Desertos verdes: eucalipto e o veneno silencioso

O processo de transformação territorial no Extremo Sul da Bahia dialoga e se entrelaça com a questão agrária no Brasil, permeada de desafios e contradições, considerando as múltiplas e complexas problemáticas que se apresentam. Assenta-se na estrutura fundiária extremamente desigual que se mantém desde os tempos do Brasil colônia, mas que se acentua nas mudanças recentes, na estrutura produtiva do campo. Isto é, os diversos modos de vida transformados em um único modo de produção extensivo e intensivo em terra, água, agrotóxicos, insumos químicos, maquinaria de grande porte e biotecnologia que tem como uma das conseqüências a redução do trabalho humano: O Agronegócio em uma das suas faces, monocultura de eucalipto e fábricas de celulose.

Por Ivonete Gonçalves de Souza* 

Agrotóxicos

A monocultura de eucalipto, para produção de papel e celulose abriga em si, disfarçadamente a utilização de agrotóxicos. Os agrotóxicos são os produtos químicos que, depois das duas grandes guerras, foram desviados de suas funções iniciais. Os materiais explosivos ganharam status de adubos sintéticos e nitrogenados; os gases mortais, agrotóxicos; e os tanques de guerra, os tratores[1]. Assim, na segunda metade do século XX o mundo recebeu a perigosa receita de como acabar com a fome. A Revolução Verde, que segundo as propagandas intensas, tinha como objetivo o aumento da produção agrícola com o forte argumento de acabar com a fome. O que não está claro é o motivo das monoculturas de árvores, como eucalipto, estar ligado ao projeto de acabar com a fome, visto que “eucalipto não se come![2]”

No Brasil, esse processo dialoga com o Plano de Metas com base em estudos e diagnósticos realizados desde a década de 1940 a respeito dos entraves da economia brasileira. E com ‘auxílio’ dos Estados Unidos, incluiu como meta a modernização da agricultura, e a fabricação de tratores dentro da meta da indústria automobilística. Este exemplo dá subsidio para compreender os agrotóxicos como meta das indústrias de base, visto que “as metas deveriam ser definidas e implementadas em estreita harmonia entre si, para que os investimentos em determinados setores pudessem refletir-se positivamente na dinâmica dos outros”[3], como acontece com as indústrias de papel e celulose, que têm como princípio o uso intensivo e ininterrupto de agrotóxicos.

Enquanto o Brasil criava estratégias que justificassem o uso destes produtos, incrementado no período da ditadura Civil-Militar, Rachel Carson, em 1964, alertava das implicações e mostrava com clareza em seu livro Primavera Silenciosa, as consequências nefastas destes produtos. Segundo CARSON, essa é a atitude mais alarmante dos ataques do ser humano para com o meio ambiente e representa a contaminação do ar, do solo, dos rios e dos mares por materiais perigosos e letais. É uma poluição irrecuperável, visto que os males oriundos dos produtos químicos atuam em cadeia e em todos os tecidos vivos e são irreversíveis.

As substâncias sintéticas criadas pela mente humana não são absorvidas pela natureza. A natureza necessitaria de tempo medido em escala da natureza e não no tempo medido pela mente humana, mesmo assim, seria igualmente perigoso, pois, novas substâncias químicas são criadas em laboratórios em escala frenética. Segundo CARSON, (2010), quase quinhentas entraram em uso anualmente, somente nos Estados Unidos, na década de 1960. Essa suposta necessidade é fruto dela mesma, pois os insetos, atendendo ao princípio da sobrevivência, criam resistência à determinada substância usada, fomentando a descoberta de mais substâncias ainda mais potentes, mais letais[4]. Portanto, a guerra química é permanente dentro da lógica da tão propagada Revolução Verde; da demanda de intensificação da agricultura e do modo de produzir em monoculturas.

Todas as pessoas, em todo o mundo, estão sujeitas ao contato de substâncias químicas perigosas, alertou CARSON. Isto se dá porque os “pesticidas” ou “defensivos agrícolas” como nos querem fazer crer, foram amplamente usados em todo mundo, especialmente depois da segunda guerra. “Eles têm sido encontrados em todos os sistemas fluviais e até mesmo nos cursos de água que fluem invisíveis pela terra”[5]. Os produtos permanecem no solo por muito tempo, sendo encontrados nos peixes, pássaros, animais domésticos e selvagens e nos seres humanos, no leite materno e “provavelmente” nos tecidos dos fetos”[6]. As grandes descobertas destas substâncias tinham como destino a guerra química, e eram utilizados nos insetos para testar sua eficiência em humanos.

Seguindo fielmente as orientações da Comissão Mista Brasil – Estados Unidos, e tendo como norteador o Plano de Metas, incrementado pelos militares, o Brasil ingressou no contexto da modernização agrícola conservadora que dá sustentação à violenta e perversa implementação do capitalismo no campo. Esse processo acirrou o modo de apropriação, exploração, expropriação da natureza e da força do trabalho. E ainda, acrescentou um elemento mortífero, que dá sustentação ao modelo e cria condições de mais exploração e lucros: os agrotóxicos, ou os venenos disfarçados e reverenciados como Revolução Verde e defensivos agrícolas.

Nesta perspectiva, os venenos chegaram ao Brasil, envolvidos em um clima de euforia, de progresso e desenvolvimento. O campo deixaria de ser atrasado. É o pacto entre os diversos setores da economia que se unem e promovem o que mais tarde passou a ser convencionado de agronegócio e ovacionado pela ciência, pela mídia e pelos políticos. Na década de 1970 o Brasil chegou ao patamar de terceiro maior consumidor mundial de agrotóxicos, liderado pelos herbicidas, popularmente conhecido como mata-mato, com aumento do consumo de 5.400% de 1965 a 1979.  O agente laranja, 2,4-D quando usado como arma química, para matar milhões de pessoas na guerra do Vietnã, já estava sendo utilizado amplamente no Brasil, de tal forma que o Banco da Amazônia financiava semanalmente cerca de 50 mil litros para ser usados na Amazônia e no Cerrado, especialmente por empresas alemães e norte-americanas. (PINHEIRO, 1989, p. 18).

Verifica-se que a introdução dos agrotóxicos no Brasil foi organizada pelos militares e fomentada pelos EUA, quando na condição de ajudar as nações amigas, como o Brasil, a se modernizar. Nestor Jost, delegado de polícia, indicado pelos militares para o Ministério da Agricultura, foi o criador na década de 1970 do custeio agrícola, que destinava vinte por cento do ministério, para as empresas de agrotóxicos sob o argumento de produtos necessários para produzir alimentos. Legitimado em 1975, pelo Plano Nacional de Desenvolvimento Agrícola, (PNDA), que além de financiar, exigia o uso de agrotóxicos resultando na ampliação das indústrias de formulação que saiu de 14 fábricas em 1974 para 73 em 1985[7]. E ainda, Jost assumiu a condição de Ministro da Agricultura quando Presidente do Conselho de Administração da Bayer, e utilizava recursos financeiros do Estado para participar de reuniões da empresa, na Alemanha. O general Idálio Sardenberg, tornou-se presidente do Conselho da Bayer do Brasil, assim como o economista Otávio Gouveia de Bulhões depois de deixar o cargo de Ministro da Fazenda. Na Empresa Dow Chemical, norte-americana, assinava o General Golbery do Couto e Silva, um dos idealizadores da ditadura no Brasil.(PINHEIRO, 1989)

Mesmo com o avanço regulamentar, a partir de 1997, cedendo às pressões intensas do agronegócio, o Brasil passou a conceder isenção de impostos para os agrotóxicos. No Imposto sobre circulação de Mercadorias e Serviços, (ICMS), o desconto é 60%, e para o Imposto sobre Produtos Industrializados, (IPI), a isenção é total, dispensou também a contribuição para o Programa de Integração Social e ou Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público, (PIS-PASEP), e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social, (COFINS). Em alguns Estados, como o Ceará, o ICMS foi totalmente dispensado[8].

Eucalipto e o veneno silencioso

Quem percorre os 30.420 km² do Extremo Sul da Bahia passa grande parte da viagem olhando a paisagem monótona e sem vida dos eucaliptais. São grandes platôs de árvores enfileiradas, de verde opaco, sem bichos e sem gente. Os viajantes, que atravessam as rodovias da região não imaginam o perigo que se abriga no silêncio dos eucaliptais: os produtos químicos sintéticos com funções distintas para manter sob controle os lucros das empresas transnacionais.

Os problemas associados ao uso de agrotóxicos na monocultura de eucalipto são encontrados em diversas regiões. Em João Lisboa, no Estado do Pará, em 1995, o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, junto com alguns vereadores, denunciaram através de um relatório a contaminação de agrotóxicos de trabalhadores de empresas terceirizadas da Celmar S/A, no distrito de Varjão dos Crentes. Uma equipe multidisciplinar da Universidade Federal do Maranhão elencou algumas das evidências encontradas que foram além da falta de uso dos equipamentos de segurança. A relação de produtos fornecida pela empresa constavam produtos extremamente tóxicos, o Bromex, (nome comercial) que é Brometo de metila, proibido na Europa, e DMA 806, que é o 2,4D. Também foram encontrados produtos altamente tóxicos, Garlon 480, (triclopir) e Goal BR, (oxifluorfem). O relatório destaca a falta de testes específicos que permitissem verificar possíveis nocividades e agressões. (FANZERES, 2005, p. 43)

Em 2003, o Jornal Século Diário divulgou a denúncia do médico Luiz Henrique Borges, doutor em Ciências da Saúde e professor-adjunto e chefe do Departamento de Saúde Coletiva da Emescam e professor-convidado do Departamento de Medicina Social do Centro Biomédico da Universidade Federal do Espírito Santo, sobre o lançamento de coquetel de venenos agrícolas. São 1.839 toneladas de agrotóxicos despejados anualmente pela Aracruz Celulose em apenas dois municípios, Conceição da Barra e São Mateus, exatamente na divisa com a região do extremo sul da Bahia[9].

No parecer técnico número 138 de 1995, para licenciar a Veracel Celulose,  o glifosato e o sulfluramida, os principais venenos utilizados, foram tratados como atóxicos, sem efeito para o ambiente e as pessoas, ou seja, um veneno fraquinho, sem grandes consequências. Com o passar do tempo, os problemas causados pelo uso ininterrupto destas e outras substâncias químicas foram saltando aos olhos das pessoas que convivem com o eucaliptal. Os índios da etnia Pataxó, trabalhadores e comunidades rurais, em diversas oportunidades denunciaram os venenos. Em 2011, nas audiências públicas que tratavam da licença de ampliação  da Veracel Celulose, todas as pessoas presentes diziam NÃO à ampliação dos plantios, e o argumento principal utilizado era o uso ininterrupto de venenos e suas nefastas consequências (exceto os representantes da empresa e os representantes do Governo Estadual, da Secretaria de Meio Ambiente, principalmente). Há uma vasta bibliografia, de diversas partes do mundo, que comprova o Glifosato e o sulfluramida como substâncias perigosas.

As comunidades do entorno das plantações de eucalipto da Suzano Papel e Celulose e FIBRIA também amargam a realidade dos agrotóxicos. Em meados de 2013, os plantios de Suzano e FIBRIA foram infestados também pela lagarta parda ou lagarta desfolhadora do eucalipto. Estas lagartas se transformaram em mariposas e infestaram cidades e comunidades[10].  Posteriormente as lagartas atacaram, também, as plantações da Veracel Celulose. O aparecimento de novas pragas é consequência natural do desequilíbrio gerado por monoculturas. Diante disto, as empresas se organizaram e destinaram chuvas de venenos para toda a comunidade regional, já que os impactos destes produtos não se restringem apenas aos locais pulverizados. As substâncias químicas se deslocam a grandes distâncias pelo ar e pela água, especialmente. A pulverização aérea já vem sendo utilizada na monocultura de café, e as empresas de celulose, também, adotaram essa prática. É uma prática perigosa, pois:

“menos de 0,1% dos agrotóxicos aplicados nas culturas atingem as pragas-alvo e que, portanto, uma grande quantidade desses produtos é perdida durante o processo de aplicação – causando efeitos adversos para a saúde humana e para a biota benéfica, e contaminando o solo, a água e a atmosfera do ecossistema”.  (Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador – DSAST – Ministério da Saúde )

A Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) se encarregou de divulgar pela região, através de outdoor e cartilhas, que o controle estava sendo efetuado através de inseticida biológico, (Bacillus thuringiensis) “de ocorrência natural, que controla de maneira eficaz as lagartas desfolhadoras. O produto é específico para lagartas, não oferece risco à saúde do homem e animais”[11] é o que afirmam os fabricantes e cientistas contratados. O produto tem o nome comercial, Dipel, (Bacillus thuringiensis) do fabricante Chemical-EUA. Uma grande Campanha Publicitária com um seminário na cidade de Teixeira de Freitas foi realizado, em parceria com a Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (ABAF). O evento contou com a presença do Professor do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Pedro José Ferreira Filho.

Mas, no campo, o avião atravessou comunidades e aldeias praticamente todos os dias do ano de 2014 até início do ano de 2016. No Assentamento Quilombo I e II, Zumbi dos Palmares, no município de Mucuri, e comunidades de Quilombolas no município de Alcobaça, como Juerana, Aldeia Mucugê, I e II, Craveiro, Nova Esperança e diversas outras começaram a sentir os efeitos dos produtos que banhavam as pessoas, as plantações, rios e lagos da região. Muitas pessoas doentes, e criações como gato, cachorro, galinhas, e plantações de alimentos foram destruídos.

Os impactados logo descobriram o uso de diversos produtos associados ao DIPEL, ou inseticida biológico como propagam seus defensores. O que não quer dizer que não há impactos do inseticida biológico, mas essa é outra discussão.  O certo é que o propagado inseticida inofensivo aparentemente não deu conta do recado visto que necessitou de reforço de uma diversidade de substâncias. Na audiência pública, realizada em Mucuri, no mês de julho de 2016, os trabalhadores sem terra, vereadores, apicultores denunciaram que, além do DIPEL, o avião era abastecido com outros produtos. Um dos participantes ressaltou: “a empresa só apresenta o DIPEL, na pulverização aérea, mas eles usam mesmo é o Evidence, Thiametoxan e Actare um produto caro e forte”. Diante disso, o CEPEDES, buscou informações da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) e do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura da Bahia (CREA) sobre os produtos utilizados.

Na lista fornecida pelo CREA e pela ADAB, referente ao ano de 3013, 2014 e 2015, aparecem produtos do grupo químico neonicotinóide[12], derivado da nicotina. Os neonicotinoides são 10 mil vezes mais potentes que o DDT. O DIPEL, o propagado inseticida biológico, aparece na lista de 2014, com cerca de 52.857.000 litros. Juntamente com o DIPEL, houve um aumento assombroso de inseticidas do grupo químico neonicotinóide. Especialmente Actara, Evidence e Tiamedoxam (citados pelos trabalhadores do campo e comunidades).  Eles são do grupo químico neonicotinóides[13], sendo que o Tiametoxam contém neonicotinóide e piretróide juntos. Cerca de 43.165.100 litros. A soma destes, em 2014, junto com o DIPEL, totaliza cerca de 96.022.100 litros. No ano de 2015, o DIPEL foi reduzido para 7.946.000 litros, mas a quantidade dos produtos do grupo químico neonicotinóide aumentaram, e juntos, somam 153.194.750 litros.

Além do herbicida de princípio ativo Glifosato, as empresas (FIBRIA, SUZANO e VERACEL) utilizam outras substâncias químicas para controlar o mato. Herbicidas, de princípio ativo oxifluorfen, Isoxazol, Triazolona, Ciclohexenodicarboximida. E, inseticidas, formicidas e fungicidas como Bacillus Thuringiensis (DIPEL), Cloreto de Benzalconio – Amônio Quaternário, Neonicotinóides (Actara, Evidence 700, Tiametoxam); Organofosforados (Orthene 750 BR); Oxicloreto de Cobre – Inorgânico; Pirazol; Sulfluramida (Mirex) e Trifloxistrobina das Principais fabricantes: BAYER, BASF, DOW, GRIFFIN CORPORATION, MONSANTO, SYNGENTA, SUMITOMO CHEMICAL.

Considerações finais

Um ciclo de rotação de eucalipto pode ter duração de três a sete anos. E, neste período pelo menos dois ou mais ingredientes ativos, são necessários para matar formigas e apaziguar o surgimento do mato ou plantas invasoras como os técnicos nomeiam as poucas espécies de plantas que insistem em romper com o isolamento do eucaliptal. Também pode ser usado mais de um componente para cada um desses casos, pois segundo as informações de fabricantes, os produtos vão se tornando ineficazes para o fim já que tanto as plantas como os insetos vão criando resistências. Isso exige maiores doses do mesmo produto ou novas composições e misturas são frequentemente aplicadas. E essas substâncias químicas, são usadas sem tréguas, pois existem áreas de todas as fases para dar conta de produzir em ritmo alucinante para as duas fábricas da Bahia, Suzano Papel e Celulose e Veracel Celulose, e para a fábrica da FIBRIA no município de Aracruz, no Espírito Santo com plantio também na Bahia.

Assim, verifica-se que não é real a afirmativa baseada em dosagens corretas, uso seguro, quantidades adequadas e baixa toxicidade. Trata-se da construção de uma imagem positiva com a intenção de amenizar as nocividades dos possíveis efeitos à saúde e ao ambiente. Essa construção demonstra a agressividade da estratégia, reforçada e endossada pela ciência hegemônica, que assegura dosagens corretas, uso seguro, quantidades adequadas e baixa toxicidade de produtos letais. As pessoas e o ambiente estão sendo envenenadas diariamente, em diferentes aspectos, sob dosagens imaginadas, retiradas da prepotência e ganância de algum mercenário acadêmico. A situação mais expressa desse conjunto de construções, revelada na pesquisa, e materializada na seca profunda que assolou a região, é a questão que envolve os recursos hídricos e falta de água em áreas de plantio de eucalipto, tratadas durante muitos anos, por cientistas renomados, como mito, e recentemente revelada cientificamente como verdadeira. Uma perversidade, já que os impactos mais agressivos vão para as populações do campo e os mais pobres e a falta de água se configura na maior e mais grave consequência dessa estratégia medonha. Ressalta-se que a qualidade da água não foi objeto do estudo, mas, o uso constante de produtos químicos, na monocultura de eucalipto aliado aos agrotóxicos usados na produção de outras commodities sugere como implicantes as contaminações em níveis desconhecidos dos recursos hídricos e suas consequências para a saúde e o ambiente. O surgimento da lagarta parda do eucalipto reforça a situação de desequilíbrio do ecossistema e imprime maior quantidade e diversidade de produtos químicos. Grande parte desses produtos, são aplicados, via pulverização aérea, constituindo em mais um agravante para as populações que vivem no entorno dos eucaliptais, obrigadas a conviver com chuva de venenos.

O projeto de fábricas de celulose e plantações de árvores só é possível, com grandes financiamentos, isenções de impostos, terras fartas e extensas. Os subsídios são extensivos também às indústrias de agrotóxicos, que se articulam entre si. A partir de 1997, cedendo às pressões intensas do agronegócio, o Brasil passou a conceder isenção de impostos para os agrotóxicos. 60% no Imposto sobre circulação de Mercadorias e Serviços, (ICMS), isenção total do Imposto sobre Produtos Industrializados, (IPI), dispensou a contribuição para o Programa de Integração Social e ou Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público, (PIS-PASEP) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social, (COFINS). Em alguns Estados, como o Ceará, o ICMS foi totalmente dispensado[14]. E, do cruzamento das indústrias de celulose com as indústrias de agrotóxicos, nasceu o eucalipto transgênico. E o destino é exatamente essa região do Brasil. A empresa Suzano Papel e Celulose, através da empresa de biotecnologia Futuragene, já conseguiu liberação para o plantio  em 2015. E, os testes de campo já foram iniciados. Isso significa maior consumo de água e maior consumo de agrotóxicos.

Verifica-se que as indústrias se alimentam ainda mais com os subsídios, ‘não são eficientes economicamente’ e necessitam que o Estado auxilie com uma farta Bolsa, a Bolsa agronegócio que inclui financiamentos, isenções de impostos, terra, infraestruturas, etc., e isso desencadeia sérias consequências, sociais e políticas. Toda essa exploração perversa, incluindo envenenamento da população em especial a população do campo, tem como objetivo produzir celulose para abastecer o Norte global com papéis descartáveis. Os atributos sociais e políticos, bem como todas as vantagens apregoadas, foram revelados durante a caminhada, que trata-se de, expropriação da terra e exploração do trabalho humano desde a colonização e materializa a realidade de injustiça ambiental, visto que trata-se de populações em situação de desigualdade do ponto de vista do direito ao ambiente sadio e equilibrado. E, ainda, as populações vivem em constante vigília e sobressaltos diante dos ataques de grupos econômicos, das empresas de celulose.

Neste processo, constata-se que o aporte fundamental do Estado e da Ciência ocorre na direção da construção de um mundo de papel envenenado, que suga a vida, o suor e o sangue da terra. Um mundo que só é possível mediante expropriação, através de grilagem e violência.  E, fundamentalmente de extração de mais valia e mais valia absoluta. Nesta perspectiva, vale recorrer ao movimento histórico atual da realidade brasileira, que envolve o golpe político-jurídico-midiático para destituir a Presidenta eleita Dilma Roussef, ocorrido durante o processo da pesquisa. Esse movimento ocorre concomitantemente ao movimento de retrocesso de direitos trabalhistas, mas também acirra o movimento de avançar sobre as terras tradicionais de camponeses, índios, quilombolas e nesta região cerca de 300 famílias foram despejadas de áreas de conflito com a empresa Veracel Celulose. Verifica-se também a investida para enfraquecer os órgãos reguladores e fiscalizadores. Em especial, de meio ambiente e de saúde, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), responsável por avaliação e reavaliação dos agrotóxicos. As indústrias de agrotóxicos e fábricas de celulose foram beneficiadas com o golpe civil-militar de 1964, e fortalecidas pelos militares. E no movimento atual, o Agronegócio, que se articula intimamente com a indústria de Agrotóxicos indicou para o Ministério da Agricultura, Blairo Maggi, um dos principais nomes do Agronegócio brasileiro, conhecido nacionalmente como o rei da soja e autor do Projeto de Lei 6299 de 2002, conhecida como o PL do veneno, que prevê facilitar a comercialização, utilização, armazenamento e transporte, de Agrotóxicos. As mudanças, propostas neste projeto tem ainda como objetivo nefasto, utilização de maior quantidade de substâncias químicas e com maior potencial de causar danos à saúde e ao ambiente a exemplo do 2,4D.  Há fortes indícios de que esse golpe, assim como o de 1964 tem como um dos fundamentos, fortalecer empresas deste setor, e assim, a história se repete. E, desta vez, como uma farsa desprovida de pudor ou ética.

Diante disto, as condições materiais expostas apontam a necessidade de erradicar o modo de produção baseado em plantação de eucalipto e fábricas de celulose, bem como uma transição do modo de produção de alimentos, de forma monocultural, com uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos, para uma produção de base agroecológica, que garanta territórios livres de agrotóxicos, como alternativa e produção de vida e saúde para todas as pessoas e o ambiente.

*Ivonete Gonçalves de Souza , Mestre em Saúde Pública – ENSP/FIOCRUZ.

Referencias bibliográficas:

CARSON, Rachel. Primavera Silenciosa.  1ª edição, São Paulo: Editora Gaia, 2010.

FANZERES, Anna. (Coord). Temas conflituosos relacionados à expansão da base florestal plantada e definição de estratégias para minimização dos conflitos identificados, Relatório Final de Consultoria, Programa Nacional de Florestas, Secretaria de Biodiversidade e Florestas, Ministério do Meio Ambiente, Brasília, Março 2005.

PINHEIRO, Sebastião. A Máfia dos Agrotóxicos no Brasil.

RIGOTTO, Raquel Maria. ROSA, Islene Ferreira. Agrotóxicos. In: Caldart RS, Pereira IB, Alentejano P, Frigotto G, organizadores. Dicionário da Educação do Campo. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

PRIMAVESI, Ana. Agroecologia, Ecosfera, Tenosfera e Agricultura, Livraria Nobel S.A., São Paulo, 1997.

Notas: 

[1] Dicionário da Educação do Campo, 2012, p. 86

[2] Frase utilizada na primeira ocupação em área de eucalipto da Veracel Celulose, pelo MST em 2004.

[3] http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/artigos/Economia/PlanodeMetas

[4] Idem

[5] Idem

[6] Idem

[7] RIGOTTO, Raquel Maria. ROSA, Islene Ferreira. In Dicionário da Educação do Campo, Editora Expressão Popular, São Paulo, 2012

[8] RIGOTTO, Raquel  Maria. ROSA, Islene Ferreira. In Dicionário da Educação do Campo, Editora Expressão Popular, São Paulo, 2012

[9] Século Diário: Agrotóxicos da Aracruz Celulose: grave problema de saúde pública por Ubervalter Coimbra

[10] http://g1.globo.com/bahia/jornal-da-manha/videos/v/mariposas-invadem-a-cidade-de-prado-no-sul-do-estado/4306242/   e  http://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/09/infestacao-de-mariposas-intriga-autoridades-de-cidade-do-sul-da-ba.html

[11] www.abaf.org.br/download/lagarta-parda.pdf

[12] http://www.escoladegoverno.org.br/artigos/2937-neonicotinoides-que-sao-e-como-podem-afetar-voce

[13] https://www.sussex.ac.uk/webteam/gateway/file.php?name=goulson-2013-jae.pdf&site=411

[14] RIGOTTO, Raquel Maria. ROSA, Islene Ferreira. In Dicionário da Educação do Campo, Editora Expressão Popular, São Paulo, 2012

 

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