Lobby das bets: o jogo ainda não terminou

Em audiência no Supremo, cartolas do futebol fazem chantagem emocional e apelam a ameaças de desemprego e calote para manter patrocínios. Mas dados do SUS, do TST e da economia real deixam evidentes os males da epidemia de ludopatia no país

Por Glauco Faria, em Outra Saúde

A cartolagem do futebol brasileiro decidiu apelar a uma espécie de chantagem financeira e emocional para tentar reverter a decisão que proíbe o funcionamento das casas de apostas online no Brasil. Durante a audiência pública realizada nesta terça-feira (3) no Supremo Tribunal Federal (STF), convocada para debater os impactos da Medida Provisória 1.394/2026, o que se viu foi, de um lado, dirigentes esportivos e representantes das bets focados exclusivamente na perda de receitas; do outro, autoridades governamentais e entidades expondo uma tragédia sem precedentes na saúde pública e na economia popular.

O vice-presidente do Flamengo, Flávio Willeman, chegou a dramatizar a proibição como um risco institucional. “O Brasil não pode romper com os ideários de liberdade econômica”, declarou. Em seguida, focou no planejamento do clube. “Foi com base nos contratos celebrados à luz da legislação vigente que o Flamengo planejou a sua estruturação financeira para os próximos quatro, cinco anos. O Flamengo acreditou que o Brasil, após amplo debate no Congresso Nacional, regulou as apostas neste país.”

Mas a tentativa de colocar as finanças dos clubes acima da saúde mental dos brasileiros atingiu seu ápice na fala do presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro. “Eu já vi muitas vezes a Suprema Corte discutir a ponderação de princípios, mas aqui, neste caso, infelizmente, nós teremos que fazer a ponderação entre os dramas. O drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de uma família que vai ter que sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer na cadeia do futebol, especialmente das agremiações menores, com base nessa perda de receita”, afirmou.

A declaração do dirigente viralizou nas redes sociais e causou desconforto. “A fala do presidente do Fluminense, Matheus Montenegro, é séria candidata à pior desta audiência pública em defesa das bets no STF. São vários representantes de clubes defendendo o indefensável, mas relativizar o drama de famílias destruídas pelo vício foi um tremendo golaço contra. Cartão vermelho e rebaixamento!”, disse em seu perfil no X o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ).

Por enquanto não há notícias de demissões no futebol provocadas pela proibição das bets, como disse o dirigente tricolor. Mas, de forma geral, o setor cria pouquíssimos empregos. O levantamento Dossiê das Bets, feito pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IESP) e divulgado em 2025, mostrou que, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, a contribuição do setor para o mercado de trabalho é pífia, já que no subsetor em que o segmento de apostas atua, havia apenas 1.144 empregos formais ativos em 31 de dezembro de 2024 com 60 empregadores formais. Uma média de apenas 19 empregos por empresa.

“No setor de apostas online, de cada R$ 291 de receita obtida pelas empresas, apenas R$ 1 se transforma em salário formal. Enquanto cada trabalhador formal no setor gera cerca de R$ 3 milhões mensais em receitas para as empresas – já descontados os pagamentos de prêmios –, ele próprio, no Brasil, recebe uma fração mínima (0,34%) desse valor”, aponta ainda o dossiê. 

O setor também se caracteriza por um alto grau de informalidade, de acordo com a pesquisa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc/IBGE) anual de 2024 mostram que 84% dos trabalhadores que atuam no setor não contribuem para a previdência, índice 48 pontos percentuais maior em relação à média nacional, de 36%. 

Colapso na saúde pública

Seguindo a mesma cartilha de empurrar a conta para os elos mais fracos da corrente durante a audiência no STF, o advogado do Botafogo, Bichara Abidão Neto, tentou usar segmentos que, em geral, já são colocados em segundo plano pelos clubes de futebol, como escudo para defender o dinheiro das apostas. “As categorias de base e o futebol feminino serão os primeiros a sofrer”, alegou. 

Os argumentos dos cartolas em prol das receitas de seus clubes colidem com os dados apresentados por autoridades de saúde e defesa do consumidor. O Ministério da Saúde apontou que a ludopatia já é a terceira dependência mais frequente no país, atrás apenas do tabaco e do álcool. Entre 2018 e 2026, a procura por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionada ao vício em jogos cresceu mais de 200%. Dos 28 milhões de brasileiros que apostaram nos últimos 12 meses, 10,9 milhões apresentam padrões de risco ou comportamento compulsivo.

“A minha briga é pelas mulheres que têm vergonha de procurar um serviço de saúde. Pelos que se suicidam, com 15 vezes mais risco de suicídio… Pelos profissionais de saúde que sentem na pele o crescimento exponencial da procura por ajuda no serviço de saúde”, pontuou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, como registrou o Outra Saúde.

O impacto dessa compulsão afeta também as relações trabalhistas e a produtividade. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, alertou para o aumento de mais de cinco vezes nos afastamentos por incapacidade temporária relacionada à ludopatia no mercado formal, passando de 67 em 2023 para 361 em 2025. 

“Como Justiça do Trabalho e Tribunal Superior do Trabalho, reiteramos nosso compromisso inegociável com a preservação da dignidade humana. Nenhum ambiente, inclusive o profissional, pode ser espaço para o adoecimento silencioso decorrente de compulsões e vulnerabilidades ampliadas pelas novas tecnologias”, alertou o magistrado em nota.

Durante a audiência, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) destacou um estudo do Centro de Pesquisa de Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (USP), apontando que as apostas online retiraram da atividade econômica o equivalente a 1,5% do PIB. Já a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou que as vendas do setor subiram 6,5% (com crescimento real em outubro) após a edição da MP, especialmente em locais frequentados pelas classes C, D e E. Sinal de que o dinheiro da comida estava sendo drenado para a jogatina.

A Secretaria Nacional de Segurança Pública reforçou ainda que a proibição, ao contrário do que dizem os clubes, facilita a identificação de operações ilegais e a responsabilização de redes sociais e bancos, restringindo uma fonte importante de lavagem de dinheiro do crime organizado. “Desafortunadamente, constatamos uma proximidade indesejável da atividade de bets com o crime organizado, com a lavagem de dinheiro”, contou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, lembrando que já foram bloqueados R$ 3,3 bilhões em movimentações suspeitas ligadas às bets.

Bastidores do jogo

Enquanto o STF analisa se mantém a proibição que protege a saúde pública, o lobby das bets já atua nos bastidores do Congresso Nacional. Parlamentares ligados a clubes e casas de apostas preparam emendas para tentar salvar ao menos as apostas esportivas, mantendo a proibição do cassino online. 

O ministro Luiz Fux, responsável por conduzir as ações que contestam a MP do governo Lula, rebateu críticas de que estaria privilegiando o setor esportivo, embora a grande maioria dos convidados para a audiência fossem favoráveis às demandas das plataformas de bets. No contexto, buscou mostrar-se crítico. “A exploração dos jogos constitui uma atividade que extrai seu lucro a partir da incapacidade das pessoas entenderem, são protagonistas inconscientes do seu próprio drama. Meu ponto de vista é que as bets devem ser banidas. Não procede a alegação de que só convoquei empresas e times de futebol”, afirmou o magistrado.

Contudo, a perspectiva das plataformas, tanto no Supremo como por conta de sua atuação no Legislativo, é construir uma espécie de saída negociada como uma transição, em que estariam autorizadas a funcionar, mesmo que parcialmente, durante um período. E, em uma futura possível mudança do ambiente político, voltar à carga. O jogo, para estas empresas, ainda não terminou. 

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