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Nota de repúdio das comunidades quilombolas de Santarém das declarações feitas por Edward Luz e Adriano Maraschin

A Federação das Organizações Quilombolas de Santarém, representante das 12 comunidades quilombolas do município: Associação de Remanescentes do Quilombo do Tiningu – ARQTININGU; Associação de Remanescentes de Quilombo do Bom Jardim – ARQBONJA; Associação de Remanescente de Quilombo do Saracura ACREQSARA; Associação de Remanescente de Quilombo do Arapemã; Associação de Remanescente de Quilombo do Surubiu-Açu – ARQSURUBIU; Associação De Remanescente de Quilombo de Maria Valentina ( quilombos Nova Vista do Ituqui, São José do Ituqui, São Raimundo do Ituqui) – ARQVALETINA; Associação de Remanescente de Quilombo de Patos do Ituqui; Associação de Remanescentes de Quilombo de Murumuru –ARQMU; Associação de Remanescente de Quilombo de Murumurutuba; Associação de Remanescentes de Quilombo do Maicá; vem expressar sua profunda indignação com as declarações do antropólogo Edward Luz e de Adriano Maraschin, presidente do Sirsan, que foram publicadas na internet. Essas pessoas não nos conhecem, nunca visitaram nossos territórios e querem dizer que nós não existimos. Essas pessoas querem defender seus direitos mas deixar o povo sem acesso à terra. Nossos quilombos existem, temos processos administrativos no Incra e cumprimos com tudo que a lei determina para a titulação de nossos territórios.

Há séculos existem quilombos no município de Santarém, nós somos remanescentes dessas comunidades e vivemos nelas pelo menos desde o século XIX. Quem chegou depois nas nossas áreas foram fazendeiros e empresários que não vivem nos territórios, exploram a natureza e promovem a destruição de nossas matas. Temos vários problemas com desmatamento, destruição de igapós, plantio extensivo de soja, poluição por agrotóxicos, criação indevida do gado e de búfalo em área de várzea. Nossos quilombos foram atingidos por fogos, destruição de castanheiras e matas nativas e isso nós nunca aceitamos pois praticamos a agricultura tradicional e preservamos a natureza e nosso território. Quilombolas, indígenas e os povos tradicionais são os verdadeiros grupos que preservam a natureza.

Temos nossas festas e festivais tradicionais, praticamos a pesca, agricultura, extrativismo, vivemos em comunidade e cultivamos nossos saberes ancestrais, que vem desde os nossos antepassados. A afirmação de que nós não existimos e que todo nosso processo de autoreconhecimento seria uma “fraude étnica” é racismo e discriminação. Primeiro por que atinge nosso direito de autodeclaração, previsto na própria Convenção 169 da OIT. Quem são vocês para dizerem quem nós somos? Chegam em nosso espaço, nos oprimem, tirando nosso direito de viver em paz e ainda querem dizer que somos uma “fraude”.

Segundo porque esse país tem uma dívida histórica com o povo negro, com os quilombolas e com os povos indígenas. A titulação e demarcação dos nossos territórios, com a garantia de uma vida digna para nossa população é o mínimo que esse país nos deve, por tantos anos de exploração e discriminação.

Por isso, repudiamos essas declarações e manifestamos nossa indignação com mais esse ato de racismo e discriminação. Seguimos firmes na luta por nossos direitos territoriais e não vamos dar nenhum passo para trás.

Santarém, 19 de outubro de 2018.

Federação das Organizações Quilombolas de Santarém,

Associação de Remanescentes do Quilombo do Tiningu – ARQTININGU;

Associação de Remanescentes de Quilombo do Bom Jardim – ARQBONJA;

Associação de Remanescente de Quilombo do Saracura ACREQSARA;

Associação de Remanescente de Quilombo do Arapemã;

Associação de Remanescente de Quilombo do Surubiu-Açu – ARQSURUBIU;

Associação De Remanescente de Quilombo de Maria Valentina ( quilombos Nova Vista do Ituqui, São José do Ituqui, São Raimundo do Ituqui) – ARQVALETINA;

Associação de Remanescente de Quilombo de Patos do Ituqui;

Associação de Remanescentes de Quilombo de Murumuru –ARQMU;

Associação de Remanescente de Quilombo de Murumurutuba;

Associação de Remanescentes de Quilombo do Maicá.

Foto de João Zinclar

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Florencio Almeida Vaz Filho.

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