Seminário sobre 30 anos do SUS discute violência, mídia e saúde

André Bezerra (Icict/Fiocruz)

Em uma tarde emocionante, o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) realizou seu segundo seminário alusivo aos 30 anos do Sistema Único de Saúde (SUS). Foi um encontro de diferentes visões sobre o tema Violência, mídia e saúde, promovido pelo Centro de Estudos (6/6), no Salão de Leitura da Biblioteca de Manguinhos, no Rio de Janeiro. A atividade contou com a palestra Violência no Rio de Janeiro (ainda): atualização histórica, apropriação cultural e sentimentos políticos, apresentada pela historiadora Gizlene Neder, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.

“O ‘ainda’ do título é porque é absurdo, pateticamente absurdo voltar a falar deste tema, que cada vez que ele volta, está pior”, afirmou a convidada, que pesquisa a violência desde a ditadura militar no Brasil. Em sua apresentação, ela traçou um panorama dos sentimentos políticos desde a formação do Brasil República. Para ela, há em curso na sociedade uma série de sentimentos que legitimam uma “desumanização do outro”, em especial das chamadas minorias sociais.

“A escravidão teve efeitos políticos, ideológicos, psicológicos, do ponto de vista da psicologia social, e culturais sobre essa cidade”, afirmou. Um desses efeitos são os altos índices de encarceramento em massa e mortalidade da população negra e pobre, em especial jovens. Ela lamentou que as condições históricas no Brasil mantenham-se perpetuando desigualdades e destacou o papel da educação e das formações humanistas como elementos de transformação desses sentimentos sociais.

Vulnerabilidades

No campo da saúde, a pesquisadora Patrícia Constantino, do Centro de Estudos sobre Violência Jorge Carelli (Claves/Ensp/Fiocruz), trouxe indicadores importantes que evidenciam a as vulnerabilidades de grande parte da população brasileira. O Atlas da Violência 2017, publicação lançada esse mês pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que nunca se matou tanto no país, que alcançou a taxa de 30,3 mil mortes para cada 100 mil habitantes. “Existe uma desigualdade nessas mortes. Quando observamos por raça e cor, 71% das pessoas são pretas ou pardas e 91% são jovens”, informou a pesquisadora.

Essa questão foi aprofundada pela comunicadora e pesquisadora Renata Souza, cria da Maré e ex-chefe de gabinete da vereadora Marielle Franco, cuja morte foi lembrada mais de uma vez durante o seminário. “Quando a gente fala de violência, a gente fala de falta de acesso, porque as políticas públicas tem um problema que é gravíssimo, que é atacar os efeitos e não prevenir as causas”, ponderou a debatedora.

Na abertura do seminário, o Centro de Estudos relembrou a trajetória de Marielle Franco, ativista de direitos humanos da Maré, socióloga e vereadora eleita com mais de 45 mil votos. Ela seria a relatora da comissão da Câmara Municipal do Rio de Janeiro de acompanhamento da intervenção federal na segurança pública do estado, assunto que também foi debatido. Renata Souza relembrou que em períodos anteriores, as favelas do Rio já haviam passado por diferentes momentos sob presença militar.

Sua tese de doutorado foi sobre o processo de militarização dentro das favelas e como sua percepção se dá de forma diferente pelos membros da comunidade e pelos veículos de comunicação. “A mídia legitima intervenções cotidianamente nesses espaços, que são espaços do medo, da negação”, defendeu Renata. “Discutir e refletir sobre a violência é também organizar os discursos e narrativas colocadas na sociedade a partir dos meios de comunicação”, afirma, defendendo que faltam vozes dos segmentos populares na produção de sentidos.

O seminário está disponível, na íntegra, no canal da VideoSaúde Distribuidora. No segundo semestre, o Centro de Estudos do Icict/Fiocruz dará continuidade à sua programação contemplando outros tópicos relativos aos 30 anos do Sistema Único de Saúde e dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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