Posts tagged: povos indígenas

MANIFESTO DE LANÇAMENTO DO MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DA TITULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS

Por racismoambiental, 10/03/2010 15:35
Considerando que no Balanço de 10 anos do FSM-2010 em Porto Alegre as Comunidades Quilombolas tem muito pouco a comemorar, e esse pouco se dá graças a luta insistente e cotidiana das comunidades quilombolas pois se aprofundam cada vez mais os ataques aos territórios negros, Quilombolas, Comunidades Tradicionais e Indígenas em todo País.
Considerando provém de todas as esferas de Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) como demonstram a retirada de pauta do Decreto de Desapropriação para reconhecimento da Comunidade Quilombola da Invernada dos Negros em SC sem qualquer explicação plausível, publicação esta que estava prevista para 20 de novembro de 2009.
Considerando a negociata em torno do Estatuto da Igualdade Racial com a retirada da temática Quilombola privilegiando os interesses do Agronegócio.
Considerando a falta de controle efetivo por parte do movimento social e baixíssima executividade orçamentária dos parcos recursos referente a temática Quilombola.
Considerando a demora para implementação e execução dos processos de titulação das comunidades Quilombolas, bem como, e a existência de Ação Direta de Inconstitucionalidade atacando patrocinada pelo DEM atacando o Decreto 4487/2003, bem como, o Projeto de Decreto Legislativo da lavra do Deputado Valdir Collato (PMDB-SC) também atacando o Decreto 4887/2003.
Considerando que as Comunidades vem resistindo como demonstram as mobilizações existentes no final do ano passado com ocupação do INCRA como ocorridos em SC, RJ, Salvador Bahia, MG as mobilizações no RS, interrupção de BRs como no Espírito Santo.
Considerando que o conflito vem se acirrando existindo varias lideranças Quilombolas ameaçadas de morte, presas, perseguidas e assassinadas como ocorrido na Comunidade dos Alpes – Quilombo Urbano em Porto Alegre-RS.
Considerando que tais fatos em especial a demora na implementação das Políticas Públicas e na Titulação das Comunidades expõem as Comunidades a um agravamento da situação de opressão e exploração já existentes e que tal situação não é fruto de mero desmando administrativo mas de uma opção política a favor dos interesses do agronegócio e contrários aos interesses das comunidades tradicionais.
Considerando a necessidade de avançarmos na resistência, rompermos o isolamento, articularmos a unidade para luta em defesa dos territórios Quilombolas e que para construirmos um outro Mundo sem Racismo, Exploração, Opressão, Xenofobia e Intolerância só se concretizará com luta e mobilização, os ativistas sociais, militantes do Movimento Negro, Quilombolas presentes na Oficina Defesa dos Territórios Quilombolas e Comunidades Tradicionais e Impactos das Políticas Institucionais realizada das 14h às 20h do dia 26 de Janeiro de 2010 no Auditório do Ministério Público, Praça da Matriz, Porto Alegre nº 110.
Deliberamos:
1- Lançamento do Movimento Nacional em Defesa da Titulação e Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Quilombolas.
2- Agenda de Mobilização e Articulação do Movimento nos Estados com Plenárias Estaduais entre os dias 21 e 31 de Março de 2010.
3- Indicativo para o dia 22 de Abril de 2010 – Dia de Jornada de Luta Quilombola. (Atos nos Estados, Ida a Brasília para agenda com o STF e Congresso Nacional).
Contra o Racismo Institucional
Em defesa do Decreto 4887/2003
Pelo indeferimento da ADIN do DEM
Pela retirada de pauta e arquivamento do Decreto Legislativo do Deputado Valdir Collato do PMDB de SC.
Pela Titulação Imediata das Terras de Quilombo.

Manifesto

Considerando que no Balanço de 10 anos do FSM-2010 em Porto Alegre as Comunidades Quilombolas tem muito pouco a comemorar, e esse pouco se dá graças a luta insistente e cotidiana das comunidades quilombolas pois se aprofundam cada vez mais os ataques aos territórios negros, Quilombolas, Comunidades Tradicionais e Indígenas em todo País.

Considerando provém de todas as esferas de Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) como demonstram a retirada de pauta do Decreto de Desapropriação para reconhecimento da Comunidade Quilombola da Invernada dos Negros em SC sem qualquer explicação plausível, publicação esta que estava prevista para 20 de novembro de 2009.

Considerando a negociata em torno do Estatuto da Igualdade Racial com a retirada da temática Quilombola privilegiando os interesses do Agronegócio.

Considerando a falta de controle efetivo por parte do movimento social e baixíssima executividade orçamentária dos parcos recursos referentes à temática Quilombola. Continue lendo… 'MANIFESTO DE LANÇAMENTO DO MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DA TITULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS'»

Bookmark and Share

”O presidente frisou ainda que Belo Monte só será realizado ’se todos ganharem com isso”’, afirma dom Erwin Kräutler

“fico muito triste quando vejo uma instituição como a OAB/PA ter mudado a tal ponto que se desviou da sua própria missão de defender os direitos de povos indígenas e das populações ribeirinha e urbana de Altamira, que serão tremendamente impactados com as consequências irreversíveis de um projeto megalomaníaco, insano. Aparentemente, abdicou a todo o espírito crítico e de transparência que sempre pautaram a instituição”.

O bispo dom Erwin Kräutler, da Prelazia do Xingu, territorialmente a maior em todo o mundo, manifesta-se decepcionado com a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará, pela forma como conduziu os debates que levaram a entidade a se manifestar favoravelmente à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu.

Em entrevista ao blog Espaço Aberto, 08-03-2010, o bispo diz que ele e várias outras pessoas agraciadas com o Prêmio de Direitos Humanos “José Carlos Castro” já cogitaram em devolver a distinção à OAB-PA. E só não o fizeram por achar que isso seria injusto com as administrações anteriores.

Para dom Erwin, a OAB, nessa questão de Belo Monte, “abdicou a todo o espírito crítico e de transparência que sempre pautaram a instituição. Na realidade, o impacto social que Belo Monte causará seria o campo específico em que advogados deveriam agir. No entanto, ao aprovar Belo Monte, a OAB/PA toma partido e perde a legitimidade de se tornar a porta voz dos povos atingidos, fazendo coro com aqueles que querem o pseudo desenvolvimento a qualquer custo.” Continue lendo… '”O presidente frisou ainda que Belo Monte só será realizado ’se todos ganharem com isso”’, afirma dom Erwin Kräutler'»

Bookmark and Share

Cimi repudia nova agressão da Polícia Federal aos Tupinambá

Na madrugada desta quarta-feira (10), cinco policiais federais, fortemente armados, arrombaram e invadiram a casa de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, na comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. Segundo seus familiares, no momento de sua prisão, Babau foi violentamente agredido e ameaçado de morte.
De acordo com membros da Comunidade Indígena da Serra do Padeiro, durante a ação policial parentes do cacique se esconderam debaixo da cama, com medo de sofrer abusos e agressões por parte da PF. Vários móveis da casa foram quebrados. Para a comunidade, pela conduta dos policiais a impressão que ficou foi no sentido de que pretendiam levar Babau sem ninguém perceber, tanto que eles agiram durante a madrugada e após entrarem na casa fecharam a porta. Ainda segundo a comunidade, os policiais o obrigaram a engolir um comprimido, que suspeitam pudesse ser um calmante.
O clima na Serra do Padeiro é de muita apreensão. Até o início da manhã, a comunidade se questionava sobre a origem dos invasores, se eram realmente policiais federais. No entanto, a informação de que a ação foi realizada pela Polícia Federal já foi confirmada e a família de Babau está na sede da PF de Ilhéus. Os familiares procuram notícias e querem ver o cacique, mas de acordo com eles, somente a imprensa local teve acesso ao mesmo.
A prisão de Babau, liderança que representa as cerca de 130 famílias que vivem na aldeia da Serra do Padeiro (município de Buerarema, e de Olivença, em Ilhéus) aconteceu em um momento de significativa tensão. Na segunda (08), houve uma reunião com todos os caciques Tupinambá, da qual apenas Babau não participou. O encontro foi com delegados da PF na sede da Funai em Ilhéus. Segundo informações de lideranças presentes nessa reunião, o assunto tratado foi a criação de mecanismos que procurem formas pacíficas durante os procedimentos de reintegração de posse de áreas ocupadas pelos indígenas.
Essa não foi a primeira agressão sofrida pelos Tupinambá. Em 2008, durante uma tentativa de prender Babau, a Polícia Federal ingressou na aldeia e destruiu a escola da comunidade, além de agredir Babau, seu irmão Jurandir Ferreira e o ancião Marcionilio Guerreiro com tiros de borrachas. Dois dias depois, cerca de 130 agentes voltaram à comunidade, agindo com forte e desproporcioanl aparato policial. Na ocasião, eles destruíram móveis, queimaram roças e feriram dezenas de pessoas.
Ano passado, novas arbitrariedades foram cometidas. Cinco indígenas foram constrangidos e sofreram abusos de poder praticado pela PF, entre eles uma mulher. Durante esta ação ilegal, eles foram agredidos com gás de pimenta e dois deles receberam choques elétricos que deixaram queimaduras nos corpos das vítimas, inclusive em partes íntimas.
Não se pode admitir e muito menos aceitar que a Polícia Federal utilize-se de expedientes próprios do período da ditadura militar na sua relação com o povo Tupinambá.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) repudia essa ação da PF por entender tratar-se de conduta ilegal e despropositada, porque realizada às 2h40 da madrugada, sem apresentação de qualquer mandado de prisão e de forma violenta.
Em respeito ao Estado Democrático de Direito e à cidadania dos Povos Indígenas, em especial dos Tupinambá é fundamental que o Departamento de Polícia Federal e o Ministério da Justiça apresentem a decisão judicial que determinou a prisão preventiva do Cacique Babau e que demonstrem a integridade física e moral desta relevante e dedicada liderança indígena do Povo Tupinambá.

Na madrugada desta quarta-feira (10), cinco policiais federais, fortemente armados, arrombaram e invadiram a casa de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, na comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. Segundo seus familiares, no momento de sua prisão, Babau foi violentamente agredido e ameaçado de morte.

De acordo com membros da Comunidade Indígena da Serra do Padeiro, durante a ação policial parentes do cacique se esconderam debaixo da cama, com medo de sofrer abusos e agressões por parte da PF. Vários móveis da casa foram quebrados. Para a comunidade, pela conduta dos policiais a impressão que ficou foi no sentido de que pretendiam levar Babau sem ninguém perceber, tanto que eles agiram durante a madrugada e após entrarem na casa fecharam a porta. Ainda segundo a comunidade, os policiais o obrigaram a engolir um comprimido, que suspeitam pudesse ser um calmante.

O clima na Serra do Padeiro é de muita apreensão. Até o início da manhã, a comunidade se questionava sobre a origem dos invasores, se eram realmente policiais federais. No entanto, a informação de que a ação foi realizada pela Polícia Federal já foi confirmada e a família de Babau está na sede da PF de Ilhéus. Os familiares procuram notícias e querem ver o cacique, mas de acordo com eles, somente a imprensa local teve acesso ao mesmo. Continue lendo… 'Cimi repudia nova agressão da Polícia Federal aos Tupinambá'»

Bookmark and Share

Conselho de direitos humanos constata situação de miséria e preconceito em áreas indígenas em MS

Por racismoambiental, 09/03/2010 12:03
O  Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou ontem (8) áreas indígenas no município de Dourados (MS) onde foram constatadas condições degradantes e miseráveis. O objetivo da visita é verificar as denúncias de violações contra indígenas Kaiowá e Ñandeva, da etnia Guarani, e elaborar um relatório com recomendações às autoridades estaduais e federais.
A notícia é de Lisiane Wandscheer, da Agência Brasil e publicada pelo EcoDebate, 09-03-2010.
Segundo o diretor de Defesa de Direitos Humanos da SEDH, Fernando Matos, em vários locais faltam alimentos e água, há problemas na demarcação da área e preconceitos na região contra os indígenas. “Vivemos como porcos no chiqueiro”, disse Matos, citando a frase de um cacique.
Matos disse ainda que os indígenas estão impedidos de realizar atividades de subsistência típicas de sua etnia como a caça e a pesca e que há denúncias de homicídios.
“Nós tememos que haja algum tipo de retaliação em função da vinda do conselho. Pediremos, amanhã, que sejam tomadas medidas que preservem a integridade destas pessoas”, afirmou Matos.
Pela manhã, o grupo esteve na aldeia de Passo Piraju, a 20 quilômetros de Dourados, onde conversaram com lideranças. Depois, o grupo seguiu para o presídio Harry Amorim Costa. O local concentra a maior população carcerária indígena do país, com aproximadamente 100 índios.
O advogado do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Rogério Batalha, que participa das visitas, disse que Mato Grosso do Sul tem a pior situação de demarcação de terras do país e a segunda maior população indígena do Brasil com cerca de 70 mil indígenas.
“A fronteira agrícola avançou nos anos 70, mas houve poucos avanços no reconhecimento das áreas indígenas. A falta de regularização desencadeou problemas sociais, violência, consumo de drogas e álcool e o maior índice de assassinatos de índios no país”, destacou o advogado do Cimi.
De acordo com o procurador do Ministério Público Federal de Dourados, Marco Antônio Delfino, antes, os indígenas viviam na região de forma pacífica, mas com a expansão da fronteira agrícola, a destruição da floresta e a expulsão dos índios de suas terras, o clima mudou.
“Hoje a situação é explosiva na região, próxima a chegar a um estopim”, alerta Delfino.
Durante a tarde, o grupo percorreu as comunidades Guarani Kaiowá e Guarani Ñanderu Laranjeira, a 50 quilômetros de Dourados, e amanhã (9) estará em Campo Grande para se reunir com autoridades locais e federais.

O  Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou ontem (8) áreas indígenas no município de Dourados (MS) onde foram constatadas condições degradantes e miseráveis. O objetivo da visita é verificar as denúncias de violações contra indígenas Kaiowá e Ñandeva, da etnia Guarani, e elaborar um relatório com recomendações às autoridades estaduais e federais.

A notícia é de Lisiane Wandscheer, da Agência Brasil e publicada pelo EcoDebate, 09-03-2010.

Segundo o diretor de Defesa de Direitos Humanos da SEDH, Fernando Matos, em vários locais faltam alimentos e água, há problemas na demarcação da área e preconceitos na região contra os indígenas. “Vivemos como porcos no chiqueiro”, disse Matos, citando a frase de um cacique.

Matos disse ainda que os indígenas estão impedidos de realizar atividades de subsistência típicas de sua etnia como a caça e a pesca e que há denúncias de homicídios.

“Nós tememos que haja algum tipo de retaliação em função da vinda do conselho. Pediremos, amanhã, que sejam tomadas medidas que preservem a integridade destas pessoas”, afirmou Matos. Continue lendo… 'Conselho de direitos humanos constata situação de miséria e preconceito em áreas indígenas em MS'»

Bookmark and Share

Pressão é grande contra indígenas e quilombolas, diz antropóloga

Por racismoambiental, 05/03/2010 10:54
Processos de homologação de terras indígenas e quilombolas pouco avançam diante dos impactos de obras de infra-estrutura e da ofensiva de fazendeiros, mineradoras e madeireiros.  Comunidades seguem vulneráveis e confinadas
A reportagem e a entrevista é de Bianca Pyl e Maurício Hashizume e publicada pelo Repórter Brasil, 04-03-2010.
Os entraves à homologação de terras indígenas e quilombolas vão desde setores como a bancada ruralista até grandes empreendimentos econômicos, incluindo aí as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), avalia a antropóloga Daniela Perutti, da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).
Nas Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, existem muitos casos de construção de estradas que afetam as comunidades, que sofrem ainda com a ação de mineradoras, de madeireiras, de proprietários de terra etc.
“Muitos desses casos estão na Justiça, que também dificulta a homologação dessas terras.  Hoje há uma pressão social grande contra os povos indígenas e quilombolas”, completa Daniela.  ”Além disso, tem a vontade política do governo, que cede facilmente a essas pressões, e o fato de que os órgãos responsáveis pela regularização dessas terras [Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)] não estarem estruturados e preparados para atender essas demandas”.
Sem territórios garantidos e muitas vezes confinados, indígenas e quilombolas têm de conviver com a vulnerabilidade.  Falta espaço para agricultura, para caça, para pesca e para as práticas sociais.  ”Acaba ocorrendo uma falta de autonomia no território habitado, combinada com uma dependência de programas de assistência governamental.  Muitas vezes, isso não é suficiente para garantir a segurança alimentar dessas comunidades”.
“Criou-se no governo Lula uma expectativa de que, tanto para os indígenas quanto para os quilombolas, a situação melhoraria. Os próprios movimentos sociais tinham muita expectativa e ela de fato não se realizou”, coloca.
Eis a entrevista.
Você poderia enumerar quais são os principais entraves para a homologação das terras indígenas e quilombolas?
O que se vê hoje é uma série de forças contrárias aos direitos dos povos indígenas e quilombolas: forças políticas (fazendeiros e bancada ruralista), grandes empreendimentos econômicos, como obras do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal]… Enfim, cada região do país tem as suas características e um tipo específico de entrave na homologação das terras indígenas ou quilombolas.
No caso específico das terras indígenas nas Regiões Sul e Sudeste, que acompanhamos de perto, vemos muitos casos de construção de estradas que impedem a homologação das terras indígenas e quilombolas e acabam gerando impactos para essa população.
Há a ação de mineradoras, de madeireiras, de proprietários de terra.  Muitos casos estão na Justiça, que também dificulta a homologação dessas terras.  Hoje há uma pressão social grande contra os povos indígenas e quilombolas, o que, de certa forma, se constitui como um entrave.
Além disso, tem a vontade política do governo, que cede facilmente a essas pressões, e o fato de que os órgãos responsáveis pela regularização dessas terras [Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)] não necessariamente estarem estruturados e preparados para atender essas demandas.
Mas o que poderia desobstruir esses processos de homologação?
Uma coisa que já ajudaria de imediato seria justamente a estruturação dos órgãos competentes – Funai e Incra – para proceder a regularização fundiária.  No caso do Incra, que é o responsável por titular as terras quilombolas, observamos uma série de movimentações a partir da publicação do Decreto 4887/2003, que trata dessa questão, assinada pelo presidente Lula.
Houve todo um movimento da bancada ruralista contra o decreto.  Inclusive o antigo PFL, o DEM, propôs uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar esse decreto
Como reação, o governo, que não quer mudar nem derrubar o decreto, impôs novos requisitos às normas internas do Incra para regularizar terras quilombolas.  E esses quesitos só dificultam ainda mais a titulação.
Agora é preciso realizar um relatório antropológico superelaborado, cheio de detalhes, para a titulação das terras quilombolas.  E o Incra não tem um quadro de antropólogos suficiente para dar conta dessa demanda.  Há também uma série de restrições para o Incra fazer convênios com universidades para realizar esses estudos e o próprio órgão se impôs essas restrições.
Essas dificuldades do próprio governo – algumas vezes cedendo a pressões externas e outras vezes por falta de estruturação e de vontade política – acabam complicando ainda mais o processo de homologação.  Acredito que um caminho seja esse mesmo, que os órgãos competentes tenham equipe suficiente para dar conta da demanda.
Podemos dizer que houve uma diminuição no numero de homologações das terras indígenas e quilombolas?
No caso dos povos indígenas, levantamento do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que o governo Lula homologou 84 terras indígenas até 22 de dezembro de 2009, quando houve a última homologação.  O governo FHC, nas duas gestões, homologou 145 terras indígenas.  Ainda teremos mais um ano de governo Lula, mas é uma diferença significativa.
No caso dos quilombolas, o governo Lula titulou só oito terras quilombolas.  É um número muito pequeno para sete anos de governo.
Mas houve alguns avanços como o próprio Decreto 4887/2003, que é um decreto que veio para colaborar, com vistas ao cumprimento do Artigo 68 da Constituição Federal [que estabelece que "aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos"].  O decreto foi um avanço significativo, embora, na prática, não tenha refletido em termos de titulações.
O governo FHC, no caso das terras quilombolas também cometeu sérios erros, como a titulação de uma série de comunidades quilombolas pela Fundação Cultural Palmares, que é um órgão ligado ao Ministério da Cultura (Minc) e não tem competência para desapropriar.  Só deram um pedaço de papel, um título que não tem validade porque não foram feitas desapropriações.
Criou-se no governo Lula uma expectativa de que, tanto para os indígenas quanto para os quilombolas, a situação melhoraria.  Os próprios movimentos sociais tinham muita expectativa e ela de fato não se realizou.
Quais são as consequências desse quadro de territórios indígenas e quilombolas não homologados pelo poder público?
A comunidade acaba ficando muito vulnerável às pressões externas, à grilagem, aos avanços das cercas durante a noite.  Tem muito disso.  E também ficam cada vez mais confinadas em territórios pequenos.  E aí sofrem carências de todos os tipos: falta água potável, falta espaço para agricultura, caça, pesca, falta espaço para as práticas sociais do grupo mesmo.
Como o território vai diminuindo em função dessas pressões externas, com o tempo eles começam a ficar cada vez mais confinados.  Acaba ocorrendo uma falta de autonomia no território habitado, combinada com uma dependência de programas de assistência governamental.  Muitas vezes, isso não é suficiente para garantir a segurança alimentar dessas comunidades.  A dependência dessa renda externa, desses programas governamentais, acaba não suprindo as carências deles nos territórios.
Outro problema enfrentado pelas comunidades são os impactos das obras de infra-estrutura.  Você pode citar algum exemplo?
É o caso da construção da Rodovia BR-101 entre os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.  Tanto a construção dessa rodovia como a sua ampliação a partir dos anos 2000, afetaram cerca de oito Terras Indígenas (TIs) ocupadas pelos Guarani, pelos Kaingang…
Vários territórios foram prejudicados com essa construção e essa estrada causou uma série de impactos, como a desfiguração ambiental dessas áreas, a perda de sítios arqueológicos importantes desses povos indígenas, a destruição de trilhas utilizadas pelos índios para o deslocamento.
Os Guarani, que utilizavam essas trilhas tradicionais para se deslocar de um território para outro, passaram a usar a própria rodovia para esse deslocamento.  E isso gerou problemas sérios de atropelamento na região.
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30364

Processos de homologação de terras indígenas e quilombolas pouco avançam diante dos impactos de obras de infra-estrutura e da ofensiva de fazendeiros, mineradoras e madeireiros.  Comunidades seguem vulneráveis e confinadas

A reportagem e a entrevista são de Bianca Pyl e Maurício Hashizume e publicadas pelo Repórter Brasil, 04-03-2010.

Os entraves à homologação de terras indígenas e quilombolas vão desde setores como a bancada ruralista até grandes empreendimentos econômicos, incluindo aí as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), avalia a antropóloga Daniela Perutti, da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).

Nas Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, existem muitos casos de construção de estradas que afetam as comunidades, que sofrem ainda com a ação de mineradoras, de madeireiras, de proprietários de terra etc.

“Muitos desses casos estão na Justiça, que também dificulta a homologação dessas terras.  Hoje há uma pressão social grande contra os povos indígenas e quilombolas”, completa Daniela.  ”Além disso, tem a vontade política do governo, que cede facilmente a essas pressões, e o fato de que os órgãos responsáveis pela regularização dessas terras [Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)] não estarem estruturados e preparados para atender essas demandas”.

Sem territórios garantidos e muitas vezes confinados, indígenas e quilombolas têm de conviver com a vulnerabilidade.  Falta espaço para agricultura, para caça, para pesca e para as práticas sociais.  ”Acaba ocorrendo uma falta de autonomia no território habitado, combinada com uma dependência de programas de assistência governamental.  Muitas vezes, isso não é suficiente para garantir a segurança alimentar dessas comunidades”.

“Criou-se no governo Lula uma expectativa de que, tanto para os indígenas quanto para os quilombolas, a situação melhoraria. Os próprios movimentos sociais tinham muita expectativa e ela de fato não se realizou”, coloca. Continue lendo… 'Pressão é grande contra indígenas e quilombolas, diz antropóloga'»

Bookmark and Share

Alfredo Wagner: ”O que está em jogo no Madeira é o planejamento para a última grande fronteira amazônica’

Por racismoambiental, 02/03/2010 11:30
Lançado na semana passada, o livro Conflitos Sociais no “Complexo Madeira”, faz o mapeamento de todas as áreas de conflito existentes na região de abrangência do rio Madeira, na Amazônia.
Reunindo estudos de pesquisadores de algumas das principais unidades de ensino superior amazônicas, como Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Universidade Federal do Pará (UFPR), a obra tem como objetivo apresentar dados sobre a ocupação histórica dessa área estratégica e de crescente interesse econômico, por povos tradicionais, como índios, quilombolas e ribeirinhos.
O coordenador do projeto, o antropólogo da Universidade do Estado do Amazonas, Alfredo Wagner, que, desde 1972 estuda a região amazônica, concedeu entrevista exclusiva ao site Amazonia.org.br, em que fala sobre os empreendimentos que atualmente impactam a área de influência do rio Madeira, gerando conflitos e impactos socioambientais graves.
Wagner afirma que obras, como as usinas de Jirau e Santo Antônio, bem como o asfaltamento das BR-319 e BR-317, poderão retalhar um dos últimos redutos de biodiversidade intacta e cultura nativa da Amazônia.  Ele também compara as audiências públicas sobre esses empreendimentos ao desenvolvimentismo autoritário da época da Ditadura.
A entrevista é de Fabíola Munhoz e publicada por Amazonia.org.br, 01-03-2010.
Eis a entrevista.
De quem foi a ideia de produzir este livro?
Nós temos o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, e estamos em contato com várias associações de ribeirinhos, indígenas e quilombolas lá da região do Alto Madeira, na fronteira com a Bolívia.  E, no Fórum Social Mundial, estivemos em contato com o movimento campesino boliviano. Sobretudo, os pescadores artesanais e os ribeirinhos foram nos solicitando o mapeamento das áreas das comunidades, das territorialidades específicas.  Então, nós fomos fazendo esse trabalho, ministrando para eles noções de GPS, discutindo com eles a legislação ambiental, a legislação relativa a comunidades e povos tradicionais e os instrumentos jurídicos pertinentes e referentes a essas leis. Com isso, fomos produzindo um mapa bastante detalhado que acompanha o livro, e pega todos os conflitos socioambientais, todas as áreas reservadas e todas as territorialidades específicas em que essas comunidades de pescadores artesanais, ribeirinhos, castanheiros, quilombolas e povos indígenas foram se constituindo.
Quanto tempo foi necessário para conclusão deste trabalho?
Nós demoramos dois anos para fazer isso. O trabalho pegou a fase de início do licenciamento das usinas do Madeira e foi simultâneo ao início da obra, agora que os consórcios já estão começando a construir as barragens.  Então, foi possível acompanhar em algum lugar o deslocamento compulsório de povoados, as audiências públicas [sobre o projeto das hidrelétricas], e ver o tipo de participação e a limitação dessa participação.  Tem alguns pesquisadores aqui que até chegaram a produzir teses sobre isso.
Os conflitos sociais da região do Madeira são todos decorrentes de empreendimentos como as usinas de Jirau e Santo Antônio, ou há outros problemas estruturais, que fazem parte da realidade local?
A ideia da área de influência do Complexo do Madeira, no nosso ponto de vista, não são cinco, dez, vinte quilômetros de cada lado.  Se nós pegarmos desde a região de Pando, na Bolívia, até a desembocadura do Amazonas, nós vemos mais 60 milhões de hectares em jogo.  E eles estão palmilhados por estradas como a BR-319 ou a BR-317, que pega lá no Purus, na boca do Acre, e Lábrea (AM).  Também, por: hidrelétricas, hidrovia, estradas como a BR-230, que corta área indígena e, inclusive, tem uma cobrança de pedágio, a situação dos garimpos no Madeira, empresas de certificação como a antiga Getal, que vendeu sua área a um grupo pertencente a um banqueiro britânico e gerou uma suspeição sobre as irregularidades nessa compra de terra.  A ideia desse Complexo do Madeira é, então, uma simultaneidade de intervenções.
Esse contexto de intervenções e conflitos pode ser comparado ao cenário causado por outros empreendimentos na Amazônia?
Sim.  Isso já ocorreu em outras áreas amazônicas.  No período ditatorial, isso ocorreu no Carajás (PA).  Você tinha minas de ferro guza, ferrovias, porto da Madeira, e tudo isso feito simultaneamente na serra do Carajás e no porto de Itaqui por onde ainda se escoa a produção de minério.  E, no caso do Pará, isso foi feito na Ditadura sem uma regularização fundiária, o que gerou os conflitos, até hoje, incontroláveis no Sudeste do Pará, no oeste do Maranhão e no norte do Tocantins.  A gente não tem nem estimativa do número, que são dezenas de milhares, de mortos nos conflitos.  Aqui no Madeira, as coisas são feitas num momento democrático.  Tem audiências públicas, mas tem outros tipos de, digamos, arbitrariedades que devem ser discutidas para se aperfeiçoarem os procedimentos democráticos.  São audiências públicas com pouca participação, limitando a participação das pessoas.  Esse foi um elemento que a gente percebeu.
Vocês pretendiam, com esse estudo, suprir a falta de participação popular durante as consultas públicas sobre as obras na região do Madeira?
Não foi nossa pretensão fazer isso. Nós ouvimos reclamações, mas não substituímos ninguém, não falamos em nome de ninguém.  Somos um projeto de pesquisa de universidades amazônicas, que têm advogados especialistas em Direito Ambiental, antropólogos, sociólogos, economistas, engenheiros agrônomos e biólogos.  Vários pesquisadores produziram dissertações de mestrado sobre o assunto.  Isso também está ajudando o conhecimento dessa realidade localizada.
Por que, em sua opinião, as audiências públicas para apresentação do projeto do Complexo do rio Madeira não foram suficientemente democráticas?
Para as consultas públicas, houve pouco acesso a informação prévia.  Isso foi observado em dissertação de mestrado de colegas nossos pesquisadores.  Nossa preocupação é aprimorar procedimentos democráticos e, ao mesmo tempo, fazer distinção para outros momentos autoritários em relação à Amazônia.  Isso é um dado significativo de discutirmos isso hoje.  Essa região de fronteira agrícola, sociológica, como é a Amazônia, parece que é um lugar que não tem lei e onde é muito restrita a circulação de informações.  Então, um dado que a gente percebeu nas audiências públicas foi pouco acesso a informações prévias relativas aos empreendimentos.  E os empreendedores tendo quase o total do tempo para falar.
A partir do que você e outros pesquisadores ouviram da população local, quais têm sido os impactos mais graves da construção das hidrelétricas do rio Madeira?
Uma vez que as usinas não vêm sozinhas, mas vem também o asfaltamento da BR 319, agora o licenciamento da BR-317, já tinha o problema da Transamazônica estar cortando a área indígena Tenharim.  Só isso, são três eixos rodoviários importantes.  O que nós sentimos foi uma falta de discussão aprofundada das formas de apossamento prévio.  Como as comunidades tradicionais manejam os recursos naturais na ocupação da terra?  Essa discussão ficou de fora.  Não se fala que existe gestão comunitária dos recursos naturais, fala-se apenas em assentamento.  Os projetos de assentamento, mesmo os extrativistas, têm uma pressuposição de que parcelar, dividir, é o modelo universal de assentar, e ele não respeita a especificidade de uma região como essa.
Se você pensar, essa é, sem dúvida alguma, a última grande fronteira amazônica. Tem um ramo de estrada que joga para Tefé, lá no Solimões, tem outro ramo que de lá joga no Juruá. Tem um ramo que vai lá para Benjamin Constant, uma que sai de Lábrea cortando tudo. Então, com isso, você vai retalhar o último grande espaço amazônico. Aqui no Estado do Amazonas, são 157 milhões de hectares, o Brasil tem 850 milhões de hectares.  Você vai ver que tem ramais que se expandem e já estão na fronteira com a Colômbia e com o Peru.  Então, é a ultima grande fronteira.  O que está em jogo no Madeira é o procedimento de planejamento governamental para a última grande fronteira amazônica.  Nós estamos discutindo o futuro da Amazônica, não tenha dúvida disso.
Tudo o que estou te falando está no mapa com ponto de GPS pego. Isso você não vai encontrar em mapa oficial nem em banco de dados de nenhuma instituição.  É uma informação super detalhada.  Se você, por exemplo, quiser saber quais os municípios com maior índice de desmatamento, você tem o norte de Mato Grosso.  Se você quiser saber onde estão os processos do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), quais as áreas de subsolo já requisitadas, onde estão as licitações da Petrobras, tudo isso está se dando na grande região do Madeira.
Então, tem petróleo, ouro, terras indígena, ribeirinhos, recursos hídricos, antigas empresas madeireiras de certificação, pelas quais as pessoas, por um clique, adquirem cotas para conservação na Europa.  Esse site da empresa britânica que comprou a área da Getal, numa só semana de agosto, teve 20 mil acessos.  E, no livro, a gente conta quanto eles pagam em libras por meio acre, que é a cota que eles vão vender.  Então, quer dizer que tem um mercado de terras que está sendo acionado nessa região da Amazônia.  Isso, sem dizer privatização de florestas públicas que começa na região do Jamari, que também está próxima a Porto Velho (RO).  Essas discussões todas nos levaram a produzir esse mapa com os detalhes e todos os conflitos socioambientais, envolvendo quilombolas, pescadores artesanais, os chamados ribeirinhos…
Além do impacto ambiental desses empreendimentos, pode-se dizer que desalojar a população tradicional que lá vive tem como impacto a perda da cultura desses povos?
Seguramente. Há uma insensibilidade muito grande para essas questões étnicas, culturais, para a questão da reprodução dos grupos, como eles se reproduzem física e socialmente. Nesse sentido, tem um parentesco com procedimentos de outros momentos históricos que tratam tudo de uma maneira autoritária, homogenizam e perdem de vista essa diversidade cultural e afetam, com isso- e para mim esse é maior impacto-, a autoconsciência cultural que os grupos têm, que cada um tem da sua situação.
Há, ainda, possibilidade de esses estudos, que dão voz à população local, surtirem algum efeito, se a construção das usinas já começou?
As obras já estão em andamento, houve pouca informação prévia, e as pessoas têm uma ideia de progresso que move tudo, e é muito soberana, dominante e definitiva.  E ela considera todos esses povos tradicionais como arcaicos, vivendo sobre uma economia primitiva.  No entanto, se você for ver, são essas comunidades que são mais balizadas com o futuro das áreas mais preservadas.  São as áreas onde eles ainda estão as mais preservadas, onde as águas estão mais límpidas, onde a cobertura vegetal está mais integral.  Inclusive, em Alcântara (MA), são os quilombolas de lá que mantém o local preservado. Essa binacional Brasil-Ucrânia entrou lá na área devastando tudo e nem licenciamento ambiental têm. Foram os quilombolas que se contrapuseram a eles.
Há ações pelas quais o governo e os empreendedores possam compensar os impactos dessas obras?
Sobre isso aí teria que abrir um processo amplo de discussão, um processo mais efetivo de participação do que foram as audiências públicas.  Esses mecanismos de participação que estão aí são um avanço em relação à Ditadura, ou Tucuruí, e Itaipu também, ou no São Francisco. Até hoje, nesses lugares, está todo mundo desalojado, muitos deles sem indenização.
O nosso ponto de vista é o ponto de vista das comunidades tradicionais. A nossa ideia é trazer a experiência das comunidades tradicionais para dentro do planejamento. Faltam articulação e criação de mecanismos de participação mais amplos.
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30245
Lançado na semana passada, o livro Conflitos Sociais no “Complexo Madeira”, faz o mapeamento de todas as áreas de conflito existentes na região de abrangência do rio Madeira, na Amazônia.
Reunindo estudos de pesquisadores de algumas das principais unidades de ensino superior amazônicas, como Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Universidade Federal do Pará (UFPR), a obra tem como objetivo apresentar dados sobre a ocupação histórica dessa área estratégica e de crescente interesse econômico, por povos tradicionais, como índios, quilombolas e ribeirinhos.
O coordenador do projeto, o antropólogo da Universidade do Estado do Amazonas, Alfredo Wagner, que, desde 1972 estuda a região amazônica, concedeu entrevista exclusiva ao site Amazonia.org.br, em que fala sobre os empreendimentos que atualmente impactam a área de influência do rio Madeira, gerando conflitos e impactos socioambientais graves.
Bookmark and Share

Peru vende Amazônia e ameaça comunidades indígenas da fronteira com o Brasil

Por racismoambiental, 24/02/2010 09:52

[EcoDebate] Em nome do desenvolvimento, governo peruano cede terras para empresas estrangeiras explorarem recursos naturais, colocando em risco as populações tradicionais do Peru e do Acre
Em junho de 2009, no massacre de Bagua, no Peru, dezenas de indígenas foram mortos pela polícia e centenas ficaram feridos e detidos, fruto da repressão oficial, que impedia os protestos contra o decreto de implantação do Tratado de Livre Comércio com os EUA. O tratado visava o aumento do investimento de empresas em áreas ricas em recursos naturais. O descaso com o meio ambiente e seus habitantes e a criminalização do movimento indígena refletem a política neoliberal do Peru, que cede terras a empresas multinacionais para a exploração de petróleo, gás, minérios e madeira.
Hoje, 49 milhões de hectares de terras na Amazônia peruana (72% da região) estão entregues a empresas petroleiras – dentre elas à brasileira Petrobrás. São 65 lotes para exploração e produção de petróleo, muitos dos quais sobrepostos a terras indígenas e a unidades de conservação, segundo dados de 2008 da Plos One. A retirada ilegal de madeira e o tráfico de drogas se intensificam nas regiões fronteiriças do Peru, resultando em invasões de territórios protegidos no Acre, como aconteceu, anos atrás, na Terra Indígena Ashaninka do Rio Amônia e no Parque Nacional da Serra do Divisor.
Desde 2004, a Comissão Pró-Índio do Acre e a SOS Amazônia coordenam o Grupo de Trabalho para a Proteção Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto Juruá, grupo de instituições que debatem as questões da fronteira e os impactos sobre os povos da região. Em novembro de 2009, realizaram mais um encontro para discutir o tema, que reuniu organizações indígenas e do movimento social do Brasil, Peru e Bolívia.
Vítimas do ‘desenvolvimento’
Durante o evento, duas lideranças indígenas do Peru, da Comunidade Nativa Sawawo Hito 40, na fronteira com o Acre, relataram como a comunidade se aliou à empresa madeireira Forestal Venao, de Pucallpa, para tentar superar as dificuldades causadas pelo isolamento e o descaso do governo. Os irmãos Ashaninka, João e Luis Garcia Campos, contaram em entrevista que, em troca da retirada da madeira, a empresa prestaria serviços à comunidade, inclusive aqueles de responsabilidade do governo.
Mesmo certificado pela Smartwood-Rainforest Alliance com o selo FSC em 2007, a atividade madeireira, fundamentada em um plano de manejo elaborado pela empresa e aprovado pelo Instituto de Recursos Naturales (Inrena), resultou na abertura de uma estrada, em uma extensa rede de ramais, em grande devastação, na fuga das caças e na obstrução de cursos de água, deixando as famílias Ashaninka sem a sua principal fonte de sobrevivência: a floresta.
Este é um retrato do que acontece em regiões da Amazônia peruana. Assim como a Forestal Venao, outras empresas, dentre elas as estrangeiras, exploram recursos naturais do país e causam prejuízos ao patrimônio natural e cultural das comunidades e às suas formas de organização social e política. Em nome do desenvolvimento sustentável e do progresso, essas atividades são apoiadas por políticas favorecidas por vários órgãos do governo peruano. Nos debates oficiais, costuma-se analisar apenas o lado positivo desses processos para a economia. A mídia, por sua vez, continua a retratar os povos indígenas como atrasados ou como obstáculos ao desenvolvimento.
Integração Brasil-Peru
Nos últimos anos os governos do Brasil e do Peru têm construído processos de integração física e energética. Além da pavimentação da Rodovia Interoceânica, estão em fase de planejamento a construção de uma estrada e de uma ferrovia ligando o município de Cruzeiro do Sul a Pucalpa. Já a parceria energética visa promover a produção e exportação de energia hidrelétrica e a integração de empreendimentos de empresas estatais e privadas – brasileiras e peruanas – nas áreas de petróleo e gás.
Esses processos de integração têm sido discutidos há anos por organizações do movimento social e associações indígenas e extrativistas do Acre e Peru. Elas têm exigido que os dois governos cumpram as recomendações da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Essas recomendações garantem o direito das comunidades e organizações à realização de consultas, prévias, consentidas, informadas e de boa-fé, a respeito das políticas oficiais de desenvolvimento e de “integração regional” que venham a afetar seus territórios e modos de vida.
Têm também reivindicado que os governos de ambos os países implementem políticas fronteiriças comuns, voltadas à conservação do meio ambiente e da biodiversidade, à proteção de terras indígenas e unidades de conservação e à garantia de direitos dos povos indígenas, assegurando plena participação desses povos e dos demais moradores da região de fronteira na definição e execução dessas políticas.
ENTREVISTA
“O governo peruano tem contrato com empresas para a exploração de recursos naturais nas terras protegidas”, afirma liderança indígena Ashaninka do Peru
Leandro Chaves – Fale um pouco sobre a empresa Forestal Venao.
Luis Garcia e João Garcia – Forestal Venao é uma grande madeireira peruana. Foi ela que acabou com as madeiras da nossa aldeia. Hoje é uma empresa muito grande e só cresceu às nossas custas, porque quando a conhecemos, não tinha quase nada. Ela saiu da nossa comunidade e não nos deixou nada, nenhum recurso. Hoje ela trabalha com outras terras indígenas no Alto Juruá e está repetindo a mesma destruição que fez na nossa comunidade.
LC – O que aconteceu entre sua comunidade e a madeireira?
LG/JG – Nós estávamos abandonados pelo governo do Peru. Estávamos muito longe de qualquer tipo de comunicação com as instituições peruanas, inclusive as que representam os direitos das comunidades indígenas. Estávamos longe, também, das cidades e ficava difícil fazer compras. Tinha os problemas de saúde, adoecia uma pessoa e não tínhamos como sair. Sabe quanto custa um avião de Pucallpa para a nossa aldeia? 1.800 dólares para pegar um doente lá, trazer e mandar tratar na cidade. A única coisa que nos ajudaria a cobrir essa necessidade era a madeira. Esse foi o único meio que vimos para sair dessa situação. Por isso, fizemos o acordo com a empresa, em 2002. Entramos com a proposta do que a gente queria também. Faltou uma boa administração da parte deles com os mais de 4 milhões de dólares gerados dentro da nossa terra. Em 2007, começamos a perceber que isso não estava certo. Nossa madeira estava acabando e, por isso, terminamos o contrato. Agora, essa empresa não trabalha mais com a gente e nos deixou sem madeira e sem benefícios. Percebemos um pouco tarde que com a nossa madeira não poderíamos mexer. Estamos sofrendo bastante, mas tentando nos reerguer. Apanhamos, mas aprendemos.
LC – Que outros problemas vocês sofreram por causa das ações da empresa?
LG/JG – Sempre antes de a madeireira chegar à comunidade, ela ficava uns seis meses em Pucallpa fazendo manutenção das máquinas. Nesses meses não tínhamos muitos problemas. Mas quando as máquinas começavam a transitar pela terra, dia e noite, não encontrávamos nenhum tipo de caça. Elas corriam. Pesca nunca tivemos problemas.
LC – O que está sendo feito para reverter a situação do desmatamento na sua terra?
LG/JG – Começamos a fazer um plano de manejo e aprendemos a usar nossa madeira. Também estamos reflorestando. Após a saída da empresa, já plantamos mais de 85 mil árvores. Estamos sobrevivendo somente através do nosso recurso, pois continuamos abandonados pelo governo. Vamos buscar outras alternativas e maneiras de trabalhar, como o artesanato e o ecoturismo. Isso sim é uma fonte de renda que não causa problemas. Queremos também uma parceria com as comunidades do lado acreano, que possuem mais experiência, como é o caso da Apiwtxa, onde vivem muitos de nossos parentes.
LC – Vocês possuem alguma organização?
LG/JG – Sim, temos a UCIFP (Unión de Comunidades Indígenas Fronterizas del Perú), que abrange as comunidades Sawawo, Dorado, Santa Rosa, Nueva Shawaya e Vitória, das etnias Ashaninka, Jaminawá, Amauaca. Acontece que essa organização não funciona para a gente. Ela funciona só para as empresas. Na época da Forestal Venao, defendia mais o interesse da empresa do que o nosso. Não reclamo da organização, mas das pessoas que estão à frente dela e só vêem benefícios que não são o dos povos indígenas, que ficam no prejuízo. Quem sabe se trocasse de direção, as coisas não mudariam?
LC – Hoje vocês sofrem algum tipo de pressão por parte de outras empresas?
LG/JG – Sem dúvida. Nossa principal preocupação hoje é com essas companhias petroleiras que estão se aproximando da nossa comunidade. Tem uma que está com as suas bases instaladas a cerca de 80 km da nossa terra. O governo peruano tem contrato com essas empresas para explorar recursos nas terras protegidas, tudo isso sem consultar nós, que somos donos do lugar. Isso já está acontecendo, como na Forte Esperança, dos nossos parentes Ashaninka. Já não bastou a Forestal Venao e agora vêm essas petroleiras? Nossa terra vai se acabar! Sobrevivemos da mata, nossas crianças precisam dela, a nossa alimentação vem daí. Tem que haver um mínimo de respeito. A exploração já chegou à comunidade Paraíso. Eu vi muitas coisas por lá. Mexer com petróleo pode trazer consequências ruins para todo mundo. Se os canos vazarem, por exemplo, podem contaminar todos os rios, inclusive os do Acre, porque os rios correm no rumo do Brasil. Se sofremos com a retirada da madeira, pois agora é que vem o pior.
LC – A imprensa peruana tem dado alguma visibilidade à causa de vocês?
LG/JG – Estive um tempo em Lima e tentei informar sobre isso. Tive até a oportunidade de chegar à televisão para levar informações sobre esse problema. Os empresários, que tem dinheiro e controlam os meios de comunicação, cortaram tudo. Acabaram com a informação. Falaram: “Vocês vão acreditar nesse índio? Ele está sendo pago para fazer essa denúncia”.
LC – Qual sua opinião em relação ao mandato do atual presidente Alan Garcia?
LG/JG – Ele está deixando as comunidades indígenas da fronteira abandonadas e dando mais valor aos empresários, petroleiros e mineradores. Gente que já tem dinheiro o bastante. Está deixando de lado o nosso direito enquanto povos indígenas, que vivemos da floresta, e dando parte dela para pessoas que já têm como sobreviver. São empresas grandes. O governo está vendendo a Amazônia e nos tratando como animais. Tudo isso por causa de interesses econômicos. Nos sentimos vendidos, nossa opinião é essa. Gostaríamos de falar para todos o que está acontecendo para ver se gera alguma cobrança. O Peru precisa saber do sofrimento que estamos passando por culpa dele mesmo. Muita gente nem sabe que existimos, mas estamos aí. Agora, graças a Deus tivemos essa oportunidade de estar aqui com vocês, em Rio Branco, discutindo esses problemas e compartilhando ideias. Por que não agir como o governo brasileiro, que mostra preocupação com as suas florestas? É isso que queremos.
LC – E a partir daqui? O que esperar para o futuro?
LG/JG – Nós temos que pensar somente em ir em frente e buscar os nossos direitos. Em relação à madeira, nossa situação melhorou com a saída da empresa e o começo do reflorestamento. Agora é só ver como vamos trabalhar. Ainda queremos indenização da Forestal Venao. Aprendemos com o que aconteceu e estamos retomando. Vamos reclamar ao governo peruano, pois as coisas não estão claras e não foram cumpridas como estavam no contrato. Nossa comunidade ainda está abandonada pelas autoridades. Tem o IBC [Instituto Bien Común] lutando pelos direitos indígenas, mas no geral não há o mesmo tipo de organização que existe no Brasil. Só sei que várias pessoas querem viver às custas das comunidades indígenas e no final não nos deixam nada. É necessário mudar essas ideias para que possamos ter melhores expectativas para o futuro. Pobres nós não somos porque temos toda a natureza.
Reportagem e entrevista realizada por Leandro Chaves, Comissão Pró-Índio do Acre CPI/AC para o EcoDebate, 24/02/2010

[EcoDebate] Em nome do desenvolvimento, governo peruano cede terras para empresas estrangeiras explorarem recursos naturais, colocando em risco as populações tradicionais do Peru e do Acre

Em junho de 2009, no massacre de Bagua, no Peru, dezenas de indígenas foram mortos pela polícia e centenas ficaram feridos e detidos, fruto da repressão oficial, que impedia os protestos contra o decreto de implantação do Tratado de Livre Comércio com os EUA. O tratado visava o aumento do investimento de empresas em áreas ricas em recursos naturais. O descaso com o meio ambiente e seus habitantes e a criminalização do movimento indígena refletem a política neoliberal do Peru, que cede terras a empresas multinacionais para a exploração de petróleo, gás, minérios e madeira.

Hoje, 49 milhões de hectares de terras na Amazônia peruana (72% da região) estão entregues a empresas petroleiras – dentre elas à brasileira Petrobrás. São 65 lotes para exploração e produção de petróleo, muitos dos quais sobrepostos a terras indígenas e a unidades de conservação, segundo dados de 2008 da Plos One. A retirada ilegal de madeira e o tráfico de drogas se intensificam nas regiões fronteiriças do Peru, resultando em invasões de territórios protegidos no Acre, como aconteceu, anos atrás, na Terra Indígena Ashaninka do Rio Amônia e no Parque Nacional da Serra do Divisor. Continue lendo… 'Peru vende Amazônia e ameaça comunidades indígenas da fronteira com o Brasil'»

Bookmark and Share

APÓIE AS AÇÕES EM DEFESA DO RIO XINGU

Por racismoambiental, 21/02/2010 14:13

“Apóie as ações em defesa do Xingu e de seus povos! Assine a carta que será enviada às autoridades solicitando que seja anulada a licença prévia da Hidrelétrica de Belo Monte. É preciso que seus impactos socioambientais sejam reavaliados. E que sejam discutidos com toda a sociedade os custos da política energética para a Amazônia, que aloca grande quantidade de energia na rede nacional para a mineração e beneficiamento de aluminio, indústria de exportação subsidiada”.

Link para a carta e demais informações: http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.php?id=2564.

Abaixo, os dois filmetes divulgados pela Fase/RBJA em apoio à Campanha.

Bookmark and Share

Povos Guaranis Kaiowá: Sempre em luta. Entrevista especial com Antonio Brand

Por racismoambiental, 08/02/2010 11:15

Antônio Brand no I Seminário Brasileiro contra o Racismo Ambiental

“Nesses longos anos de luta pela terra, os Guarani aprenderam que as muitas vitórias que já alcançaram foram fruto, sempre, de sua teimosa decisão de não desistir nunca, inclusive frente à violência aberta e direta dos pretensos donos dessas terras e da omissão do judiciário. Essa resistência que já custou a vida de muitos deles. Em nenhum momento puderam contar com decisões prévias e favoráveis da justiça formal. Por isso, a sua decisão é seguir nessa luta, inclusive, porque não há qualquer outra alternativa se quiserem ter um futuro para seus filhos”. Esse é um resumo da realidade triste dos povos indígenas no Brasil. Em janeiro, mais uma notícia que deprecia suas lutas e suas vidas: o Supremo Tribunal Federal suspendeu a demarcação de mais de 90% da reserva indígena Arroio-Korá, no Mato Grosso do Sul, e 5% da reserva Anaro, em Roraima. Os fazendeiros locais fizeram o pedido ao STF, argumentando não terem sido ouvidos no processo de homologação, além de afirmarem que o estudo antropológico feito pelo governo federal tem problemas. “Se alguém tem todas as condições de ser ouvido e sempre foi e é ouvido nesse país são certamente os grandes proprietários e representantes do agronegócio”, complementou Antonio Brand durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail.

Antonio Brand é graduado em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Tem mestrado e doutorado na mesma área, pela PUCRS. É, atualmente, professor da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, MS.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como você avalia a suspensão da demarcação de mais de 90% da reserva indígena Arroio-Korá, Mato Grosso do Sul, e 5% da reserva Anaro, em Roraima, pelo STF?
Antonio Brand – Essa não é primeira vez que o Supremo Tribunal Federal interfere e suspende atos do Poder Executivo quando estes atendem demandas dos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, e atingem interesses de grandes proprietários de terra. Foi o que aconteceu com a Terra Indígena Ñanderu Marangatu, no município de Antonio João, MS, homologada pelo Presidente da República, em 23 de março de 2005. O então Ministro Presidente do STF, Nelson Jobim, num de seus últimos atos como integrante desse Tribunal, suspendeu, liminarmente, o decreto presidencial de homologação da terra indígena e, em consequência, os índios, que já ocupavam parte da terra homologada, foram, violentamente, expulsos em 15 de dezembro do mesmo ano. Até hoje, o Tribunal não julgou o mérito da questão, e os Kaiowá continuam fora de sua terra, em clima de constante tensão e conflitos violentos, incluindo assassinato de índios.
Percebe-se, claramente, no caso de Ñanderu, que não há nenhuma pressa em decidir o mérito da questão porque, afinal, a decisão liminar de Jobim garantiu aos fazendeiros a plena posse da terra indígena, enquanto a comunidade indígena espera em situação de extrema precariedade. É importante registrar que a decisão de Jobim, então integrante do Supremo, é anterior às condicionantes definidas pelo STF no julgamento do caso da Raposa Serra do Sol. Essa decisão recente, de Gilmar Mendes, agrava em muito os impasses envolvendo a demarcação das terras dos Guarani Kaiowá porque todas as terras que os índios reivindicam estão em poder de poderosos proprietários de terra, que têm acesso direto aos gabinetes dos ministros do Supremo – como bem atesta a rápida decisão do Ministro Gilmar – enquanto que os povos indígenas seguem dependendo da boa vontade e disponibilidade da FUNAI e dos governantes de plantão, em âmbito federal. Então, apesar do empenho jurídico de uma importante equipe de procuradores do Ministério Público Federal, as decisões por parte dos ministros favoráveis aos proprietários têm sido rápidas, enquanto que as solicitações dos povos indígenas mofam nas gavetas dos mesmos magistrados.
IHU On-Line – Como os índios receberam a notícia da suspensão da demarcação?
Antonio Brand – Acabo de participar de um programa de formação de professores Guarani Kaiowá em nível superior, onde esse assunto veio à tona. Eles têm plena consciência das travas que, crescentemente, vem sendo interpostas por parte da justiça, nas diversas instâncias, às suas reivindicações.  Ou melhor, eles vêm percebendo que há, efetivamente, “duas justiças”: uma rápida, ágil, atenta e eficaz, quando se trata da defesa dos interesses do latifúndio e do agronegócio, e outra, muito lenta, cega e ineficaz quando se trata da defesa das demandas indígenas. Os professores indígenas seguem perplexos com a falta de iniciativa da justiça frente ao recente assassinato de dois colegas seus, sendo que o corpo de um deles segue desaparecido. E, ao que se sabe, não há em andamento qualquer ação no sentido de esclarecer os fatos. Aliás, houve diversos assassinatos de indígenas nos últimos anos, envolvendo direta ou indiretamente a posse da terra, e todos os mandantes e assassinos seguem soltos.
“nesses longos anos de luta pela terra, os Guarani aprenderam que as muitas vitórias que já alcançaram foram fruto, sempre, de sua teimosa decisão de não desistir nunca, inclusive frente à violência aberta e direta dos pretensos donos dessas terras e da omissão do judiciário”
No entanto, nesses longos anos de luta pela terra, os Guarani aprenderam que as muitas vitórias que já alcançaram foram fruto, sempre, de sua teimosa decisão de não desistir nunca, inclusive frente à violência aberta e direta dos pretensos donos dessas terras e da omissão do judiciário. Essa resistência que já custou a vida de muitos deles. Em nenhum momento puderam contar com decisões prévias e favoráveis da justiça formal. Por isso, a sua decisão é seguir nessa luta, inclusive, porque não há qualquer outra alternativa se quiserem ter um futuro para seus filhos.
IHU On-Line – Os argumentos dos fazendeiros são basicamente os mesmos apresentados pelos arrozeiros que protestavam contra Raposa Serra do Sol: alegam que estão no local desde antes da Constituição de 1988, que não foram ouvidos pelo governo federal no processo de homologação e que existem problemas técnicos no laudo antropológico que reconheceu a região como área indígena. Esses argumentos e a nova decisão do STF podem cercear os direitos dos índios e interferir no reconhecimento das terras indígenas?
Antonio Brand – Não vou contestar o argumento de não terem sido ouvidos porque – se alguém tem todas as condições de ser ouvido e sempre foi e é ouvido nesse país são certamente os grandes proprietários e representantes do agronegócio. E, há, também, momentos claramente explicitados no processo de identificação e demarcação de terras para que os pretensos proprietários apresentem seus argumentos. Por isso, entendo que a queixa não é de não serem ouvidos, mas de seus argumentos, em raros casos, é verdade, serem superados pelos argumentos apresentados pelos povos indígenas.
Mas a questão mais grave diz respeito ao prazo temporal – o ano de 1988 – estabelecido, pelo STF, como base para o reconhecimento do direito indígena às terras. Discutindo essa questão com os professores Guarani Kaiowá, estes logo responderam: “estávamos fora de nossas terras, nessa data, na maior parte dos casos, porque tínhamos sido expulsos de lá”. Ou seja, o fato de estarem fora de suas terras tradicionais era e é resultado de um processo histórico que ignorou, constantemente, os direitos indígenas e que se traduziu na expulsão sistemática de suas terras. E há uma gama importante de documentos atestando essas violências.
E é muito importante destacar que esses atropelos históricos dos direitos indígenas se deram ao total arrepio da lei – a Constituição de 1934 já garantia o direito indígena à terra que ocupavam efetivamente. No entanto, até o Estatuto do Índio, de 1973, foi sistematicamente ignorado, e os Guarani Kaiowá seguiram sendo expulsos de suas terras até a década de 1980. Conheço diversos casos de comunidades Guarani Kaiowá que foram expulsos de suas terras, apesar das leis que lhes garantiam a posse dessas terras. E, frente a esse vergonhoso esbulho histórico das terras de um povo indígena – no caso os Guarani Kaiowá, a mesma justiça foi totalmente omissa, escutando somente um lado, dos que reivindicavam títulos sobre aquelas terras. Ignorou os direitos indígenas, embora claramente explicitados nas leis vigentes.  No entanto, essa mesma justiça, que historicamente se omitiu frente a esse sistemático esbulho, agora os penaliza, usando como argumento o fato de não estarem onde deviam estar, em 1988, para terem seus direitos à vida garantidos.  Como o arbítrio e a violência podem gerar direitos?
“a esperança dos Guarani Kaiowá é de que essa decisão seja reformada e que o STF reconheça os direitos dos povos indígenas”
Penso que, se essa decisão for referendada pelo STF, na discussão do mérito da questão, isso representará o reconhecimento, por parte do judiciário, da lei do mais forte, ou seja, que o processo histórico, que se traduziu no radical confinamento dos Guarani Kaiowá foi, de alguma forma, legítimo. Por isso, a esperança dos Guarani Kaiowá é de que essa decisão seja reformada e que o STF reconheça os direitos dos povos indígenas. Há, no entanto, um consenso de que muitas propriedades foram adquiridas de boa fé, sendo que os títulos foram expedidos pelo próprio governo, que, também, ignorou a presença indígena nesses espaços – e que, nesses casos, os portadores desses títulos devem ser ressarcidos de todos os prejuízos. Mas, em nenhum caso, pode ser posto em dúvida o direito primeiro dos povos indígenas.
IHU On-Line – Quais são as maiores controvérsias em torno da reserva Arroio-Korá?
Antonio Brand – Não conheço detalhes do processo e dos argumentos arrolados pelos fazendeiros. Mas, considerando apenas a decisão do STF, fica claro que o problema básico diz respeito ao marco temporal, ou seja, ao fato dos índios estarem fora dessa área em 1988. O antropólogo Levi Marques, da UFGD, responsável pelo estudo de identificação dessa terra indígena afirma que “o período mais crítico para os Guarani”, nessa região, verifica-se a partir da década de 1960, quando um “número crescente de famílias passam a ser assediadas e pressionadas para deixarem a terra”, decorrência da chegada dos empreendimentos agropastoris. O antropólogo reconhece que os Guarani foram “forçados a desenvolver uma série de estratégias para continuar sobrevivendo e ocupando, mesmo que parcialmente, seu território”.
Os poucos índios que conseguem permanecer na terra são submetidos à condição de peão, trabalhando na derrubada de matas ou plantio de pastagens e lavouras para os novos proprietários. Era comum os fazendeiros disporem de famílias de índios trabalhando em suas fazendas por ser essa a mão-de-obra mais disponível e barata na região. Algumas propriedades foram vendidas com famílias de índios “dentro”.
Vivendo escondidos nos fundos de fazendas, adotaram um tipo de vida mais discreto possível, logrando, muitas vezes, permanecer por longos períodos escondidos do mundo. Em muitos casos, os fazendeiros fingiam não tomar conhecimento da existência de índios em sua propriedade, desde que uma espécie de acordo tácito fosse mantido: os índios permaneceriam vivendo discretamente em seus “esconderijos” e constituiriam uma reserva de mão-de-obra barata para a fazenda.
Segundo Levi Marques, foi “tarefa difícil conseguir dados sobre a história das antigas famílias que viviam em Arroio-Korá”, não por má vontade, mas por causa dos “traumas deixados pelas violências sofridas” no decorrer do processo de expulsão dos índios, que incluíram “parentes assassinados, irmãs e esposas violentadas e humilhações de toda ordem”. Registra o antropólogo que, durante os depoimentos, alguns começaram a chorar e “logo o choro se transformou numa atitude coletiva, causando muito constrangimento” e acrescente, a seguir, o relato de Ricardo (o líder do grupo), que assim falou: “quando a gente olha a nossa história, a gente vê que vive igual um tatu atropelado por caçador e cachorros, tenta fugir de um lado para outro, não encontra saída, tenta voltar na mina mas a porta já está tapada pelo caçador, ficamos circulando à toa de um lado para outro, sem destino, procurando prolongar um pouco o tempo de vida que ainda resta, até que o caçador dê o golpe fatal” . Segue o relato de um número impressionante de violências contra os índios, todas impunes até o momento.
Naturalmente que essa história trágica, de extrema violência, que marcou não só o processo de expulsão dos índios de Arroio Corá de suas terras, mas de inúmeras outras comunidades não pode fazer sentido para o Presidente do STF, Dr. Gilmar Mendes, voltado exclusivamente para uma data, aliás, para os índios, aleatória, 1988. Busca-se, dessa forma, zerar, como num passe de mágica, uma relação impressionante de violências contra os povos indígenas, cometidas para que hoje diversos desses proprietários possam alegar que sua terra não tem mais índios. Essas violências, no entanto, seguem e seguirão exigindo uma resposta da justiça brasileira. Não há como ignorar que muitos títulos de terra, hoje considerados como inquestionavelmente válidos, foram concedidos indevidamente, estando, inclusive, os índios dentro das áreas alienadas.
IHU On-Line – É possível garantir a proteção das Terras Indígenas (Tis) homologadas, para que elas não sejam invadidas por fazendeiros?
Antonio Brand – Penso que é possível garantir a integridade das terras indígenas, tendo como base o arcabouço legal atualmente existente. Bastaria vontade política para tal, inclusive porque os primeiros interessados nessa defesa são os próprios índios que residem em cada uma dessas terras. Eles são, efetivamente, os melhores fiscais de suas terras. O problema está sempre na omissão e convivência com os interesses maiores da economia regional por parte dos políticos, órgãos públicos responsáveis pela retirada dos eventuais invasores e da justiça, sempre muito atenta para garantir os eventuais direitos de proprietários não-índios e extremamente tolerante quando as violências e as transgressões atingem posses e direitos indígenas. Estudo, desde alguns anos, o caso das terras dos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul. O Serviço de Proteção aos Índios, SPI, reconheceu como de posse desses índios um total de oito pequenas extensões de terra, entre os anos de 1915 e 1928. Todas elas foram sofrendo sucessivas reduções, sempre com a conivência dos órgãos oficiais.
Por isso, considerando a sistemática omissão dos responsáveis legais pela garantia dos direitos indígenas no Brasil, penso que a esperança maior está voltada para a crescente capacidade dos povos indígenas, mediante as suas organizações e seus profissionais próprios, garantirem essa defesa.
IHU On-Line – Outro projeto polêmico é a construção da hidrelétrica de Belo Monte, que, segundo estudos do Instituto Socioambiental (ISA), dependem das águas da bacia do Xingu. Como essa obra ameaça também as terras indígenas?
Antonio Brand – Tenho acompanhado as manifestações dos diversos setores que serão atingidos por essas obras, em especial, ribeirinhos, povos indígenas e ambientalistas, apoiados, inclusive, em exemplos de obras como a hidrelétrica de Balbina e outras. Há um conflito claro de interesses em jogo: de um lado, os beneficiários dessas obras, os grandes interesses da economia regional e global; e, de outro lado, os ribeirinhos, povos indígenas e demais segmentos pobres, na maior parte, totalmente excluídos ou incluídos marginalmente nos benefícios a serem gerados pelos empreendimentos. Para essas populações locais ficam, normalmente, apenas os impactos negativos. O que causa estranheza é que o Governo Lula siga, nesse ponto, os mesmos procedimentos autoritários dos governos anteriores. Havia uma expectativa de que o atual governo respeitasse e estabelecesse um diálogo sério não só em torno da questão ambiental, mas, também, com esses setores, sempre à margem e atropelados em seus direitos básicos. Mas, infelizmente, não é isso que verificamos.
IHU On-Line – Quais foram os principais avanços no processo de reconhecimento oficial das Terras Indígenas nos últimos 20 anos? A homologação de diversas TIs no final de 2009 representam que avanços para os indígenas?
Antonio Brand – Logicamente, que os povos indígenas, apoiados, inclusive, nas veementes afirmações do Lula candidato, esperavam muitíssimo mais do seu governo. As medidas relativas aos povos indígenas foram, sempre, tímidas, mantendo velhos vícios dos governos anteriores. Nesse sentido, as homologações feitas no final de 2009 são relevantes, mas, esperava-se muito mais. São resultados tímidos e que, inclusive, vêm sendo contestados pelo STF, nesse momento. Se o Governo Lula tivesse sido coerente com suas promessas, a questão das terras guarani teria que estar resolvida, mas a FUNAI e o próprio Governo Federal mostraram-se sempre indecisos, com clara intenção de seguir empurrando o caso para os próximos governos. E creio que é essa postura indefinida e indecisa, do Governo Federal, frente aos direitos dos Guarani que estimulou e segue estimulando, inclusive, as violências contra os índios. A enorme quantidade de medidas judiciais interpostas pelos pretensos proprietários de terra foram, também, de alguma forma, estimuladas por essa atitude indefinida. Ao invés de garantir as terras necessárias, o Governo Lula preferiu aumentar os recursos para políticas de cunho marcadamente assistencialista e que não resolvem os problemas a médio e longo prazo.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=29617
Para ler mais:
Povos indígenas do Mato Grosso do Sul: a luta está cada vez mais difícil. Entrevista especial com Antonio Brand
A dura luta dos Guarani no Mato Grosso do Sul pela demarcação da terra. Entrevista especial com Antonio Brand
”A sobrevivência cultural do povo Kaiowá-Guarani está em jogo no MS”. Entrevista especial com Egon Heck
Guarani-Kaiowá. Truculência e omissão. Entrevista especial com Iara Tatiana Bonin

Antonio Brand é graduado em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Tem mestrado e doutorado na mesma área, pela PUCRS. É, atualmente, professor da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, MS.  Confira a entrevista. Continue lendo… 'Povos Guaranis Kaiowá: Sempre em luta. Entrevista especial com Antonio Brand'»

Bookmark and Share

O outro mesmo Brasil (1)

Por racismoambiental, 04/02/2010 06:54
Egon Dionísio Heck *
Adital -
“Aí os brancos fazendeiros foram chegando e tomando as terras de todo mundo aqui. Fizeram isso de muitos jeitos. Alguns chegaram com os donos dos cartórios que pediam o documento de propriedade da terra. Diziam que era só pra verificar. Aí pediam para colocar o dedo encima dum papel. Dali uns dias já apareciam de novo com os capangas pra botar a família pra foram dizendo que tinham comprado aquela terra…e assim foi acontecendo o roubo das terras do nosso povo”.(Maria Celestina, comunidade quilombola de Canudos, Jaíba-MG – 17 de janeiro de 2010)
Depois de andar por mais de duas semanas pelo território quilombola de vale do Gorutuba, percorrendo a pé quase cem quilômetros, se tem a clara sensação de que pouco e pouco conhecem esse outro Brasil, das negras raízes, da escravidão secular. Na medida em que fomos cortando estradas e veredas da caatinga do norte de Minas Gerais, fomos partilhando saberes, histórias e sofrimentos desse mesmo Brasil, tão diferente, emergente em linha direta da história de escravidão e da busca de libertação na fuga para os distantes e inóspitos espaços, onde podiam reconstruir sua liberdade e suas vidas. Histórias de vida e luta contadas pelos anciões como seu Julião, em Taperinha. Ele completou 91 anos no dia 10 de janeiro. Pudemos partilhar com ele, os familiares e comunidade essa importante data.
Mateus, um aliado da causa quilombola assim narra a origem dos quilombolas do vale do Gorutuba “Os antepassados dessas famílias vieram para cá por volta de 1750. Eles eram fugitivos do trabalho nos canaviais da Bahia e da mineração da região de Diamantina. Aqui era uma região de muita malária. Os brancos e nem os índios conseguiam viver aqui. Mas os negros, como eram resistentes à malária, encontraram aqui um oásis, protegidos pela força dos mosquitos transmissores da malária. Aqui constituíram comunidades de quilombolas que puderam viver em paz até o início do século vinte. Por volta de 1920 chegou a essa região a construção da estrada de ferro. Com ela chegaram para cá várias companhias. Passaram desmatar e afastar o mosquito da malária. Assim que desmatavam já iam repartindo e se apossando das terras. Desta forma iniciou a invasão e tomada das terras dos quilombolas dessa região.
O território quilombola do Vale do Gorutuba
A partir da Constituição de 1988 os remanescentes de quilombolas tiveram reconhecidos o direito a seus territórios. De lá pra cá mais de 3 mil comunidades quilombolas estão lutando pelo reconhecimento de seus territórios. Destes apenas 1.209 são reconhecidos e 105 tem título de posse. Em Minas Gerais são 454 comunidades quilombolas reconhecidos. Porém apenas uma tem seu território legalizado. E este está alagado por uma represa. Outros, como o Brejo dos Crioulos, também no norte de Minas está com o processo concluído, restando apenas o governo pagar a indenização dos fazendeiros e devolver oficialmente a terra aos quilombolas. São 17.309 hectares.
A regularização do território dos quilombolas do Vale do Gorutuba também está bastante adiantado. São 47 mil hectares, já identificados com relatório publicado no Diário Oficial da União. Os fazendeiros já foram notificados. Agora é pressionar o INCRA para que pague os fazendeiros e entregue a terras a 30 comunidades de quilombolas que estão organizados na Associação das Comunidades Quilombolas do Valo do Gorutuba. Eles tem sua sede na comunidade de Taperinha. Estão num crescente processo de organização, união e luta pelos seus direitos.
Quilombolas e índios – nativos na luta
Dona Fermina, numa das conversas que tivemos na caminhada, falou “minha avó foi pega no laço”. Expressão bastante comum quando se quer referir à descendência indígena. A partir daí não foi difícil uma boa prosa sobre a luta dos povos indígenas e as semelhanças com a luta pela terra. Uma das questões que de imediato fica evidenciado são as semelhantes dos dois processos de luta pela recuperação das terras. Apesar de existir muita desinformação recíproca entre índios e quilombolas, ou até preconceitos engendrados pelas elites responsáveis pela expropriação das terras e escravizadores e dominadores dessas populações, facilmente se entende que é chegada a hora de não apenas conhecer-se para unificar a luta, mas de escrever juntos a nova história na construção desse novo projeto para o país, onde negros e índios, terão muito a contribuir.
Além da luta pela terra o que unifica comunidades indígenas e quilombolas hoje é sua forma diferenciada de pensar e organizar a vida e a produção. Na cidade de Pai Pedro, donde iniciamos a caminhada, dona Ana nos preveniu “Ih! Vocês vão encontrar muita miséria. É gente dependente e acomodada nas ajudas do governo. Gente sem aspiração. Parecem uma tribo” Referia-se ela às comunidades quilombolas. Efetivamente parecem ainda pouco contaminadas pela ideologia da acumulação e consumismo, pelo processo de produção capitalista. Ainda preservam bastante a organização social baseada no parentesco da família extensa.
Segundo Antonio, sábio ancião do grupo e conhecedor da questão indígena, estes povos são os únicos que tem um projeto de futuro. Porém se encontram sob forte impacto do modelo neoliberal, o que tem por sua vez gerado intensa mobilização dos povos indígenas em todo o continente, especialmente na América Latina.
A caminhada e os caminhantes
Já há mais de uma década um grupo de pessoas, de diversas regiões do país, se junta, de forma bastante espontânea, para realizar uma caminhada de 20 dias em alguma região do país ou da América do Sul. “São caminhantes motivados e com objetivos. Abrangem diversas dimensões da pessoa e da natureza. São momentos carregados de profunda reflexão, mística, encontro pessoal, com o grupo e com as comunidades por onde passam. É um momento de troca de saberes e conhecimentos. É a busca de reconciliação com a natureza, consigo mesmo e partilha com os demais. No caminho acontece o encontro, a conexão com a terra, a busca do espírito nativo, a troca de energias e sabedoria. É tempo de enfrentar e superar ansiedades e medos. É tempo de silencio, de escuta, de sentir e falar. Tudo no tempo da natureza. Dormir na mata, acordar com o canto dos pássaros, andar na lama ou poeira na chuva ou sol quente, de dia ou de noite. Na mochila apenas o necessário. Que muitas vezes aponta os limites do caminhante. Tem que se garantir a comida e a dormida, a barraca, a rede, saco de dormir, água e a roupa. Isso na caminhada de uns cem quilômetros acaba pesando. Porém a satisfação, a gratuidade, a entre-ajuda, a união e a partilha acabam fazendo da caminhada um marco profundo de solidariedade, harmonização, sintonia, energia , mística e compromisso com a vida, a natureza, a terra, o cosmos.
São destaques no caminho as falas sabias de Antonio (Conselheiro) de Alencar. E mais do que as falas são seus gestos e jeitos que transmitem segurança e tranqüilidade e harmonia no grupo, mesmo quando as energias sofrem abalos. O mais importante desses vinte dias de caminhada e interação com a natureza e as comunidades por onde passamos, é sentir em cada um o pulsar de cada um, nos caminhos desse outro mesmo Brasil.
“Vamos ir a pé, vamos irmãos!”, A caminhada continua. Para os participantes na avaliação em Porteirinha, ela superou as expectativas. Já foram definidas as próximas – nordeste, depois duas na Amazônia, com povos indígenas e ribeirinhos e depois na Bolívia e Peru.
Cimi MS
Araguaina, 22 de janeiro de 2009
* Assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Mato Grosso do Sul
Crianças do Povo Anacé, Ceará

Crianças do Povo Anacé, Ceará

Egon Dionísio Heck *

Adital -

“Aí os brancos fazendeiros foram chegando e tomando as terras de todo mundo aqui. Fizeram isso de muitos jeitos. Alguns chegaram com os donos dos cartórios que pediam o documento de propriedade da terra. Diziam que era só pra verificar. Aí pediam para colocar o dedo encima dum papel. Dali uns dias já apareciam de novo com os capangas pra botar a família pra foram dizendo que tinham comprado aquela terra…e assim foi acontecendo o roubo das terras do nosso povo”.(Maria Celestina, comunidade quilombola de Canudos, Jaíba-MG – 17 de janeiro de 2010)

Depois de andar por mais de duas semanas pelo território quilombola de vale do Gorutuba, percorrendo a pé quase cem quilômetros, se tem a clara sensação de que pouco e pouco conhecem esse outro Brasil, das negras raízes, da escravidão secular. Na medida em que fomos cortando estradas e veredas da caatinga do norte de Minas Gerais, fomos partilhando saberes, histórias e sofrimentos desse mesmo Brasil, tão diferente, emergente em linha direta da história de escravidão e da busca de libertação na fuga para os distantes e inóspitos espaços, onde podiam reconstruir sua liberdade e suas vidas. Histórias de vida e luta contadas pelos anciões como seu Julião, em Taperinha. Ele completou 91 anos no dia 10 de janeiro. Pudemos partilhar com ele, os familiares e comunidade essa importante data.

Mateus, um aliado da causa quilombola assim narra a origem dos quilombolas do vale do Gorutuba “Os antepassados dessas famílias vieram para cá por volta de 1750. Eles eram fugitivos do trabalho nos canaviais da Bahia e da mineração da região de Diamantina. Aqui era uma região de muita malária. Os brancos e nem os índios conseguiam viver aqui. Mas os negros, como eram resistentes à malária, encontraram aqui um oásis, protegidos pela força dos mosquitos transmissores da malária. Aqui constituíram comunidades de quilombolas que puderam viver em paz até o início do século vinte. Por volta de 1920 chegou a essa região a construção da estrada de ferro. Com ela chegaram para cá várias companhias. Passaram desmatar e afastar o mosquito da malária. Assim que desmatavam já iam repartindo e se apossando das terras. Desta forma iniciou a invasão e tomada das terras dos quilombolas dessa região.

Continue lendo… 'O outro mesmo Brasil (1)'»

Bookmark and Share

Utilizamos uma versão modificada do tema Panorama, criado por Themocracy