“Nós seremos tudo que a gente precisa”: breve relato da participação Munduruku e Arapium do Baixo Tapajós no ATL 2018

Por Giuliana Henriques para Combate Racismo Ambiental

Os indígenas do Baixo Tapajós seguiram de ônibus saindo de Santarém, rumo à Brasília, com o apoio do  Conselho Indigenista Missionário – CIMI. Uma longa viagem de 4 dias para desembarcar em Brasília e montar pela primeira vez uma barraca, onde dormiriam durante a participação no Acampamento Terra Livre (ATL) 2018. Alguns jovens indígenas nunca tinham saído de Santarém e ansiavam para saber o que os esperava.

Apesar do frio, as trocas realizadas durante todos os dias, seja no observar, ouvir os cantos, comprar e vender artesanatos, compartilhar os usos dos espaços e, principalmente, durante a escuta atenta das falas cheias de dores, raiva e esperança, aqueceram cada um e suas forças foram, assim, renovadas para continuarem a lutar sem descanso.

No segundo dia de ATL, dia 24 de abril, Grupos de Trabalhos (GT) temáticos foram formados para discutir e socializar, por regiões, a luta vivida pelos indígenas ali presentes. Aqui, transcrevo as falas de alguns indígenas do baixo Tapajós, uma tentativa de visibilizar a participação destes e seus sentimentos e reflexões, não só em relação ao ATL, mas sobretudo sobre suas vidas.

Seu Manoel Munduruku da Aldeia Ipaupixuna, cacique,  participou do GT de Demarcação:

No GT de demarcação foi falado praticamente a mesma coisa: reivindicação de território. Dentro da demarcação foi conversado sobre algumas ameaças. Todas as regiões têm indígenas ameaçados por grandes empreendimentos: soja, plantação de milho, madeireiros, cacau, etc. No Território Munduruku do Planalto, além da influência dos políticos, tem influência dos sojeiros porque nossa terra é bastante adequada para o agronegócio. O custo [do transporte da soja] é bem menor porque é próximo do porto da Cargill. Tira da roça e vai direto pra Cargill. As ameaças contra as lideranças é forte, a gente tenta travar o desmatamento, a construção do porto do Lago Maicá… tem muita intimidação, daí que gera ameaça e leva um assassinato de nossas lideranças. O impacto da soja gera muito conflito. Não temos mais caça, fruta, da onde a gente tira o sustento.

Hilton Arapiun, de costas, participando do GT de Demarcação. Foto Giu Henriques

Hilton Arapium, vigilante da T.I. Maró , Aldeia Cachoeira do Maró :

Os povos se juntam e fazem um debate para se dar força e pra forçar a FUNAI. É uma oportunidade das lideranças entregarem documentos e cada povo ter mais força e juntos pressionarem o governo. Aqui é uma oportunidade de cada povo e região da gente ter o direito de falar, de ouvir outro grupo que também demarcaram a sua terra e tem o  mesmo trabalho que nós temos no Maró. Aqui o governo não faz nada, aqui não sabemos o que eles fazem. Eles comandam aqui. Lá [Na T.I.] nós mandamos. Aqui fortalecemos com os parentes e conquistamos pessoas que podem apoiar nosso grupo. A gente tá aqui tentando chamar a atenção do Brasil que nós existimos e só queremos o que é nosso. O problema  dos conflitos do desmatamento, dos grandes projetos é muito prejudicial para nós. A natureza é vida pra gente. Quando percebemos que esses nossos direitos tão sendo negados, o que está na constituição, artigo 231… a teoria é bonita, mas de fato e de direito não é consumado!

Ana Lucia Munduruku, Aldeia Taquara:

O capitalismo está impregnado na vida das pessoas. Os grandes empresários colocam seus interesses acima do respeito. Aqui, no ATL,  foi uma oportunidade para a gente falar de nossos problemas e tentar uma solução. O objetivo é reivindicar demarcação. Aqui temos vez e voz pra falar. Não é problema de um só povo, é de todos! Nós nos unimos em busca de um objetivo para assegurar nosso território para as futuras gerações que estão vindo aí! A política indigenista só vai dar certo quando for feita junto com os indígenas, enquanto vier de cima pra baixo ela não vai dar certo. Vamos continuar nesse impasse entre sociedade e governo. Mas não vamos desistir dessa luta!

Edinei Arapium, educador alimentar da escola da Aldeia Cachoeira do Maró, participou do GT de saúde:

Todas as regiões, os distritos, todos têm dificuldades com a saúde. Isso só vai melhorar se tivermos indígenas lutando pela nossa causa e nós fazermos nossa parte. E, principalmente, em nossos estudos para sermos advogados, médicos, agentes de saúde. Não podemos deixar os brancos tomarem esses lugares que são nossos! Nós somos capazes de assumir esses espaços! Nós seremos tudo que a gente precisa! Se for antropólogo, ajudar na demarcação da terra, se formos juízes, expulsar quem estraga nossa terra. Educação é o que precisamos de verdade,  pela educação temos saúde, território e conseguimos ir nos interligando nas outras áreas. Porque seremos tudo que precisamos.

***

O território dos Borari e Arapium no rio Maró (formador do rio Arapiuns), cidade de Santarém,  Oeste do Pará, ao longo dos anos 2000, passou por sucessivas invasões realizadas por grileiros e madeireiros. Todas as invasões tiveram de certa maneira apoio e legitimidade do governo do estado do Pará.  Além disso, foram facilitadas pela demora do poder executivo federal em reconhecer a Terra Indígena. Em 2007, os indígenas iniciaram a autodemarcação de seu território, enfrentando os madeireiros, que eram contrários ao reconhecimento da terra indígena. A delimitação de seu território provocou uma menor circulação dos madeireiros no local. As denúncias registradas pelos vigilantes e a  ocupação da então, sede da fazenda Curitiba, pressionaram o IBAMA, no ano de 2014, a cancelar vários planos de manejo madeireiro, outorgados pela SEMA/PA. A retomada dessa porção do território, até então controlado pelos invasores, é crucial para os Borari e Arapium. Esse local foi morada de seus ancestrais, local de abundância de caça, de remédios e de madeiras, a região é também a morada da Curupira, a mãe da mata e das caças, e de outros seres encantados da cosmologia Borari e Arapium.

O território Munduruku do Planalto, está localizado à margem direita do rio Tapajós, na confluência com o rio Amazonas e próximo ao Lago Maicá em Santarém. A situação jurídica da Terra Indígena até 2016 era de aguardo da formação do grupo de trabalho para iniciar o processo de demarcação da mesma. A maior ameaça sofrida pelos Munduruku do Planalto Santareno é dos fazendeiros, donos da produção de soja, que além de tomar o território, ainda envenena a terra e ameaçam as lideranças.  A presença da CARGILL, em Santarém, maior arrecadadora de grãos do mundo, é a principal financiadora dos produtores de soja no município, o que é produzido na região volta para ela. Não bastasse isso, os produtores de soja pressionam para construção de um porto que cruza toda a boca do Lago Maicá, o que implicará na alteração da dinâmica das águas do lago. O lago mantém  o sustento de famílias indígenas e quilombolas. Como tem acontecido em toda Amazônia, as comunidades não foram consultadas, mas sim ignoradas no estudo de Impacto Ambiental. Muitas manifestações aconteceram e esta é mais uma luta neste território. (Retirado e modificado de Oceypi Ekãwên (História da Nossa Terra). Comissão Pastoral da Terra – Santarém, 2016.)

A aldeia de Taquara, dos Munduruku do Baixo Tapajós, está localizada à margem direita do rio Tapajós e durante muitos anos teve seu território (juntamente com Marituba e Bragança) sobreposto à Floresta Nacional do Tapajós. A Flona Tapajós foi a primeira reserva florestal na Amazônia efetivamente e o objetivo da mesma, a exploração sustentável de madeira. No período de sua implementação não era permitida a morada de nenhum grupo, assim iniciaram as desapropriações e os Munduruku se articularam para promover a autodemarcação de uma área que ficasse fora da Flona Tapajós. Em 1984, as comunidades reunidas fizeram a autodemarcação, que de início não foi reconhecida pelo IBDF. No final dos anos 1990, com a mudança na legislação – o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), sancionado em 2000, populações passaram a ser permitidas na reserva florestal. No entanto, de lá para cá, acabou o risco de desapropriação, porém, IBAMA e hoje, o ICMBio é que interferem na gestão do território e uso do território e, portanto, no modo de vida tradicional dos Munduruku. (Informações retiradas do artigo Identidades negadas identidades construídas: processos identitários e conflitos territoriais na Amazônia. Edwiges Marta Ioris, 2010.)

Hilton Arapium e Edinei Arapium da Aldeia Cachoeira do Maró no ATL 2018. Foto: Livia Kumaruara

Destaque:  Seu Manoel Munduruku, Ana Lucia Munduruku e Hilton Arapium.Foto Giu Henriques

Comments (1)

  1. Tô muito feliz ao ler os depoimentos do pessoal do baixo Tapajós.em julho do ano passado eu e Shirley KRENAK f0mos com a amiga Mércia na no Ti Mari.la conhecemos a comunidade Botar o e foi um encontro mágico onde conhecemos a luta dos povos do Baixo Tapajós. Pena que foi pouco tempo.Mas este povo ficou em nosso coração e daqui do leste tb denunciados as violências que acontecem com estes povos irmãos.Borari.Arapiuns.Munduruku.nao desistam!

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