Sobre o racismo de William Waack e os seus risinhos irônicos

Não foi um destempero do Waack. Foi a exposição do raio-X do que pensa o jornalismo da Globo. Ele pode ser afastado, demitido. Mas a Globo continuará sendo a Globo

Por Dennis de Oliveira, na Fórum

Bombou nas redes sociais o comentário racista feito pelo jornalista William Waack (veja AQUI), âncora do Jornal da Globo, durante o intervalo de uma transmissão. Diante da repercussão negativa, a emissora agiu rápido: soltou uma nota e afastou temporariamente o jornalista.

O que chama a atenção é a ação corporativista dos meios jornalísticos de atenuar a atitude do ancora do JG. Na maioria, prevalece “o suposto ato racista de Waack”.

Portal UOL:  Após suposta fala racista, William Waack é afastado e não apresenta “JG”

JB/Portal Terra: Jornalista William Waack é acusado por suposto ato de racismo nas redes sociais

Portal G1, da Globo: William Waack é afastado do Jornal da Globo – Jornalista é acusado de ter feito comentários racistas, fora do ar, durante cobertura das eleições americanas. Waack diz não se lembrar do episódio e pede desculpas.

Estado de S. Paulo: William Waack é afastado do ‘Jornal da Globo’ – Emissora diz que apresentador ficará fora de suas funções até o esclarecimento de vídeo com comentários, ‘ao que tudo indica, de cunho racista’

As matérias todas são muito cuidadosas ao informar que não dá para se ouvir nitidamente o que o jornalista da Globo comenta, daí o uso do “suposto”. E o centro das matérias foi a atitude da emissora de afastá-lo da apresentação.

Os cuidados que cercam as matérias não decorrem apenas do corporativismo da mídia hegemônica. Mas também do incômodo quando as suas vísceras são expostas e se desmonta toda a tese de que a mídia hegemônica (ou “profissional” como costumam dizer alguns) é a instituição que tem mais credibilidade e legítima para pautar as questões sociais.  Expor as vísceras desta forma é mostrar não só que ela tem lado, mas está do lado mais nefasto: o dos privilegiados pelo racismo, classismo, sexismo – ainda que pontualmente abra pequenos espaços para que celebridades negras, mulheres, populares tenham algum espaço.

Isto porque a atitude racista de Waack é coberta pela arrogância. A mesma que ele demonstra nos costumeiros sorrisos irônicos em que abre o Jornal da Globo criticando alguma atitude de políticos de esquerda (era muito comum isto durante os governos Lula e Dilma). Sorriso irônico que rapidamente virava um semblante sério nas conversas com o economista Carlos Sardenberg com seus gráficos sem escalas e com imagens manipuladas, imperceptíveis para os telespectadores por serem apresentados em diagonal.

O comportamento de Waack vai ser apresentado, mais uma vez, como um deslize de comportamento. E assim muitos vão condenar os que acusaram o jornalista de terem exagerado na dose, afinal foi apenas um “escorregão”.

#SQN – Só que não! Waack falou isto porque pensa assim e se sentiu à vontade para expressar isto. Porque o comportamento racista sempre está à vontade no campo daqueles que defenderam o golpe. Provavelmente se este comentário dele não tivesse sido gravado, ficaria tudo por isso mesmo. Ao contrário do que diz a nota da Globo, ela admite sim o racismo – só não o admite se ele for a público. Assim como os demais veículos que noticiaram cheio de dedos: “suposto” ato de racismo.

Afinal, é a Globo do Sexo e as Negas. É a Globo do Ali Kamel que diz que não somos racistas.

É a Globo que, como bom monopólio da indústria cultural, enxerga em demandas do movimento negro oportunidades de negócios. Como o projeto A cor da cultura, da Fundação Roberto Marinho, que durante muito tempo se apresentou como material de referência para a educação das relações étnicorraciais, inclusive com a chancela oficial dos governos petistas e participação de alguns ativistas negras (os) que ainda não romperam com o encantamento com o que vem da Vênus Platinada. E, por isto, vibram com aparições de Heraldo Pereira, Maju Coutinho, Lázaro Ramos, Thaís Araujo como se fossem a conquista da Globo para a luta antirracista.

Mas a Globo é William Waack. É Ali Kamel.

Não foi um destempero do Waack. Foi a exposição do raio-X do que pensa o jornalismo da Globo. Ele pode ser afastado, demitido. Mas a Globo continuará sendo a Globo.

 

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