrem. Que existe, por exemplo, um papel moral ou formal do que é ser homem ou mulher ou ser uma família. Essa história de cidadão de bem não existe. O dito cidadão de bem quer arrasar com a população negra, pobre e periférica. A psicanálise interroga os ideais de unidade e fura as identidades totalizantes e as formas de segregação que decorrem disso.

A experiência de Janones também permite reconhecer que as redes sociais não constituem apenas espaços de desinformação, hostilidade ou desqualificação dos interlocutores. Elas podem se tornar lugares de circulação de palavras capazes de produzir reconhecimento, afetos e mobilização política. A questão é compreender sob quais condições isso acontece e quais efeitos produz sobre a vida democrática.

Escutar exige reconhecer que o outro pode nos dizer alguma coisa que ainda não sabemos. E isso implica admitir que nossas próprias categorias de compreensão podem ser insuficientes. É nesse sentido que me aproximo da proposição de Tim Ingold de pensar a antropologia como uma forma de aprender com as pessoas, e não apenas produzir conhecimento sobre elas.

Essa disposição tem consequências que ultrapassam o trabalho acadêmico. Ela pode contribuir para repensarmos a própria prática democrática, inclusive as formas pelas quais a palavra política pode encontrar ressonância nas experiências, nos desejos e nas expectativas de justiça daqueles a quem se dirige.

IHU – Por que há palavras do campo progressista que não germinam no coração das pessoas? Por que a sua experiência concreta junto à realidade da comunidade da Maré a leva a essa conclusão? Pode dar exemplos de palavras que soam vazias para as pessoas?

Kátia Sento Sé Mello – No conjunto de favelas da Maré existe a Redes da Maré, uma organização de longa data, que é muito importante nesse território. Muitos dos meus estudantes trabalham na Redes da Maré ou moram em algumas das favelas da Maré. Minha aproximação com a Redes da Maré, especialmente por meio das pesquisas dos meus orientandos e das interlocuções que construímos com pessoas que vivem e trabalham naquele território, tem sido uma experiência muito importante para minhas reflexões. Ela nos obriga a confrontar nossas categorias analíticas com experiências que nem sempre correspondem às interpretações que produzimos sobre elas.

Gostaria de mencionar três pesquisas que são importantes para pensar essas questões. A primeira é a de Lidiane Malanquini, sobre as práticas de redução de riscos e danos diante da violência armada na Maré, em interlocução com o trabalho da Redes da Maré. Essa experiência nos permite compreender que o significante segurança pode assumir significados bastante distintos. Para um gestor público, segurança pode ser traduzida em operações policiais, apreensões de pessoas e indicadores de criminalidade. Para uma mãe residente da Maré, segurança pode significar que seu filho consiga chegar vivo à escola e vivo da escola para casa, que sua casa não seja invadida ou que ela possa circular sem medo. É o que diz o rapper: eu quero poder ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci.

A segunda pesquisa é a de Lourenço César, sobre o trabalho no comércio ilícito na Maré. Ela permite interrogar as relações entre trabalho, legalidade, moralidade e reconhecimento social. Em determinados contextos, atividades consideradas ilegais podem ser percebidas pelos sujeitos a partir de outras referências: a necessidade de sustentar a família, as possibilidades concretas de obter renda, as relações de confiança e as expectativas de reconhecimento. Isso não significa justificar a atividade ilícita ou desconsiderar a violência associada a determinados mercados.

O tráfico de drogas funciona, hoje, como mostra essa pesquisa, como uma empresa, como um mercado de trabalho. É um trabalho de compra e venda de drogas ilícitas. Tem pessoas que têm um emprego precário e precisam levantar algum recurso para pagar uma dívida ou para abrir um pequeno negócio, como um salão de beleza, um botequim, ou comprar roupas para revender e aumentar a renda, e, eventualmente, passam um ou dois meses trabalhando no comércio de drogas. Às vezes a pessoa está desempregada e precisa comprar alimentos e coisas para a casa. Tem uma criança pequena ou filhos adolescentes, e vai, esporadicamente, atuar no mercado do tráfico. Isso não significa que ele é um traficante contumaz. Em alguns desses territórios, o ilegal não é imoral. Imoral é estar desempregado. Imoral é não levar dinheiro para casa. Imoral é deixar uma criança passando fome. Imoral é deixar o idoso sem medicamento.

Na minha pesquisa com as mulheres encarceradas na condição de maternidade, muitas delas diziam que precisaram fazer um trabalho no comércio do tráfico para ter dinheiro para conseguir comprar comida e fralda para os filhos. Outras precisavam de dinheiro para investir num salão de beleza para ter um trabalho. Então, as pessoas não ficam fixadas no comércio ilícito. Elas entram e saem e, eventualmente, voltam quando estão precisando de uma grana a mais.

Enquanto as leis estiverem contidas na política de drogas no Brasil, que é uma lei draconiana e punitivista, vamos continuar tendo esse mercado ilegal. Temos que ter uma prática de descriminalização até chegar a um ponto em que possamos pensar, como na Holanda, em ter o comércio legal da droga, como foi o comércio legal do álcool nos Estados Unidos nos anos 1930. Quando o álcool era ilegal, ocorria matança, corrupção e evasão de impostos. A legislação acabou com isso.

A terceira pesquisa que gostaria de mencionar é a de Monique Cruz, sobre memória e as mães de Manguinhos. Ela nos permite pensar como as experiências de violência, perda e luto também podem se transformar em práticas de memória, elaboração coletiva e reivindicação pública de reconhecimento. Essas mães não reivindicam apenas respostas institucionais; suas práticas de memória – são movimentos de mães pela memória dos filhos que foram mortos pelo Estado através da polícia militar – interrogam as classificações sociais que tornam determinadas mortes mais reconhecíveis e lamentáveis do que outras.

Fátima Cecchetto, professora da Escola Nacional de Saúde Pública, destaca uma categoria local bastante usada no Rio de Janeiro, que é a de “envolvido”. Então, é comum dizer de um rapaz que foi morto por envolvimento com o tráfico de drogas que “ele era um envolvido” e, portanto, se ele era um “envolvido”, ele merece menos enlutamento das pessoas.

Menos discursos e mais espaços de construção

Quando digo que determinadas palavras do campo progressista não germinam no coração das pessoas, estou chamando a atenção para um problema de linguagem, mas também de conhecimento e de relação política. Podemos falar em direitos humanos e encontrar pessoas que associam essa expressão exclusivamente à proteção de indivíduos acusados de crimes – nós, do campo progressista, somos acusados de defender bandidos. Mas também podemos falar em segurança pública e não perceber que, para muitos moradores, o próprio agente encarregado de garanti-la também pode ser fonte de medo. Podemos defender a valorização do trabalho sem compreender as moralidades que organizam o trabalho informal, precário ou ilícito.

O desafio não consiste em abandonar os direitos humanos, a defesa da diversidade ou os princípios democráticos. Consiste em compreender por que nossas palavras não encontram necessariamente os sentidos que imaginamos. Talvez precisemos produzir menos discursos sobre as pessoas e construir mais espaços nos quais possamos efetivamente aprender com elas.

IHU – O que explica a eleição de Douglas Ruas no Rio de Janeiro a partir desse contexto que relata, um ano após a chacina da Operação Contenção?

Kátia Sento Sé Mello – A eleição de Douglas Ruas exige uma reflexão sobre a trajetória política do estado do Rio de Janeiro, particularmente sobre a centralidade que a segurança pública adquiriu nas disputas eleitorais. O resultado eleitoral não permite, por si só, identificar uma motivação única entre seus eleitores.

Entretanto, considero que a experiência da violência e as diferentes expectativas de ordem e proteção constituem dimensões importantes para investigar as escolhas políticas no Rio de Janeiro. Há uma contradição que atravessa nossa sociedade: a demanda por segurança pode coexistir com a aceitação de práticas de controle social que produzem tratamentos profundamente desiguais.

Roberto Kant de Lima nos ajuda a compreender essa questão quando demonstra como determinadas formas de administração institucional de conflitos estão associadas a tradições hierárquicas e repressivas. Michel Misse, por sua vez, permite analisar como a construção social de determinados sujeitos como perigosos contribui para legitimar intervenções seletivas e violentas.

O problema é que as experiências de insegurança são reais e não podem ser desqualificadas. Quem vive em um território atravessado por confrontos armados, quem teme assaltos ou quem perdeu familiares em situações de violência formula demandas legítimas por proteção. A questão é compreender como essas demandas são traduzidas politicamente e quais respostas institucionais são oferecidas.

As pesquisas de Lidiane Malanquini na Maré demonstram a importância de considerar as práticas de proteção construídas pelos próprios moradores diante da violência armada. Isso nos leva a perguntar por que determinadas propostas de segurança encontram reconhecimento social, mesmo quando seus efeitos podem ser desiguais ou controversos. A eleição estadual também precisa ser analisada considerando alianças partidárias, trajetórias políticas, organização territorial das campanhas e disputas institucionais.

Milícias

O Estado do Rio de Janeiro politicamente vem sofrendo há décadas com milícias. Elas conseguiram ingressar na Câmara de Vereadores, na Assembleia Legislativa, elegeram deputados e senadores. Estamos vivendo uma experiência de prisão dos governadores das últimas décadas. Não tenho dúvidas de que se não conseguirmos o segundo turno no Rio de Janeiro – estamos trabalhando para que aconteça o segundo turno – Ruas vai ser preso também.

O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI), da Universidade Federal Fluminense (UFF), faz um trabalho de acompanhamento do crescimento das milícias no Estado do Rio de Janeiro. O grupo tem uma parceria com a ONG Fogo Cruzado e com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro e, nesta semana, lançaram um relatório de um ano da Operação Contenção.

Num país tão desigual, que foi estruturalmente constituído sobre a violência, a mortandade, a exploração, o castigo e a punição de corpos escravizados negros e indígenas, as pessoas ocupam o espaço público e o território de forma desigual. Pessoas pobres, pretas, com trabalhos precários ou sem trabalho, vivem sem uma infraestrutura mínima de água, esgoto, gás e internet. As pessoas não querem só comida. Elas querem também diversão e arte. Elas desejam ter sua casa, ter um trabalho, um salário, ver que o filho esteja estudando, que tenha um hospital ou posto de saúde que lhe atenda.

Jogo do bicho

Nesses lugares há uma extensão do jogo do bicho e um entrelaçamento entre a estrutura do jogo do bicho com determinados sujeitos da própria máquina estatal, que de servidores públicos não serviram nada, só desserviram.

Morei no subúrbio do Rio de Janeiro, que era região de um grande bicheiro. Não era uma região de favela. Era um bairro pobre. As pessoas tinham trabalho, tinham suas casas, ninguém morava na rua e não tinha esgoto a céu aberto, mas as pessoas tinham uma vida precária e muito pobre e eram ajudadas por esse bicheiro. Ele dava roupas, medicamentos, sapatos, tinha carro para levar um morador para o hospital quando ficasse doente, em dia de São Cosme e Damião, distribuía doces. No Dia das Crianças, distribuía brinquedos. Era uma pessoa em quem os moradores confiavam porque nasceram e cresceram no bairro.

Por outro lado, as pessoas têm medo de serem mortas por não aceitarem a proteção dos milicianos. Os milicianos não necessariamente traficam cocaína ou outras drogas. Eles fazem o que o Misse chama de mercadoria política. Eles vendem a linha da internet, da luz, o bujão de gás. Os moradores não podem comprar do fornecedor oficial do gás. Eles têm que comprar do miliciano que está vendendo aquele bujão em troca de proteger aquela casa, que pode ser invadida, ou alguém da família pode ser morto.

Ouvi recentemente o depoimento de uma mulher que recusou a proteção de um miliciano local, que bateu no salão dela para cobrar uma taxa de proteção. No dia seguinte, o salão dela estava depredado. Não é difícil entender por que essas pessoas votaram no 22. Porque elas não vão ter coragem de expressar qualquer contrariedade a esses grupos. Tem aí nuances e um processo histórico de acumulação da violência. Esse é um conceito muito importante para entender como a milícia e a criminalidade do Rio de Janeiro foram se desenvolvendo.

IHU – É possível saber o que sentem e esperam aqueles que votaram em Lula e em Flávio Bolsonaro nas favelas cariocas?

Kátia Sento Sé Mello – Gostaria de começar fazendo uma ressalva metodológica. Não podemos deduzir automaticamente os sentimentos e as expectativas dos eleitores a partir dos resultados eleitorais agregados. Tampouco podemos tratar os moradores das favelas como um grupo social homogêneo. A Maré reúne trajetórias, experiências religiosas, posições políticas, relações de trabalho e concepções morais muito diversas.

O voto em Lula pode expressar reconhecimento de políticas sociais, identificação com sua trajetória, expectativas de melhoria das condições de vida ou preocupações com direitos e garantias democráticas. O voto em Flávio Bolsonaro pode reunir expectativas relacionadas à segurança pública, valores familiares e religiosos, concepções de autoridade, críticas ao governo ou identificação com propostas conservadoras. Mas essas são hipóteses interpretativas, não descrições comprovadas das motivações dos moradores.

Uma pessoa pode valorizar políticas de redistribuição de renda e, simultaneamente, defender concepções conservadoras sobre família ou segurança pública. Pode desejar maior presença do Estado e, ao mesmo tempo, desconfiar profundamente de suas instituições. É justamente essa complexidade que precisamos levar a sério.

A contribuição de Michel Misse sobre a sujeição criminal é importante, pois em territórios marcados pela violência, determinadas populações experimentam processos cotidianos de suspeição e criminalização. Isso pode produzir relações ambivalentes com a autoridade estatal, simultaneamente demandada como proteção e experimentada como produtora de violência.

Não creio que possamos compreender as escolhas eleitorais nesses territórios apenas pela oposição entre segurança e direitos humanos. É preciso perguntar que segurança as pessoas desejam, quais experiências de injustiça viveram, como compreendem a autoridade e o que esperam de um governo. Essas perguntas precisam ser respondidas por pesquisas e conversas, não por atribuições antecipadas de consciência política.

IHU – Muitos analistas estão acentuando a centralidade das mobilizações na virada do presidente Lula. Os moradores da Maré estiveram nas ruas?

Kátia Sento Sé Mello – Acompanhei pelas redes a bela manifestação nas ruas da Maré. Muita gente foi para a rua. Estudantes descreveram a mobilização. Colegas professores que desenvolvem projetos de extensão na Maré também foram. No entanto, não disponho de informações sistemáticas que permitam afirmar qual foi a participação dos moradores da Maré nas manifestações do segundo turno. E considero importante não transformar experiências pontuais ou impressões pessoais em afirmações sobre o conjunto do território.

Entretanto, a mobilização social é fundamental. As manifestações públicas não constituem apenas instrumentos de pressão sobre os governos. Elas também podem produzir experiências de pertencimento, reconhecimento mútuo e elaboração coletiva de demandas.

IHU – Qual é o potencial das mobilizações das ruas daqui para frente?

Kátia Sento Sé Mello – A presença nas ruas, por si só, não assegura a ampliação dos direitos sociais. As manifestações precisam encontrar canais institucionais capazes de acolher demandas, produzir respostas e permitir o acompanhamento das políticas públicas. No governo Lula, não podemos descansar. Nós vencemos uma batalha. Agora, temos que estar alinhados ao governo para, enquanto sociedade, pensarmos e dizermos o que queremos.

Nem Lula tem a posição ou a predisposição de dizer como temos que viver. Temos que aproveitar essa grande oportunidade para colocar para fora os bandidos que merecem responder penalmente pelos crimes que cometeram. As manifestações de rua devem continuar, seja para demandar, seja para celebrar qualquer coisa que conquistarmos. Precisamos da festa porque esse é um momento de elaboração simbólica, de festejar com os outros, com pessoas que não conhecemos. Fui para a Cinelândia depois do resultado de domingo e foi uma emoção enorme ver a multidão celebrar o resultado da eleição. As pessoas tiveram coragem de ir para a rua e colocar a cara a tapa. A festa permitiu celebrar esse sopro de esperança, esse raio de luz que apareceu.

IHU – Considerando que a sociedade está fragmentada política e socialmente, há espaço para recompor coletivos? Como aproximar grupos que se identificam com visões de mundo diferentes em prol de um projeto de futuro comum?

Kátia Sento Sé Mello – Aposto nessa possibilidade. Conseguimos eleger Lula quando tudo dizia o contrário. Estou falando dos coletivos locais, mas também podem ser universidades, locais de trabalho ou outras atividades. Existem várias formas de organização que precisam de voz. Lula, através dos diferentes ministérios, tem que criar espaços para ouvir os coletivos, recolher o que o povo está pensando e sentindo e dar retorno. A mobilização da população através do exército do Lula, criado pelo Janones, vai ser um canal muito importante para uma orientação política nossa e um caminho através do qual possamos expressar as diferentes localidades e anseios. Isso abriu um canal de diálogo direto com a Presidência da República.

IHU – Quais são os desafios do quarto mandato do presidente Lula para transformar a vitória em medidas concretas que impactam a vida das pessoas?

Kátia Sento Sé Mello – Em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, por práticas institucionais hierárquicas e pela desqualificação recorrente da palavra de determinados grupos sociais, escutar constitui também um problema político. Não porque a escuta, isoladamente, seja capaz de transformar as estruturas sociais, mas porque não podemos construir relações democráticas sem reconhecer a legitimidade dos sujeitos que participam delas.

Talvez seja necessário recuperar uma dimensão fundamental da política: sua capacidade de produzir experiências compartilhadas, nas quais as pessoas possam não apenas reivindicar direitos, mas também participar da construção dos sentidos atribuídos à vida coletiva. Continuo com a mesma pergunta que formulei em meu artigo: o que as pessoas estão nos dizendo que ainda não conseguimos escutar? Penso que essa pergunta deve permanecer aberta, como condição para continuarmos produzindo conhecimento e imaginando outras possibilidades de convivência democrática.

A psicanálise nos ensina que não vamos conseguir controlar toda a nossa vida, mas vamos apostar, principalmente quando esses ideais buscam o bem comum e o bem-viver, que todas as pessoas tenham direito de existir. Posso estar muito enganada, mas aposto muito na escuta e no diálogo nos níveis locais de organização. Depois dessa virada, me enchi de esperança. Temos que apostar na vida e construir um ideal de bem comum que permita uma convivência digna para todas as pessoas existirem.

Desafios

Um dos maiores desafios será enfrentar a distância entre as promessas de cidadania e as experiências concretas de desigualdade vividas por parcelas expressivas da população brasileira. Para muitos jovens, especialmente aqueles que vivem em territórios populares, o futuro não se apresenta como um horizonte de possibilidades asseguradas. O acesso à educação pode coexistir com a precariedade do trabalho. A conclusão de um curso universitário não garante necessariamente inserção profissional. O reconhecimento formal de direitos não impede experiências cotidianas de discriminação e violência.

A pesquisa de Lourenço César sobre o trabalho no comércio ilícito na Maré é importante para refletirmos sobre essa questão. Precisamos compreender as condições sociais nas quais determinadas atividades econômicas se apresentam como possibilidades concretas de obtenção de renda, reconhecimento e pertencimento. Não se trata de estabelecer uma relação automática entre pobreza e criminalidade. Essa associação, além de equivocada, contribui para reproduzir processos de sujeição criminal analisados por Michel Misse.

Outro desafio diz respeito às mulheres, especialmente àquelas que acumulam responsabilidades de cuidado e enfrentam condições precárias de inserção no mercado de trabalho. Em minhas pesquisas sobre mulheres mães encarceradas, tenho procurado demonstrar como as instituições penais frequentemente produzem julgamentos morais que ultrapassam a avaliação dos atos praticados. Essas mulheres não são julgadas apenas por sua participação em atividades criminalizadas; muitas vezes, são também avaliadas a partir de expectativas normativas sobre a maternidade, a família e o comportamento feminino.

Isso nos obriga a perguntar que condições efetivas a sociedade oferece para que essas mulheres possam exercer a maternidade, trabalhar, cuidar de seus filhos e construir projetos de vida. O problema não se limita ao sistema prisional, que revela contradições mais amplas das políticas sociais e das formas de reconhecimento da cidadania.

Também considero fundamental enfrentar a violência armada e suas consequências para a vida cotidiana. As pesquisas realizadas na Maré mostram que a violência não se resume aos episódios de confronto. Ela interfere na circulação das pessoas, no funcionamento das escolas, no acesso aos serviços de saúde, nas relações de trabalho e nas possibilidades de imaginar o futuro, para além desse território. O impacto é na vida de todos nós.

Uma política voltada à juventude precisa considerar essas experiências em sua complexidade. Precisamos recolocar no centro do debate público uma questão que parece ter perdido parte de sua força: que condições estamos construindo para que as novas gerações possam desejar um futuro?

IHU – Considerando que mais pessoas conseguiram expressar o desejo por um futuro diferente nas eleições deste ano, o que essa palavra, de um ponto de vista antropológico, pode nos inspirar?

Kátia Sento Sé Mello – Não tenho uma resposta definitiva porque para cada sujeito o futuro é pensado de uma forma. Para mim, quando penso em futuro, penso em uma sociedade onde as pessoas tenham o direito de se expressar e de participar da vida política, da vida civil, que todos tenham trabalho, alimento, saúde e educação.

A vitória desta eleição abre a perspectiva de uma mudança na forma de governar e toda a reflexão que surgiu a partir do papel desempenhado pelo Janones nas redes sociais me abriu a perspectiva de que tem luz no fim do túnel. Me deu um sopro de esperança. No caso da juventude, o que vejo pelos meus alunos é que querem trabalho, independência, poderem circular na cidade, terem mais previsibilidade na vida, saber que o salário vai dar para colocar comida na mesa, para saúde, educação, para ter um teto para se abrigar. Isso é o básico que se pode querer.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Kátia Sento Sé Mello – Gostaria de retomar uma inquietação que atravessa meu artigo e que se tornou ainda mais importante depois do segundo turno. Vivemos um momento em que as categorias com as quais costumávamos interpretar a sociedade brasileira parecem já não dar conta de muitas das transformações em curso. As correspondências entre classe social, pertencimento religioso, experiência de trabalho, valores morais e identificação política tornaram-se mais complexas.

Isso não significa que as desigualdades de classe tenham perdido importância. Ao contrário, elas continuam operando profundamente na nossa sociedade. Mas precisamos compreender como se articulam a outras dimensões da experiência social.

A antropologia tem uma contribuição importante a oferecer nesse contexto, especialmente por sua disposição de construir conhecimento a partir do encontro com os outros. Penso também que a psicanálise pode contribuir para essa reflexão ao nos lembrar que os sujeitos não se orientam exclusivamente por interesses conscientes e racionalmente organizados. Há identificações, desejos, medos e formas de pertencimento que participam da constituição dos laços sociais.

Entretanto, não devemos transformar essas contribuições em instrumentos para explicar antecipadamente o comportamento das pessoas. A questão que me interessa é justamente a possibilidade de reconhecer aquilo que escapa às nossas explicações.

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