Iauaretê: passado, presente e novos dilemas

Chamado de “cidade do índio”, o povoado multiétnico de Iauaretê ganha livro com o resultado de pesquisas colaborativas feitas por jovens indígenas em parceria com instituições e antropólogos.

Por Equipe Programa Rio Negro, no ISA

Com quase três mil habitantes, Iauaretê é hoje o maior núcleo populacional da Terra Indígena Alto Rio Negro, que fica no médio curso do Rio Uaupés, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), na zona de fronteira entre Brasil e Colômbia. Sua importância histórica e estratégica na região conhecida popularmente como “cabeça do cachorro”, é ainda mais valorizada, agora, pelo lançamento do livro Povoado Indígena de Iauaretê – perfil socioeconômico e atividade pesqueira.

O e-book pode ser baixado gratuitamente (clique aqui). Já a obra impressa está sendo distribuída nas escolas indígenas da região, assim como também pode ser adquirida por estudantes, pesquisadores e professores com os realizadores do projeto em São Gabriel da Cachoeira (AM): ISA (Instituto Socioambiental), Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), Coidi (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê) e a Escola Estadual Indígena São Miguel, de Iauaretê.

Pesquisas colaborativas e homenagem

O lançamento da publicação na Escola São Miguel foi um evento cercado de muita emoção e alegria. Isso porque o livro concretiza os esforços de pesquisa empreendidos a partir de 2009 com a criação do Cepi-Centro de Pesquisadores Indígenas de Iauaretê. Idealizado para ser um centro de formação de jovens pesquisadores indígenas e desenvolver estudos colaborativos do interesse dos próprios moradores, lideranças e professores, o Cepi teve êxito na conclusão dessa publicação única sobre Iauaretê.

O livro traz também uma homenagem ao antropólogo do ISA, André Martini, e à Erivaldo Almeida Cruz, então diretor de referência da Foirn para a região de Iauaretê, que morreram de forma abrupta e precoce e não chegaram a ver o resultado de seus esforços concluídos. As pesquisas reunidas na publicação são de ampla importância para a população local, pesquisadores, estudiosos e interessados na vida dos povos indígenas do Rio Negro e seu território.

“Concluir esse livro foi um processo demorado e difícil, pois com o falecimento abrupto do André em 2011 e o fechamento do Cepi no ano seguinte, muita coisa acabou se perdendo ou ficando dispersa pelas gavetas, computadores e HDs do centro de pesquisa. Foi preciso reunir novamente as pessoas, fazer buscas por arquivos, remontar dados brutos, refazer sistematizações e análises, completar e aprofundar diversas informações das pesquisas para finalizar o trabalho”, conta a antropóloga do ISA, Aline Scolfaro, organizadora da publicação.

Além de dados gerais e detalhados sobre demografia, composição étnica, escolaridade, economia, consumo, situação da pesca e mudanças ambientais, o livro traz também questões e reflexões sobre a importância dos conhecimentos tradicionais e dos acordos comunitários para o manejo adequado do território e dos recursos.

Lugares sagrados e planos de gestão

A publicação do livro chega em boa hora, como enfatiza a diretora da Foirn, Almerinda Ramos, do povo Tariano, pois traz uma série de dados importantes para a preservação dos sítios sagrados dos povos indígenas da região. Em especial no momento em que se discute a revalidação do título da Cachoeira da Onça, em Iauaretê, como Patrimônio Cultural do Brasil e Lugar Sagrado dos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri – título reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2006.

Do mesmo modo, espera-se que as informações e questões que o livro traz possam contribuir com o atual processo de elaboração e futura implementação dos Planos de Gestão Territoriais e Ambientais (PGTAs) dos territórios indígenas do Rio Negro. “As reflexões que o livro traz poderão contribuir para que as comunidades indígenas da área de Iauaretê construam seus Planos de Gestão Ambiental e Territorial e discutam seriamente seus planos de vida”, comenta Aline Scolfaro.

A publicação teve o apoio da Cooperação Austríaca para o Desenvolvimento; Aliança pelo Clima; Fundação Rainforest da Noruega; Horizont3000; Fundação Moore e PDPI (Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas).

A origem da “cidade do índio”

No passado, Iauaretê era um povoamento pequeno do povo Tariano, que vivia em casas comunais (malocas) localizadas nas duas margens do rio. Foi a partir da década de 1930 que essa realidade começou a mudar, com a chegada dos padres salesianos e a implantação de uma sede de missão e de um internato na localidade.

O povoado começou, então, a crescer e a ocupar uma posição cada vez mais central na geopolítica regional, atraindo novos moradores e novos atores sociais. De lá para cá muitas transformações ocorreram, alterando significativamente a paisagem local e o modo de vida das famílias. Sabe-se que o marco desse crescimento foi a década de 1980, período em que o internato salesiano foi desativado, dando lugar à atual Escola Estadual São Miguel. Com o intuito de manter os filhos na escola, e não podendo mais contar com a estrutura do internato, muitas famílias que viviam às margens dos rios Uaupés e Papuri começaram a abandonar suas comunidades para viver em Iauaretê.

Assim, o que era um sítio de ocupação tradicional do povo Tariano, com uma população relativamente pequena, rapidamente se transformou num povoado populoso e multiétnico, e de feições cada vez mais urbanas. Os moradores mais antigos dizem que esse rápido crescimento e expansão trouxe consigo alguns conflitos e diversas pressões relacionadas à ocupação e manejo do território.

Entre os desafios atuais, podemos ressaltar: as áreas para abrir roçados começaram a ficar escassas; os peixes, que já eram poucos por conta de fatores ecológicos e geográficos, começaram a diminuir ainda mais; os locais importantes para as pescarias e outros lugares com alto valor cultural passaram a ser manejados de forma incorreta pelos recentes moradores e também pelas gerações já nascidas nesse novo contexto.

Fragmentos de narrativas dos moradores de Iauaretê sobre os peixes

“Os peixes não acham mais o tempo certo para procriar”

“Todas as épocas estão trocando de tempo”

“O ritual dos peixes está mudando de lugar”

“Acho que o chefe dos peixes está subindo para as cabeceiras dos rios porque nós não respeitamos suas moradas”

“Estamos fazendo a mudança para outro tempo”

“É preciso benzer para que pare com isso”

Imagem: Rua principal de Iauaretê em dia de grande movimento, no bairro Cruzeiro|Pedro Martinelli

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