Nota de repúdio do coletivo Enegrecer: Racismo no Curso de Psicologia da Universidade São Judas

Por Enegrecer – Coletivo Negro USJT

“Desde o surgimento do coletivo Enegrecer na Universidade São Judas em 2016, os integrantes do curso de psicologia traziam em suas conversas as problemáticas acusadas pelas falas racistas produzidas pela docente de antropologia durante as aulas sobre a Cultura Afro-brasileira.

Em 2017 uma aluna do do 1º ano nos procurou com mais um relato a respeito da postura dessa mesma docente. Isso motivou o coletivo a ir buscar um posicionamento da universidade em relação a essa violência psicológica que seus alunos são submetidos. Nosso primeiro contato foi com a assistente da coordenadora do curso, que não soube lidar com a denúncia e expressou sua opinião sobre o ocorrido dizendo que qualquer pessoa poderia se sentir ofendida e que isso fazia parte; ao fim dessa conversa a aluna foi orientada a entregar um relatório para que a coordenadora entrasse em contato posteriormente para uma reunião. Esse documento foi entregue e as falas racistas, misóginas e os argumentos usados por ela parar legitimar o estupro de mulheres negras foram pontuadas da seguinte forma:

“A nossa índia por mais que ela andasse nua, não tinha a malícia da nossa negra, a nossa negra era muito cativante, ela sabia o poder de sedução que ela tinha. Um exemplo de Chica da Silva, ela sabia do seu poder de sedução. E não era essas negras lindas que nem Taís Araújo, não. Reza a lenda que ela era uma negra muito feia, maldosa, mas ela tinha algo que ela seduzia muito as pessoas, não só homens. Homens, mulheres, políticos, enfim… ela tinha esse poder, essa necessidade de dominar. Então esse lado mais solto, mais alegre, mais vulgar… a ginga que o brasileiro tem…”

“A negra era mais desejada porque ela era mais sensual, então ela era mais gostosa, era mais desinibida para fazer as coisas”

“Naquele momento não era pecado, não era feio, não era crime. Eles se sentiam atraídos então eles estupravam, né? Sabe, eles estupravam as índias também. Ela era diferente, ela era… olha, um texto que tem nos livros: a mulher negra era fogosa. Sabe o que é fogosa? Isso atraía, não quer dizer que o português era atraído, que ele ia só pra estuprar essa mulher… ele tinha um desejo por essas mulheres e não queria só estuprá-las”

“Independente da história, a negra era mais estuprada porque ela era mais sensual, porque ela era mais desejada, porque ela exalava mais essa sensualidade. Então, provavelmente ela era mais fogosa, ela era mais atirada, ela era mais… sei lá… desinibida pra fazer as coisas e aí era um atrativo”</span

Alguns dias depois a assistente entrou em contato com a aluna em questão a convocando para uma reunião com a coordenadora do Curso de Psicologia no dia seguinte. O que nos chamou atenção, visto que conseguiram os dados da mesma, sem que fosse informado pela aluna. Os integrantes do coletivo compareceram no dia e horário marcado informando que todos iriam compor a reunião e, quando questionamos a coordenadora sobre o contato individual e não coletivo, a mesma informou que a docente, que é sua amiga pessoal, havia comentado sobre o ocorrido em sala de aula.

A sugestão mais conciliadora dada pela coordenadora, foi a realização de um evento com o tema abordado naquela aula, garantindo o seu apoio na organização, divulgação e disponibilidade das turmas de psicologia comparecerem no dia do evento. O evento “As Origens do Racismo e Seus Danos Psicológicos” foi realizado no sábado 21/10/2017, no entanto, não pudemos contar com a colaboração da coordenação, tampouco a sua presença e da docente em questão.

No dia 08 de maio de 2018, o coletivo recebeu mais uma denúncia a respeito das falas da docente, que abordou o mesmo tema e utilizou dos mesmos exemplos (Chica da Silva, escravidão). A aluna relatou o seu incômodo com os apontamentos da professora que, dentre eles, dizia “se estivéssemos na escravidão eu seria uma sinhá, mas seria uma sinhá boazinha”. Nessa aula, a docente utilizou frases falaciosas a respeito da origem da escravidão protagonizada pelos povos europeus, segundo ela: “na África já havia escravidão, pois negros escravizavam negros. Então, quando os europeus chegaram no continente, os negros vendiam os próprios negros.”

A aluna nos contou que saiu da sala, pois estava se sentindo mal com as falas da docente e dos outros alunos que concordaram, permanecendo metade do período de aula fora. Quando retornou, a docente fazia afirmações preconceituosas sobre as religiões de matriz africana, como “as religiões africanas mexiam com magia, feitiçaria, misticismo.” Tais afirmações não possuem embasamento e contribuem para a disseminação do racismo. Caracterizando o seu poder em desencadear limitações nos estudos sobre as questões étnico-raciais, que com frequência invisibilizam autores negros e o reconhecimento do racismo como desencadeador de sofrimento.

A postura da docente contraria princípios éticos do psicólogo, conforme constatado no código de ética profissional do psicólogo, cuja RESOLUÇÃO CFP N.º 018/2002 trata da atuação quanto às questões raciais:

(..) CONSIDERANDO que o preconceito racial humilha e a humilhação social faz sofrer;
RESOLVE:

Art. 1º – Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com o seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo.
Art. 2º – Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a discriminação ou preconceito de raça ou etnia.
(…)
Art. 5º – Os psicólogos não colaborarão com eventos ou serviços que sejam de natureza discriminatória ou contribuam para o desenvolvimento de culturas institucionais discriminatórias.
Art. 6º – Os psicólogos não se pronunciarão nem participarão de pronunciamentos públicos nos meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito racial.

O coletivo Enegrecer vem a público cobrar uma posição da Universidade São Judas e da coordenação do curso de Psicologia, que esteve ciente do caso e recebeu a denúncia no ano de 2017 quanto a postura da docente. Para que mais nenhum alunx negrx sinta-se excluído nesse espaço por essa docente em questão, para que nenhum alunx negrx seja silenciado em sala de aula. Pela saúde mental de todos pretxs que ingressam na Universidade e que nela permanecem até sua formação, sejam contemplados com aulas que não diminuam a diversidade da Cultura Africana e sua rica contribuição para a cultura brasileira.

Se mais algum alunx possuir um relato, pedimos que entre em contato com a página do coletivo para que não ocorra mais silenciamento e para que nos unamos.”

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