Ecumenismo e prática da justiça agradam a Deus, por Gilvander Luís Moreira*

Atualmente, diante de tanto fundamentalismo, moralismo, intolerância, ódio despejado no tecido social e preconceitos com relação à multiplicidade de igrejas e à diversidade de religiões, faz bem olharmos para a experiência das primeiras comunidades cristãs, pois elas buscavam colocar em prática um ecumenismo libertador com prática da justiça. Pode parecer anacronismo falar em ecumenismo nas primeiras comunidades cristãs a partir de Atos dos Apóstolos, na Bíblia, mas se justifica, pois não existiu somente uma igreja cristã primitiva, mas muitas igrejas cristãs primitivas se relacionando com pessoas de outras religiões, inclusive.

Após a experiência da ressurreição de Jesus Cristo, na década de 30 do 1º século da era cristã, ao longo de muitas décadas, a partir das casas (oikia, em grego), várias igrejas-comunidades foram se constituindo a partir da igreja-mãe de Jerusalém: igrejas da Samaria, de Cesareia, de Antioquia, de Roma, de Corinto, de Tessalônica, de Filipos, da Galácia, de Éfeso, de Colossas, de Esmirna, de Pérgamo, de Tiatira, de Sardes, de Filadélfia, de Laodiceia, de Roma e muitas outras, nessas cidades e em outras não registradas no Segundo Testamento bíblico, provavelmente. Eram igrejas que buscavam cultivar o respeito ao diferente nas suas relações internas e também na sua relação com outras igrejas que, mesmo sendo cristãs, tinham ensinamento e práticas distintas. Assim sendo, podemos dizer que segundo a obra de Lucas – Evangelho de Lucas (Lc) e Atos dos Apóstolos (At) -, as primeiras comunidades cristãs tinham entre suas prioridades conviver de forma ecumênica.

As primeiras comunidades cristãs buscavam a unidade entre elas com base na diversidade e na pluralidade e regiam-se por um projeto de justiça social, de comunhão, de convivência fraterna, de respeito mútuo, de partilha do pão e oração. No livro de Atos dos Apóstolos há uma valorização da alteridade, do outro injustiçado. É a partir do outro e, especialmente, do outro que é injustiçado, que se analisa a realidade e se atua de forma emancipatória. Uma convicção guiava todos/as: o Espírito Santo está em nós como está no outro (At 10,44-45). Não se estabelecia hierarquias entre as igrejas e nem entre as pessoas religiosas. Buscava-se uma sociabilidade justa e de respeito mútuo, onde a troca de experiências enriquecia a todos/as.

Identificamos nove posturas ecumênicas nas primeiras comunidades-igrejas cristãs. Uma delas é o desapego de doutrinas. Ser ecumênico significa desapegar-se de doutrinas e colocar a vida humana – envolvendo também todos os biomas e os seres vivos – acima de tudo. Isso era buscado pelos primeiros cristãos e cristãs. Segundo Atos dos Apóstolos, o apóstolo Pedro teve a grandeza de se desvencilhar da doutrina/lei da pureza e da impureza. Ele se desinstalou da capital Jerusalém, onde nasceu e se desenvolveu a comunidade-mãe, e partiu para a missão no meio dos injustiçados e discriminados. Conviveu por algum tempo com Simão, seu xará, que era um curtidor de couro, considerado o mais impuro entre os impuros. Convivendo com os considerados impuros e, por isso, rejeitados, Pedro empreende um bonito processo de conversão. Pedro foi ao encontro do oficial militar romano Cornélio, mas teve de justificar sua conduta perante a igreja-mãe, em Jerusalém (At 11,1-18). Pedro arcou com as conseqüências da sua postura aberta e inculturada. Voltando a Jerusalém, “foi encostado na parede” e interrogado. Dois grupos se enfrentaram: de um lado, os apóstolos e irmãos da Judeia, os apegados à circuncisão, censuravam Pedro por ter entrado em casa de incircuncisos e comido com eles (At 11,3). Do outro lado, o próprio Pedro, com a experiência do Pentecostes dos gentios (At 10,44.47) no coração e na mente (At 11,17).

Pedro teve de partilhar sua experiência de Deus vivida no meio dos gentios, ignorados e rejeitados. O autor de Atos dos Apóstolos registra que a conversão do apóstolo Pedro contribuiu para a conversão da Igreja-mãe, a de Jerusalém (At 11,4-18). Por três vezes Pedro ouviu: “Não chame de impuro o que Deus purificou” (At 11,9); e por três vezes esse acontecimento é narrado em Atos dos Apóstolos. Isso mostra a interpretação rigorosa que alguns faziam das leis, e aponta a barreira que devia ser superada. As primeiras comunidades cristãs sofriam no próprio corpo as conseqüências dramáticas da doutrina/lei da pureza e da impureza. “Um povo inteiro” era marginalizado e considerado impuro, principalmente as mulheres, os pobres, os doentes e os estrangeiros. O Espírito de Deus aponta insistentemente em outra direção: para Deus não existe puro e impuro. Para Deus tudo é sagrado, “é bom, muito bom” (Cf. Gênesis 1). O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó ama a todos/as sem discriminação, não rejeita ninguém.

Provavelmente havia na comunidade cristã de Jerusalém um grupo radical e outro moderado. O motivo da reprovação não foi o fato de Pedro batizar estrangeiros (At 10,44-48), mas a entrada de Pedro em casa de uma pessoa pagã, considerada impura, e a refeição comum de ambos. Em sua defesa, Pedro acentua a iniciativa divina, e os de Jerusalém acabam por abrir-se à ação do Espírito no meio dos injustiçados (At 11,18).

O episódio do militar Cornélio ocupa um lugar de destaque em Atos dos Apóstolos: foi uma antecipação da “Assembléia de Jerusalém”, em At 15,1-35, que levou à superação da maior barreira: a circuncisão, e preparou as missões do apóstolo Paulo (At 15,36–19,20). Cornélio representava o Império Romano e o modo como Lucas achava que as pessoas deviam comportar-se em relação ao império. O oficial romano Cornélio não se fechou e nem pôs condições. Pedro falou e ele ouviu atentamente o Evangelho de Jesus Cristo. Para Lucas, não era impossível que funcionários públicos do império romano se convertessem e, assim, pusessem serviços e estruturas do império à disposição da irradiação da Palavra de Deus, o projeto do evangelho de Jesus Cristo: todos vivendo dignamente. Com esse exemplo, o autor de Atos dos Apóstolos espera conquistar para o projeto de Jesus Cristo aliados no meio dos altos funcionários romanos. Enfim, agrada a Deus quem pratica justiça libertadora e vive de forma ecumênica.

Belo Horizonte, MG, 17/4/2018.

Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.

1)    Diversidade Religiosa – Professor Mateus – Ateísmo, na Escola Municipal Machado de Assis, em Contagem/MG, 23/11/2017.

2)    Joaquim Dias – Diversidade Religiosa – Kardecismo, na Escola Municipaç Machado de Assis, em Contagem/MG, 23/11/2017.

3)    Pastor José Barbosa – Igreja Batista – Diversidade Religiosa, na Escola Municipal Machado de Assis, em Contagem/MG, 23/11/2017.

4)    Frei Gilvander: Diversidade Religiosa – Igreja Católica, na Escola Machado de Assis, em Contagem, MG, 23/11/17.

5)    Pai Juvenal de Oxalá – Diversidade Religiosa – Umbanda, na Escola Muncipal Machado de Assis, em Contagem, MG, 23/11/2017.

*Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB, Ocupações Urbanas e Movimentos Populares Urbanos; Professor na pós-graduação de Direitos Humanos e Movimentos Populares no IDH, em Belo Horizonte, MG

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