As chaves de uma reviravolta histórica. Entrevista com Beto Vasques

A inesperada vitória de Lula sobre Bolsonaro foi possível graças à mobilização dos setores populares, à irrupção de uma geração de ativistas e a uma reviravolta na disputa política nas redes sociais. Nesta entrevista, o cientista político brasileiro aborda as dimensões dessa vitória e analisa os desafios da esquerda para transformar a mobilização eleitoral em um projeto político duradouro

IHU

No dia 4 de outubro, Flávio Bolsonaro triunfou no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras contra Luiz Inácio Lula da Silva. Três semanas depois, o atual presidente protagonizou uma reviravolta que poucos consideravam possível: obteve mais de 64 milhões de votos, alcançou 51,79% dos votos válidos e conquistou um quarto mandato presidencial. Entre uma votação e outra, as ruas encheram-se de manifestantes, uma nova geração de ativistas integrou-se à campanha e o chamado “Exército de Lula“, organizado pelo deputado André Janones, transformou o WhatsApp em um centro de coordenação política.

O que levou setores populares desencantados a se mobilizarem para votar no presidente? Qual foi o papel das mulheres evangélicas, dos jovens e dos eleitores que rejeitavam o retorno do bolsonarismo? Que dificuldades enfrenta uma esquerda que conseguiu vencer as eleições, mas que terá de governar com um Congresso adverso? Nesta entrevista à Nueva Sociedad, Beto Vasques analisa a eleição, o novo protagonismo das redes e os desafios para transformar uma mobilização eleitoral em uma força política duradoura. Beto Vasques é professor universitário, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Meios Digitais na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e diretor do Instituto Democracia em Xeque.

A entrevista é de Mariano Schuster e Pablo Stefanoni, publicada por Nueva Sociedad, 03-11-2026.

Eis a entrevista. 

A virada de Lula foi tão inesperada que até mesmo uma grande parte do Partido dos Trabalhadores (PT) parecia resignada com a derrota após o primeiro turno. O que mudou durante as três semanas entre os dois turnos e como a rejeição a Flávio Bolsonaro, a defesa da democracia e o apoio propriamente lulista se combinaram para reverter o resultado?

Beto Vasques – Antes de entrar no resultado, gostaria de ressaltar a dimensão histórica do que aconteceu. Lula decidiu apostar tudo. Se perdesse para Flávio Bolsonaro, o golpe teria sido devastador. Muitos poderiam ter-lhe aconselhado a retirar-se, a preservar a sua trajetória e a evitar terminar a sua carreira com o risco de uma derrota desse tipo. Mas ele decidiu concorrer. Lula ocupa um lugar excepcional na história brasileira. É um dirigente que estruturou o cenário político durante décadas, venceu quatro eleições presidenciais — depois de ter perdido as três primeiras — e continua a despertar paixões como nenhum outro líder político. Gosto de defini-lo como o “espelho incômodo” para os brasileiros; ele sintetiza o Brasil, com suas luzes e sombras. Por isso, ninguém permanece indiferente diante de Lula. Esta eleição consolidou ainda mais esse lugar. Não se trata apenas do fato de ele ter vencido novamente, mas da dimensão política dessa virada diante de uma extrema-direita que pretendia retornar ao poder.

Pois bem, acredito que o resultado se explica por um duplo reencantamento. Por um lado, o reencantamento dos eleitores que defendem a democracia e rejeitam o bolsonarismo. Por outro, o dos eleitores mais fiéis de Lula — especialmente os setores populares — que não estavam satisfeitos com o seu governo. São dois processos distintos e complementares.

No primeiro turno, não tivemos uma verdadeira campanha presidencial. Pode soar exagerado, mas o debate público girou em torno de outros assuntos: a crise do Banco Master [1], as disputas no Supremo Tribunal Federal, as controvérsias sobre seus integrantes e até temas religiosos, como a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil [2]. Com isso, perderam peso as trajetórias dos próprios candidatos, os legados dos governos que representavam e os projetos de futuro que propunham.

A meu ver, isso favoreceu Flávio Bolsonaro. Quando dois candidatos com índices muito elevados de rejeição se enfrentam — sendo um deles o presidente em busca da reeleição —, a disputa tende a se transformar em um plebiscito sobre a continuidade do governo. Em um cenário internacional no qual muitos governos são punidos nas urnas — fenômeno que ficou conhecido como a “maldição dos governos incumbentes” —, essa dinâmica era particularmente perigosa para Lula. A avaliação do governo, por sua vez, mostrava uma leve predominância de opiniões negativas sobre as positivas. Flávio saiu vitorioso no primeiro turno, com uma diferença de quase 1,9 ponto percentual. Esse triunfo inicial deu-lhe ainda mais impulso.

Percebia-se um desejo de mudança que eu chamaria de inercial: pouco reflexivo e desprovido de grande entusiasmo. Não se tratava, necessariamente, de uma adesão apaixonada a Flávio. Para muitos eleitores, “mudança” significava apenas tirar o PT do poder. Era um significante quase vazio: desejava-se a mudança, mas sem que se tivesse discutido para onde ela levaria ou com qual propósito. O segundo turno alterou esse cenário.

A campanha passou a abordar a trajetória de Flávio Bolsonaro, o governo de seu pai e as propostas que ele apresentava. Vieram à tona a gestão da pandemia, a tentativa de golpe de Estado em 2022-2023, o risco de agravamento da pobreza e, de modo mais amplo, a possibilidade de um novo retrocesso democrático. Flávio havia falado em modificar a Constituição sem explicitar as mudanças, ou em liberalizar novamente a circulação de armas, e uma parte do eleitorado começou a se perguntar se essa era, de fato, a mudança que desejava. Isso permitiu dar conteúdo à palavra “mudança” — não mais de forma abstrata, mas pensando no governo de Jair Bolsonaro.

Houve, então, dois grandes eixos nessa reflexão. O primeiro foi a defesa da democracia: a separação dos poderes, a independência do Judiciário e os limites ao poder presidencial. O segundo foi a preocupação com um retrocesso de direitos — desde as liberdades das mulheres e das pessoas LGBTI+ até a proteção dos povos indígenas, sobretudo na Amazônia. A isso somava-se o temor de perseguição a adversários, à sociedade civil, aos movimentos sociais e à imprensa. São questões distintas, mas que, no conjunto, ajudaram a mobilizar um eleitorado que não se identificava necessariamente com Lula nem com o PT e que, contudo, não queria voltar ao bolsonarismo.

A mobilização popular e de esquerda foi determinante. Mas houve também um movimento, bem mais silencioso, de setores liberais que haviam apoiado Lula em 2022 e que, desta vez, estavam distanciados de sua figura e do governo. Durante grande parte da campanha, permaneceram calados. Alguns só assinaram manifestos ou reconheceram que votariam nele novamente nos últimos dias. Não queriam se alinhar ao PT, mas decidiram impedir o retorno do bolsonarismo. Essa contribuição existiu, embora tenha sido muito menos visível do que em 2022. Desta vez, foi a juventude — seguida tanto por pessoas comuns quanto por setores da esquerda organizada — que ocupou as ruas e as plataformas digitais de uma maneira inédita.

O senhor fala de um segundo movimento, menos visível, que foi o reencontro de Lula com uma parte de seu eleitorado histórico. O presidente havia retomado políticas sociais e melhorado alguns indicadores, mas ainda encontrava descontentamento entre os setores historicamente mais fiéis. Por que esse vínculo havia se enfraquecido? O que fez com que esses eleitores — incluindo alguns que pensavam em se abster ou votar em branco — voltassem a apoiá-lo no segundo turno? Pesou mais o medo de perder direitos e conquistas ou a identificação afetiva com Lula?

Beto Vasques – Esse segundo movimento é fundamental e, a meu ver, está sendo menos discutido do que merece. Lula tinha um problema justamente entre os setores que, historicamente, constituíam sua principal base eleitoral: os eleitores do Nordeste e as famílias cuja renda não chega a um salário mínimo — em especial, lares chefiados por mulheres. São os mais pobres, muitas vezes pessoas socialmente invisibilizadas. Nesses grupos, Lula costumava obter percentuais próximos a 70%, mas, no primeiro turno, uma parcela significativa não o acompanhou.

Por quê? Porque estavam insatisfeitos. O governo havia melhorado indicadores sociais e retomado políticas importantes, mas, para essas pessoas, o custo de vida continuava muito alto, e a violência urbana era uma preocupação cotidiana. A sensação de insegurança e as dificuldades para chegar ao fim do mês pesavam muito mais do que qualquer balanço macroeconômico. Às vezes, ocorre uma falha de comunicação: o governante sente que está fazendo um esforço enorme para melhorar a vida das pessoas e não entende por que elas não reconhecem isso. Por sua vez, o eleitor sente que suas dificuldades concretas não estão sendo suficientemente atendidas.

Contudo, nos últimos dias, houve uma espécie de reconciliação entre Lula e seus eleitores. No Nordeste, Lula havia obtido cerca de 62% no primeiro turno e terminou com mais de 69% no segundo — uma proporção semelhante à de 2022. O mais notável é que as pesquisas de intenção de voto não captaram totalmente esse movimento. Minha hipótese é que houve uma espécie de “espiral do silêncio“: eleitores fiéis a Lula — que estavam insatisfeitos e não necessariamente declaravam sua decisão — acabaram retornando a ele.

Não digo isso como uma intuição isolada. Minha interpretação baseia-se na sistematização do que ouvi em estudos de redes e grupos focais; ainda não é possível demonstrar, com certeza, o que provocou cada mudança no voto. Mas, no último debate televisivo, por exemplo, viu-se um Flávio Bolsonaro arrogante, que tratou Lula de maneira depreciativa. Minha impressão é que uma parte do eleitorado popular reagiu pensando algo como: “Podemos estar bravos com Lula e criticá-lo, mas esse ‘filhinho de papai’ não tem autoridade para humilhá-lo”. Despertou-se a necessidade de defender alguém que, apesar de tudo, consideram como um dos seus.

Surgiu também uma questão material muito concreta: o medo de perder conquistas. Aos aumentos do Bolsa Família e à atualização das aposentadorias e do salário mínimo, somaram-se novas conquistas, como o fim da escala 6×1 — isto é, seis dias de trabalho para um de descanso — e sua substituição pela escala 5×2, de cinco dias semanais. A isso somou-se a promessa de Lula de tornar o transporte público gratuito nos fins de semana a partir de 2027. Para uma família de baixa renda, essas medidas podem mudar a organização da vida cotidiana e possuem, ainda, uma dimensão aspiracional: o acesso a um tempo livre do qual, em geral, apenas as classes médias desfrutam. Na reta final, o dilema deixou de ser simplesmente continuidade ou mudança, passando a ser: quais direitos poderiam ser preservados e quais estavam em risco?

Há outro dado notável: entre os dois turnos, a participação aumentou de forma significativa. Quase cinco milhões de pessoas que haviam se abstido, ou votado em branco ou nulo, decidiram registrar um voto válido; além disso, houve a redistribuição dos votos dos candidatos que ficaram de fora do segundo turno, e Lula obteve uma parcela deles maior do que a esperada. Houve, inclusive, eleitores que migraram de Flávio para Lula entre os dois turnos. É assim que se explica o salto de uma derrota por mais de dois milhões de votos, no primeiro turno, para uma vitória por mais de quatro milhões, no segundo.

Identifico três tipos de eleitores que mudaram de opção. Há o eleitor oscilante progressista, que hesita entre votar em Lula ou ficar em casa; o eleitor oscilante conservador, que oscila entre Flávio e a abstenção; e um terceiro grupo verdadeiramente indeciso entre as alternativas. Os três se movimentaram. Os primeiros foram votar em Lula, uma parte dos segundos preferiu não participar e alguns dos terceiros mudaram seu voto para Lula. A defesa da democracia, o medo da violência e a proteção dos direitos sociais foram decisivos para esse último grupo.

Uma das grandes novidades do segundo turno foi o retorno das mobilizações de rua, com uma forte presença juvenil. Em muitos casos, não foram as estruturas sindicais ou partidárias que ditaram o ritmo. Como as ruas e as redes se alimentaram mutuamente? O que permitiu transformar esse entusiasmo em participação política e, finalmente, em votos?

Beto Vasques – Para entender a campanha, é preciso observar duas dimensões que são inseparáveis: comunicação e mobilização. Por muito tempo, analisamo-las como se uma ocorresse na internet e a outra, nas ruas. Nesta eleição, essa fronteira praticamente desapareceu. A mobilização transbordou a campanha oficial e, ao mesmo tempo, a comunicação digital amplificou o que estava acontecendo nas manifestações.

A primeira semana após a votação inicial foi muito peculiar. Flávio Bolsonaro agia como se já tivesse a vitória garantida. No campo do PT, havia perplexidade, e buscavam-se os responsáveis ​​pela derrota: o assessor de comunicação, a estratégia, a campanha. Enquanto os dirigentes discutiam, uma parte da sociedade decidiu entrar em ação. As pessoas foram às ruas sem uma convocação centralizada. Havia uma sensação muito forte de que não se podia permitir o retorno de outro Bolsonaro.

Chamou-me a atenção, de modo especial, a composição dessas mobilizações. Durante muitos anos, as manifestações da esquerda brasileira dependeram fundamentalmente dos sindicatos e de militantes de gerações mais velhas. Desta vez, vimos um grande número de jovens, muitos dos quais não vinham das organizações tradicionais. Era algo que eu não via no Brasil há muito tempo. Lembrou-me, em certa medida, dos primeiros momentos do Podemos, na Espanha, quando surgiram jovens que ingressaram na vida política sem passar pelas estruturas tradicionais.

Esses jovens não separavam a organização de uma marcha de sua atividade nas redes. Alguns dos meus alunos reuniam-se durante a semana, preparavam cartazes, trocavam ideias pelo WhatsApp, definiam palavras de ordem, iam juntos às manifestações, gravavam vídeos, tiravam fotos e, depois, continuavam conversando na internet. Costumo resumir da seguinte forma: duas horas na rua podiam se transformar em dois dias de mobilização digital. O acontecimento não terminava quando as pessoas voltavam para casa. Ele continuava por meio de imagens, relatos, memes e convocações para novas ações. Também participaram comunidades digitais que não haviam surgido em torno da política partidária, como grupos de fãs de K-pop [pop coreano] e de bandas como o BTS. Isso ajudou a criar outras linguagens, novas formas de se identificar com a campanha e uma circulação de conteúdos que ia muito além das contas oficiais do PT. As redes alimentavam as mobilizações, e as mobilizações forneciam conteúdo, entusiasmo e legitimidade às redes. Não foram dois sucessos paralelos: um fortaleceu o outro.

Houve uma disputa em um terreno bastante amplo. Durante anos, a extrema-direita apresentou-se como ousada, transgressora e divertida, capaz de captar a atenção dos jovens. Enquanto isso, a esquerda parecia, muitas vezes, solene, rígida e incapaz de gerar entusiasmo. No segundo turno, isso mudou. Circularam memes, imagens, figuras populares, mensagens bem-humoradas e formas de participação que tornaram atraente a identificação com Lula. Não se tratou apenas de comunicar melhor uma proposta eleitoral. Passou-se a disputar o que era desejável, o que era divertido e onde residia a energia da sociedade. Em outras palavras, disputou-se a produção de sentido.

No último dia, a mobilização para levar as pessoas a votar também foi fundamental. O bolsonarismo conta com estruturas de pressão eleitoral muito fortes — desde redes locais de poder, como as milícias no Rio de Janeiro, até certas lideranças religiosas. Desta vez, do outro lado, houve pessoas que procuraram vizinhos, familiares e amigos, auxiliaram quem tinha dificuldades de locomoção e insistiram para que ninguém ficasse em casa. Mesmo com problemas de transporte em algumas cidades — incluindo denúncias de redução deliberada da frota de ônibus pelas prefeituras de São Paulo e Salvador, o que levou à intervenção da Justiça Eleitoral —, houve um esforço coletivo excepcional. Essa articulação entre as ruas, as redes e a mobilização pelo voto foi uma das grandes chaves da vitória.

Durante anos, o bolsonarismo pareceu ter uma grande vantagem na comunicação digital, enquanto o PT e as organizações de esquerda demonstravam dificuldades para coordenar suas mensagens. No segundo turno, André Janones impulsionou o chamado “Exército de Lula”, organizado em torno de um canal de WhatsApp que reuniu mais de dez milhões de pessoas — e que hoje é visto com inveja pela esquerda global. Em que consistiu, de fato, a sua inovação? Como essa operação se relacionou com a mobilização espontânea e com a militância tradicional? Até que ponto se pode atribuir a ela uma parte decisiva da virada?

Beto Vasques – É compreensível que, agora, todas as esquerdas queiram levar Janones para seus países, quase como se ele fosse um amuleto. Mas seria um erro imaginar que tudo se explica por uma única pessoa ou por uma ferramenta tecnológica. Janones é um dos grandes vencedores destas eleições: tem um mérito enorme, e o que ele fez será estudado nas faculdades de comunicação de todo o mundo. Ainda assim, ele agiu em um contexto de mobilização e de temor diante de um novo governo bolsonarista. Sem esse combustível político, o dispositivo digital não teria tido a mesma força.

Vale lembrar como mudaram as formas de organização no WhatsApp, que, no Brasil, é utilizado de maneira muito generalizada. Em 2018, a extrema-direita aproveitou a possibilidade de enviar mensagens em massa — muitas vezes a partir de números desconhecidos — e de encaminhar conteúdos sem grandes restrições. Posteriormente, os grupos e as listas de transmissão ganharam importância. Nesta eleição, em que a plataforma já não permite o envio de mensagens para listas ilimitadas de pessoas, Janones utilizou uma nova funcionalidade: os canais do WhatsApp, que permitem reunir milhões de seguidores em um único espaço. O “Exército de Lula” ultrapassou a marca de dez milhões de integrantes e tornou-se um centro a partir do qual eram organizadas ações coordenadas em diferentes plataformas.

Contudo, a inovação não foi apenas técnica. Janones identificou dois objetivos. O primeiro foi a coordenação das mensagens — algo que costuma ser problemático na esquerda. Ele conseguiu fazer com que muitas pessoas falassem sobre o mesmo assunto, com uma abordagem compartilhada e no mesmo momento. Dessa forma, foi possível pautar a conversa pública, em vez de apenas reagir à agenda da extrema-direita.

O segundo feito foi conferir organização a uma participação digital que, normalmente, é dispersa. Muitos militantes resistem a reproduzir uma hashtag criada por outra pessoa, compartilhar um vídeo de terceiros ou seguir orientações, por sentirem que perdem sua autonomia. Desta vez, o desejo de impedir o retorno do bolsonarismo gerou uma disposição incomum para a ação coletiva. Pessoas muito distintas aceitaram as “missões” que eram divulgadas no canal, compartilhavam conteúdos no Instagram, contribuíam para os trending topics no X e multiplicavam mensagens coordenadas. Não se tratava apenas de ter seguidores: era preciso transformá-los em participantes ativos e organizados de uma campanha.

Uma das coisas que mais me impressionou foi a capacidade de orientar a conversa pública. Uma semana antes do segundo turno, Roberta Luchsinger— investigada pela Polícia Federal e ligada a um filho de Lula — deu uma entrevista à CNN Brasil na qual anunciou que pretendia fazer uma delação envolvendo o presidente e seu filho; a campanha de Flávio tentou emplacar o assunto. Janones pediu aos seus seguidores que não amplificassem a questão — que não clicassem nem compartilhassem — e organizou ações simultâneas: uma transmissão ao vivo, mensagens coordenadas nas redes sociais e hashtags no X. O episódio, que em outro momento teria sido o tema central dos últimos dias de campanha, acabou ocupando um lugar marginal no noticiário, sem chegar a dominar a pauta. A produção de sentido transformou-se em produção de realidade — isto é, na capacidade de definir o que é relevante e o que não é, e, portanto, o que merece ocupar a conversa pública. Desta vez, foi Janones quem fez isso. A extrema-direita, ao redor do mundo, vem fazendo o mesmo há uma década, com grande eficácia e recorrendo a uma enorme quantidade de mentiras.

Além dessa coordenação, acredito que Janones resgatou três dimensões subjetivas que a direita radical havia trabalhado muito melhor ao longo da última década: pertencimento, entretenimento e protagonismo. Pertencimento, porque uma comunidade digital tão grande pode fazer com que uma pessoa não se sinta politicamente isolada, mesmo em um momento de derrota ou desânimo. Entretenimento, porque a participação política deixou de se limitar ao compartilhamento de declarações solenes e passou a ser marcada por humor, ironia e criatividade. E protagonismo, porque pessoas que nunca haviam desempenhado um papel em uma campanha sentiram que podiam intervir, de imediato, em um acontecimento histórico.

Esse último ponto é especialmente importante. Um jovem pode se aproximar de uma organização de esquerda e deparar-se com uma estrutura hierárquica e entediante, na qual precisa esperar anos até ser ouvido ou assumir alguma responsabilidade. Em certos espaços de extrema direita, ocorre o contrário: alguém chega, apresenta uma ideia e encontra reconhecimento imediato — ainda que a ideia seja absurda —, tudo isso enquanto se diverte. Essa capacidade de oferecer participação e entretenimento, e de fazer com que uma pessoa se sinta importante, possui uma força enorme. Durante o segundo turno, a esquerda brasileira recuperou parte dessa energia. E não evitou a ironia. Muitos riam de si mesmos por integrarem o “exército” de Janones e por seguirem as orientações daquele a quem Lula, no dia da vitória, chamou de “nosso general”. Essa autoironia traduziu-se, de forma espontânea, em uma proliferação de memes que tornaram a campanha mais atraente e “sexy”.

De qualquer modo, seria um equívoco transformar essa experiência em uma receita universal. Um canal pode ter muitos inscritos e, ainda assim, não gerar grandes efeitos. O fator decisivo foi a combinação disso com as manifestações, com uma campanha que passou a abordar temas substantivos e com um eleitorado disposto a se engajar. Janones conferiu organicidade a uma força social que já estava em movimento. É por isso que falo em comunicação e mobilização como duas partes de um mesmo processo.

A ofensiva digital suscitou, além disso, uma discussão sobre os métodos. O “Exército de Lula” conseguiu disputar a pauta pública e, por vezes, deslocar assuntos que a campanha de Flávio Bolsonaro tentava emplacar. Mas Janones também abriu um debate sobre a possibilidade de utilizar manobras de distração e sobre como responder a uma extrema-direita que, durante anos, recorreu a notícias falsas e ataques coordenados. É possível travar uma guerra de comunicação tão intensa sem reproduzir essas práticas? Onde está a fronteira entre uma campanha combativa, que utiliza fatos verdadeiros, e uma operação de desinformação?

Beto Vasques – Sim, acredito que é possível realizar uma campanha digital bastante dura sem baseá-la em notícias falsas. Essa foi, em grande medida, a nossa experiência. Janones disse algo como: “Estamos fazendo o que eles sempre fizeram; mas, enquanto eles usam notícias falsas, nós usamos fatos verdadeiros”. Durante o segundo turno, também circularam materiais como a série de vídeos da iniciativa do coletivo Revelando, que abordava a trajetória de Flávio Bolsonaro, o governo de seu pai e suas propostas. Havia bons roteiros e figuras conhecidas, e esses conteúdos ajudaram a debater questões que haviam ficado de lado durante o primeiro turno.

Dito isso, vocês me lembram algo que Janones também mencionou: se fosse necessário um boato para distrair o adversário e fazê-lo gastar energia, ele poderia ser utilizado. E, aqui, não vou me fazer de ingênuo. Se, por “notícia falsa”, entendermos um boato lançado para despistar o campo adversário, essa possibilidade entra na discussão. Outra coisa, bem diferente, seria inventar uma acusação monstruosa e sem fundamento contra Flávio. Não estou falando disso. Mas também não acredito que possamos travar uma disputa desse tipo pautados apenas pela pureza. A extrema-direita utiliza recursos agressivos há anos, e a esquerda precisa aprender a combatê-la a partir de uma posição que seja, ao mesmo tempo, mais ética e eficaz.

Janones explica isso com uma imagem bastante ilustrativa: jogamos no campo do adversário, com as regras dele, o árbitro dele, a bola dele e boa parte do público dele. É o caso da Meta e da plataforma X, de Elon Musk. Não se pode ignorar essa desigualdade. É como tentar enfrentar um time que joga de forma muito dura sem aceitar que será preciso disputar cada bola. Não se trata de abrir mão das diferenças políticas, mas de entender em que terreno o jogo está sendo disputado. O campo progressista, em diferentes países, mantém em sua pauta a regulação dos meios de comunicação, a transparência algorítmica e a “abertura de alamedas digitais” — espaços abertos, não controlados por um punhado de empresas —, bem como o debate sobre a interoperabilidade entre plataformas. Mas, enquanto continuarmos jogando sob as regras da Meta, não podemos ser ingênuos. É importante destacar que a Meta desempenhou um papel nefasto nesta eleição: houve casos recorrentes que, segundo denunciou a campanha de Lula, favoreceram Flávio. O próprio Conselho de Supervisão da Meta criticou as falhas recorrentes da empresa na moderação de conteúdos eleitorais no país. E não passou despercebido o fato de que, em meio a essas denúncias, o chefe de assuntos globais da empresa, Joel Kaplan, anunciou sua saída. A Meta reconheceu problemas no Brasil, mas os atribui a “falhas” — ainda que tenham se repetido e, segundo a campanha de Lula, sempre na mesma direção.

Há também uma armadilha na discussão sobre a liberdade de expressão. A extrema-direita pode se apresentar como sua defensora e nos acusar de sermos censores quando queremos impor limites a crimes cometidos na internet. Eu não me considero um censor, mas há coisas que eu não aceitaria que fossem ditas cara a cara e que, da mesma forma, não me parece aceitável naturalizar na internet. A difamação é um crime, seja cometido nas redes ou fora delas. Temos muito a discutir sobre as plataformas e suas regras, bem como sobre os limites do debate público. Mas, enquanto isso, precisamos atuar nesse terreno e — insisto — não podemos ser ingênuos.

A extrema-direita brasileira conseguiu construir lideranças juvenis muito potentes, como a de Nikolas Ferreira, com mais de 25 milhões de seguidores no Instagram, enquanto a esquerda parecia apoiar-se em organizações e dirigentes cada vez mais envelhecidos. No entanto, esta eleição mostrou uma presença muito forte de jovens nas ruas e também novas figuras no Congresso, como Erika Hilton e Ana Elisa Santos Silva, que construíram boa parte de sua relação com o eleitorado por meio das redes sociais. Estamos diante de uma mudança geracional na esquerda brasileira? Nesse caso, qual é o seu significado?

Beto Vasques – A primeira coisa que eu diria é que caiu — quase à força e à base de vídeos curtos nas redes — uma das últimas gerontocracias políticas: a brasileira. Durante anos, as lideranças partidárias não abriram espaço para as novas gerações. Em outros países, a idade média dos dirigentes começou a diminuir, mas, no Brasil, isso parecia impossível. As redes sociais abriram um caminho pelo qual os jovens puderam alcançar diretamente públicos enormes e disputar votos com políticos consagrados.

O caso de Ana Elisa Santos Silva parece-me excepcional. Ela tem 21 anos, é uma jovem negra de Minas Gerais, integra o PT e foi eleita deputada federal com mais de meio milhão de votos. É uma nativa digital. Após a eleição, ela disse na televisão algo muito interessante, dirigido a adolescentes negras. Algo como: “Se hoje vocês têm 16 anos, daqui a quatro terão 20, e quero mostrar a vocês como se preparar para serem deputadas”. O importante é que essas figuras não apenas conquistam votos: elas também convidam outros jovens a se imaginarem fazendo política. Erika Hilton é outro exemplo dessa novidade. Trata-se de uma mulher trans do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) — a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados, com quase 1,6 milhão de votos. Esses resultados estão abalando a velha política. De fato, as lideranças tradicionais do Congresso já discutem reformas nas regras eleitorais, em parte porque percebem que os políticos que se tornaram conhecidos por meio das redes podem substituí-las. É uma transformação enorme: a disputa geracional já não ocorre apenas nas organizações partidárias, mas diretamente nas urnas.

Por isso, interessa-me falar de algo mais profundo do que a habilidade de fazer vídeos. Trata-se de formas distintas de ingressar na política e de se relacionar com o eleitorado. Durante muito tempo, vimos a extrema-direita utilizar as redes para construir lideranças juvenis; agora, surgem jovens de esquerda capazes de obter votações expressivas por esse mesmo caminho. Isso modifica a composição da representação e obriga os partidos tradicionais a enfrentar uma realidade que não haviam previsto.

O bolsonarismo manteve, durante anos, uma influência considerável entre os evangélicos, especialmente por meio de redes de igrejas e discursos sobre a família e os valores morais. No entanto, uma parte deles parece ter reconsiderado seu voto. O que explica esse movimento e o que ele nos diz sobre a diversidade interna do eleitorado evangélico? Como o PT pode disputar esse espaço sem reduzi-lo a uma questão religiosa, nem se aproximar das igrejas apenas a cada quatro anos, durante as campanhas?

Beto Vasques – No voto evangélico, há dimensões materiais e subjetivas que devemos considerar em conjunto. Não se trata apenas de “a economia, estúpido”. Os debates sobre a família e os valores são importantes, claro, mas também são importantes o trabalho, o endividamento e as condições de vida. Uma parcela desse eleitorado, especialmente entre as mulheres, reagiu a decisões e propostas muito concretas do governo Lula.

Penso no Bolsa Família, no endurecimento da postura contra as armas, na proibição das apostas online (bets), na atualização das aposentadorias e do salário mínimo acima da inflação, e no fim da semana de trabalho de seis dias. As apostas endividaram muitas famílias: são uma catástrofe. A questão das armas também pesa, e a redução da jornada de trabalho permite fortalecer a convivência familiar. Essas pautas ajudaram a aproximar algumas mulheres evangélicas de Lula na reta final da campanha, embora a maioria dos evangélicos tenha votado em Bolsonaro (assim como a maioria dos católicos votou em Lula). Não se trata de um apoio que possa ser explicado apenas pela religião.

Mas existe, além disso, uma dimensão subjetiva muito difícil de disputar. Como dialogar com pessoas que recebem, de forma constante, mensagens de que Lula quer impor o aborto, destruir a família ou perseguir os fiéis? A meu ver, nesse ponto, a regulação dos meios digitais é decisiva. Se esse cenário não for alterado, a desinformação continuará chegando diariamente a essas comunidades, independentemente das ações do governo na área social. E o PT não pode agir como se cada eleição fosse uma Copa do Mundo: entrar em uma igreja a cada quatro anos, fazer proselitismo e, depois, desaparecer. Os evangélicos percebem isso. É preciso haver continuidade nas políticas concretas, mas também enfrentar essa batalha no campo da comunicação. Não basta lembrar da existência de um eleitorado evangélico apenas quando chega o período eleitoral.

Lula terá de governar com um Congresso muito inclinado à direita e negociar com o “centrão”, enquanto tenta manter a mobilização que o levou à vitória. Que margem ele tem para impulsionar um programa de esquerda? Como pesa a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos — onde recebeu a proteção de Donald Trump — na conjuntura política que se abre?

Beto Vasques – Durante anos, o antipetismo foi uma das identidades políticas mais poderosas do Brasil. O bolsonarismo conseguiu hegemonizá-lo, embora nem todos os eleitores contrários ao PT fossem bolsonaristas. Ao mesmo tempo, formou-se um campo contrário ao antipetismo, no qual o lulismo desempenhou um papel articulador. O primeiro turno parecia consolidar ainda mais a autoridade de Flávio dentro da direita. A derrota e, sobretudo, a sua fuga alteraram esse cenário. Uma parte da direita pragmática começou a se distanciar e a se aproximar novamente de Lula, enquanto, dentro do bolsonarismo, abriu-se uma disputa pela sucessão e pela liderança: uma luta fratricida pela herança dos Bolsonaro.

Aqui, confrontam-se aqueles que continuarão defendendo os filhos de Bolsonaro e aqueles que desejam manter o eleitorado bolsonarista sem se submeter a eles. Entre estes últimos, surgem Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Flávio, com sua fuga, cometeu, a meu ver, uma espécie de suicídio político: expôs a inclinação golpista da extrema-direita. Isso pode ajudar a que uma parte da direita tradicional, que havia ficado refém do bolsonarismo, tome coragem para se distanciar. A grande tarefa pendente na política brasileira — e em grande parte do mundo — é reconstruir um polo de direita democrática, adversário da esquerda, mas sem golpismo nem teorias conspiratórias. Não sabemos se isso acontecerá: há uma luta interna muito dura pela frente.

Para Lula, o problema é como aproveitar essa divisão sem ficar preso às exigências da direita tradicional. Sua capacidade de negociação é enorme, mas ele precisará formar uma maioria parlamentar com forças que podem condicionar fortemente o seu programa. Ele necessita de estabilidade e, ao mesmo tempo, tem pela frente decisões econômicas difíceis. O desafio é equilibrar a responsabilidade fiscal com a responsabilidade social. Ou seja, garantir que o ajuste fiscal não recaia sobre os trabalhadores — justamente os setores que voltaram a se mobilizar para impedir a vitória da extrema-direita. Aí surge uma contradição que não se resolve apenas com habilidade de negociação.

Lula afirmou que deseja governar com as ruas e as redes. Essa frase ganha um significado muito forte após esta eleição. Já vimos que a mobilização social pode fazer recuar iniciativas legislativas, como ocorreu nos protestos contra o projeto que visava blindar parlamentares de investigações. Contudo, também sabemos que recorrer a essa pressão pode tensionar as alianças com as forças de direita e centro-direita das quais o governo depende. Será necessário encontrar um equilíbrio: construir acordos sem desmobilizar a sociedade e sustentar uma agenda social, sem que o custo da governabilidade recaia sempre sobre os mesmos.

Há, ainda, uma questão estratégica para o futuro do PT, especialmente considerando que Lula acaba de completar 81 anos. Esta eleição deixou uma lição importante: os sete partidos que se uniram para apoiá-lo demonstraram que a unidade era, de fato, possível. Estiveram juntos o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Verde (PV), a Rede Sustentabilidade (Rede), o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Mas existe um desafio ainda maior: transformar essa coalizão eleitoral em uma federação partidária — em uma frente estável. Se estivessem federados, poderiam ter conquistado mais deputados do que o Partido Liberal (PL), de Bolsonaro.

É preciso construir esses espaços com responsabilidade histórica, sem hegemonismos, com generosidade e inteligência política, e respeitando a diversidade. Se as diferentes tradições de esquerda conseguirem formar uma frente permanente sem apagar suas diferenças, juntas serão muito mais fortes. O que se aprendeu no Brasil deveria valer também para as esquerdas de outros países.

Notas:

[1] A entidade foi liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025 devido a uma fraude que deixou um rombo de bilhões de reais, e seu proprietário, Daniel Vorcaro, foi detido. Em 2026, os dados de seu telefone revelaram vínculos com metade dos ministros do Supremo Tribunal Federal — encontros, contratos de advocacia, eventos financiados pelo banco —, o que resultou em um confronto aberto dentro da Corte.

[2] Na reta final do primeiro turno, a partir de um comentário na GloboNews — que o canal corrigiu posteriormente —, viralizou a versão falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil; o que circulava era, na verdade, um projeto de lei apresentado em 2007 por outro deputado. Flávio desmentiu a informação, e o caso foi parar na Justiça. Lula, sem citá-lo nominalmente, abordou o assunto em um ato em Belém, afirmando que ninguém zombaria da Virgem; Janja, sua esposa, publicou uma foto do presidente com uma imagem da padroeira.

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