Sem desespero nessa hora

Anúncio de Trump que classifica o PCC e CV como terroristas é uma interferência pesada na soberania brasileira. O eleitorado sabe disso. Por isso, esquerda não deve ceder ao pânico, nem enterrar a recuperação de Lula e as batalhas reais no Congresso

Por Ricardo Queiroz Pinheiro, em Outras Palavras

Trump anunciou que vai considerar o Comando Vermelho e o PCC organizações terroristas. O pedido veio de Marco Rubio. O anúncio chegou dias depois de Flávio Bolsonaro ser recebido em Washington com frieza de Protocolo e um certo descaso.

Tem cheiro de jogo jogado, de teatrinho combinado? Terá reflexos na eleição brasileira? Talvez. Mas é bom não esquecer que o próprio Trump tem uma eleição esse ano que não está fácil pra ele.

Em primeiro lugar: é uma interferência pesada na soberania brasileira. Isso precisa ser dito com clareza, e a resposta do governo brasileiro precisa estar à altura. Classificar o crime organizado é uma atribuição do Estado brasileiro, não uma concessão que Washington tem autoridade para fazer. Quando o governo americano decide nomear organizações criminosas de outro país soberano, está exercendo uma prerrogativa que não é sua, e o nome disso, qualquer que seja a embalagem diplomática, é interferência.

E o eleitorado brasileiro sabe disso. A intervenção estrangeira nos assuntos internos do país historicamente produz rejeição, não adesão. Para a plateia da extrema direita, pode funcionar. No geral, Trump não está fazendo um favor ao bolsonarismo. Está provavelmente complicando a vida de quem foi até Washington e voltou de mãos vazias.

O reflexo que temo, ainda assim, é o da esquerda convertendo esse movimento em catástrofe, enterrando a recuperação de Lula nas pesquisas e apagando a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara debaixo de alarmismo e lamúrias nas redes que não ajudam em nada. É uma história que se repete.

Flávio Bolsonaro continua sendo o mesmo pulha, político com processos sérios, que Washington recebeu com distância. Um anúncio de Trump e Rubio não apaga esse dado.

Que a poeira baixe. O Brasil tem institucionalidade, tem diplomacia, tem política interna com lógica própria. E o nosso campo tem uma vitória, parcial, mas concreta na Câmara para defender.

Por favor, não ouçam os cavaleiros do Apocalipse de plantão. Essa notícia tem que gerar indignação, não medo.

Ergam a cabeça.

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