É costume consagrado e respeitoso o de nada se dizer do mal que pessoas já falecidas praticaram, já que elas não podem mais se defender. No caso do major Curió, porém, falecido no dia 17 deste agosto, é lícito abrir-se uma exceção, por três razões principais: a primeira, pela simples e necessária fidelidade devida à história do Brasil, que as Comissões da verdade revelaram sobre o que ele fez de muito ruim, colocando os seus serviços a toda a sorte de atrocidades que as Forças Armadas do país praticaram desde o golpe de Estado de 1964, por elas executado; a segunda, pelo exemplo a ser seguido por qualquer brasileira ou brasileiro, pelo brio, a coragem, a determinação das vítimas que resistiram, algumas até ao sacrifício da própria vida, ao poder da atuação violenta e repressora que esse cidadão colocou em prática contra os seus próprios conterrâneos; a terceira, pela extraordinária urgência com que, nos dias de hoje, a democracia, o Estado de direito e a cidadania estão correndo o risco de serem outra vez sacrificadas pelo ressurgimento da mesma inspiração “bélica”, armada, odienta, que motivou o golpe anterior, dividindo o povo, mesmo a custa das mesmas mentiras. O major Curió encarnou essa inspiração, do tipo que monopoliza o que entende por bem, para poder demonizar quem quer que ouse contrariá-la, como o mal. (mais…)
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