O que acontece aos sábados na política? Militarização e desmilitarização da vida cotidiana

Ainda que a recente carreata em apoio a Bolsonaro em si não tenha sido expressiva, seu modelo de ação não é desprezível para se compreender um fenômeno de articulação entre manifestações, cidade e política tendo a presença do carro como tecnologia principal de protesto

Por Isabela Oliveira Pereira da Silva*, no blog da Boitempo

“Melhor [Jair] se acostumando!” Essas foram algumas das palavras de ordem proferidas durante a carreata de apoio a Jair Bolsonaro, no sábado, 24 de março, na capital paulista. Ao longo de três horas e meia, em torno de 50 pessoas se concentraram em frente ao metrô Paraíso e depois percorreram pontos importantes da cidade, como a Avenida Paulista, Praça Roosevelt, Câmara Municipal e Praça da Sé, com dispersão no Parque do Ibirapuera. Como uma carreata pressupõe a participação de automóveis, os manifestantes sem carro ou moto presentes na concentração se organizaram em caronas com outros manifestantes motorizados para demonstrar apoio à candidatura de Bolsonaro como presidente em 2018.

Saíram do ponto de encontro em torno de 10 motos, seguidas de 15 carros de passeio. A carreata passou a percorrer a cidade com bandeiras do Brasil, buzinas e camisetas, estas com a imagem de Bolsonaro no estilo de um filme de Francis Coppola. Não sei se intencional ou não, mas as camisetas pretas com os dizeres “Bolsonaro 2018” e o desenho de seu rosto lembravam muito a imagem de Marlon Brando como Dom Corleone no cartaz de O Poderoso Chefão. Na chegada da carreata, contei 15 motos e 23 carros, alguns curiosos e apoiadores se juntaram ao comboio no caminho. Aliás, esse foi o meu caso, na companhia de outros três pesquisadores1, entrei na fila de carros e cheguei a ocupar um dos primeiros lugares na caravana. Era isso ou apenas assistir da calçada a rápida passagem do “buzinaço”. Além da impossibilidade de acompanhar os carros como pedestres, os organizadores do evento haviam anunciado apenas os locais de concentração e dispersão da manifestação, o trajeto não era conhecido. Pela dinâmica de bloqueio das ruas pela Polícia Militar, era impossível acompanhar a carreata de fora da fila de manifestantes. Era dentro da carreata ou nada.

Como antropóloga, tentava me lembrar das soluções possíveis para a realização de pesquisas nestas situações, os únicos exemplos que conseguia recordar eram de pesquisadores tomando parte efetivamente de passeatas, marchas e manifestações ao lado de seus sujeitos de pesquisas. Ao entrar na carreata com minha equipe, duas mulheres e dois homens, sendo que um deles participou do trajeto de forma mais incidental do que calculada, nos tornamos também manifestantes aos olhos de quem observava. E as reações dos observadores não foram amistosas, especialmente em determinados locais da cidade. Logo que entramos no comboio, hippies que vendiam bijuterias e outros objetos artesanais na Paulista, em frente ao Shopping Center 3, conseguiram pegar uma das camisetas do Bolsonaro que estavam sendo expostas pelas janelas dos carros. Como forma de contraprotesto, os hippies decidiram hastear uma bandeira vermelha e queimaram a camiseta na calçada. Não sem antes direcionar xingamentos e gestos para a carreata, punhos em riste e dedos médios levantados foram as reações mais comuns, não só ali, mas durante todo o percurso. A ação foi aplaudida pelas pessoas do entorno e reprovada pela PM, que interviu para que o fogo fosse apagado.

A carreata continuou em diferentes pontos da cidade, as expressões dos observadores oscilaram entre indiferença, apoio, repulsa e perplexidade ao comboio. Como não havia trajeto pré-determinado, o cálculo na nossa decisão de permanecer ou não na fila de carros se baseava na hipótese de potencial violência suscitada pela reação contra a manifestação e eventual resposta dos manifestantes da carreata, a depender do local do percurso. Ou ainda provocações dos manifestantes da carreata contra a população em geral. Neste momento, nos aproximávamos da Praça Roosevelt. Se tornou evidente, ao menos para quem estava na carreata, um discreto apoio de alguns policiais ao longo do caminho. Discreto como piscadelase pequenas manifestações de cumplicidade traduzidas em acanhados gestos com as mãos ou esparsos sorrisos. Nada que fugisse ao protocolo de conduta da PM (Polícia Militar), mas ainda sim gestos determinantes para evidenciar que a hostilidade não viria por parte da polícia. Nossa surpresa foi o apoio da carreata por parte de alguns skatistas da Roosevelt e ainda por “moradores de rua” que aplaudiam, faziam sinal de jóia e dançavam.

O ponto mais crítico do evento com reações contrárias entre manifestantes e passantes ocorreu em frente à Câmara Municipal, onde se encontrava um acampamento de professores da rede municipal de ensino em protesto à reforma da previdência defendida pelo prefeito João Dória. A velocidade do comboio se tornou mais lenta tanto pela dinâmica da via, quanto pelo fato que de, neste momento, a rua passou a comportar duas manifestações. Uma, contrária à gestão municipal e, não menos importante, contra a violência sofrida pelos professores dentro do plenário da Câmara pela GCM (Guarda Civil Metropolitana) e a PM, na última quarta-feira. Os manifestantes motorizados tampouco apoiavam Dória, mas eram contrários ao acampamento. Todos contra o prefeito e uns contra os outros2.

Mas o que isso diz sobre a política, as táticas de protestos e a cidade?

Cidade

Começando pela cidade, foi possível observar no deslocamento uma espécie de mapa de territórios da política (locais que se tornam símbolos de ação política de manifestações e protestos como a Avenida Paulista, a Praça Roosevelt e a Câmara Municipal) carregados de sentidos de afetos, sociabilidades e memórias. As mesmas reações contrárias à carreata, visíveis na Avenida Paulista com alta concentração de pedestres, não foi observada na Avenida Vinte e Três de Maio, quase que exclusivamente tomada por carros e ônibus. Aliás, realizando um exercício analítico, se todos os automóveis, pedestres e passageiros dos ônibus que demonstraram apoio à manifestação entrassem no comboio, teríamos uma carreata formada por bombeiros, ambulâncias, policiais militares, moradores de rua, guardas da polícia metropolitana, famílias passeando com seus filhos e jovens skatistas resultando em um ato com um número muito maior de participantes.

O fato é que as pessoas não entraram na manifestação, seja por estarem seguindo suas vidas, seja pelo ato em si, naquele contexto, representar um constrangimento para seus participantes. Uma cena emblemática foi a saudação longa e sonora que uma ambulância prestou para o comboio, que, por sua vez, teve como resposta o agradecimento de dois manifestantes do carro da linha de frente com gestos com as mãos simbolizando uma metralhadora atirando para o alto. Entretanto, embora a carreata tenha recebido apoio, também foi hostilizada por muitas pessoas nas ruas. Nesta medida, entrar no comboio significava ser também alvo de possíveis agressões, já que os xingamentos e ameaças nas janelas dos carros eram constantes.

Ainda sobre a tática de protestos e manifestações, a escolha da forma da carreata ofereceu a possibilidade de um tipo de ação rápida na duração do ato em si. Descontando a concentração e dispersão, o deslocamento durou pouco mais de 1 hora, e a possibilidade de realizar uma mobilização e convocação com escassos recursos de tempo e de organização. Nos grupos de discussão do evento no Facebook e grupos de WhatsApp, o compartilhamento das caronas criava tanto laços de proximidade entre manifestantes que não se conheciam e que dividiriam o mesmo carro, quanto reforçava a obrigação em participar do ato dentre aqueles confirmados. A ausência de manifestantes motorizados que haviam confirmado o evento representava o risco da não participação do ato por quem dependia da carona. Por outro lado, um carona ausente tiraria o lugar de um potencial participante sem carro.

A carreata, além de um ato rápido, também representa segurança para os apoiadores de Bolsonaro, protegidos de eventuais reações em seus automóveis. Corpos resguardados por máquinas em forma de motocicletas e carros que compensam – pelo barulho e pelo espaço que ocupam nas ruas – a presença de um número pequeno de pessoas na manifestação. Assim, um grupo de 50 pessoas percorreram espaços e lugares estratégicos da capital paulista sem passar desapercebido. A liberdade de percorrer maiores distâncias permitiu ainda que a carreta percorresse lugares de encontro ou aglomeração de afetos e desafetos do grupo, como passar em frente a um quartel do corpo de bombeiros para saudá-los ou passar em frente aos acampados na Câmara para provocá-los.

A carreata em si não foi suficientemente relevante pelo seu número de participantes – basta observar que eventos espontâneos na Avenida Paulista conseguem atrair maior público em questão de minutos. Mas, ainda que a carreata em si não tenha sido expressiva, seu modelo de ação não é desprezível para se compreender um fenômeno de articulação entre manifestações, cidade e política tendo a presença do carro como tecnologia principal de protesto. Trabalhos como de Stephen Graham, geógrafo, especialista em planejamento urbano e sociologia da tecnologia tratam do uso de tecnologias militares como carros, nas grandes metrópoles, especialmente após 11 de setembro. Neste sentido, os carros cada vez mais têm se tornado tecnologias privilegiadas do “novo urbanismo militar” nas maiores cidades do globo. Este modelo inspirado no apartheid da África do Sul se vale da ideia de que os carros seriam “cápsulas” de segurança capazes de proteger e isolar os motoristas contra os perigos da cidade e da violência urbana, através de máquinas e inteligência militar como câmeras, GPS, sinais de internet, blindagens, telefones e, porque não, armas. Este isolamento criaria a percepção nos motoristas de estarem à salvo de populações consideradas indesejáveis, perigosas ou insurgentes, incluindo pessoas periféricas, negras, pobres, “bandidos”, “nóias”3.

Política

Sobre a política, um dos resultados que temos visto em nossas pesquisas desde o acampamento da FIESP, em 2016, é a necessidade de se delinear a distinção entre os coletivos de direita que se definem como “liberais” (neste caso, apoiando João Dória) e os grupos “conservadores” (que, na carreata acusavam o prefeito e o governador Alckmin de serem “os pais da ideologia de gênero”). Com base nos resultados de outras pesquisas,4 aos olhos do campo que chamamos de “progressistas”, o campo da direita parece representar um fenômeno homogêneo. Mas, grupos autodenominados “liberais” e “conservadores” se afastam entre si tanto na doutrina econômica, nos princípios morais e ainda nas táticas de protesto e manifestações. Talvez o único ponto pacífico entre eles é estarem contra os chamados “esquerdistas” ou “comunistas”.

Os conservadores da carreata fizeram um evento também para tentar atrair atenção do próprio Bolsonaro. Sim, eles estão distantes de seu Godfather (ou pelo menos estavam). A carreata tinha também como objetivo o lançamento da candidatura do Major Olímpio como governador, daí eles se posicionarem contra Alckmin. As figuras chave da manifestação foram Bolsonaro e José Olympio, mas não é aleatório a carreata tenha sido marcada para dois dias depois da votação da admissibilidade do julgamento do habeas corpus de Lula pela Suprema Corte, acontecimento que poderia eventualmente resultar em sua prisão. É possível afirmar isso exatamente porque a próxima manifestação decidida no próprio ato deverá ser contra o STF, acusado de favorecer Lula. Sobre o próximo evento, chama atenção a imagem veiculada nas redes sociais pelo grupo com a montagem do símbolo da justiça, Minerva, marcada no peito pela foice e o martelo, representando o comunismo.

Os cenários das pesquisas eleitorais apontam Bolsonaro como o candidato mais expressivo com a ausência de Lula na corrida presidencial. A tônica da pesquisas e coberturas jornalísticas têm se centrado em desvendar tanto o perfil dos eleitores de Bolsonaro quanto suas motivações, sendo que dois indicadores são especialmente relevantes: o apoio entre o número de eleitores jovens e entre os adultos mais escolarizados. Acompanhar a atuação destes grupos nas ruas não fornece maiores contribuições para os perfis e motivações. Estes são eventos circunscritos e com número estatisticamente pouco relevante para qualquer tentativa de generalizações. Entretanto, acompanhar estes eventos fornece pistas menos para se compreender o perfil de quem vota e suas motivações no cenário eleitoral mais amplo, e mais sobre as formas de mobilização e propaganda política, nestes casos, inspiradas em táticas de guerra. Compreender estas táticas e como se comunicam nas ruas e nas redes os apoiadores de Bolsonaro se torna uma tarefa tão importante quanto mapear o perfil destes eleitores. Para além de revelar “quem” e “porque”, é preciso compreender “como”, sendo que estas dimensões são indissociáveis.

É preciso lembrar ainda que, no mesmo dia, enquanto no Brasil esse grupo percorria a cidade em carreata, manifestantes marchavam a pé nos Estados Unidos Unidos pelo “March for our lives” [Marche por nossas vidas] pedindo a proibição da venda de armas nesse país. Nos EUA, a mobilização tem sido uma resposta ao tiroteio em uma escola em Parkland, na Flórida. Já no Brasil, a tragédia que vem mobilizando as posições contrárias à intervenção militar no Rio de Janeiro é a execução da vereadora do PSOL, Marielle Franco, e seu motorista, Anderson Gomes. Em frente ao Monumento às Bandeiras, durante a dispersão do ato no Ibirapuera, o caso da Flórida não foi lembrado, mas o de Marielle sim. Os conservadores chegaram a criticar a intervenção militar, mas apontando como saída para a crise de segurança no Rio de Janeiro o armamento da população. O que se viu em um sábado foram duas reações de militarização e desmilitarização da vida cotidiana.

Notas

1 O NEU (Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual) tem realizado uma série de pesquisas coletivas e individuais sobre protestos e manifestações políticas no espaço urbano. Os trabalhos fazem parte, entre 2016 e 2018, do Projeto Temático intitulado “Cidade e Democracia”. Entre as pesquisas coletivas já realizadas ou em andamento estão etnografias sobre o acampamento da FIESP, manifestações de mulheres e feministas, atos contra o genocídio negro, atos pró e contra Judith Butler no Brasil, pró e contra impeachment, intervenções no Minhocão e Cracolândia, Marchas da Maconha. Mais informações podem ser obtidas no site http://www.neu.city

2 Este texto foi escrito antes do adiamento da reforma da previdência municipal após a pressão dos servidores públicos, movimentos sociais, população e sindicatos.

3 Além dos usos de tecnologias militares por pessoas comuns, civis, é possível ainda observar como as políticas públicas, muitas vezes, se orientam pela adoção de táticas de guerra em espaços urbanos. No caso da cidade de São Paulo, o aumento de velocidade nas marginais e as recentes ações de repressão ao tráfico de drogas na área central conhecida como Cracolândia materializam exemplos do que Graham define como urbanismo militar. Tanto em um caso, quanto em outro, as mortes de civis passam a ser contabilizadas como efeitos colaterais de uma guerra necessária para viabilizar um certo desenho de urbanismo desejado. Ver: Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar (Boitempo, 2016).

4 Ver resultados da pesquisa sobre os protestos contra a filósofa Judith Butler organizados pelo mesmo grupo da carreata de apoio a Bolsonaro.

*Doutora em Antropologia Social (USP), com estágio doutoral na Universidade de Columbia, na cidade de Nova Iorque. Como docente atua na Escola de Sociologia e Política (FESPSP), no Programa Internacional Brazilian Studies (PUC-SP) e como local faculty em programas acadêmicos internacionais de estudos comparativos de cidades no Brasil, Índia, Estados Unidos e África do Sul. É coordenadora do NEU (Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual), onde tem desenvolvido pesquisas sobre protestos e manifestações no espaço urbano. Escreveu este artigo especialmente para o Blog da Boitempo.

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