Quem perderá tempo com a cabeça de Iago? Ela resta como a peça que falta no jogo de armar, o pedaço do corpo, da lógica e da história que ficou sobrando na política do governador. Os fascistas precisam desesperadamente de uma saída política, e eles a buscam na morte e no medo
Por Luiz Eduardo Soares, em Outras Palavras
(Complexo do Alemão e da Penha, 28 de outubro, 2025)
Uma cabeça pendurada na árvore. O corpo intacto. Só a cabeça, o fruto estranho. No Sul dos Estados Unidos, pendiam das árvores os negros enforcados pela KKK. No Alemão, só a cabeça de Iago, 19 anos, trabalhador. Ornamento preservado. Iago Rodrigues era trabalhador. Policiais mantiveram seu corpo intacto. Só queriam a cabeça. Troféu de guerra. Foram mais de 120, quem se lembrará de Iago? Era uma operação policial. Quem perderá tempo com a cabeça que faltava? Seu Robson viu outro rapaz levado ao beco, andando com dificuldade, apoiado no ombro do policial da Core. A caminhada seria curta. O policial deu alguns passos pra trás e fuzilou o número noventa e três, ou seria o oitenta e quatro? Quem vai se lembrar? Seu Robson cobrou a covardia. Pediram seus documentos, anotaram a placa e arrebentaram seu carro. O recado está escrito com spray na lataria. Alguém vai denunciar à polícia a polícia? Quem vai compilar os relatos do massacre, a memória do horror? (mais…)
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