O obscuro desejo de ser fascista

Por Jorge Branco*, no blog do Luíz Müller

Decepcionado porque Maria Schneider não quis concluir sua participação no magistral filme “Esse obscuro objeto do desejo” (1977), Luis Buñuel decidiu utilizar duas atrizes, Angela Molina e Carole Bouquet, para o mesmo papel de Conchita, mulher que ama Mathieu, vivido por Fernando Rey, porém que não aceita fazer sexo antes do casamento. Ao fazer a personagem Conchita ser interpretada por duas atrizes simultaneamente, cria uma situação onde o personagem de Rey é obrigado, a cada troca de atriz, a reiniciar sua luta pela paixão de sua vida, adaptando-se as mudanças de traços que cada atriz impôs ao personagem. Dois personagens lancinados pela luta entre seus desejos e seus valores e pelas regras sociais.

A emergência, no Brasil pós golpe de 2016, de uma direita fascista é a expressão da crise da democracia, no mundo, como mecanismo de pactuação social e igualdade. Em grande medida, é a crise dos valores liberais democráticos e humanistas, suplantados e derrotados, no percurso do capitalismo em sua globalização, pela hegemonia neoliberal autoritária. Trata-se de uma concessão infundada a manutenção do termo liberal a esse modelo teórico e político de capitalismo. O único vínculo remanescente entre o neoliberalismo e o liberalismo clássico é a ideia de livre mercado, também um vínculo em vias de superação pela dinâmica concentracionista do capitalismo do século XXI.

No interior desta crise da democracia, ampliada por um golpe de ruptura contra o pacto democrático de 1988, que floresce o desejo das classes dominantes brasileiras pelo fascismo. Essas classes dominantes se viram forçadas por uma hegemonia, ainda que frágil, de ideias democráticas que se seguiu ao fim do regime autoritário brasileiro, a se comportar nos limites da constituição federal. Seu verdadeiro desejo, entretanto, era o de rompimento de uma incipiente democracia que, a despeito da manutenção dos mecanismos que lhe permitiram em momento algum deixar de acumular capital, lhe impunha distribuir alguma propriedade e riqueza para os pobres.

O aprofundamento da crise econômica internacional e a erosão da democracia no mundo se materializaram como uma espécie de “orgia no bunker de Hitler”, onde os desejos obscuros foram libertados e os freios éticos e políticos de uma sociedade democrática foram removidos.

As classe dominantes, os ricos, não sabem ainda exatamente com qual ‘atriz” irão finalmente realizar o amor pleno por Conchita de Buñuel, se a versão democrática ou autoritária. Enquanto esse desfecho não vem, a direita reacionária e fascista vai organizando e, agora mais do que ensaiando, executando uma direção política para as classes dominantes que, fruto da manipulação de informações no país, vem seduzindo os setores médios, historicamente conservadores.

apologia da Senadora Ana Amélia Lemos, do PP do RS à violência, a ideia de eliminação do outro, da submissão física do contrário, feita em reunião de seu partido quando se referia à horda de criminosos que, armados, atacou a caravana do Lula, é a interpretação bufa, trágica, daquele personagem de Buñuel, Mathieu, o qual se esmera em conquistar o amor total de duas personalidades distintas contidas em um mesmo objeto do desejo. Parece que o conservadorismo está se definindo por amar a alternativa fascista e autoritária para o capitalismo brasileiro.

A última vez que esta opção foi feita pelas elites brasileiras, o desenlace da trama foi trágico. Mortes, torturas, desemprego, inflação galopante, crescimento econômico negativo, falências, desindustrialização, desnacionalização da economia e um mergulho profundo em uma dívida externa imensa, foram os resultados da opção dos ricos pelo rompimento da democracia no Brasil.

(*) Sociólogo, mestre e doutorando em Ciência Política.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Gustavo Horta.

Foto: Agência Senado

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