Do boicote à irrelevância: A trajetória de Temer na Assembleia Geral da ONU, por Leonardo Sakamoto

Blog do Sakamoto

De Nova York – Quando Temer subiu à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça (19), confesso que torci para que não chamasse a Rússia de União Soviética, o Paraguai de Portugal e a Noruega de Suécia, como já fez anteriormente.

Ou, pelo menos, não inflasse o número de refugiados que o Brasil recebeu – gafe realmente séria que cometeu em um discurso na ONU, no ano passado. Contrariando informação do próprio Ministério das Relações Exteriores, Temer disse que havíamos recebido 95 mil refugiados, quando, na verdade, foram 8,8 mil.

O então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, hoje e pelos próximos 9580 dias, membro do Supremo Tribunal Federal, achou que era uma boa ideia ignorar o conceito internacional do que é um refugiado e acrescentou à conta os vistos humanitários concedidos a haitianos.

Se a população caribenha fosse considerada refugiada no Brasil, haveria um sistema melhor para proteção e acolhimento. Ao contrário, é cada um por si e Deus por todos – literalmente, uma vez que a Missão Paz, tocada pela Igreja Católica, em São Paulo, tem sido mais competente do que o poder público federal em garantir solidariedade.

Além disso, por conta do impeachment, o discurso de Temer na Assembleia Geral foi boicotado, em 2016, por países com identificação com o PT de Dilma Rousseff – Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela. E também pela Costa Rica.

Neste ano, a impressão, confirmada com diplomatas com os quais conversei aqui, é que maior parte dos presentes não prestou muita atenção à participação de Temer. Imagino que um presidente com 5% de aprovação não é exatamente uma referência mundial ou regional em termos econômicos, políticos, sociais, culturais e, principalmente, éticos.

A expectativa era grande para ouvir o primeiro discurso de Donald Trump nas Nações Unidas. O chefe de Estado norte-americano fala em seguida ao brasileiro que, pela tradição, abre a Assembleia Geral. Trump, que é um crítico contumaz da organização, não perdeu a chance para transformar o púlpito em palanque, com suas bravatas, com um discurso tosco, contra a Coreia do Norte e contra o bom senso, gerando reações de outros chefes de Estado.

Mas nós, jornalistas brasileiros que somos obrigados a prestar atenção em Temer por ofício, temos que absorver, com atenção, um discurso morno, cheio de lugares comuns, imprecisões, mentiras e exageros.

Só para citar alguns: Falar em ”compromisso do Brasil com o desenvolvimento sustentável” com esse modelo de desenvolvimento que atua como um rolo compressor sobre os povos tradicionais, com ocupação desordenada e criminosa do solo e a exploração insustentável da água, é um tipo de piada sem graça.

Aliás, ao dizer houve redução de mais de 20% desmatamento na Amazônia, sendo que esses dados não foram confirmados nem pela fonte do estudo, é só mesmo para tentar retocar a imagem depois de uma série de ações que tiveram repercussão internacional negativa na área ambiental. Pela baixa repercussão nos veículos internacionais dessa fala, não deve ter conseguido seu intento.

Afirmar que ”elegemos a Agenda 2030 [para o Desenvolvimento Sustentável] como eixo de nossas atividades” é quase uma ofensa. Por exemplo, a meta 8.7 da agenda diz respeito à erradicação do trabalho escravo, do tráfico de seres humanos e do trabalho infantil. Considerando que chegou a faltar dinheiro para a gasolina dos carros da fiscalização do trabalho, imagine como o governo trata o que não é prioridade.

Outra coisa: quando os governantes brasileiros vão parar com esse autoengano de chamar a matriz hidrelétrica de ”energia limpa”? E o impacto ambiental, social e trabalhista das obras de grandes hidrelétricas na Amazônia? E as comunidades indígenas e ribeirinhas que são impactadas ou deslocadas? E o trabalho escravo nos canteiros de obras de hidrelétricas? E o tráfico de pessoas para exploração sexual a fim de servir esses canteiros? E a criação de novos vetores de desmatamento, o que acentua as mudanças climáticas e a ocupação desordenada do solo? E os assassinatos de posseiros e sindicalistas em conflitos rurais gerados por essa ocupação maluca? Tudo isso não entra na conta? Sobre grandes obras recentes de impacto negativo, como Belo Monte, é importante lembrar que Dilma tem mais responsabilidade do que Temer.

”Na América do Sul, já não há mais espaço para alternativas à democracia”, disse ele. Uma crítica à Venezuela. Mas, que se o rei soubesse que está nu, também seria uma autocrítica.

”Com reformas estruturais, estamos superando uma crise econômica sem precedentes.” Juro que eu ri. Alto. Pois o que eu ouvi foi ”Com o açoite na lomba dos trabalhadores mais pobres e o arrocho na xepa pé-rapada, estamos superando uma crise econômica sem precedentes e protegendo o patrimônio dos abastados.”

Mas não foi um mau discurso. Pelo menos, ele resolveu não improvisar e chamar o português António Guterres, secretário-geral da ONU, de Emmanuel Macron, presidente francês, de Vladimir Putin, presidente russo, ou de Lady Gaga, musa.

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