A carta de Pablo Iglesias e Irene Montero: um manifesto político que é uma lição de vida e que vale ler, nestes tempos insuportáveis

Tania Pacheco

No dia em que seus filhos Leo e Manuel (nascidos com apenas seis meses de gestação, em 3 de julho) completaram dois meses, Pablo Iglesias e Irene Montero lançaram um Comunicado no qual não se limitam a agradecer os cuidados das equipes médicas e de enfermagem e o afeto de seus companheiros do Podemos. Reconhecem, igualmente, os apoios recebidos de adversários políticos, incluindo os reis de Espanha, e de religiosos que por eles oravam, o que os fez escrever: “Ensinaremos a nossos filhos que sejam sempre respeitosos para com aqueles que pensam de maneira diferente, porque a humanidade, a decência e a amizade não são patrimônio exclusivo de nenhuma causa”.

E afirmam ainda: “Nossos filhos têm hoje dois meses porque nasceram em um país que tem algo muito mais importante do que qualquer hino ou bandeira: um sistema de saúde universal. Nós lhe diremos que nada merece mais lealdade do que isso. Suas vidas e sua saúde não são apenas o resultado de avanços médicos e científicos, mas também de uma sociedade que garante o melhor atendimento para qualquer pessoa, independentemente de sua posição social. Muito poucas crianças receberiam o que precisam e merecem se a saúde estivesse sujeita às leis do mercado. Explicaremos a nossos filhos por que sempre seremos fiéis ao que lhes permitiu viver: o comum.”

Nestes tempo de ódio e irracionalidade, Pablo e Irene nos oferecem um belo e coerente documento, que sem dúvida merece ser lido para penetrar nossa emoção e nos convidar a refletir sobre o mundo que desejamos e para o Brasil que estamos buscando reconstruir.

Segue na íntegra:

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COMUNICADO DE PABLO IGLESIAS E IRENE MONTERO

Àqueles que nos acompanharam

Dois meses se passaram desde que nossos filhos nasceram prematuramente. Desde o dia 3 de julho, quando eles chegaram de surpresa, repetimos a mesma palavra de novo e de novo: vamos. Era necessário primeiro seguir adiante e depois seguir superando as etapas de recuperação. Todos os dias olhávamos para eles e repetíamos: vamos, filhos, vamos.

Dizem que a amnésia da infância nos faz esquecer tudo o que experimentamos em nossos primeiros anos. Ficamos felizes que Leo e Manuel nunca se lembrem dos tubos ou eletrodos que os acompanhavam na unidade de terapia intensiva, que esquecem os sons dos monitores que mediam sua frequência cardíaca e respiração. Gostamos de pensar que um dia eles vão olhar com espanto para as fotos que tiramos deles quando eram tão pequenos. Mas há coisas que lhes contaremos e das quais não queremos jamais esquecer.

Antes que eles pudessem se alimentar apenas do leite de Irene, foi o leite de outras mães que os ajudou a viver. E quando foi suficiente, o de Irene foi também doado para outras crianças. A saúde pública fez de nossos filhos irmãos e irmãs de leite de muitas crianças como eles.

Tudo foi possível graças a uma equipe de profissionais de saúde pública, bem como ao amor e apoio de muita gente. Muitos bebês prematuros como eles, em outras partes do mundo, não têm a mesma sorte. Nossos filhos têm hoje dois meses porque nasceram em um país que tem algo muito mais importante do que qualquer hino ou bandeira: um sistema de saúde universal. Nós lhe diremos que nada merece mais lealdade do que isso. Suas vidas e sua saúde não são apenas o resultado de avanços médicos e científicos, mas também de uma sociedade que garante o melhor atendimento para qualquer pessoa, independentemente de sua posição social. Muito poucas crianças receberiam o que precisam e merecem se a saúde estivesse sujeita às leis do mercado. Explicaremos a nossos filhos por que sempre seremos fiéis ao que lhes permitiu viver: o comum.

Tivemos a sorte, como todos os pais e mães de crianças prematuras do Hospital Gregorio Marañón, que o Dr. Manuel Sánchez Luna era seu anjo da guarda. Muitos sabem que Manuel é uma eminência mundial no cuidado de pulmões prematuros, mas apenas as mães e os pais de seus filhos sabem que, acima de tudo, ele é um homem amoroso e bom. A esse homem e sua equipe queremos agradecer.

Sempre recordaremos a Dra. Elena Zamora, que, por trás de seus óculos redondos, esconde um olhar irônico, sóbrio e doce. A Dra. Ana Rodríguez, que nos presenteou mil e uma vezes com sua voz e sua alegria, além do mais preciso cuidado. A Dra. Concha Hernández, que nos acompanhou desde a primeira noite, discreta e cuidadosa, sempre com palavras e decisões que abraçam. O Dr. Santiago Lizárraga, com sua carinhosa firmeza, sempre atento. Para a Dra. Virginia Uzal, tranquila e discreta, que ainda aparece de surpresa para perguntar “como vai”. Nós, como todas as mães e pais de crianças prematuras deste hospital, passamos pelas mãos de muitos outros médicos (a maioria mulheres) do Hospital Gregorio Marañón, sem os quais nada teria sido possível. Somos eternamente gratos.

Também tivemos a sorte de usufruir dos cuidados de profissionais de enfermagem que, desde que chegamos ao hospital, não nos deixaram sozinhos por um segundo. As mãos de Sagrario, Cristina, de Ohiane (que lhes falava em basco), Julian, Neus, Alexander, Paula, Carmen, Marisa e muitos outros que, além de cuidar e alimentar nossos filhos, também os mimaram. Apenas as mães e pais de crianças que, como nós, passaram por uma unidade de terapia intensiva, sabem o que significam os afagos e carinhos  que recebem os bebês prematuros. Com essas mães e com esses pais teremos sempre um vínculo muito especial. Dizem dos prematuros que são guerreiros, mas as trincheiras de que nunca se lembrarão deixaram suas mães e pais para sempre marcados, e sempre seremos companheiros.

Estivemos com nossos filhos todos os dias, mas conosco estavam nossas famílias e nossos amigos e companheiros, que não pararam de cuidar de nós em nenhum momento. Sem os abraços de nossa tribo, tudo teria sido muito mais difícil.

Não paramos de receber o carinho de muitos militantes do nosso espaço político que encontravam alguns minutos para nos encorajar, perguntar como estávamos e nos encher de abraços. Um projeto político se constrói sobretudo com grandes doses de amor. A todos e a todas, obrigado.

Também não nos esqueceremos de que algumas das palavras mais belas, alguns dos mais sinceros abraços, alguns dos conselhos mais proveitosos vieram de nossos adversários políticos. Somos republicanos, mas lembraremos que um rei e uma rainha telefonaram para perguntar sobre nossos filhos e que todos os nossos rivais políticos perguntavam com frequência como eles estavam. Somos ateus, mas explicaremos aos nossos filhos que nossos amigos religiosos oraram por eles. Sabemos que a Virgen del Tránsito, Santa Rosa de Viterbo e Santa Maria Liberatrice foram envocados (e nunca se sabe…). Há poucos gestos de amor e amizade mais belos. Ensinaremos a nossos filhos que sejam sempre respeitosos para com aqueles que pensam de maneira diferente, porque a humanidade, a decência e a amizade não são patrimônio exclusivo de nenhuma causa.

O nó na nossa garganta nos levou a escrever para agradecer a quem nos ajudou a chegar até aqui.

Esta nota é uma forma de encerrar uma etapa cuidando da cicatriz que ela deixa para jamais a esquecer, porque essa cicatriz está cheia de amor pelos nossos filhos. Vamos!

Irene e Pablo, 3 de setembro de 2018.

Tradução: Tania Pacheco.

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