“Prenderam o assassino, mas não os mandantes do crime”, dizem lideranças Xokleng

Comunidade está revoltada porque teve que fazer um protesto para prenderem o assassino dentro da casa dele, onde estava parado há vários dias, diz presidente dos caciques Tucun Gakran. Para lideranças, Lideranças Xokleng, prisão do homem que matou o educador Marcondes Namblá a pauladas não deve encerrar as investigações. Versão da polícia para o crime como assassinato comum por “motivo fútil” revolta o povo indígena.

Por Raquel Wandelli, no Jornalistas Livres

As aldeias da reserva de José Boiteux estão recebendo a notícia da prisão do assassino do juiz da Terra Indígena Xokleng Laklãnõ, Marcondes Namblá, morto a pauladas na virada do Ano Novo, no Litoral Norte de Santa Catarina, num misto de dor, alívio e indignação. Passados 12 dias do assassinato, a Polícia Civil prendeu hoje (12/1), às 8h30min, Gilmar César de Lima, identificado pelas câmeras de vigilância como autor do espancamento que levou à morte cerebral Marcondes Namblá, 38 anos, pai de cinco filhos, educador da última reserva Xokleng do Brasil e a única no Planeta. Gilmar, 23 anos foi detido e algemado na casa de familiares em Gaspar, no Vale do Itajái, de onde era natural, oito dias após ter sido expedido o seu mandado de prisão (4/1), o segundo contra ele que já tinha cometido um crime anterior de tentativa de homicídio qualificado.

Reunidos em torno do presidente da Terra Indígena Tucun Gakran, os caciques das nove aldeias e suas lideranças não aceitam que as investigações parem por aí e afirmam que não basta “prender o executor do crime sem chegar aos mandantes”. Autor de vários crimes envolvendo além de homicídio, tráfico de drogas, roubo, receptação e espancamento de mulheres, Gilmar confessou o crime, conforme o delegado-geral adjunto, Marcos Ghizoni, em relato oficial da Polícia Civil em Santa Catarina. Ele afirma que o indiciado “admitiu o erro” e confirmou o que havia afirmado para uma testemunha como motivo do espancamento: que o indígena havia mexido com o seu cachorro. Assim, para instituição policial, fica valendo a versão de crime comum por “motivo fútil”, como é conhecido na linguagem técnica, que ofende e revolta a comunidade indígena. O caso estava sendo investigado pelo delegado da Polícia Civil de Piçarras, Douglas Teixeira Barroco, que já havia recusado de antemão a relação do crime com motivações étnicas ou racistas.

Na foto, ritual por justiça realizado no local do crime. Foto: Raquel Wandelli
Na foto, ritual por justiça realizado no local do crime. Foto: Raquel Wandelli

SE O VEREDITO DA PRISÃO DO CRIMINOSO CONFIRMA A VERSÃO DO DELEGADO E MOSTRA O SUCESSO DA POLÍCIA NA OPERAÇÃO, NA VISÃO DAS LIDERANÇAS INDÍGENAS ELA É UMA AFRONTA A SUA INTELIGÊNCIA E AO SEU DIREITO DE TER ESSA MORTE BÁRBARA INVESTIGADA “COM SERIEDADE E PROFUNDIDADE”, COMO AFIRMA O PRESIDENTE TUCUN GAKRAN. “NÓS NÃO VAMOS PARAR ENQUANTO NÃO FOI ESCLARECIDO O REAL MOTIVO DO CRIME”. SEGUNDO O LÍDER DE TODOS OS CACIQUES E DOS CERCA DE 2.500 HABITANTES DA T.I., A COMUNIDADE RECEBEU A NOTÍCIA DA PRISÃO “COM MUITA INDIGNAÇÃO PORQUE FALA QUE FOI PRECISO UM PROTESTO PRA POLÍCIA IR LÁ PEGAR ELE E FALA QUE A POLÍCIA SABIA AONDE ELE MORA POIS ELE TEM RESIDÊNCIA FIXA”.

O procurador Darlan havia se comprometido com as lideranças a comparecer nas aldeias e às delegacias de Penha e de Piçarras nesta quinta e sexta-feira (11 e 12/1), mas devido ao temporal e à situação das estradas em Santa Catarina, adiou a visita de investigação para a próxima semana. Ele explicou aos representantes que prefere primeiro apurar as denúncias levantadas pela comunidade antes de envolver a Polícia Federal no inquérito. Em entrevista aos Jornalistas Livres, o procurador afirmou que não se pode descartar o caráter racista do assassinato, tendo em vista a sequência de outros crimes também marcados pela brutalidade ocorridos recentemente no Estado. Antes de concluir o trabalho, contudo, ele disse que prefere manter as investigações em sigilo e não dar um parecer.

Entre os indícios que ele se comprometeu a investigar está a de que Marcondes Namblá foi vítima de omissão de socorro pela própria polícia, cuja viatura passou pelo local do crime, mas não recolheu a vítima por supor que se tratava de um “índio bêbado caído na calçada”, conforme declaração do próprio delegado à imprensa local. Também se comprometeu a apurar a omissão cúmplice das testemunhas, que não fizeram nada para impedir o assassino de esmigalhar o cérebro do indígena. Por último, há a denúncia de negligência do hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, para onde Namblá foi transferido depois de ter sido diagnosticado Traumatismo Craniano Encefálico, e teria se recusado a fazer a cirurgia antes que a família chegasse com os documentos deixados no hospital de Penha.

As seis horas passadas entre a primeira internação, às 8 horas, e a cirurgia no Hospital de Itajaí, depois das 14 horas, seriam, para a comunidade, uma prova da negligência com a saúde do indígena, conforme Brasílio Priprá. Segundo ele, a intenção de bater para matar ficou clara para todas as lideranças, após assistirem várias vezes as filmagens do crime pela câmera de vigilância, mostrando que o assassino retornou quando o indígena mostrou sinais de vida, o que reforça a hipótese de se tratar de um assassinato por aluguel. Enquanto a polícia não chegar às implicações que estão por trás desse crime, ocorrerão outras atrocidades, avisou o Nanblá Gakran, que é professor da UFSC e estudante de pós-doutorado.

Veja o vídeo fornecido pela Polícia Civil:

RITUAIS VÃO CONTINUAR AJUDANDO A REVELAR A VERDADE, ACREDITAM OS XOKLENG

Com as fortes chuvas que castigaram as aldeias até ontem e a dificuldade de acesso à internet, os indígenas estão recebendo aos poucos a notícia da prisão. Alguns preferem ficar em silêncio para sentir o significado desse acontecimento, como a professora e estudante de Antropologia Social da UFSC, Ana Roberta Patté, membro de outra família tradicional Xokleng, que sente um misto de alegria e dor. Mas ela, as lideranças e a comunidade como um todo, acreditam que a verdade começará a aparecer por força dos rituais e da espiritualidade do seu povo. (AQUI)

Ao mesmo tempo que lutam para que as autoridades não parem as investigações, dando o caso resolvido com a prisão do executor do crime, confiam que a justiça será feita pela proteção ancestral da sua cultura. “A verdade vai aparecer”, diz , Nanblá Gakran, considerado a maior autoridade no país e no mundo da pesquisa da língua e da cultura Xokleng, primo irmão de Marcondes Namblá. “Com certeza a foça espiritual Xokleng está agindo”, opina sua nora Isabel Prestes Gakran Mundukurun, estudante de Fonoaudiologia na UFSC e dirigente da Associação dos Estudantes Indígenas da UFSC, que reúne nos seus laços de família três etnias: Xokleng, Mundurukun e Parintintin. Esse sentimento é compartilhado também pelo jovem Cristhian Roberto Priprá e seu pai, Brasílio Priprá. “Muita suspeita ainda precisa ser investigada, muita coisa precisa ser melhor explicada, mas nossa força espiritual vai ajudar a clarear o que houve para nosso povo, com certeza”.

Sob o fundo de instrumentos sagrados e ritos fúnebres tradicionais, na quarta-feira (10/11), mais de 200 indígenas, vindos das aldeias em José Boiteux e de Florianópolis, fizeram um protesto no local do crime, na avenida Eugênio Krause, em Penha, para exigir justiça e punição dos culpados. Ao mesmo tempo, os líderes espirituais realizaram uma cerimônia para que o espírito do educador regressasse à aldeia e continuasse a luta por direitos com seu povo. Num ritual triste e belo, eles fincaram no concreto da calçada, no exato ponto onde ele foi espancado, a lança com a qual Namblá ensinava aos seus alunos da Escola Indígena Laklãnõ como os antepassados guerreiros faziam nas matas.

Morte bárbara do educador Xokleng cobre a aldeia de tristeza e tira os habitantes mais velhos da aldeia para protestar no local do crime. Foto: Raquel Wandelli

Na quarta-feira de forte tormenta, quando as estradas de Santa Catarina se abriam em crateras, e a Defesa Civil desaconselhava que se saísse de casa, três ônibus com habitantes vindos das nove aldeias que compõem a Terra Indígena e outro ônibus lotado do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena, de Florianópolis, com representantes de várias etnias, conseguiram chegar ao chamado “Valeu Europeu” para a cerimônia-protesto. Durante a cerimônia, o professor indígena Oziel Xokleng, observou que as imagens da câmera ao lado direito de quem está de frente para a loja de construção, na calçada onde ocorreu o espancamento, não foram examinadas, somente as imagens da câmera da direita. “Por que estão ocultando essas imagens”, perguntou?

Cantando, orando e pedindo justiça, as mulheres e líderes espirituais abençoaram o local onde foi derramado o sangue Xokleng. “Agora aqui é um local sagrado, afirmou sua prima, Culung Tié, 56 anos, tia de Namblá, sem revelar o significado da lança enterrada, um segredo que, segundo ela, só ao seu povo pertence. “Nós temos o direito, pela convenção 169 dos povos indígenas, de estar aqui embaixo dessa chuva exigindo justiça para o nosso grande líder e adorado educador”, disse a ex-presidente do Conselho Nacional das Mulheres Indígenas, com os seios desnudos e os braços abertos para a tormenta que caía dos céus.

QUEM MORREU FOI O ARQUIVO VIVO DA CULTURA XOKLENG

Doutor em linguística pela UNB e mestre pela Unicamp, Nanblá Gakran o estudioso realizava com o primo um importante projeto de registro da língua Lklãnõ, que foi ágrafa até o final dos anos 90, antes de ele fazer a sistematização do fonético para o escrito. Namblá, que havia se inscrito para o curso de mestrado em Antropologia da UFSC, era o grande entusiasta e parceiro nessa empreitada. Na verdade, o índio morto a pauladas e abandonado à calçada fria da madrugada do Ano Novo era o registro vivo da língua perdida para o futuro, a ligação entre o conhecimento e a vida: “Enquanto eu realizava as pesquisas científicas, ele encontrava estratégias didáticas para repassar esses conhecimentos aos demais educadores e por sua vez aos alunos”, lamenta Gakran, que promete a si mesmo dar continuidade ao projeto, mesmo que de forma mais lenta ou por caminhos mais tortuosos. E resume a importância do indígena em uma frase: “Ele era a grande ponte entre os estudos acadêmicos, a sala de aula e as aldeias”.

Como Marcondes Namblá, que além de juiz era professor, pesquisador, músico e poeta, a nação Xokleng, sobrevivente do extermínio e da fúria dos bugreiros, que os caçavam e os degolavam na segunda metade do século XIX e início do século XX nos três estados do Sul, formada por grandes sábios, xamãs, jovens inteligentes e politizados, pesquisadores brilhantes e líderes nacionalmente destacados, nem de longe corresponde ao estereótipo do indígena inculto, burro e manipulável da cultura branca. Quem morreu na calçada do Balneário de Penha, abatido como um animal, não foi um indigente, não foi um “índio bêbado” – aliás, a família espera sair o exame pericial para confirmar que Marcondes não ingerira álcool, conforme apontaram recentes testemunhas. Foi o arquivo vivo da cultura e da língua sobrevivente da última reserva Xokleng do Brasil.

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Veja abaixo duas outras reportagens de Raquel Wandelli sobre o assassinato de Marcondes Namblá:

XOKLENGS CONJUGAM DOR E LUTA EM CERIMÔNIA ESPIRITUAL

“Este lugar é conhecido como Vale Europeu, e por que não Vale do Povo Indígena?”

Em protesto e ritual fúnebre realizados agora no município de Penha, Litoral Norte de Santa Catarina, indígenas dão uma lição de tolerância em contraposição à crueldade da sociedade branca que, na virada do Ano Novo, assassinou a pauladas o juiz da Terra Indígena Xokleng Laklãnõ, Marcondes Namblá. Com a forte presença de mulheres, parentes e crianças vestidos e pintados conforme sua tradição que vieram das aldeias de José Boiteux, percorrendo cerca de 120 quilômetros, todos triste e chorosos, o ato é um misto de dor e grito de resistência.

Sob chuva torrencial, lideranças indígenas se alternam em cantos, danças, rituais e discursos, oferecendo ao país uma consciência dolorosa da luta e do sofrimento desses povos brasileiros. “Somos vítimas da violência e da cobiça pelas terras que já nos pertenciam quando os colonizadores europeus chegaram aqui”, diz a índia Cunung Teié, 56 anos. Integrante dos movimentos negro e quilombola, entidades apoiadoras e professores de escolas indígenas das etnias Kaingang, Guarani e Xokleng, e de outras etnias, como Sataré Mawés e Parintintin, também manifestaram seu apoio a esse povo e a sua revolta contra a atrocidade do crime. Um morador de Penha, professor da rede pública, toma a palavra ao microfone para pedir desculpas ao povo Xokleng pela maldadade dos homens brancos.

Além dos discursos pedindo justiça, investigação profunda do crime e punição do principal acusado, Gilmar César de Lima, que continua foragido, a cerimônia tem o propósito de orar para que a alma de Namblá retorne a sua aldeia e siga em paz, explica Diva Priprá, companheira de Marcondes na Escola Indígena Laklãnõ. Rituais indígenas católicos, evangélicos e luteranos convivem aqui no mesmo espaço, numa mostra do sincretismo religioso dessas gentes.

O próprio líder assassinado, que era missionário evangélico e ao mesmo tempo um grande incentivador do culto às práticas espirituais Xokleng, mostrou em vida essa “capacidade de conviver com diversas culturas sem nunca deixar de ser índio”, como afirma Nanblá Gakran, primo de Marcondes, seu parceiro nas pesquisas sobre a língua do povo da Barragem de Ibirama.

O local, onde foi derramado o sangue sagrado Xokleng, acaba de ser abençoado pelos líderes espirituais indígenas. Para celebrar o marco de dez dias da morte do grande e jovem líder, os pajés enterraram a lança utilizada por Marcondes Namblá no ponto em que ele foi espancado com um porrete de madeira. Gakran anunciou que vai lutar pela proposta de substituir a referência à região como Vale Europeu para Terra Indígena Xokleng.

Por Raquel Wandelli /Jornalistas Livres – do município de Penha

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DA DELICADEZA ÓBVIA MASSACRADA…

Cenas de um país onde um índio é assassinado a pauladas no alvorecer do primeiro dia do ano…

Um país onde o espancamento de rara sobrevivência do último povo de uma etnia exterminada é assistido por testemunhas que não fazem nada para impedir a violência…

Onde o corpo contorcido do arquivo vivo de uma língua rara não é recolhido pela polícia porque parece “um índio bêbado caído na calçada”…

Onde um indígena com traumatismo craniano grave leva dez horas para ser operado porque o hospital para onde foi levado precisa dos seus documentos antes de interná-lo…

Um país onde a voz de um povo de guerreiros sobreviventes e as suas hipóteses para o extermínio de seu líder não valem nada para a grande mídia, a quem basta reproduzir a narrativa de um delegado de polícia que a desautoriza a falar em racismo…

…e essa mídia transforma esse delegado em herói e fonte única, após identificar o pistoleiro pelas câmeras de vigilância e deixá-lo solto por três dias, até foragir com dois mandados de prisão nas costas…

Um povo feito só de artistas, pesquisadores, médicos, cientistas, linguistas, xamãs, curandeiros, políticos, sociólogos, educadores brilhantes, mulheres guerreiras, sábias, gentis e incrivelmente belas…

Registros de um protesto em forma de cerimônia fúnebre que só um povo para o qual politica e espiritualidade integram a mesma cosmogonia de visão de mundo é capaz de fazer acontecer…

Penha, no “Vale Europeu”, será para sempre o endereço em que Marcondes Namblá, líder indígena Xokleng Laklãnõ, o primeiro habitante desta terra, cadáver encomendando por muitas mãos, foi assassinado antes dos primeiros raios do amanhecer do Ano Novo…

A calçada de avenida Eugênio Krause, terra de sangue Xokleng derramado, é agora um local sagrado. Ninguém haverá de dizer que esse pedaço de cimento, onde tombou, abatido como um animal, o corpo do grande educador, não é terra indígena!

Por Raquel Wandelli / Jornalistas Livres

Ex-presidente da Associação Nacional das Mulheres Indígenas, Culung Tié (Suzana), ao lado do filho: “Nós queremos justiça, justiça e justiça”. Foto: Raquel Wandelli

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