Da produção familiar ao protagonismo nas comunidades, oficinas com ervas medicinais e saberes tradicionais se tornam ferramenta de articulação dos grupos de agricultoras em Queimados e Nova Iguaçu (RJ)
Por Heloisa Sousa, em CPT Nacional
“Meu pai esteve aqui quando houve a ocupação, em 1984. Depois ele ficou viúvo e disse que queria a gente aqui. Eu venho de uma área urbana como educadora então, quando cheguei, no inícios dos anos 2000, me interessei pela questão da educação rural”, conta Déborah Figueiredo da Silva, do regional Mato Grosso do assentamento Campo Alegre e uma das fundadoras do Associação Geral dos Agricultores de Campo Alegre. Déborah conheceu Sônia Martins, agente da CPT que acompanhava o território, quando integrou o assentamento, de quem se aproximou para pensar em projetos de educação rural.
Na época, o coletivo de mulheres já contava com grupos em cada regional do assentamento Campo Alegre, que compreende parte dos municípios de Queimados e Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e é dividido em seis regionais. “A CPT veio para fortalecer os coletivos que já existiam e conseguimos dar passos importantes no sentido da visibilidade e do protagonismo das mulheres em seus territórios”, observa Elaine Ferreira, da coordenação da CPT ES/RJ.
Segundo Déborah, a aproximação do coletivo com a CPT e, posteriormente, com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fez com que a comunidade levantasse outras demandas além da educacional, como o cuidado com a saúde das mulheres e crianças, fato que expõe a falta de políticas públicas voltadas para o território.
A partir daí, iniciou a articulação das práticas de saúde alternativa com a Rede Fitovida, que utiliza o conhecimento tradicional associado às plantas medicinais, dando origem ao grupo de mulheres “Sementes da terra”, com foco na fitoterapia. “Tinham irmãs da Pastoral da Saúde que faziam essa prática e Sônia convidou elas para passar para gente esse conhecimento, como a garrafada, o shampoo, e a gente começou a multiplicar esse conhecimento”, explica Déborah.
A parceria com a Rede Fitovida é um dos exemplos das ações de intercâmbio entre as mulheres do assentamento Campo Alegre, que proporciona a troca de saberes e também conquistas no território. Outro caso é a licenciatura em Educação do Campo via Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), que possibilitou o ingresso de jovens do assentamento à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Em Marapicu, outra regional do assentamento, mora Neusa Maria Avelino há cinco anos. Ela conta que os momentos de oficinas do coletivo, como o trabalho com as ervas, artesanato e produção de sabão, são também momentos de solidariedade entre as companheiras.
“Acho que esse movimento todo é de uma importância gigantesca porque a mulher tem pouca fala na área rural, tem pouca visibilidade. As pessoas acham que os homens é que fazem tudo. Nas rodas de conversas, a gente descobre que têm mulheres que não sabem dos direitos sobre a própria saúde”, explica Neusa.
“A gente precisa despertar essas mulheres, chamar essas mulheres pra luta, mostrar pra elas que elas não precisam ficar reclusas a ser donas de casa, depender só do salário do marido, que elas podem pôr a mão na massa, que elas são importantes” – Neusa Maria Avelino.
As oficinas, que estimulam a produção de renda, aproveitamento de matérias-primas do território e a visibilidade das agricultoras nas comunidades, se tornaram também espaço de articulação entre as mulheres. Elas muitas vezes não encontravam esse espaço nos locais de discussão do assentamento, observa Elaine Ferreira.
“No decorrer dos anos, essas mulheres se colocaram enquanto lideranças nas associações, se colocaram de frente nos processos de discussão dentro do território. Antes, eram só os homens que faziam as discussões. As mulheres só iam às assembleias para organizar o espaço, para ter quórum ou para fazer o lanche”, relata. A coordenadora destaca, ainda, a persistência na busca do protagonismo e da autonomia das agricultoras, especialmente em relação aos direitos à saúde.
Marcha das Mulheres Negras
No dia 5 de julho, as agricultoras acompanhadas pela CPT representaram as mulheres do campo na II Marcha das Mulheres Negras da Baixada Fluminense, em Queimados. A concentração ocorreu na Praça Nossa Senhora da Conceição, na Vila das Mangueiras.
Com o lema “Não queremos ser mais uma; saúde importa, nossos corpos resistem”, a marcha reuniu cerca de 300 mulheres que caminharam pelo autocuidado, por políticas públicas voltadas para saúde e contra as violências de gênero e racial. As temáticas para a mobilização foram levantadas por meio de rodas de conversas realizadas com grupos de mulheres em diversos municípios da Baixada.
A mobilização foi realizada por organizações de defesa dos direitos humanos, em parceria com à CPT-RJ e a Casa Dalva, com a proposta de realizar incidência política na região voltada para as demandas de saúde e cuidado das mulheres negras dos territórios. A organização contou com rodas de conversa nos territórios, que direcionaram os temas da marcha esse ano. A CPT, em diálogo com a ONG Criola, visibilizou a temática da saúde com o projeto “Saúde das Mulheres Negras Cis e Trans” nos territórios rurais e urbanos no território Campo Alegre e na Baixada Fluminense.
As temáticas levadas também se conectaram com diversas outras pautas levantadas por grupos presentes na marcha, como o desaparecimento forçado, desigualdades, violência e também com a escrita desenvolvida por mulheres, por meio do coletivo Mulheres do Ler.
O momento contou com apresentações culturais e feira agroecológica, composta pelos produtos das mulheres dos territórios. “A marcha da mulher preta hoje instituída no Rio de Janeiro e que é uma pauta nacional não é um momento simplesmente cultural. Ela também é cultural, mas é, sobretudo, uma pauta profética de denúncia e do anúncio, de denunciar todo e qualquer tipo de arbitrariedade que está ocorrendo no nosso estado do Rio de Janeiro”, explica Sônia Martins.
A atividade foi uma pré-marcha para a 12ª Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, realizada no dia 26 de julho e que ocorre todos os anos no Rio de Janeiro. A mobilização ocupa a praia de Copacabana contra o racismo, por reparação e bem-viver e em celebração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela — comemorados no dia 25 de julho.




