Universidades: “diálogo” e brutalidade

Desocupação da reitoria da USP com bombas e cassetes revela o modus operandi das instituições: criminalizar aqueles que lutam contra o desmonte. E tentar convencer a sociedade de que o “patrimônio” vem antes da defesa do ensino público de qualidade

Por Katya Braghini*, em Outras Palavras

Sobre a ocupação das escolas na capital, em 2015, ativamos um grupo de autores para em 72 horas apresentar uma versão do estava acontecendo nas escolas. Naquele momento, havia uma quantidade de críticas aos estudantes, inclusive, por parte da imprensa, chamando-os de “enganados” ou “vagabundos”. Era “maus estudantes”. Em outra oportunidade, enaltecemos os estudantes, que somada aos movimentos culturais, são produtores de inovações pedagógicas, muitas vezes, invisibilizadas, pelos discursos hegemônicos abraçados às causas das big techs e corporações financeiras aliadas de fundações e institutos que pregam pela “boa educação” à sua maneira. Simplesmente apagam que a comunidade escolar e os seus territórios também inventam “inovações pedagógicas”.

Agora, acompanho as manchetes sobre a entrada da Polícia Militar na Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), sob a alegação de que os estudantes são invasores, agem politicamente (como se não pudessem), qualificando-os como “criminosos”, porque foram tipificados de “invasores de patrimônio público”. Fui ler os comentários dos leitores destas manchetes e não me surpreendi com o abundante baixo nível das palavras, com o eloquente ressentimento para com alunos e alunas da USP, com o vulgar apoio à violência usada pelas forças militares contra os jovens, com os comentários ríspidos que anunciam a triste alma daqueles que gostam de ver estudante apanhando da polícia.

E por que não é surpresa?

Não é de hoje que existe raiva de estudantes que se manifestam politicamente.

O estudante é um “estatuto social”. Não refletimos sobre a ideia social e histórica, da condição inventada e em disputa, do que é ser um “estudante”. O estudante é uma espécie de alegoria histórica, que gostamos de validar. Trata-se de uma invenção da escola: o estudante é uma criação da instituição escolar. Eles coexistem, dizem respeito um ao outro e só são possíveis pelo processo de escolarização. O estudante não existe fora de sua relação com a escola, sendo produto dela e a personificação da instituição escolar, ainda que lute por causas extraescolares. Portanto, o ser estudante tem conexão com projetos de vida e acompanha os prognósticos para a nação. O estatuto estudantil carrega a ideia de sujeito em constante evolução, que está em um projeto de reclusão social para estudar. Ele está resguardado pela escola, que sempre pensa uma melhor formação de quadros sociais e trabalhistas. O estudante carrega consigo uma ideia positivada: ele é o novo, ele é o futuro.

Um estudante ocupa uma posição de dependência do aparato escolar que, vez por outra, é negada de diferentes formas: falta de assistência, falta de cuidado, destruição estrutural, ausência de apoio financeiro, inclusão e permanência, processos sistemáticos de exclusão etc., para que, então, partam deles mesmos as denúncias públicas. Espera-se a deferência do estudante para com a sua instituição escolar. Mas quando há denúncias apontando o adoecimento material e simbólico das instituições, e a realidade do abandono das escolas, usadas como espelho diante da letargia social em relação ao sucateamento da educação pública, que é um patrimônio público também, o que acontece?

A resposta é a violência. “O diálogo é a violência”, já disse um livro da profa. Maria Ribeiro do Valle.

Dois exemplos. Na década de 1960, ser estudante universitário era um “status restrito” (apenas 2% da população jovem estava no ensino superior em 1967). Esta restrição aponta para uma batalha: o significado sobre o ser estudante, que o definia por visões sobre ser “bom” ou “mau”. O conflito entre o “bom” e o “mau” estudante refletia uma expectativa social e da ditadura (sempre ecoada pela imprensa de massa) de que era um “bom estudante” alguém “quieto”, “estudioso”, apegado aos “valores patrióticos”. Em contraponto, o “mau estudante” era aquele mobilizado politicamente, visto como “desordeiro”, “subversivo”, “inimigo interno” e “teleguiado” por comunistas. Isto é, ataques raivosos contra esse agrupamento não são novidade. É uma tradição brasileira.

O mesmo aconteceu durante as ocupações das escolas paulistas em 2015. Foi necessário o uso da força policial para retirar os estudantes da sua própria escola, onde eles, inclusive, estão contratualmente inscritos. E poucas foram as palavras para exaltar as diferentes invenções curriculares, interessantes e lúdicas, que surgiram daquele manifesto; foram poucas as palavras para compreender a formação política dos jovens por um melhor ensino público. Mas ninguém se esqueceu da eloquência dos grupos chamando-os de “preguiçosos”, “baderneiros”, “comunistas”, “petralhas” e toda sorte de maus-tratos, além dos cacetetes.

Esta forma passiva de ver o estudante, um sujeito ideal, formado longe dos males do mundo, alimenta a “sociologia do desvio”, colocando o elemento político como um “ato disfuncional” que precisa ser afastado para não contaminar os demais. É irreal achar que os estudantes não são sujeitos socialmente atuantes. Faz todo sentido que um estudante lute pelo espaço social de sua qualificação: a escola, a universidade. Todo estudante tem direito à ação política dentro da sua instituição de ensino. A ação estudantil de ocupação e uso político do espaço acadêmico é apresentada como uma prática intrínseca à sua condição e é legitimada pela história desde os anos 1950. Os estudantes lutam pelo direito de usar a tribuna, os prédios e o campus para debater a própria estrutura universitária e criticar o governo estadual que só se importa em capitalizar seus ganhos políticos com aqueles que concordam com pancadaria, alheios à ciência, à cultura, à educação.

É horrível ver parte da sociedade reverberando ódio contra a categoria, quase se esquecendo de que um dia também foi (ou é) estudante. Carregou consigo algum tipo de esperança.

A reitoria é o centro administrativo e político da universidade. Ao ocupá-la, os estudantes estão precisamente no coração da instituição que lhes dá razão de ser. Há uma repetição da lógica autoritária de classificar o estudante mobilizado como “inimigo interno”. Não estamos sob a égide da Doutrina de Segurança Nacional para enquadrar o estudante crítico como um “elemento disfuncional” que atenta contra a segurança e deve ser tratado como um “caso de polícia”. A retirada de estudantes pela PM reedita essa lógica. Transforma um conflito político e educacional sobre os rumos da universidade em um caso de perturbação da ordem pública que exige força repressiva, ignorando o conteúdo da reivindicação (novamente, o sucateamento das estruturas estudantis, a má alimentação nos restaurantes universitários, o poder de representatividade), que é legítima e assegurada pela própria USP.

O controle externo não resolve o problema e apenas ativa ainda mais o movimento estudantil. Não se pode dizer que a repressão de 1964-1968 “curou” o movimento estudantil. Ao contrário, a partir dele e de sua atuação surgiram pautas para a reforma universitária que estruturam a rotina do ensino superior atualmente. Ao enviar a polícia para a reitoria, o poder público não é nada autêntico. O gesto autoritário de tutelar os jovens e ignorar a autonomia do debate no espaço acadêmico, como se o problema fosse a presença física ali, e não o conteúdo da reivindicação que a motiva, atesta a ignorância do que significa ser um estudante. É uma fantasia pensar que o “bom estudante”, dócil pela força, é a melhor produção escolar. Os estudantes são um corpo potente de transformações sociais.

Vão dizer: “Não pela quebradeira do patrimônio estrutural da reitoria.” Talvez este ato deva ser ponderado por eles mesmos, enquanto movimento social e representantes da universidade, para que não sejam equiparados aos golpistas de estado em Brasília. Afinal, ao que parece, todo mundo tem zelo pelo patrimônio público.

Mas eu me pergunto: quando a sociedade, a mesma que faz comentários tão “preocupados”, realmente se ocupa com a “manutenção estrutural do patrimônio da educação”? Estes mesmos estudantes estão tendo uma alimentação de péssima qualidade. Clamar por políticas de inclusão e permanência. Nesta semana, o teto da biblioteca da FEUSP desmoronou, destruindo livros e documentos históricos por falta de manutenção. Na rede pública estadual, há escolas que estão sendo transformadas em máquinas de violência, pois são administradas por uma tecnologia imoral (a Super BI). Os conteúdos das plataformas são estereotipados, pobres, mecânicos, anti-humanidades… Porque, afinal, a educação pública do estado de São Paulo está desmoronando, sendo privatizada, terceirizada, vendida, transformada em ativo financeiro de capital tecnológico. E a voz de certa moralidade social vem, em defesa do “patrimônio”, apoiar a ação violenta da polícia militar em vez da luta estudantil, mais uma vez?

Gente hipócrita.

*Katya Braghini é Doutora em Educação, professora e pesquisadora do PEPG em Educação: História, Política, Sociedade (PUC-SP), historiadora da educação.

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