Há algo de involuntariamente cômico no artigo recente de Slavoj Žižek sobre as manifestações francesas. Centenas de milhares de estudantes e trabalhadores vão às ruas contra a deterioração da educação pública, enfrentam a repressão policial, desafiam o governo e colocam em questão a normalidade política de um país inteiro. Diante disso, o filósofo identifica um problema fundamental: falta alguém capaz de comandá-los. Depois de tantas voltas pela dialética hegeliana, chegamos à velha conclusão de que o povo, abandonado a si mesmo, precisa de um dirigente esclarecido para descobrir o que realmente deseja.
Žižek tem razão quando afirma que nem toda revolta popular possui um conteúdo emancipatório. A indignação social pode ser apropriada pela extrema direita, convertida em ressentimento reacionário ou simplesmente dissolvida sem consequências políticas duradouras. A experiência dos coletes amarelos demonstra suficientemente essas possibilidades. O problema começa quando essa constatação serve para desqualificar a própria dinâmica das mobilizações e justificar a necessidade de uma autoridade política situada acima delas. A heterogeneidade de um movimento exige disputa política, organização e elaboração coletiva. Para Žižek, aparentemente, exige sobretudo alguém autorizado a decidir por todos.
É curioso também o tratamento dispensado às reivindicações dos manifestantes. Estudantes denunciam salas superlotadas, ausência de professores, prédios deteriorados e o esgotamento das condições de ensino. Não há grande mistério filosófico nisso. São problemas materiais bastante determinados, produzidos por decisões orçamentárias e por uma política de deterioração dos serviços públicos. Entretanto, quando essas demandas chegam às ruas, tornam-se, na interpretação de Žižek, expressões de uma insatisfação mais profunda que precisaria encontrar sua verdadeira tradução em um programa político superior. O estudante que enfrenta uma sala de aula com quarenta graus talvez tenha cometido o erro de não formular previamente uma teoria geral da transição socialista.
A questão é que os manifestantes já estão fazendo política. Quando milhares de estudantes interrompem o funcionamento das escolas, quando professores e sindicatos se incorporam às mobilizações, quando a repressão encontra resistência e o governo precisa responder à pressão das ruas, constitui-se uma experiência concreta de organização coletiva. Seus limites precisam ser investigados, assim como suas contradições. Descartar esse processo porque ainda não produziu um programa revolucionário acabado equivale a exigir que a luta de classes apresente suas conclusões antes mesmo de desenvolver suas possibilidades.
Há outra operação problemática no argumento. Žižek recorda que o capitalismo conseguiu incorporar parte da linguagem antiautoritária de 1968, convertendo a autonomia em técnica de gestão e a flexibilidade em instrumento de exploração. A observação é pertinente. Sua conclusão, entretanto, confunde a apropriação capitalista das reivindicações com a derrota necessária de seu conteúdo emancipatório. O fato de o capital ter transformado a linguagem da autogestão em ideologia empresarial não demonstra que a autogestão tenha perdido sua potencialidade revolucionária. Demonstra, antes, a capacidade das relações capitalistas de reorganizar seus mecanismos de dominação diante das pressões sociais. Seria interessante investigar por que essas possibilidades foram derrotadas, quais organizações participaram desse processo e quais relações de força permitiram sua neutralização. É mais cômodo decretar retrospectivamente que a história já resolveu a questão.
O argumento alcança seu momento mais revelador quando Žižek passa da crítica à representação política para a defesa de dirigentes capazes de impor decisões sem os constrangimentos dos ciclos eleitorais. Sua simpatia por determinadas formas de autoridade política chega ao ponto de admitir argumentos favoráveis à ditadura esclarecida e mencionar Paul Kagame como exemplo. A crítica à democracia parlamentar termina, assim, numa curiosa nostalgia pela autoridade concentrada. Como a representação política não consegue expressar adequadamente as necessidades populares, a solução seria confiar essas necessidades a quem pudesse decidir sem depender de sua expressão democrática. Uma solução admiravelmente eficiente: elimina-se o problema da representação eliminando-se o incômodo dos representados.
Eis o paradoxo central. Žižek reconhece o esgotamento das instituições que administram o capitalismo contemporâneo, identifica a incapacidade das elites de responder às necessidades sociais e termina defendendo mecanismos ainda mais concentrados de decisão. Seu anunciado comunismo de guerra corre o risco de conservar precisamente aquilo que deveria ser superado: a separação entre os produtores da vida social e aqueles que dispõem do poder de organizá-la. Afinal, se a emancipação depende da capacidade coletiva de controlar as próprias condições de existência, convém explicar em que momento essa capacidade seria produzida por dirigentes que decidem acima da sociedade.
Isso não significa romantizar a espontaneidade. Nenhuma manifestação está protegida contra suas próprias contradições. Movimentos podem reproduzir preconceitos, incorporar reivindicações regressivas, sofrer derrotas ou ser capturados por organizações que lhes são exteriores. Tampouco a descentralização constitui, por si mesma, uma garantia de auto organização. A organização é indispensável à continuidade das lutas. A questão fundamental consiste em saber quais relações sociais essa organização reproduz, como seus representantes são constituídos e controlados e em que medida amplia a capacidade de autodeterminação daqueles que participam dela. Sem enfrentar esse problema, a palavra organização serve tanto à emancipação quanto à restauração da autoridade.
O mais extraordinário é que Žižek termina colocando Le Pen e Mélenchon praticamente sob a mesma condenação, enquanto encontra motivos para reconhecer alguma virtude política nas manobras institucionais de Macron. Os manifestantes seriam incapazes de produzir uma alternativa consistente, a esquerda careceria de um programa realista e a continuidade da instabilidade ameaçaria mergulhar a França no caos. Curiosamente, o caos parece começar quando a população deixa de aceitar as condições que lhe foram impostas. A deterioração das escolas, a precarização do trabalho e a incapacidade do Estado de atender necessidades elementares permanecem enquadradas como problemas de uma normalidade ainda administrável. A revolta contra essa normalidade é que passa a exigir explicações sobre suas consequências desastrosas.
As manifestações francesas merecem ser defendidas precisamente porque interrompem essa inversão. Elas expõem uma sociedade cuja estabilidade institucional depende cada vez mais da aceitação cotidiana da deterioração das condições de vida. Sua importância histórica não pode ser medida exclusivamente pela capacidade imediata de produzir uma alternativa governamental. As lutas também transformam as condições nas quais novas possibilidades políticas podem se constituir. Produzem vínculos de solidariedade, experiências de enfrentamento, organizações e conhecimentos práticos sobre o funcionamento do poder. Nada disso garante um resultado emancipatório. Tampouco pode ser reduzido a um entusiasmo condenado a desaparecer.
Žižek termina advertindo que a esquerda se tornará irrelevante se não abandonar suas ilusões. Talvez tenha razão, embora por motivos bastante diferentes daqueles que imagina. Uma esquerda que observa centenas de milhares de pessoas enfrentando a ordem existente e se preocupa sobretudo com a ausência de um comando superior já perdeu parte considerável de sua capacidade de compreender o que acontece diante de seus olhos.
Nem tudo o que se agita é vermelho, evidentemente. Também nem tudo o que se anuncia como comunismo consegue ultrapassar a velha fantasia de governar o povo para o seu próprio bem. Enquanto Žižek procura o dirigente capaz de administrar a próxima emergência histórica, os manifestantes franceses fazem algo consideravelmente mais interessante: recusam-se a continuar vivendo como se a emergência já instalada fosse uma situação normal.
Gabriel Teles é doutor em Sociologia pela USP e professor e pós-doutorando na UnB.




