Água contaminada e doenças na área da mineração de urânio, na Bahia

Zoraide Vilasboas, Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania / Articulação Antinuclear Brasileira

A análise de oito amostras de água, coletadas na área de influência da mineração de urânio, nos municípios de Caetité, Livramento e Lagoa Real (Bahia) apresentou alta concentração de urânio e de outros elementos tóxicos, indicando um processo de contaminação, que exige monitoramento contínuo e urgentes providências, informou a antropóloga Cláudia d’Arede em debate sobre “Saúde e Mineração” ocorrido em Salvador, durante o Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de 16 a 18 deste mês.

Os riscos de contaminação ambiental e humana relacionados à exploração de urânio na Bahia são alvo de uma ampla pesquisa, viabilizada por um Convênio de Cooperação Técnica entre a UFBA e os Ministérios Público Federal e do Trabalho. Os pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho da Universidade estão avaliando como as atividades de mineração afetam a qualidade das águas subterrâneas. Foram selecionados 15 poços em diferentes comunidades do entorno da mina e quatro poços, distantes, usados para comparação. A análise da água foi feita no Instituto de Química da USP.

Em quatro das oito amostras de urânio (amostras de água em lugar de urânio) a concentração do minério superou o Valor Máximo Permitido (VMP) pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (15 ug/L), chegando a atingir 28,93 na localidade de Gameleira/Buracão. As outras quatro têm índice acima da metade do valor da VMP.

Além do urânio, foi analisada a presença de chumbo, alumínio, manganês, arsênico, selênio, cádmio e cromo total. Seis poços chamam a atenção pelo índice de manganês acima do VMP. Em um deles a concentração é 11 vezes maior que a VMP, o que exige uma investigação mais precisa para saber se é natural ou causada pela mineração de urânio. Também há presença de alumínio acima do VMP em seis poços. Um deles com índice 3,6 vezes maior. O resultado obtido para alumínio e manganês exige investigação sobre a origem desses contaminantes.

Cresce a mortalidade por câncer

O epidemiologista Marco Rego, responsável pelo estudo do impacto da mineração de urânio sobre a saúde das populações e trabalhadores da Indústria Nuclear Brasileira (INB), proprietária da mina de urânio, revelou que um estudo preliminar apontou aumento da mortalidade por leucemia, câncer de tireoide e do sistema gastrointestinal em Caetité, Lagoa Real e Livramento, em comparação com os índices de mortalidade da região Sudoeste e do Estado da Bahia.

Segundo o professor, a mortalidade é uma visão parcial da doença, sendo preciso estudar o adoecimento na sua totalidade. Como no interior do Brasil não há registro de câncer de base populacional, a pesquisa está montando um banco de dados com todas as informações possíveis incluindo mortalidade, internação hospitalar e tratamento fora do domicílio. Um inquérito populacional em curso avaliará o adoecimento por câncer, por doença renal, ocorrência de abortamentos espontâneos e malformações congênitas das comunidades em torno da mineração. Este levantamento dará um quadro da diferença da incidência nesse local, permitindo a comparação com os dados totais dos demais municípios.

Os pesquisadores da UFBA participaram do programa de atividades sobre os efeitos perversos da mineração no Brasil, que incluiu a mostra itinerante “Do Rio Que Era Doce às Águas do Semiárido: Contradições do Modelo Mineral”. Fotos, infográficos e maquetes retratam o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), maior tragédia socioambiental da história do Brasil. Destaque para a tela de 14X3 metros (foto acima/Olívia Almeida), da artista plástica argentina Leila Monségur, pintada com a lama tóxica da mineradora Samarco/Vale/BHP. A exposição do Comitê Nacional dos Territórios Frente à Mineração ficou na Biblioteca Central da UFBA de 17 a 20 deste mês. A catástrofe partiu do distrito de Bento Rodrigues, que contaminou o meio ambiente, da Bacia do Rio Doce ao Oceano Atlântico, matou 19 pessoas e deixou centenas desamparadas. Este drama humano completará dois anos, em 5 de novembro próximo, sem que o sofrimento e os direitos das vítimas tenham sido reconhecidos pelo Estado brasileiro e pela Justiça.

A exposição, que passou por São Paulo (SP), Belém (PA), Açailândia e São Luís (MA) foi promovida na Bahia pela Comissão Pastoral da Terra, Movimento pela Soberania Popular na Mineração, Grupo de Pesquisa Geografar da UFBA, Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania e outras entidades. Foi realizada graças ao apoio da Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE) que, este ano, elegeu a mineração como tema (Mineração aqui não!) da sua campanha “Primavera para a Vida.

Destacamos o interesse desta iniciativa para as populações que padecem no semiárido baiano pela violação de direitos humanos fundamentais, disputas pelo uso da terra e da água, destruição da natureza, adoecimento e mortes de trabalhadores e comunitários causadas por mineradoras. Por isto mesmo, foi muito oportuno que esta exposição tenha começado na Bahia, por Caetité. Ali a presença de ametista, mármore, manganês, ferro, etc. fazem do rico território da região um foco de interesse dos exploradores dos nossos bens comuns e palco de crimes ambientais e conflitos sociais.

Entre os debates travados durante a exposição no Campus VI da Universidade do Estado da Bahia, em Caetité (27 a 29 de setembro), destacamos a questão dos prejuízos sócios ambientais especialmente do lixo atômico gerado pela mineração de urânio, um dos mais perniciosos impactos do Programa Nuclear Brasileiro. O assunto centralizou a atenção pelo impacto causado na região por inédita reportagem nacional de TV sobre os graves problemas deixados pelo lixo da primeira mineração de urânio do Brasil, numa área correspondente a 100 Maracanãs, em Poços de Caldas (MG).

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