“Somos sem-terra, sem-rio e sem-peixe; só nos restou a lona”. A voz das comunidades tradicionais no Relatório da UFES sobre o Rio Doce

Nos dois últimos meses de 2015, a agressão da Samarco (Vale-BHP) a diversos municípios de Minas e Espírito Santo chocou a todas as pessoas de bem.  Mortes de indivíduos e de animais, destruição de histórias de vida, contaminação, desterro. Caminhando águas abaixo até o mar, a lama de rejeitos matava o Rio Doce.

Em algumas (pouquíssimas) universidade, grupos de pesquisa foram coerentes com sua função social(1) e saíram a campo, elaborando relatórios sobre a tragédia criminosa(2). O Organon, da Universidade Federal do Espírito Santo, foi um deles. E teve um cuidado especial: ouvir e divulgar as vozes das vítima diretas desse crime socioambiental, como a que dá título a esta postagem. O texto abaixo é de Cristiana Losekann, professora da UFES e uma das responsáveis pelo Relatório Técnico que pode ser lido AQUI.  (Tania Pacheco).  

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O rompimento da barragem no município de Mariana, em Minas Gerais, seguido do alastramento da lama pelo rio Doce até a sua foz, afetou amplamente a vida das pessoas também no Espírito Santo. Embora a opinião pública, com toda a razão, esteja muito voltada para a qualidade da água, existe uma série de outros impactos causados pelo desastre que estão invisibilizados.

Durante os meses de novembro e dezembro percorremos as comunidades nos municípios de Baixo Guandu, Colatina e Linhares, para conhecer esses impactos que afetam física e emocionalmente as pessoas. A partir dessas expedições elaboramos um relatório dos impactos socioambientais no Espírito Santo (link).

Como será possível viver sem o rio? É isso que se perguntam os ribeirinhos. O rio era um elemento central para a vida dessas pessoas. Dele vinha a renda, o alimento, o lazer e sentidos imaginários das comunidades do entorno.

Nos municípios de Baixo Guandu, Colatina e Linhares os moradores viveram durante dias a expectativa da lama que estava por vir. No distrito de Regência, local em que o rio desagua no mar, era comum –  e ainda é –  chegar ao cais e se deparar com moradores sentados nos bancos e chorando pela morte do rio. Uma comerciante que mora a vida inteira em Regência nos conta: “O barulho do mar não é mais o mesmo. Antes fazia assim, vinha ‘pocando’ e chegava na beira e fazia “Pum!”. Fazia bem assim “Puumm!” e agora faz assim “chchchch pá!”. Vocês nem ouve mais”.

Difícil também está para quem tinha do surf sua alegria e seu sustento. Regência é conhecida como um destino turístico ecológico e pelas práticas de Surf com características únicas reconhecidas por esportistas do mundo inteiro. Uma vila pesqueira que abriga o berço de desova de tartarugas gigantes e tem o único ponto fixo para desova do Brasil.

Um olhar de tristeza é possível de se observar nas pessoas que estão sofrendo diretamente em seus modos de vida os impactos no rio, um olhar vago, sem perspectivas, tomado pela incerteza do que está por vir. As perguntas são muitas, pois há muito desencontro de informação ou a total falta desta. Esse aspecto gera também o medo que faz com que mesmo o peixe que está estocado, que foi pescado antes da lama chegar, não seja vendido. As pessoas estão com medo de comer peixe, e também verduras ou qualquer alimento produzido na região do rio Doce.

É comum ouvir relatos de pessoas que passam noites sem dormir, vivem em constante preocupação, visivelmente abaladas emocionalmente. A fala de uma pescadora durante uma audiência pública ocorrida em Colatina no dia 10/12/2015 revela o medo em relação ao amanhã, a desconfiança nas instituições e na empresa, e a perda da autonomia do pescador:

“E o depois? Porque por enquanto a mídia está aí… depois que acabar isso aí, daqui a três meses, cancela esse cartão, nós fica esquecido, acaba a piracema, começa o período do pescador ir para o rio e ele vai fazer o que da vida? Se ele não tem estudo… a maioria já tá na idade já quase de aposentar, vamos viver de quê? […] E depois? Quando abrir a pesca? Por que, todo ano, quando abre a pesca, o pescador vai pro rio com seus materiais e vai viver a vida dele.”

Parte dos moradores de Regência (ribeirinhos e pequenos comerciantes) foram buscar abrigo em uma ocupação do MST. Uma pescadora nos explicou a situação:

“O nosso emprego era o rio, sem o rio nós estamos desempregados. O que em Regência hoje pra nós tem valor mais? Acabou. A Samarco, ela tirou nosso valor, ela acabou com nós, ela matou nós. A nossa mãe que nos sustentava, que era o rio Doce, isso ela tirou de nós. E hoje o único lugar que achamos foi a rumo do MST. Tamo aqui aguardando o grito que a Samarco e a Vale vai fazer com nós ribeirinhos, pescadores, indígenas. Nós estamos aqui guardando esse grito. […] somos sem-terra, sem-rio e sem-peixe, só nos restou a lona”.

Os impactos observados, descritos no relatório, são amplos, abrangendo dimensões humanas, culturais e da interação entre sociedade e ambiente. Além disso, afetam diferentemente as pessoas por meio de diversas violações de direitos. Os impactos socioambientais não são igualmente distribuídos, pelo contrário, são desigualmente distribuídos tendo em vista as relações de poder que marcam a sociedade, pesando mais sobre aqueles que já estão em condições de pobreza e opressão cultural, étnica e de gênero.

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Rio Doce. Foto de Diego Kern Lopes
Rio Doce. Foto de Diego Kern Lopes

Notas de Combate:

(1) Para tentar evitar mal-entendidos que já se tornaram repetitivos: meu doutorado em História Social foi na Universidade Federal Fluminense, com bolsa da Capes. Considero-me devedora de milhões de habitantes deste País, que com seu trabalho ajudaram a permitir que eu frequentasse excelentes escolas e universidades públicas, com apoio financeiro inclusive. E busco ser coerente. (TP)

(2) Sugiro também a leitura de:

Antes fosse mais leve a carga: avaliação dos aspectos econômicos, políticos e sociais do desastre da Samarco/Vale/BHP em Mariana (MG) – Relatório Técnico do Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade – PoEMAS, da Universidade Federal de Juiz de Fora, com a participação de pesquisadores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.

E, para facilitar, repito o link para o Relatório do Organon:

Impactos socioambientais no Espírito Santo da ruptura da barragem de rejeitos da Samarco.

Boa leitura.

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