A santidade profanada dos militares. Por Manuel Domingos Neto

Por décadas, Forças Armadas nutriram aura quase religiosa sobre si mesmas. Foi esta intocabilidade que estimulou, sob o esgoto do bolsonarismo, muitos militares a se corromperem. Insistência em protegê-los pode comprometer toda a instituição

No Outras Palavras

Desde a última ditadura, a representação política viveu intimidada pelos militares.

Em 1979, acatou uma anistia que preservou praticantes do terrorismo de Estado que atentaram contra a humanidade. Na Constituinte de 1988, através do Artigo 142, reconheceu os superpoderes das corporações armadas. O Ministério da Defesa, organismo essencialmente político, foi entregue ao desígnio do militar. Os negócios da Defesa foram simploriamente assimilados como assuntos militares. Com uma tuitada um general condicionou as últimas eleições presidenciais. Com o país em profunda crise multidimensional, a representação política admitiu que Bolsonaro concedesse privilégios a perder de vista à “família militar”.

Não será baixando a cabeça diante das fileiras que os brasileiros preservaremos a democracia. Agiu bem o senador que preside a CPI ao dizer que não seria intimidado por generais. Militares se envolveram em falcatruas e devem responder por isso. Outra opção seria encerrar os trabalhos da CPI e deixar o morticínio correr frouxo.

Hoje à noite eu ministrarei uma aula cujo primeiro tópico é a religiosidade dos guerreiros. Homens que se preparam para abater semelhantes, mesmo que movidos por pura cobiça, cobrem-se de razões sagradas. Suas credibilidades derivam de imagens construídas. Guerreiros precisam mostrar-se alheios aos interesses pequenos. O sentido de honra cultivado nas fileiras é estreitamente relacionado às causas elevadas que juram defender.

O guerreiro ideal é incorruptível, como Platão teorizou há mais de dois mil anos. A cristandade recheou sua hagiografia de figuras militares. São Sebastião, São Jorge, São Longuinho, Santa Joana D’Arc, São Luís… Guerreiros vivem passando a ideia de que prezam o interesse coletivo ao custo da própria vida. Demandam a divindade como parceira. Perdendo a sacralidade, o guerreiro se esfarela.

Os comandantes brasileiros sabem disso e se empenharam em destacar a diferença entre o político paisano, corrupto por índole, e o militar ilibado, íntegro por formação. Fileiras se legitimam como defensoras da pátria sacrossanta. Assim ensinam as escolas castrenses. Fora dos quartéis, a extraordinária lenda segundo a qual na ditadura não havia corrupção foi religiosamente disseminada. O povo sempre foi propenso a acreditar no extraordinário.

Eis que a imagem de alto padrão moral das instituições armadas brasileiras entra em chamas a partir dos trabalhos da CPI. Podia ser diferente? As corporações não passariam ilesas integrando o governo Bolsonaro. Os militares sempre souberam da folha-corrida do Presidente.

Se os parlamentares baixarem a cabeça, cairemos numa sinuca de bico. Aliás, os senadores fizeram de tudo para poupar os militares, adiando o que estava escrito. Demoram para colher o depoimento dos oficiais e entoaram loas às corporações.

De tão protegidos, ousaram cada vez mais. O Presidente do Superior Tribunal Militar julgou-se autorizado a delimitar o espaço da oposição e não perdeu a oportunidade. Disse que a esquerda estava esticando demasiado a corda. Não foi admoestado. Previsível, pois, que os homens de muitas estrelas continuassem o jogo das “aproximações sucessivas”, assinando uma nota contra o presidente da CPI.

A preservação da democracia passa pela contenção de tais manifestações. O senador Omar agiu de forma ponderada. Condenou a “banda podre”, não o conjunto das corporações. Como negar o fato de militares estarem envolvidos no escândalo de corrupção mais repugnante da história brasileira?

A santidade castrense está em chamas. Sem uma postura firme da consciência democrática, as labaredas podem tomar conta do país.

Imagem: João Montonaro

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Nota Pública: Barbárie não é Justiça

“Há vinte dias algumas cidades da periferia de Brasília e de Goiás viviam temerosas pelo rastro de crimes e sangue deixados por Lázaro Barbosa.

Hoje a situação encontrou um desfecho. Previsível quando se  trata da forma como a polícia no  Brasil atua em  casos semelhantes que envolvem pobres principalmente negros: numa troca de tiros, segundo os próprios policiais, ele foi alvejado com mais de trinta tiros.

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Liana Cirne: “Os policiais atiraram com o intuito de ferir os manifestantes”

A vereadora do PT por Recife, vítima da violência da PM durante manifestação contra Bolsonaro, afirma que é urgente o estabelecimento de um novo protocolo de atuação policial em casos como o de sábado

Por Lucas Vasques, na Fórum

Vítima da violência policial durante manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro, neste sábado (29), em Recife (PE), a vereadora Liana Cirne Lins (PT) criticou o despreparo dos agentes e disse que espera providências.

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PE – Manifestantes presos em ataque da PM ao ato contra Bolsonaro vão responder a inquérito policial

Por Maria Carolina Santos, no Marco Zero

O clima ficou tenso na Central de Flagrantes da Polícia Civil para onde foram levadas quatro pessoas detidas na manifestação contra o governo Bolsonaro que aconteceu hoje no Recife. O local ficou lotado por policiais militares que dificultaram o acesso dos detidos às advogadas e advogados populares que foram até lá para defendê-los. Todos os que foram detidos são jovens e negros.

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Jacarezinho: favela palco de massacre nasceu como quilombo, lutou contra a ditadura e hoje é refém da violência

Por João da Mata, na BBC News Brasil

A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro aconteceu em um lugar que já foi um “quilombo urbano”: a favela do Jacarezinho.

A região na Zona Norte do Rio de Janeiro abrigou negros fugitivos durante a escravidão, fez parte de um grande polo industrial no século 20 e ficou marcada no decorrer dos anos pela sua efervescência cultural e sua mobilização política.

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Vânia perdeu o irmão para a violência policial e a mãe para a injustiça, mas segue na luta: ‘agora é pelos dois’. Por Fausto Salvadori

Carlinhos foi morto e decapitado em 2008 por policiais que confundiram sua deficiência intelectual com deboche. A absolvição dos suspeitos foi um duro golpe para a mãe do jovem, Maria da Conceição, que morreu pouco depois. O restante da família segue na luta

Na Ponte*

Em seus 39 anos de vida, houve uns poucos segundos em que Vânia Lúcia da Silva perdeu a fé em Deus. Foi em 10 de outubro de 2008, quando reconheceu o cadáver do irmão, Antonio Carlos da Silva, numa gaveta do IML (Instituto Médico Legal) de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.

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A tragédia no Jacarezinho: mais um massacre policial ou uma articulação política reacionária? Por Jorge Luiz Souto Maior

Analisando o massacre no Jacarezinho, Souto Maior destaca a perversidade de um projeto político autoritário, que dissemina o caos e o medo com a morte de determinadas pessoas para garantir sua sobrevida.

No Blog da Boitempo

No dia 06 de maio, última quinta-feira, ficamos todos (ou quase todos) aturdidos, consternados e indignados com a notícia da morte de 25 pessoas (dentre elas, um policial) como resultado de uma ação policial na favela do Jacarezinho, na cidade do Rio de Janeiro, RJ – posteriormente, chegou a 28 a quantidade de pessoas mortas.

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