Agrotóxico, o perigo invisível: o veneno e o câncer

Médico diz que doença é apenas uma das consequências possíveis para os lavradores que aplicam agrotóxicos sem equipamentos de segurança

Marcelo Magalhães, Rogério Guimarães, Laura Ferla e Gustavo Costa, da Record TV

Quando os cabelos de Nelina Walget começaram a cair, 15 dias depois da primeira sessão de quimioterapia, ela não se deixou abalar. O que mexe de verdade com os sentimentos dessa capixaba de 51 anos é o medo que o câncer provoca nos filhos dela.

“Eu não falava mais com meus filhos. Eles perguntavam, eu falava: ‘não, tá bem. Eu vou conseguir.’ Daí, escondia dentro do quarto e chorava”, revela a lavradora.

Nelina trabalha na roça desde os sete anos de idade. Sempre usou a bomba de veneno para pulverizar as plantações de repolho.

“Tinha vez de eu sair às seis horas da manhã pra roça e voltava dez da noite. Subia o morro pra bater a bomba de veneno. Depois descia de novo, enchia e subia de novo.”

Depois de uma vida inteira dedicada às lavouras, foi diagnosticada com um tumor no seio. Foram seis meses de quimioterapia e uma cirurgia para controlar a doença.

“Pra dizer a verdade, eu tô viva. Mas só pela metade da pessoa que eu era”, desabafa.

Nelina não é a única da família a enfrentar o câncer. A irmã e uma prima também tiveram a doença depois de trabalhar nas plantações.

“A gente tem medo porque a família toda, muitas pessoas aqui que a gente nunca imaginou tiveram câncer e já morreram. Então, é uma coisa que tá vindo”, diz a filha de Nelina, Tatiana.

O município de Santa Maria de Jetibá-ES, onde elas vivem, é recordista nos casos de câncer na região. Não por coincidência, a zona rural é tomada por propriedades de pequeno porte, onde agrotóxicos são aplicados sem proteção e em quantidades acima do recomendado.

“Santa Maria de Jetibá é uma vila de contaminados,” afirma João Paulo Auler, superintendente do albergue Martim Lutero, que hospeda gratuitamente pacientes com câncer em Vitória.

Como a cidade é pequena, os pacientes precisam viajar 85 quilômetros até a capital do Estado em busca de tratamento.

“São pessoas já de uma certa idade, 40, 50 anos, que usam o produto indiscriminadamente porque têm baixo índice de instrução. Trabalham na agricultura sem proteção nenhuma”, conta o oncologista Nivaldo Kiister.

Segundo o médico, o câncer é apenas uma das consequências possíveis para os lavradores que aplicam agrotóxicos sem equipamentos de segurança.

“Pessoas têm muita depressão, com índices de suicídio alto. Nascem bebês com malformação. Vários componentes agrotóxicos causam infertilidade, queda da imunidade. E o câncer vem nesse rastro junto”, diz.

Evandro Discher vem de uma família de lavradores. Tem vontade de largar a vida na roça ao ver o pai doente de câncer.

“Ele era forte, bem mais forte que eu. Agora, ele é magrinho. Ele tinha 76 kg. Agora, tem 54 kg. Eu tenho medo de ficar doente assim também”, diz o rapaz de 22 anos.

O pai, Everaldo Discher, tem apenas 45 anos. O câncer na língua faz com que ele pareça ser bem mais velho.

“Começou com uma dor na boca. Eu pensei que era o dente. Depois, a língua ficou toda inflamada”, conta o lavrador.

O maior sonho de Everaldo é voltar ao campo. Mas o médico proibiu qualquer contato com o veneno. Por isso, enquanto a mulher e o filho trabalham na lavoura de couve-flor, ele só observa da janela de casa.

“Eu queria trabalhar, mas eu não consigo. Não tenho força pra trabalhar mais.”

A vontade do filho, Evandro, é outra: se afastar de vez das plantações. Mas, para ele e tantos outros moradores da zona rural, esse desejo é inalcançável.

“Todo mundo assim que nasce na roça, vive na roça até morrer de novo,” afirma o jovem, resignado.

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