Jurema Werneck: a voz da resistência

Negra, lésbica, nascida no morro, a médica Jurema Werneck luta contra o preconceito desde criança. Dos episódios de bullying na escola aos ataques virulentos nas ruas, fez da exclusão o combustível para defender os direitos humanos. Essa militância a levou a assumir, no ano passado, o cargo mais importante da Anistia Internacional no Brasil. Agora, é uma das principais vozes a cobrar respostas sobre o atentado que matou a vereadora Marielle Franco, sua parceira de luta

Por Adriana Ferreira Silva, na Marie Claire

Jurema Werneck viveu o que considera ser sua primeira experiência marcante com o racismo quando uma professora escolheu um menino branco para ser seu par na festa junina. Zé Carlos não só se recusou a segurar na mão da colega, como, para evitar o contato, escondeu, sorrateiro, um prego entre os dedos, com a intenção de espetá-la. Ambos tinham 6 anos. Depois deste, seguiram-se outros episódios de crueldade. Nascida no Morro dos Cabritos, em Copacabana, ao longo de seus 56 anos, Jurema enfrentou a pobreza, a fome, a morte precoce da mãe e o preconceito contra sua cor, origem e orientação sexual para chegar aonde chegou – e ela foi muito longe. Formada em medicina, com mestrado em engenharia de produção e doutorado em comunicação e cultura, Jurema é hoje a brasileira negra a ocupar o mais importante cargo da Anistia Internacional no país.

Na liderança da organização de direitos humanos, dá continuidade a uma luta que marca sua existência e a levou a criar, em 1992, a ONG Criola: a defesa incondicional das mulheres afrodescendentes. Seus desafios não são poucos, e se tornaram ainda mais urgentes com o atentado contra a vereadora Marielle Franco, assassinada numa emboscada em 14 de março. Companheiras de ativismo, Jurema se lembra de Marielle como uma pessoa “solar”, brilhante, cuja morte repete o padrão de outras que, como elas, são negras e nasceram na favela. Ela recebeu Marie Claire na sede da Anistia, no Rio, em meio ao turbilhão de protestos pelo mundo em torno da morte de Marielle. Vestindo uma calça amarela, tão vibrante quanto seu belo sorriso, ajeitava os dreadlocks, que insistiam em cair sobre os olhos, enquanto falava com pesar, mas determinação, sobre Marielle. Relatou os detalhes de sua atuação na organização, de onde articula ações em favor de quilombolas e indígenas e recomenda novas abordagens sobre as forças de segurança pública, entre outras atividades. Ainda relembrou, saudosa, sua trajetória desde a infância, destacando que, apesar de ter se tornado uma das mais importantes intelectuais do Brasil, aqui continua sendo vista como “a neguinha que alguém quer sempre escorraçar”.

Marie Claire O que representa a morte de Marielle Franco?

Jurema Werneck Uma perda sem tamanho. Ela era uma ativista de destaque, mesmo antes de ser vereadora. Depois de eleita, levou ao pé da letra o sentido de representação: recebeu 46 mil votos mas, como vemos agora, seu projeto atraía muito mais gente. Marielle era negra, lésbica, da favela. Você consegue imaginar o quanto custou para a favela produzir essa mulher? Quanta gente precisou se mobilizar para ela ser o que era? Quanta energia foi interrompida com esse atentado? Foi o morro quem gerou essa mulher brilhante.

MC Como vocês se conheceram?

JW Eu a conheci num debate sobre mulheres negras na Universidade Federal do Rio. Ali, eu a vi argumentando, chamando atenção para a situação das moradoras da favela. Antes de ela tomar posse, nos encontramos na rua e comemoramos. Depois de assumir como vereadora, estava presente na luta, ao criar situações que reuniam negras, jovens, lésbicas, mulheres trans. Era uma pessoa solar.

MC Muitos atacaram a mídia por destacar o fato de ela ser negra. Reação semelhante ocorreu, por exemplo, durante uma campanha de Marie Claire em 2017, quando pedimos a mulheres negras que respondessem a frase “Parece elogio, mas é racismo”, o que as tornou alvo de questionamentos. Quanto o racismo é importante na morte de Marielle?

JW O racismo faz as pessoas aderirem à ideia de que se deve eliminar aqueles considerados de raças inferiores. Dizer: “mataram Marielle, e ela era uma mulher negra” coloca o tema sob outra perspectiva que é: no Brasil, negros morrem assim – e as pessoas não querem ser confrontadas com o fato de que o país é racista. Já o episódio de Marie Claire, enxergo por ângulos não tão pessimistas: vejo uma revista dando espaço a mulheres que, antes, lutavam sozinhas. Além disso, há o fim do silenciamento. Nós sabemos que o racismo é violento, nojento, cruel. Assim como todos os negros que conheço, já fui agredida muitas vezes. Mas ninguém, além da gente, vive isso. Levamos décadas para derrubar esse muro de silêncio chamado democracia racial. A consequência é o que estamos acompanhando: racistas falando explicitamente, desrespeitando leis etc.

MC Em que momento de sua trajetória percebeu o racismo?

JW Nasci no Morro dos Cabritos, em Copacabana, e a diferença sempre esteve presente. Éramos uma família grande, pobre, de religião de matriz africana [umbanda] – e destaco isso porque a religião faz a família ficar maior ainda. Não é coincidência eu ter nascido negra, pobre e favelada. Os negros são pobres e favelados em sua maioria. Minha primeira experiência do racismo é esta: nascer na favela, com meus pais fazendo milagre para termos roupa, casa e comida. Mas minha lembrança mais antiga é a de ter 6 anos e, num dos ensaios para a festa junina, a professora formar os casaizinhos e me colocar para dançar com o Zé Carlos, um colega de turma branco, que se recusou a encostar em mim.

MC Como assim?

JW Ele não queria pegar na minha mão, então segurou um prego entre os dedos para me espetar. Levei um tempo para entender por que ele não podia se aproximar de mim. Eu tinha 6 anos, mas ele também.

MC Quais foram as mais marcantes?

JW Desde pequena, todas as vezes que fui ao trabalho da minha avó, que era doméstica, faxineira, entrava pela porta de serviço, pela garagem dos prédios. Lembro de um dia em que a patroa examinou meus dentes, da mesma forma que faziam com os escravos. Adolescente, entrei numa lanchonete no Rio para tomar um suco e uma pessoa gritou: “Sua negra fedorenta, sai daqui”. Já médica, no início dos anos 90, convidei umas amigas para comer num restaurante de frutos do mar e, na hora de pagar, com meu cheque especial, o rapaz se recusou a receber, dizendo que minha carteira do Conselho Regional de Medicina, usada como identidade, só poderia ser falsa. Hoje, por causa do meu trabalho, viajo muito a outros países e, do aeroporto para fora, é onde encontro menos racismo. Não é que ele não exista, mas é diferente. Aqui, sou só a neguinha que alguém quer escorraçar.

MC Você costuma falar sobre sua bisavó. Quem era ela?

JW Uma mulher especial! Quando nasci, ela tinha 70 anos, mas morreu só aos 101, então convivemos bastante. Ela se chamava Maria Virginia do Amaral, filha de uma ex-escrava, Virginia Maria, africana da região de Angola, Moçambique. Era a caçula de 14 filhos, que nasceram e viveram numa fazenda do interior de Minas até que, em 1901, foram expulsos e vieram para o Rio, aonde chegou aos 14 anos, sem nada. Ela teve duas filhas com meu bisavô, Julio, mas criou um montão de sobrinhos. As histórias que ela contava pra gente dormir eram a respeito da vida boa na fazenda: os batizados das bonecas, sobre como a mãe era ótima dançarina de caxambu. Vez em quando, escapava algo triste, como um episódio em que um operário, que trabalhava numa obra vizinha, se suicidou colocando fogo no próprio corpo e na casa em que minha bisavó morava. Perdeu tudo.

“O racismo no Brasil é violento, nojento, cruel. Levamos décadas para quebrar o muro de silêncio chamado democracia racial”

 MC De quais tradições africanas você se lembra?

JW Principalmente as atividades da umbanda, que aconteciam na minha casa, porque minha mãe era uma líder religiosa – apesar de termos outras crenças na família, como candomblé, cristãos e evangélicos. A forma de servir a comida, dentro da tigela do queijo de cuia, que minha bisavó amassava e comia com as mãos, em bolinhos chamados de “capitão”. As festas onde tocavam caxambu e samba.

MC Que lembranças carrega de seus pais?

JW Minha mãe, Dulcineia, era bonita, inteligente, divertida, e morreu jovem, quando eu tinha 14 anos. Teve um AVC. Meu pai, Nilton, que era alfaiate, mas também trabalhava como porteiro do hospital da Aeronáutica, pediu aos médicos que a atendessem. Eles a examinaram, deram um analgésico e a mandaram de volta para casa. Ela sofreu muito e morreu de manhãzinha, quando eu estava indo para a escola. Anos mais tarde, na faculdade de medicina, quando li sobre os sinais de AVC, fiquei arrasada. Minha mãe sentiu exatamente o que estava escrito ali. Ou seja: aquele médico não lhe deu atenção. Já meu pai, muito bem-humorado, antes de conhecer minha mãe, era um malandro. Teve de provar à minha bisavó que era um homem digno. Ele fazia o que fosse necessário para dar comida para todos. Às vezes, não dava. Nesses momentos, contamos com a solidariedade. Ganhamos comida, roupa. Mas meus pais nunca desistiram.

MC Você descreve situações difíceis com leveza. Era grande o sofrimento?

JW Era o que era. Quando você é criança, não sabe que existe outro tipo de vida. A experiência de estar com fome é ruim. De querer um brinquedo e não ter. Fomos ensinados a não pedir nada a ninguém. Há momentos de dor, mas acho que meus pais sofriam muito mais tentando apaziguar o ambiente para vivermos da melhor forma possível.

MC E mesmo passando por dificuldades, você se tornou médica. O que foi importante para que superasse a pobreza?

JW Meus pais exigiam que a gente estudasse. Tenho déficit de atenção, e é muito comum meninas com esse problema serem silenciosas. Era péssima aluna e detestava a escola. Mas tinha de passar de ano e os adultos faziam uma marcação cerrada. Para completar, tinha os santos e orixás: uma vez, fui a uma festa de umbanda, uma mãe de santo incorporou uma pombagira – para mim, algo assustador –, veio na minha direção e perguntou: “Passou de ano?” [risos].

MC Você foi uma adolescente namoradeira?

JW Fui uma adolescente que perdeu a mãe. Eu era um casulo. Até os 19 anos, não falava. Tinha algumas amigas, mas era quieta, nada sociável. Hoje em dia, olhando a distância, vejo que o sofrimento de perder minha mãe foi muito grande. Na época, não identificava, mas passava mal ao sair, ir à escola, andar sozinha. Era quase uma síndrome do pânico.

MC Buscou ajuda?

JW Na faculdade, comecei a participar de um grupo de ação comunitária de saúde, em Niterói. Em seguida, entrei no movimento estudantil e, com o passar do tempo, assumi funções como falar na frente da sala de aula lotada, conduzir reu­niões, pedir dinheiro para eventos. Assim, fui me soltando.

MC Por que optou pela medicina?

JW Na verdade, não sabia o que queria fazer. Meu pai conseguiu uma vaga num teste vocacional. Fiz e o resultado trouxe dez profissões, entre elas música e artes – que eu adorava, mas eram impossíveis para alguém que precisava ajudar a família. Na véspera da inscrição do vestibular, preenchi os papéis, mas deixei a carreira em branco. Na manhã em que meu pai ia entregar tudo, me disse: “Mas, Jurema, cadê a profissão?”. Não sabia o que fazer, então disse: “Bota medicina”.

MC Como se tornou militante?

JW Para me estimular na escola, meus pais me ofereceram como exemplo duas mulheres, não por sua atuação, mas, sim, por elas terem estudado. Eram Angela Davis e Leci Brandão. Cresci tendo as duas como espelho. Durante a faculdade, além do movimento estudantil, descobri o feminismo. Depois, me juntei às mulheres negras.

MC E a militância lésbica, quando entrou em sua vida?

JW Não entrou. Claro que falei sobre minha condição, mas não participei de grupos de mulheres lésbicas nem do movimento LGBT. Ser lésbica é uma parte do que sou, da militância do movimento de mulheres negras, mas não uma prioridade.

“Para me estimular, meus pais me ofereceram como exemplo Angela Davis e Leci Brandão. Cresci tendo as duas como espelho”

MC Mas você assumiu publicamente ser lésbica?

JW Nunca vivi isso como um segredo, então não assumi nem tive a necessidade de fazer uma revelação. Durante a faculdade, encontrei mulheres negras que namoravam outras abertamente, e era tudo muito natural. Quando usava o cabelo black, curto, todo mundo já me chamava de sapatão [risos].

MC Você é casada?

JW Há muitos anos com a Luciene, que é artista e artesã. Quando nos conhecemos, em Salvador, ela fazia roupas com estamparia africana. Hoje, cria bolsas com imagens de mulheres negras. Na primeira vez que nos vimos, eu namorava, e ela também. Depois, mudou para o Rio e nos encontramos, primeiro numa passeata, mas não lembrei de onde a conhecia – e ela não falou comigo de propósito [risos]. Nos reencontramos na Lapa e estamos juntas desde então.

MC Como foi parar na Anistia Internacional?

JW Ah, eu gosto muito de estar aqui. Foi uma indicação da [jornalista] Flávia Oliveira, conselheira da Anistia no Brasil. Passei por um longo e difícil processo e, por diferentes aspectos desse cargo, por minha história pessoal, acabaram me selecionando.

MC Sua trajetória como ativista tem muitos pontos em comum com a de Marielle Franco…

JW Marielle e eu viemos do mesmo lugar e somos fruto de um projeto coletivo. Temos a mesma história, com diferenças pessoais e familiares. Mas não somos as únicas. Benedita da Silva é o exemplo mais vistoso, mas existem outras. Fazemos parte de uma minoria esmagadora. A favela, as pessoas que vivem ali, nos prepararam para que estivéssemos prontas quando fosse necessário aparecer. Sou resultado da favela e do trabalho das mulheres negras.

Imagem capturada de vídeo

 

Comments (1)

Deixe uma resposta

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.